Scenas Contemporaneas

Chapter 9

Chapter 93,832 wordsPublic domain

Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubára cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que devia matal-a! Tive então dó d'aquella flôr, que se desfolhava na madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma protecção que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado.

Eu valia menos que Pedro de Mesquita.

Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre; conquistara-se uma opinião de heroe; batera-se ardidamente como um leão nas ultimas batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos triumphos difficeis do amor.

E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha a despresar-me, devia ser tudo isso.

Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os odios, e as intrigas, que a sua formosura causára entre pretendentes, que não queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.

Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria e filho segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não tenho necessidade de mencionar-lhe.

Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque Pedro de Mesquita não tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer.

Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro devia ser-lhe. E era.

Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á porfia um ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario.

O momento ambicionado chegou.

Era quinta feira santa.

Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. Francisco.

Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha. Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; não a deixaram as multidões espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era muito despreso para a altivez do seu caracter.

Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas turbas. Dous homens apenas, como duas estatuas, se fixavam sós, e immoveis, na nave da igreja.

Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e rapidas palavras, e desembainharam os fains.

Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o desejo de matar, ou morrer.

Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era indubitavel, e perigosa.

Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.

A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.

III.

Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um braço, afastou-lhe os botes, com admiravel presença de espirito.

O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal, redobrava de escandalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento, quando dous homens se cortavam a ferro frio.

As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não houve desgraçadamente authoridade militar que capturasse os duelistas.

Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos da cirurgia não estancára, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes de cavallaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica, affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de «morra!» Os que assim gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatára, em quinta feira santa, a solemnidade da paixão de Christo. Como elles saciavam a sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em Roma, como em Constantinopla.

Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava á janella quando viu entrar seu irmão nos braços de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o acontecimento.

Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes, sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo d'este capote, levava um bacamarte.

Quando chegou á entrada da _rua do Jogo da Bolla_, viu um grupo de povo, que parecia vedar a sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de Mesquita, a quem faltára a coragem para affrontar a força bruta da populaça.

Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, tigre desenfreado da licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.

Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»

E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.

--Assassino... não!...--respondeu o alferes.--Fui eu quem o feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.

Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos avós robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, não comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou é um acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no peito.

Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos tormentos possiveis n'esta vida.

Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira, alentado pela coragem da minha dôr, as escadas d'aquella casa, e levantára da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim... não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da _Misericordia_, orava, talvez, á Virgem protectora das virgens...

Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelára os poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos!

O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz. Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.

Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante mula, e seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em _Almodena_, caminho de Lisboa. E, para que esta circumstancia me não esqueça, dir-lhe-hei que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de real mercê que o isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.

O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do assassino, que zombára da lei.

Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.

IV.

É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica d'este quadro negro... Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroismo de virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e apaixonadas pelo sublime do martyrio.

Por ventura, póde o senhor comprehender a situação d'um homem, que tem desmaiada nos braços aquella por quem fôra atraiçoado...? Não é bastante comprehender isto: é necessario compenetrar-se mais da minha situação...

Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival... Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha situação?... Não comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha não fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignação... Quem sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, não é assim?»

Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me adivinhára. Córei, de certo, quando fui surprehendido no segredo dos meus juizos. Nada menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre velho! Era de certo um pungente assentimento á sua conjectura! A dôr é generosa, e cala as affrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquelle grande sacrificio, que comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a gravidade melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e D. João de Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lucifer para tirar de mim melhor partido.

D. João proseguiu:

«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos braços. A mãi, que prophetisára, em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha, apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle lethargo, com afflictivos gemidos.

Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não chorou uma só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dous amantes, Martha estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquelle tremor... A corda d'um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração estremece assim.

No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender serenamente a cabeça nos braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso da infeliz. Imaginamos que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo menos, mais desabafada d'aquella agonia que lhe suffocava não só os gemidos, mas até a respiração. Esperamos... mas quem não esperava era o medico, que, ao retirar-se, deixou dito que não era Christo para restituir a filha á viuva de Nahim.

Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da materia... mas aquelle anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da destruição nos revelassem o rapido dilacerar d'aquella morte! Quem dirá que aquella mulher soffreu no corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar as algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e só a alma, meu amigo, consummou aquelle trance de incomportavel inferno, e passou ao mundo da penitencia ou da gloria...

Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É só minha, e só eu a comprehendo... mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S. Francisco o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa eterna separação.

Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar n'aquella sepultura durante tres annos.

Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a pedra que cobria os ossos de Martha foi levantada.

Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror, agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do Santissimo Sacramento.

O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava machinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.

Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade revocou em volta de mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a ella... como nos dias da sua esplendida formosura illuminada pelo resplendor da sua innocencia, purpureada do pejo com que a candura se rende ao imperio dos instinctos... Era ella, quando, nos primeiros tempos da nossa infancia, me offerecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãi, e a seus irmãos... Era ella, quando me perguntava o segredo d'aquella attracção irresistivel, que a arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia sonhar umas delicias que sua mãi lhe não explicava nem realisava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o ecco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... a phantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha d'aquelles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me vinha cahir aos pés.

E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do côro, a tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na abobada do templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade.

Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a face lacerada pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É impossivel que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com ella...

A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba d'aquella scena, que se me figurava um sacrilegio, uma profanação.

Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou com os ossos.»

Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrilego, que não tem ainda bastante barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de si proprio, quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no calix, que rouba.

Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma não sei que pesar semelhante ao remorso.

Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se arrependera. Quiz deixar intactas aquellas cinzas. Luctei comigo para vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude; mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um ser sem alma, uma recordação para as lagrimas, e uma gloria só minha n'este mundo... a gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de lagrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos na eternidade.

Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos longos soffrimentos d'um homem, que atravessou uma longa existencia, sem conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!

Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das feições com que a vi partir d'este mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos que me vêem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira, animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das contorsões freneticas da desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde os labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante, me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas dolorosas contemplações, aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim, balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á sepultura!... Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes d'estas cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria d'outras cinzas, que, ha tres quartos de seculo, esperam o dia final... É lamentavel a situação d'este pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa chimeras, não é assim?

Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o não disse, nem lh'o diria, se lhe não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo nos olhos.

Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dôr. O que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio d'uma nova existencia. A immortalidade é uma idêa abstracta de tudo que é comprehensivel aos homens. O homem não explica a immortalidade, em quanto não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se me comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia bruta, e termina nos espiritos. As funcções do espirito, sem fórmas corporeas, pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas funcções, que devem ser a sua futura existencia, pela mesma razão que o animal, inferior ao homem, não comprehende as funcções do pensamento aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto, vão subindo na escala da intelligencia. Todos se transfiguram de fórma em fórma até deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos espaços incognitos como vagam os espiritos. É lá em cima, nas proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna luz, que se lê o livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo orgão espiritual em que recebi a interminavel impressão de agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e sublime não é um attributo do espirito? Aquelle que muito ama, e muito devorado morre de paixões grandes e ideaes, não é um propheta da vida futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor, qual será a existencia do espirito?

Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quiz elevar o seu espirito á altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido segredo. Quiz convencel-o, não digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa eternidade em que ahi se falla, despida de affectos, de poesia, de esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...

Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho exaltações de jubilo, aqui, n'este quarto, onde conto, ha perto de setenta annos, os minutos da minha existencia. Este goso é a minha convicção na immortalidade... É a minha esperança, confirmada pela meditação e pela sciencia, de que hei-de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do céo...

Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga ás turbas de Villa Real os segredos de D. João de Noronha. Aqui escarnecem-se os que soffrem, logo que não soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos, onde a materia organisada dispõe do machinismo da bocca para lhe dar uma gargalhada em resposta.»

D. João de Noronha despediu-me.

Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas communicações. Aprendi com elle a sciencia do espiritualismo. Se depois me materialisei, é porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado mais que a superficie da materia. O espirito tem a força dos imponderaveis. A força da materia póde muito bem calcular-se pela força dos vapores... _tantos cavallos_.

Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:

--Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 annos de idade, com uma donzella sua contemporanea?!

--De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João não podem considerar-se physicas nem moraes. «Absurdo!--replica a espirituosa dama.» Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna, e queria deixal-a a uma creada, que o servira desveladamente toda a sua vida. D. João encarava philosophicamente as formulas sacramentaes do casamento. Achava-o utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se para recompensar uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe enxugou nas faces mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do sacrificio. Poucos dias supportou a viuvez.

--E a caveira?--perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.

--A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma mortalha.

UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.

UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.

Este romance não devera chamar-se «romance.» Desde que esta palavra é o atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções do escriptor phantastico, não ha historia verdadeira que possa, como tal, recommendar-se com aquelle titulo.

Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e affeiçoados ás leis do estilo romantico, são verdades que não deram brado, nem se gravaram na memoria da geração que as viu e as não comprehendeu.

Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No drama da familia ha lances que são do dominio do publico, e o publico não póde, ainda que o tente, explical-os. Nas attribuições individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento, que esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina, reputando-lh'as effeitos necessarios das causas, consequencias do crime voluntario.

A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua redempção do genero humano. O homem é, desde o seu principio, a victima da culpa com o labio collocado no calix da agonia.

A vida sobre a terra é uma interminavel expiação. Eu pago pelos crimes de meu pai, meus filhos expiarão meus crimes, e o ultimo ser vivo da animalidade intelligente será o holocausto do primeiro homem criminoso.

É forçoso recorrer ao inconcebivel, ao sobre-natural, ao mysticismo da providencia occulta para comprehender o que vulgarmente se diz «fatalidade.»

Na historia, que vai ser lida, é tão sensivel esta necessidade, tão aterrado se sente o espirito diante d'um facto consummado, que eu não tive escrupulo religioso ou philosophico em subordinar um encadeamento de infortunios d'uma familia á _praga rogada nas escadas da forca_.

I.

Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre materno passou á roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados d'uma pobre mulher d'aldêa.

Aos dez annos não conhecia pai; e sua mãi, mulher do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do _nobre_, que se dignára descer até ella para honral-a com deshonra.

Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais preguiçoso.

O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse comprehender a dôr immensa d'um grande desastre. Lá dentro n'aquelle coração infantil fallava uma prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no horisonte negro do seu futuro, o pobre moço não tinha uma hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o d'aquelle lethargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a tarefa molhada de lagrimas.