Chapter 10
Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era.
Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo «Bernardo _Engeitado_.» Nunca ninguem se lembrou de reputal-o filho _d'alguem_: nem Lucena se lembrou, alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados á roda, poderia ser seu lacaio.
Bernardo era creado de taboa.
II.
Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas horas livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo palacio de seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava sem saber porque.
Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a dos amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no por compaixão.
Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com um não sei que de estranha delicadesa. Destacava-se da sua classe com um ar orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas muitas obrigações, e ninguem sabia quando as cumpria. Estas qualidades, rarissimas vezes encontradas n'um lacaio, tornavam-no assumpto de estudo para os amos que principiavam a interessar-se na analyse d'aquelle obscuro engeitado.
Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lêr, e gastava a maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as lições que o mordomo da casa lhe dava nas horas de desenfado.
Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, é certo que o amo, por um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma escóla, e para isso alliviou-o dos encargos de moço de taboa, e levou-o á jerarchia de escudeiro do menino mais velho.
III.
Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprêndera só comsigo a grammatica portugueza, visto que seus amos lhe não tinham permittido esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir ao servo sciencia que os amos não tinham! O muito illustre Francisco de Lucena não daria o menor dos seus galgos pela vasta sciencia do Lobato. E, talvez, tivesse razão.
Em casa de fidalgos d'esta bitóla, quando um creado adquire a confiança dos amos, ha sempre para isso uma de duas razões. Ou o creado, devasso como elles, encobre astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as, já que não póde reprehender-lh'as.
Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram livres e desmoralisados a não poder ser mais. Quizeram captar a benevolencia do servo, não para aconselhal-os, que não desciam elles a isso, mas para acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o braço do plebeu é muitas vezes a salvação das costas do fidalgo.
Não o conseguiram nunca; mas tambem não tiveram de arrepender-se da confiança d'esse convite. Bernardo exercia uma influencia admiravel sobre os nobres libertinos. Era a superioridade da intelligencia. Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto das suas idêas, e da linguagem escolhida com que o engeitado se sahia! O facto de ser engeitado era em Bernardo, talvez, um motivo de superstição n'aquella casa. Se elle fosse reconhecido filho d'algum _borra-botas_, como em linguagem nobliarchica se chama um plebeu, de certo lhe não dariam a importancia de o considerarem pela intelligencia. Mas o mysterio, a possibilidade de ser vergontea infeliz d'um tronco illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma aureola entre nuvens, que poderia talvez, mais tarde, dissipar-se, e deixar na plenitude da sua luz aquelle fructo do amor criminoso d'alguma raça nobilissima, mais ou menos aparentada com os Lucenas!
Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto, impossivel, é o que vai lêr-se.
IV.
A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mãi, tres filhos, e uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze annos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos segundos tambem não; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu coração era da tempera d'aquelles que não sabem conceber sómente o amor com a condicional do casamento.
Eulalia não tinha a mais superficial tintura de instrucção, e por isso não podemos, em boa fé, chamar-lhe romantica. Não era janelleira, nem rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel setim para deposito de semsaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe douda.
Era uma mulher, e n'isto está dito tudo.
Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristesa inconsolavel como nenhuma. «A minha organisação--dizia elle--é um aborto, uma enfermidade incuravel.»
Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz. Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via n'elle o que ella chamava «cara de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira de classificar as caras, porque não conheço as «caras de pessoas de mal» tenho-me visto em circumstancias forçadas de dizer o mesmo, porque ha n'este val de lagrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas são as peiores caras.
Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir á cozinheira da casa, e menos se lembraria de accender o fogo do amor no illustre coração d'uma Lucena, com quem em toda a sua vida fallára tres vezes.
Eulalia passou da dôce sympathia ao amor abrasado, e do amor abrasado á paixão violenta. Por mais finos e eloquentes olhares que a fogosa menina lançou ao escudeiro, o escudeiro ou não dava por elles, ou explicava-os de qualquer modo, com tanto que não ousasse ensoberbecer-se d'aquelle affecto disparatado. E Eulalia desesperava-se!
V.
Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burguezes ricos, e encontrou um negociante d'alto bôrdo, que recebeu a proposta com affabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que permittia aos filhos de seu filho appellidarem-se Lucenas.
O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria. Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porém, era um rapaz de fina educação, d'alguma intelligencia, de brios que o ouro lhe estimulava, e de orgulho superior á sua classe, porque, ha 50 annos, a classe commercial era muito humilde, supposto já trabalhasse para esta época de barões commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o mais palpitante triumpho da democracia. Para me não metter em graves questões sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a felicidade que seu pai lhe annunciára com tanto jubilo, e declarou-se sentimental, por tempo de quinze dias, fechada no seu quarto, sem querer vêr sol nem lua.
Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez por tres mil cruzados. E era isto verdade.
VI.
E o peor era que o tal João Leite, noivo repellido, ficou amando desesperadamente D. Eulalia. Ferido no seu amor proprio, e envergonhado de tão má estreia, instava com Francisco de Lucena, lançando-lhe em rosto a imprudencia com que viera roubal-o á sua tranquilidade, não podendo contar com a obediencia de sua filha. Esta maneira de accusar vexava Francisco de Lucena, porque era pôr em duvida o seu poder paternal, e chamar-lhe fraco, imputação que elle odiava ainda mesmo que se tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina.
Redobravam as mortificações, e Eulalia, immovel como o seu infeliz amor, offerecia-se de bom grado á vingança paternal, mas dizia, em linguagem tragica, que só reduzida a cadaver passaria para a posse do tal miseravel, que não tinha vergonha de perseguir uma mulher que o despresava. O pai realisou o dito popular: «casar, ou metter freira.» Eulalia optou pelo segundo, e os preparativos para entrar no convento principiaram.
O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas embrionarias d'um coração, que parece arfar de improviso ao repentino choque, ao rapto da paixão violenta.
Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas. Uma a seu pai. Dizia-lhe que amára um só homem e viveria d'esse amor desgraçado toda a sua vida.
Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixão d'ella, e chorasse uma lagrima em troca das que ella chorára, e choraria até á morte.
Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o amaldiçoava com todo o odio do seu coração. Que lhe atirára á cara com um _não_, e nem assim o envergonhára de continuar a perseguir uma mulher.
Esta correspondencia conservou-a Eulalia até ao momento em que transpoz o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o destino competente. Depois, chorou, chorou, e attrahiu em volta de si os carinhos da communidade que a mortificava com as suas frias consolações.
VII.
Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.
Bernardo da Silva embruteceu-se ao lêr a sua.
João Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se suspenso no ar por uma legião de demonios raivosos.
Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo digno da melhor caricatura inédita!
Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli apparecer imperiosamente a filha.
Quiz forçal-a a declarar o nome do homem que a preoccupára até a fazer má filha. Não lhe arrancou a menor revelação. Foi por outro caminho para chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as paixões invenciveis d'uma filha que se présa com extremo carinho; contou historias análogas, que acabavam todas por casamentos desiguaes, mas nem por isso menos venturosos. Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a impressionára, e fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se não viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia.
O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome, sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do escudeiro!...
Que horror!
Nunca se viu um solavanco mais desamparado que o salto de tigre que Francisco de Lucena deu contra a grade que o separava da filha! Por Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina, arripiada como quem vê um lobo com as fauces vermelhas, e as unhas recurvas, foge pelo dormitorio, e fecha-se no quarto.
VIII.
Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma victima! Encontrou no caminho João Leite, mas este não podia justificadamente ser sua victima. João Leite mostra-lhe a carta que recebêra de Eulalia. Isto foi exacerbal-o. «Não se lhe dê de ser repellido por essa infame,--lhe disse elle--Eu vou provar-lhe que sou pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um _engeitado_...»
Entrando em casa, procurou o «engeitado.» Encontrou-o ainda estupidamente absorvido na meditação d'aquella carta. A entrada rapida que fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena arrancou-lh'a com uma convulsão de raiva superior á furia d'um demente. Passou-a pelos olhos, e, sem articular um som, lançou mão d'uma cadeira, e, á segunda pancada, Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que reclamava justiça. Era um sangue innocente que pedia a intervenção de Deus. A justiça, filha legitima do céo, virá mais tarde salpicar d'aquelle sangue a face de quem o derramava.
Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, não pronunciára uma só palavra durante este infernal martyrio. Impellido por pontapés, foi lançado fóra da porta do quarto. As forças faltaram-lhe. O sangue corria a jôrros. Esvaiu-se-lhe a cabeça, e cahiu.
O fidalgo chamou dous creados, e mandou pôr aquelle homem fóra da porta. Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado á rua. Quando recuperou os sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a sua consciencia, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua desgraça pelos labios molhados de fel.
E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da bemaventurança.
IX.
Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o tractára sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiate lhe não valia o pão de cada dia. Esta mulher fôra ama da roda no tempo em que Bernardo lá fôra lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta só conjectura attrahia-a para elle com instincto maternal.
O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe inspirasse um destino. Esperou.
Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de Lucena, e por João Leite.
Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia para isso era o juiz de fóra Paulo Botelho.
O honrado moço, quando se viu na penosa situação de agenciar a sua vida, por não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela sua innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a mais eloquente naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e com que estava sendo perseguido.
Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si procurando um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente; mas o generoso mancebo, adivinhando-lhe as intenções, disse que não precisava fingir-se; que elle dava a sua palavra de honra de não retirar da casa em que estava vivendo, e que mandasse sua senhoria captural-o quando quizesse. O juiz riu-se da _palavra d'honra_ na bocca d'um creado de servir, e mandou-o embora, por não ter a proposito um meirinho.
Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, João Leite, que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro do burguez opulento.
João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e perguntou-lhe:
--És tu o lacaio de Francisco de Lucena?
--Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena--respondeu Bernardo com dignidade.
--E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?
Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa para retirar-se.
--Vem cá, miseravel!--tornou João Leite--tu és o amante da filha do teu amo?
--Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. Hoje respeito-a, porque lhe não conheço a menor falta que a deshonre!
--Nem ao menos a deshonra de receber as tuas affeições, lacaio?
--Eu não lh'as offereci nunca, senhor.
--Offereceu-t'as ella, sevandija?
--Não, senhor.
--Mas ella escrevia-te...
--Sem ser criminosa, por isso...
--Então achas que não é crime escrever a um bandalho?
--Será, se v. s.^a o quer...
--Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da bota! Se tivesses um nome...
--Tenho um caracter, senhor!
Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com despreso, e olhando-o da cabeça aos pés, replicou:
--Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!?
--Então, terei um braço...
--Um braço!--atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe um valente pontapé, que o fez descer tres escadas maquinalmente.
Bernardo assumira toda a dignidade do homem de coração ultrajado. João Leite achou-se comprimido entre os braços do _sevandija_ que elle suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o segundo.
Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e não pôde, porque os pés falsearam-lhe, e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os degraus de pedra. Tirou rapido de um punhal, e roçou com elle duas vezes sobre o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que uma terceira punhalada lhe resvalára no peito. O engeitado sentiu-se ferido: vacillou um instante na resolução que se debatia entre o homicidio e o perdão. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue innocente, pela segunda vez, derramado, entrou no coração de João Leite, e matou-o.
Isto foi obra d'alguns segundos. João Leite gritára nas convulsões da morte; acudiram os creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços cruzados ao pé do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros estorcimentos.
Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou «matem esse homem!» E vendo que ninguem de prompto lhe aceitava o diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.
Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de passo, com serenidade de consciencia e maneiras d'um principe, segundo a linguagem popular dos que o viram.
X.
Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no andamento d'esta causa crime. Erguia-se todos, os dias, sofrego da escrever uma sentença de forca.
Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um só homem protegeu esse preso; sabia-se que era um ancião que lhe levava umas sopas diariamente, e palavras consoladoras de esperança sem esperança.
Eulalia, sabendo estes acontecimentos até á vespera do dia em que o escudeiro devia ser condemnado, requereu que queria ser ouvida em juizo. Não lhe admitiram o seu depoimento. A pobre menina, inspirada da eloquencia do martyrio, entrou um dia no côro, quando a communidade orava, e invocou o testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que a escutasse o povo que estava na igreja:
«Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de martyrisado por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei, declaro diante de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse uma palavra só para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui eu que lhe escrevi, quando entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz desgraçado, mas em recompensa hei-de amal-o toda a minha vida, e hei-de unir-me a elle na presença de Deus!» Era uma demencia!
Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma fôra cerrada pela mão corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que não havia de ser enforcado o escudeiro.
Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das mãos d'um juiz o seu instrumento inauferivel, o carrasco!
XI.
Bernardo foi condemnado á pena ultima; Ergueu-se uma forca nas proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de Lucena.
Eulalia exaltára-se no martyrio até causar receios de loucura. Inspiravam-se de uma dôr de morte as exclamações pungentes que soltava a cada ruido que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiçado. O espectaculo da forca era a sua idêa fixa, desde o momento que uma religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.
A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu da cella com os cabellos em desordem, com as faces chammejantes de febre, com os olhos embriagados de delirio, e com o coração a estalar-lhe de uma dôr que a endoudecia.
Chegando á portaria não houveram forças humanas que a contivessem. Os ferrolhos cederam ao impulso d'uma fraca mulher, forte da sua desesperação; e esta virgem, com habitos de noviça, e bella, na sua agonia, como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife, corria por entre as multidões que principiavam a agglomerar-se para testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço d'um padecente entre as mãos do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos remidos pelo sangue do mesmo Christo.
Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns pronunciaram o seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um cadaver que se movia impellido pelo choque da pilha galvanica.
Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na direcção da infeliz, a quem chamavam douda; mas não ousou alguem embargar o passo áquella mulher que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.
Os que a seguiam esperavam vêl-a entrar em casa de seu pai. Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no salão onde fôra lavrada a sentença de cadafalso para Bernardo da Silva.
Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.
Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.
Eulalia já não podia coordenar as idêas que poucos dias antes clamára no côro. O sorriso da loucura, o gemido suffocante, uma lagrima embebida logo no ardor das faces, e algumas palavras entaladas, e apenas intelligiveis, eram alternativas que a tornaram mais lastimavel durante alguns minutos.
A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram ao tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua parecia chumbada sobre o seu tumulo.
A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como solução. Fallavam do justiçado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as razões da sua familia, cobria de improperios affrontosos o homem que, pouco depois, havia de perdoar as injurias com a cabeça no laço da forca.
A exaltação afflictiva de Eulalia tinha tocado o ponto culminante da morte, ou da alienação irremediavel.
--Innocente! Innocente!--eram os gritos unicos, as derradeiras palavras que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.
XII.
N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite, pai de João Leite.
Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com religioso respeito.
As suas palavras foram estas:
--Perdôo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem cahirá sobre a minha face! Matou defendendo-se d'um aggressor infame! Senhor juiz de fóra, requeiro a suspensão da execução da sentença. Eu sou parte, e declaro innocente o réo!
Seguiram-se minutos d'uma estupefacção natural. Eulalia voltou os olhos para o homem que fallára, quiz arrastar-se de joelhos aos pés d'elle; não pôde; a impressão devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio caminho.
O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco physico fôra creado pela lei. Não podia eximir-se a pegar do cutello, e seguir seu caminho.
--É tarde!--respondeu elle.
--Não é tarde!--replicou Pedro Leite, e continuou com solemne exaltação:--Tarde, senhor juiz, é depois que o tribunal do mundo se fecha atraz d'aquelle que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, é quando um juiz de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réos condemnados com a face borrifada de sangue innocente!
--Basta!--exclamou Paulo Botelho com authoridade!
--Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos d'este sangue innocente que vai ser derramado!
O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua nullidade, mas balbuciou não sei que palavras que irritaram o juiz.
--Não se trata só de punir o assassino de João Leite!--exclamou o juiz--trata-se de castigar a affronta que recebeu um nobre, feita por um lacaio que ousou levantar olhos de amante para sua filha!
--Não, não!--gritou Eulalia, erguendo-se com impeto, com as mãos postas, e cahindo outra vez sobre os joelhos.
O cynico já não tinha coragem para tanto! Soára a hora do ultimo mandato ao carcereiro. Expirára o ultimo instante de oratorio.
--Cumpra-se a lei!
Disse o juiz, e fez menção de retirarem-se as ondas de povo que tinham concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de Eulalia, e pelo perdão publico de Pedro Leite.
Eulalia foi conduzida em braços para o interior da habitação do juiz.
XIII.