Chapter 2
--Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.
--Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?
--Está dito.
O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de orvalho, que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina transparencia.
O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os passaritos, esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a alvorada.
Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão--era o sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.
O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:
--Agora vamos á nossa lida.
Emquanto saltei, respondi:
--Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras lavradas.
--Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pôr as vaccas á charrua!
--Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que, lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não podia ter ficado a dormir?
--Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que lhe faça?
* * * * *
Quando me retirei--já o sol ia alto--o tio Luiz lá andava a revolver a terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo esforço.
Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se multiplicou em dezenas d'elles.
Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados alguns dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.
Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e caricias verdadeiramente filiaes.
Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na sua fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...--A esperança de quê?
Nem elle o sabe, o lavrador.
Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições, idolatrando os torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte, colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras de que seus filhos depois colherão os fructos.
E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de espirito, no dôce convivio da familia reunida em volta da lareira nas noites amenas do outomno.
Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias, a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo onde reina a paz e o amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do Nazareno na noite da ultima ceia.
Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa a dobrar ás almas, segundo o tradicional costume da aldeia, repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos além, penetrando os limites da freguezia visinha, até se perder na solidão da noite...
III
O tio José da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.
Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu peito rijo existia um coração sempre jovial e bondoso, cuja ternura se derramava em obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma candida que logo se manifestava na ternura do olhar com que a todos envolvia.
Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho, mocetão de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e bondoso, a flôr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma rapariga de dezoito annos--o terceiro filho do casamento do tio Alameda com a sr.ª Maria das Dôres--chamada Helena, possuidora de uns olhos que--não é por eu gostar de olhos escuros em rosto moreno--lhe diziam tão bem, naquelle seu troso trigueiro e encantador, que não havia rapaz nenhum na aldeia que não desejasse andar toda a vida perdido na escuridão d'aquelles olhos. E quando ria, deixava vêr, por detraz de dois labios nacarados que deviam ser dôces como favos de mel, duas filas de dentes brancos como a neve pura.
A familia do tio Alameda, além d'elle e dos dois filhos, compunha-se de um creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que para alli tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma pupilla que, orphã de pae e de mãe, encontrara nos braços do tio Alameda os carinhos paternaes que tão cedo lhe faltaram.
Chamava-se Julia. Tendo ficado sem mãe aos cinco annos, a infelicidade vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.
Foi então que a misericordia do tio Alameda se patenteou devéras; porque o moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia não podia ficar só no mundo, mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa voz apagada e apertando nas suas mãos febris as do bondoso velho:
--Tio José... esse anjo, que ahi está a chorar... vae ficar sem ninguem no mundo...
--Descança, João; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descança, que a tua Julia fica na minha companhia.
O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mão que segurava na sua que caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas faces mortalmente pallidas.
Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.
--Olha o que te digo, pequena--dizia-lhe elle carinhosamente uns dias depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu não has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as saudades dos paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso vêr ninguem a chorar.
E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.
--Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o mundo. Mas depois que comecei a tomar conhecimento d'este mundo todo de enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as vezes que tinha motivo para isso, então não fazia outra vida.
A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.
--Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a ceia, e espairecer.
E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.
--Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo que vá vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas chalaças, para distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.
Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos annos?
Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que contava cerca de cem annos quando morreu?
Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma côdea e uma tigella de caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca de reduzir a achas o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia austera e encarquilhada debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou tres barretes sobrepostos e enterrados na cabeça.
Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um «tolo com juizo». Sim; porque trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o braço, embora vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de uma boa acção. E que melhor acção pode haver que o trabalho?
O Belbuth não era, pois, um tolo na verdadeira significação da palavra. Não fazia diabruras. Não se ria frequentemente e sem motivo, como succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica em equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei algumas. E elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de conservação, pegava tambem numa pedra ou num pau, e atirava-o, com phrenesi, pela estrada adeante, não reparando nos estragos que podia causar se viesse algum incauto. Era o unico indicio vago de loucura que lhe conheci.
Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes dão _sorte_ têm para pêras. Era o que se dava com o Belbuth.
Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a estima de toda a gente, em vista da sua edade avançada, e era, além d'isso, uma testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes tomou parte.
Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer pensões. Dando frequentemente um ordenado supérfluo a um glutão, que passa a vida regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes--e ás vezes nem isso!--, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem escarnecidos--sómente porque eram pobres--homens que, outrora, no vigor da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes corria nas veias.
O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por habitação o ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes, entre dois lençoes de neve.
Limitando o campo da sua vida de vagabundo á área d'esta aldeia, o Belbuth era um typo popular de genio differente do de Luiz de Paus--um outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao acaso por esse mundo como um cometa errando no espaço, apparecendo de tempos a tempos no logar de Paus, d'onde era natural.
Sobre este contam-se vários episodios, alguns com bastante originalidade, revelando o mau instincto do seu agente.
Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria crise o combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de cavallaria 10 em Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe matavam a fome com uma parcella que cada um tirava á sua lata de rancho.
Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O Luiz de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada--pois a sentinella estava a dormir--pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre soldado do responder a um conselho de guerra.
Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no quartel.
Uma outra occasião, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia qualquer, alvoroçando o povo todo......................................... .......................................................................... ..........................................................................
--Olha lá, ó Belbuth! Tu namoraste alguma vez?
--Se eu namorei alguma vez? O quê?
--O quê! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?
--Nada! Tive sempre mêdo desses demonios!
--Porquê? Fizeram-te algum mal?
--A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança. Depois que vi o que succedeu a alguns companheiros meus por causa de taes mafarricos, nunca as pude vêr. Quer saber, tio José, o que succedeu um dia a um camarada meu por causa d'uma rapariga?
--Conta lá.
--Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer; quando veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses, acolá para uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo ordem para ser procurado antes do regimento partir, por esses campos e montes. Partiram umas poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz parte d'uma.
«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para os lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um homem assim, assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras nos apontou um pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar, poz-se de joelhos deante de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!
«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a tal desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.
--«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.
--«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e abandonou-me.
«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos não fugiria.
«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos fugiu; mas, quando passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não tornamos a apanhar senão morto.
«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos castigados.
«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá olhar com bons olhos uma mulher?
--Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.
--Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de mulheres, perde-se quasi sempre!.......................................... ..........................................................................
IV
Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo santo, domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado pela encosta de Travassô--uma encosta de aspecto taciturno, que olha com melancholia toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se estende, beijada desde a manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre Alquerubim.
D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte da Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa páteira de Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre o extenso planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe, desenhando-se nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do Caramulo, com punhados de casinhas brancas a luzir no pardacento do sopé.
Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente revestido de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um bando de pombas.
O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos beijos, raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João, disposta em circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por sobre montes e valles, a uma grande distancia.
Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma viola a tiracolo, encostado a um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo de moças.
Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.
Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao seu bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita pelas cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra caravêlha para afinar o instrumento, começar a dedilhar um acompanhamento de fado. Punha-se a cantar e, entretanto, já cercado de curiosos, não tardava que uma voz feminina lhe respondesse de entre o circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para dar passagem á atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento bater-se com o João do tio Alameda.
A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida: era uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e expansiva. Era a Maria Luiza.
Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella; e com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a envolvia, tão differente do que lançava ás outras, via-se claramente--porque o amôr não pode estar em segredo--que ella não lhe era indifferente.
--Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do arraial.
Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas uma por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.
Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam--homens e mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do «rei dos cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival... Porque ella lá estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma papoila, em frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:
--Se tu soubesses, menina, Quantas 'strellas ha no ceu, Saberias quantos suspiros Dá por ti o peito meu.
A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a ser ouvido pelo grupo todo.
A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe sorridente:
--Que importa o que diz um louco, Se falla sem sentimento? Cartas d'amor são papeis, Palavras leva-as o vento.
--Bravo! exclamaram do grupo.
--Sim, senhor!
--Responde-lhe agora, ó João!
--Essa chegou p'ra ti! Hein?
Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.
--P'ra que vaes, pois, ao sermão, Ouvir o padre prégar! Palavras leva-as o vento, Acabaste de o affirmar.
--Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o maganão!
Mas ella não se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:
--Palavras santas, eu ouço-as Com amôr e devoção; As que Satanaz profere Não me entram na coração.
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Quando terminou o debate, já o luar inundava o cabeço de Santo Estevam.
O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.
O João da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto é, Maria Luiza alcançou mais uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo, exultava com estas derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto á sua reputação de eximio cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.
Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expansão do ardôr da mocidade, o cabeço lá ficou, na solidão da noite, triste, com as bandeiras esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado pelo frouxo luar que parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle ditoso dia que só se repetiria d'ahi a um anno...
V
Na vasta eira do tio José da Alameda haviam-se despejado quatro enormes carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar, dos fins de setembro.
O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no logar.
Eram oito horas, e já uma boa duzia de alegres moças estavam a contas com o monte, numa satisfação propria da mocidade em occasiões de folguedo.
Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das raparigas.
Não é uso convidal-os. «Elles cá virão ter» é a phrase consagrada. Effectivamente, elles, de ouvido á escuta, collocam-se nas encruzilhadas. Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das vozes nas desfolhadas, ahi vão como o cão de caça farejando o rasto do coelho até lhe dar com a cama.
--Eia! vamos lá a isto! gritava o João da Alameda, alapardando-se entre a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto é dar-lhe! Isto é dar-lhe! Em uma ou duas horas está tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje até ao sol fóra!
--Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse momento encafuado num gabão.
--Viva! gritaram todos.
--Obrigado! obrigado! dizia com bondade o João. Mas olha lá, ó tu do gabão! Nós aqui não queremos caras encobertas. Tira o capuz da cabeça e senta-te p'rahi como os outros. Já todos sabem que aqui, ás nossas desfolhadas, só se vem de cara descoberta.
--E se eu não quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarçado.
--Se não quizeres, replicou o João meio azedo, vaes já pelo caminho por onde vieste.
Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:
--Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vêr isso!
O João da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela jaqueta.
Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no dispostos a expulsar o insolente para evitar algum dissabôr maior.
O João dirigiu-se ao atrevido e este, na occasião em que elle estava a dois passos, atirou o gabão ao chão, dizendo risonho:
--Olá, patrão?
O João da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma visão lhe houvesse de repente apparecido.
Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.
--Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.
--Olha o espertalhão do rapaz!
O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a sua brincadeira que fez «ir á serra» o filho de seu amo.
O alarido restabelecera-se, e o João, fuzilado pelas chufas das raparigas, continuou alegremente a sua tarefa.
O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local, elevava-se já a algumas dezenas.
O montão de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de mãos, desapparecia a olhos vistos.
--Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trémula.
Era o tio José que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla, trazendo numa das mãos uma tripeça.
--Viva, sr. José!
--Então tambem vem tomar parte na desfolhada ao pé da gente nova, hein?
--Com'assim!... É para me recordar dos meus tempos passados.
Entretanto ia-se ageitando na tripeça, entre Helena e Julia que ficara junto a Paulo, e proseguiu, puxando por um pé de milho:
--Porque um homem, quando chega á minha edade, que outra coisa póde fazer, para se não entristecer e não pensar na morte que se approxima, do que alimentar o seu espirito com recordações dos tempos passados, fingindo-se ainda nesses tempos que foram e não voltam?... E será este o ultimo, quem sabe?...--ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.
--Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente, Helena. Não se quer cá tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha alli ao pae com uma cantiga das tuas, ó João!
Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio José, sorrindo bondosamente, submeteu-se.
--Sim, sim! Uma cantiga! diziam.
--Muitas cantigas, muitas, ó João!
--Haja animação! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com uma das tuas!
O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignação, preparou-se para cantar.
Todos se calaram. Só se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar simultaneo das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a cair nos cestos de vime.
O João pegou num pé de milho, deitou um olhar de soslaio á Maria Luiza, e cantou na sua voz sonora:
--De tantas estrellas que ha Por'hi além nesses ceus, Eu não encontro nenhuma Comparada aos olhos teus.
E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaía uma esganiçada em falsete, repetiram em côro, que se repercutia de valle era valle, os dois ultimos versos da quadra:
Eu não encontro nenhuma Comparada aos olhos teus.
Elle continuou:
--Ás ondas dos teus cabellos Gostava de me atirar; Teus olhos, faróes de esp'rança, Haviam de me salvar.
E o côro repetiu:
Teus olhos, faroes de esp'rança, Haviam de me salvar.
--Isto é com a Maria Luiza, cochichou uma á sua visinha da direita.
--É, é! Se fosse de dia, havias de vêr a cara de malaguêta com que ella deve estar.
--E do que morrer amando Se não ha nada mais bello, Queria amando morrer Nas ondas do teu cabello. Queria amando morrer Nas ondas do teu cabello.
--Amei um dia uma estrella Que vi lá no ceu brilhar: --Serei tua, me disse ella, Mas has-de vir-me abraçar. Serei tua, me disse ella, Mas has-de vir-me abraçar.
--Dia de Natal hei-de ir Ao menino perguntar Qual será a rapariga Com quem eu hei-de casar. Qual será a rapariga Com quem eu hei-de casar.
--E se não me responder, Pedirei a S. Joaquim Me dê a Maria Luiza Tão babadinha por mim.