Chapter 11
A procissão onde a impudencia collocára um Christo, o Deus da caridade, nas mãos d'um padecente, que hia ser esganado!... a procissão, onde se via um homem de tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns sacerdotes d'um Deus misericordioso!... a procissão descia terrivel de repulsiva solemnidade para o açougue d'aquella rêz! A tumba da misericordia fechava aquella orgia de sangue! Era um insulto a Deus! o cadaver d'um homem atirado á face do Creador! um escarneo satanico á intelligencia, e ao coração da humanidade!
O prestito parou na praça do sacrificio.
Bernardo com os olhos fitos no céo via nascer a risonha aurora da eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de Deus mostrava-lhe o seu regaço. A morte do justo era um crepusculo de nova existencia a alumiar-lhe o rosto. Inspirava devoção aquelle seu santo sorrir para o seio do céo que se lhe abria! Trazia nas mãos a imagem do Redemptor; mas lá em cima via elle o Espirito Creador, a grande alma, onde se refugiam as almas dispersas na face d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da ira, e da vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade entregou o azorrague da flagellação do virtuoso.
Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam contrahidas as respirações. Um gemido, menos suffocado, podia ser ouvido por quinze mil almas que vieram a contemplar aquelle apparelho de morte, segundo a lei, _formulada pelas inspirações do Evangelho_! pelo codigo dos perdões! pelos preceitos do Filho de Deus que morrêra, perdoando!
XIV.
Através da multidão abriu-se uma clareira para deixar passar um homem, que devia representar um principal papel n'aquelle festim da lei.
Convergiram todas as attenções para aquelle ponto.
Era Pedro Leite--ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a face cadaverica das longas noites que chorára sobre o tumulo de seu filho unico.
Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?
Que força occulta o arrasta a abençoar nas escadas da forca o assassino de seu filho?
Phenomenos occultos da Providencia! A voz de Deus, soando pelos labios do mysterio! Explicai-me as operações de Deus, e eu vos explicarei a inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem o perdão os labios, que beijaram morto um filho estremecido...
Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguem lhe embaraçou o passo.
Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim:
«Eu venho pedir o seu perdão á beira do patibulo. Fui eu que o arrastei até ao tribunal em que foi condemnado; mas não sou eu que o arrasto aqui. Bradei em favor da sua innocencia. Pedi, ha momentos, a suspensão d'este acto, em que a minha dôr será mais... muito mais prolongada que a sua. Não me ouviram: impozeram-me silencio, e mandaram-me sahir do sanctuario da lei, que resfolegava sangue pela bocca do seu sacerdote.
Venho pedir o seu perdão nas escadas da forca, e vasar o fel, que me devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que pede a sua cabeça a altos gritos!»
Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia sopeada entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em que o sangue d'um plebeu continuava a operação regeneradora do sangue de Jesus Christo.
Bernardo ouviu com presença de espirito a exclamação de Pedro Leite.
«Eu lhe perdôo!»
Foram as suas palavras unicas.
Choraram-se então muitas lagrimas. A piedade teve uma explosão, que as cronhas dos soldados reprimiram. As turbas queriam rasgar o quadrado para arrancarem da morte um santo. Este conflicto foi serenado por outro mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se um homem que sobresahia entre as molas populares. Era o velho, protector unico de Bernardo da Silva, durante a sua prisão. Poucos o conheciam.
Foram estas as suas palavras:
«Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu filho que morre enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr o filho da mulher que deshonraste, como é nobre nas escadas da forca! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu filho, o filho de minha filha, que borrifa os teus pergaminhos com o teu sangue illustre!»
E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem lá estava erguido como o anjo dos tumulos á espera que Deus mande quebrar a lousa d'uma mulher que ahi falta n'esse trance afflictivo!
Essa mulher morrêra, deshonrada, suffocada pela mão da ignominia, a que a soberania fidalga de Francisco de Lucena a abandonára.
Esse ancião era o pai d'essa mulher, unico que recebêra em seus braços o filho da deshonra, unico sabedor d'aquella existencia, que acompanhou sempre, porque lhe marcára um braço com uma cruz. Desde o ventre á forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra de sua filha abafado no coração, este homem seguira os vestigios do neto, sem declaral-o nunca, porque um appellido illustre não o salvava a elle d'uma _illustre_ ignominia.
Que impressão fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas, momentos depois, chamavam-lhe Doudo. Por ordem do juiz de fóra hia ser preso o demente. Aproximou-se a justiça d'el-rei. «É doudo...!» dizia o meirinho ao lançar-lhe a mão.
«_Não é doudo_... é MORTO... » responderam algumas vozes.
Morto, sim!
XV.
Hia consummar-se aquelle enredo de peripecias terriveis.
Bernardo poz o pé direito na ultima prancha da forca. Voltou-se para o povo. Brilhou-lhe na face o clarão d'um outro mundo. A sua voz era melodiosa como o cantico do anjo da morte suavissima: mas n'aquelle todo via-se a terrivel magestade do anjo do dia final. As suas ultimas palavras foram estas:
«Ouvide a praga d'um padecente, rogada nas escadas da forca: Que a justiça de Deus se cumpra na presença dos homens!» ........................................................................... ...........................................................................
O povo voltou o rosto do aspecto hediondo d'uma face injectada de sangue negro. Outros viram-lhe uma onda de luz cingindo a fronte. N'esse momento ajoelharam muitos justos pedindo ao espirito do justiçado a sua protecção na presença de Deus!
CONCLUSÃO.
Passaram quinze dias.
Eulalia de Lucena recuperára o juizo, e entrára no mosteiro. Um anno depois, professára. A sua vida foram tres annos de adoração extatica. Ouviram-na murmurar palavras celestes, como em dialogo. Dizia-se que um anjo devia apparecer-lhe n'aquelles arrobamentos. Chamavam-lhe santa, e adoraram-na morta.
Passados quatro annos, Francisco de Lucena, sempre afastado de sua filha pela mão do remorso, morreu de repente no mesmo local em que fôra hasteada a forca.
Simão Botelho, filho de Paulo Botelho, déra um tiro em seu pai. O pai quiz sentencial-o: deu-lhe sentença de forca, que depois lhe foi commutada em degredo perpetuo. Apenas desembarcou em Cabo Verde, abriu-se-lhe uma sepultura.
Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez annos depois, morria á vigesima quinta punhalada que recebêra, por não dar exactas informações d'um peculio de cincoenta mil cruzados que guardava em uma quinta nas visinhanças de Villa Real.
A mulher de Paulo Botelho morria douda no hospital de S. José um anno depois.
Restavam tres filhas de Paulo Botelho.
Foram devassas até ao escandalo de serem arrastadas a um recolhimento por expresso mandado regio.
Uma appareceu morta n'um aqueducto por onde procurára evadir-se.
Outra casou com um homem que a retalhou de martyrios.
A terceira enforcou-se no batente de uma porta.
A Justiça de Deus Cumpriu-se na Presença dos Homens.
A praga do justiçado nas escadas da forca teve o seu complemento do genero de morte que a ultima pessoa d'aquella familia se déra.
Forca por forca. ...........................................................................
Tendes a curiosidade das averiguações? Procurai em alguns cartorios de Vizeu a sentença pronunciada entre 1776 e 1780.
REMATE.
Não sou contumaz, nem me ufano de relapsia.
De tudo que disse me desdigo, se algum inquisidor intoleravel deparar ahi heresia, contra-senso, atrevimento ou cousa que duvida faça contra Plutus, unico deus da unica religião cujo codigo penal me intimida.
Ha cousas incriveis n'este volume? É que eu, e os meus amigos litteratos, poetas, jornalistas, e até redactores encartados de necrologios sabemos passagens que arripiam carnes e cabellos. Se o siso commum as não adopta, é que os chronistas do tempo formam, á parte, um _status in statu_, cousa inintelligivel aos que não sabem latim, por grande fortuna sua.
N'este synhedrim ha uma moral, estragada se o quizerem, mas os evangelistas, que a propagam são Catões, com tanto que os não obriguem a inquietar a sadia tranquillidade dos intestinos. Aqui, não se sacrifica um dedo a uma pisadella, porque não vale a pena.
É necessario escrever, visto que ha leitores.
Eu, e os meus correligionarios, se até hoje não temos irradiado sobre a humanidade ondas de luz, é porque a humanidade precisava ser, primeiramente, operada na catarata. O luzeiro da civilisação aqueceu, não ha muito, a concha em que, por aqui, se escondiam muitos molluscos moraes, que vão sahindo agora a espanejar-se ao sol.
Não quero dizer que os molluscos passassem a articulados. Póde muito bem ser que o leitor, ou leitora sejam ainda legitimos molluscos; mas a excepção deploravel não claudica a generalidade. E, por tanto:
Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia não deve estar muito tempo debaixo do alqueire, nem os talentos (dinheiro) soterrados vencem juros: e tendo nós outro sim, em muito afan e desvelo desaffrontar a litteratura patria de injurias com que estrangeiros e nacionaes a desconceituam, desairando-a como pobre de romances, pela sua incapacidade inventiva--o que não só é malicia, mas até aleivosia: resolvemos escrever romances em que figurassem muitas pessoas nossas conhecidas, e outras, que viremos a conhecer no decurso d'esta meritoria tarefa.
Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apostolos d'esta idêa lucida, coube o quinhão de trabalho, que a posteridade me devolverá em gabos e applausos, e o futuro Plutarcho dos homens illustres d'esta freguezia de Cedofeita, em que tenho a honra de morar, não deixará de consignar nos fastos gloriosos.
Disse.
PATHOLOGIA DO CASAMENTO.
DEDICATORIA.
_Exc.^{ma} snr.^a D. Fulana._
Conceda-me v. exc.^a a gloria de offerecer-lhe um quadro d'esta galeria. Vai lêr um drama intitulado Pathologia do Casamento.
_Pathologia_, minha querida snr.^a D. Fulana, é uma palavra grega, composta de _pathos_, doença, e _logos_, tractado. Quer, por tanto, dizer _molestias do casamento_.
Balzac escreveu a «_physiologia_»; outro, que me não vem á memoria, escreveu «_anatomia do coração_»; faltava uma «_pathologia_» que apparece agora, e, mais tarde, se me não faltar a vista intellectual, que já sinto muito cançada, escreverei a «_Pharmacia do casamento_» que hei-de dedicar a uma outra D. Fulana, que eu cá sei.
V. exc.^a é uma senhora fina, que, além de ter a cabeça no seu lugar, apresenta muitas vezes lume no olho. Sympathiso com o seu talento, e talvez casasse com a snr.^a D. Fulana, se tivesse a certeza de podermos entreter o nosso tempo traduzindo os trinta e sete livros de Plinio, e os trinta e cinco _De Linguâ Latinâ_ de Terencio Varro, que Deus tem em sua santa gloria.
Penso que v. exc.^a não estaria por isto. O seu espirito tem calefrios de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez patriarchal, devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que poderia valer alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas não vale nada no cavername ossudo d'este seu creado.
Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas.
Eu não sei se v. exc.^a sabe alguma cousa d'isto; mas desconfio que não. Falla-me muito em Victor Hugo, e na _Petite Fadete_ de George Sand. Já a encontrei a lêr _les Liaisons Dangereuses_, e a _Manon Lescaut_. Palpita-me que a snr.^a D. Fulana tem na cabeça muita somma de têas de aranha, e não serei eu a vassoura da limpeza.
Não obstante, respeito-a, admiro-a até ao ponto de lhe offerecer a minha «_Pathologia do Casamento_.»
Digne-se v. exc.^a acolhel-a no regaço da sua benevolencia, e dê-me occasiões de mostrar-lhe que sou
De v. exc.^a
o ultimo creado, e o primeiro dos seus admiradores,
_Camillo Castello Branco_.
PERSONAGENS.
D. Leocadia 18 annos. D. Julia 20 » A Viscondessa de Valbom 45 » Jorge da Silveira 30 » Alvaro de Castro 32 » Eduardo Leite 30 » O Visconde de Valbom 50 »
_Damas, cavalheiros, e creados_. (Podem ter a idade que quizerem).
A scena dizem que se passou no Porto; mas o author não impõe, Mafoma dramatico, a crença a ninguem. Cada qual fique no que lhe parecer; mas, se, effectivamente, os personagens existem, tenham paciencia.
PATHOLOGIA DO CASAMENTO.
ACTO I.
DECORAÇÃO.
_Uma saleta contigua a um salão de baile, separada por largas portadas de vidro, através das quaes se vêem perpassar, em passeio, damas e cavalheiros_.
SCENA I.
Julia, _e_ Leocadia, _entrando, como fatigadas, sentam-se n'um sophá._ Julia _tira da cabeça uma grinalda de flôres brancas, que arremessa com desdem sobre o sophá_.
Julia.--Afflige-me tudo!... Tomára-me eu na minha liberdade, Leocadia! Não goso nada... Tanta luz parece um insulto á escuridão da minha alma... Queria-me sosinha...
Leocadia.--Não tens paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te afflige assim?
Julia.--Que é!... É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não ha nada que o desengane...
Leocadia.--Nem as palavras?!
Julia.--Eu sei!... nem as palavras, talvez...
Leocadia.--Porque não és franca?! Eu, de mim, na tua posição, tinha-lhe dito: «não me persiga!» É o que eu já disse a Eduardo...
Julia.--Eu não sei dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente um homem... Pois tão estupido é elle, que precisa uma franqueza tão impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é insupportavel!... Ainda ha pouco, entre mim e Jorge...
Leocadia (_sobresaltada_).--E Jorge!...
Julia.--Que modo é esse!? Jorge interessa-te!?
Leocadia.--E a ti?
Julia.--A mim?... Pois não sabes...
Leocadia.--O que?... não sabia... Elle ama-te?
Julia.--Tem-m'o dito...
Leocadia.--Elle!... tem t'o dito... Jorge!...
Julia.--E tambem a ti?... Falla depressa...
Leocadia (_contrafeita_).--Não... a mim... não... mas a ti... sim?
Julia.--Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!...
Leocadia.--Fui eu que me enganei... Pensava...
Julia.--Talvez te não enganasses... Que te disse elle?
Leocadia.--Nada... Vamos nós á sala?...
Julia.--Já?!... Eu não vou já... Vai tu, se queres...
Leocadia.--Que é o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e Jorge...
Julia.--Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...
Leocadia.--E Alvaro... nem assim...
Julia.--Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse não sei que frioleira...
Leocadia.--Se tu és tão amavel!...
Julia.--Ai!... tu queres imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em cada baile...
Leocadia.--Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o merecimento...
Julia.--Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu amas Jorge!...
Leocadia.--Não, menina... Eu não amo ninguem...
Julia.--Ninguem?! nem a tua Julia?
Leocadia.--A minha Julia não póde repartir o seu coração... Não quero entrar em partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque não ha nada superior a elle... Ficas?
Julia.--Fico a scismar... Vem cá, Leocadia... sê franca, senão... não sou tua amiga... Jorge será um impostor?...
Leocadia.--Perguntasm'o a mim!? Eu não sei...
Julia.--Terá tido a mesma linguagem para ambas?
Leocadia.--Disse que te amava?... A mim... não me disse nada...
Julia.--Então és tu que o amas?
Leocadia.--Não... Olha, minha amiga, faz de conta que eu ouvi com perfeita indifferença a tua revelação... Até logo... Ai!... diz-me cá... O teu namoro é antigo... ou começou aqui?
Julia.--Com Jorge? É muito moderno... Tem um mez... É uma creança, mas já foi baptisado com lagrimas...
Leocadia.--Já? Pois afaga-o muito na alma... Sê muito feliz.... que eu, se te não felicitei mais cedo, é porque o não sabia... Vou lá dentro... Minha mãi deve reparar n'esta ausencia...
Julia.--Não me deixes agora que ahi vem Alvaro... É insupportavel!
Leocadia.--Ora!... que mal te faz o homem?!... Eu volto já... Olha... diz-lhe que amas Jorge... é impossivel que elle queira sustentar a competencia... (_Sahe_).
SCENA II.
Julia _e_ Alvaro.
Alvaro.--Está incommodada, snr.^a D. Julia?
Julia.--Não, senhor.
Alvaro.--Então está aborrecida...
Julia.--De certo...
Alvaro.--Menos, quando ao seu lado um certo cavalheiro de luneta...
Julia.--Ah! o senhor vem pedir-me satisfações? É engraçada a liberdade!...
Alvaro.--Não lhe peço satisfações... Se as minhas palavras foram indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as.
Julia.--Muitos perdões me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha generosidade com v. s.^a chega já a parecer-se...
Alvaro.--Com a virtude d'uma santa?
Julia.--Não queria dizer isso...
Alvaro.--Queria dizer que chega a parecer-se...
Julia.--Com um excesso de imbecil paciencia.
Alvaro.--Isso é muito forte!... Eu não lhe mereço tanto! Nunca lhe disse affrontas...
Julia.--Com que direito ha-de dizerm'as?
Alvaro.--Não tenho nenhum? absolutamente nenhum?
Julia.--De certo, nenhum...
Alvaro.--A paixão cega o entendimento...
Julia.--Não é minha a culpa...
Alvaro.--É toda...
Julia.--Toda?... pois eu authorisei-o? Disse-lhe alguma vez que o amava?
Alvaro.--Nunca m'o disse... porque...
Julia.--Porque o não sentia... Que mais lhe posso dizer agora?
Alvaro.--Depois d'isso, mais nada. (_Retira-se_).
Julia.--Foi preciso isto... Ainda bem!... (_Ouve-se a musica d'uma polka_. _Julia enfeita-se ao espelho com a grinalda, e sahe_).
SCENA III.
Jorge _e_ Eduardo.
Jorge.--Tu vaes ser verdadeiro, Eduardo?
Eduardo.--Como Epaminondas Thebano, que nem zombando mentia. Não me lembra d'outro estafermo antigo que fallasse verdade...
Jorge.--Tu tens algumas intelligencias com Leocadia?
Eduardo.--Diz-me cá, Jorge, póde fumar-se aqui?
Jorge.--Não... se queres vamos á sala debaixo...
Eduardo.--Não posso, que tenho a sexta quadrilha com Leocadia... Diz lá o que queres...
Jorge.--Perguntei-te se amavas Leocadia.
Eduardo.--Gosto muito d'ella... Depois d'um bom charuto, é o meu sonho dourado.
Jorge.--E ella...
Eduardo.--Gosta de mim? não sei bem ainda... Perguntei-lh'o ainda agora pela vigesima vez... Disse-me que sim, e é a primeira vez que m'o diz... Se mente, lá se avenha com a sua consciencia...
Jorge.--E é a primeira vez que te disse que sim?
Eduardo.--A primeira, palavra d'honra, Jorge!
Jorge.--E que conclues d'ahi?
Eduardo.--Concluo que não gostou até hoje.
Jorge.--E não conclues mais nada?
Eduardo.--Nem quero.
Jorge.--Não suppões que ella amasse, até este momento, outro homem?
Eduardo.--Não só supponho; mas até acredito... Nada de emboscadas... Essa diplomacia parece-me uma velhacaria rançosa... Sei que amas Leocadia, ou, se a não amas, que a amaste já... Eu não tenho nada com o passado, nem com o futuro... A minha grande questão é a actualidade. São arrufos? Deixal-os ser: aqui estou eu para encher as lacunas, e tenho n'isso muita honra... Nunca me importou saber que tentos lavravas no coração da pequena. Vi-te fazer de Cesar, e eu fiz de Fabio. Agora, cada um de nós segue o seu systema... E até logo... Acho que não te queres bater...
Jorge.--Eu não me bato por estimulos tão pouco despertadores do brio...
Eduardo.--Fazes tu muito bem... Eu tambem zango de duellos, principalmente por causa de mulheres... que comem _sandwichs_, e bebem limonadas... Falla-me logo... (_Sahe_).
SCENA IV.
Jorge _e depois_ Julia.
Jorge.--Eu tinha previsto tudo... Era necessario renunciar uma das duas...
Julia.--Procurava-o...
Jorge.--Sim?... que é, Julia?
Julia.--Diga-me: poderei confiar a Leocadia o segredo do nosso amor?... Vacilla?... responda!...
Jorge.--Tem precisão de confidentes?
Julia (_sorrindo_).--Tenho, porque me não cabe a felicidade no coração... Posso?...
Jorge.--E é forçoso que seja Leocadia?!
Julia.--É... preferi-a entre todas as minhas amigas... Que embaraços são esses?!
Jorge.--Entendo que não deve revelar a ninguem o nosso amor.
Julia.--Sim?... porque m'o não disse?... Já agora, perdeu-se a sua discrição... Eu disse tudo...
Jorge.--A quem?
Julia.--A Leocadia...
Jorge (_á parte_).--Está explicado o enigma!...
Julia.--Nada de monologos... falle comigo... Ora, snr. Jorge... que necessidade tinhamos nós de corarmos um na presença do outro!?
Jorge.--Eu não córo... A côr d'este rosto só póde alteral-a uma infamia.
Julia.--Dê o nome que lhe aprouver ao seu acto, que eu não lhe conheço outro... V. s.^a feriu-me, e cicatrizou-me a ferida... São boas todas as affrontas que nos despertam a sensibilidade da honra... A lembrança do ultraje ha-de fazer que eu esqueça a causa depressa... Fez bem... Deixou cahir a mascara muito a tempo... (_Retira-se_).
Jorge.--Escute-me, Julia... (_Vai sentar-se no sophá_).
SCENA V.
Jorge, _e_ Eduardo, _dando o braço a_ Leocadia.
Eduardo.--Será isto um sonho?... Se o é, deixe-me sonhar uma hora, sim?
Leocadia (_sorrindo_).--Tambem ha sonhos de que se acorda com a face cheia de lagrimas...
Eduardo (_para Jorge_).--Ainda aqui!... (_Leocadia estremece_).
Jorge.--Ainda aqui... não estou mal... Tem dançado muito, minha senhora?
Leocadia.--Principiei agora...
Jorge.--Pois ainda tem muito tempo de gosar... São tres horas... Nunca lhe esqueça que foi ás tres horas...
Leocadia.--Não o comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres horas do seu relogio?
Jorge.--Não se finja simples como donzellinha que sahiu hontem do collegio...
Leocadia.--Antes uma fingida innocencia que uma descarada impostura.
Jorge.--Não entendo.
Eduardo.--Os senhores dizem que não se entendem, e eu de certo não os entendo melhor. Não façam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo que eu possa reconcilial-os.
Jorge.--Reconciliar-nos!... Não estamos divorciados... O que me prende a esta senhora são os respeitos e considerações que se lhe devem. Em quanto ella se não desviar da carreira d'um nobre procedimento, as nossas relações não soffrem quebra...
Eduardo.--Pois n'esse caso, meu caro Jorge, serás sempre o respeitador d'esta senhora, porque os anjos não se precipitam desde que um, ha muitos annos, teve o mau gosto de se precipitar do céo.
Jorge (_sorrindo_).--Snr.^a D. Leocadia...... snr.^a D. Leocadia!... (_Retira-se_).
SCENA VI.
Eduardo _e_ Leocadia.
Eduardo.--Fallemos seriamente, minha senhora. V. exc.^a n'um momento de ciume, dignou-se empregar-me no seu serviço como instrumento de barro, que se quebra, feito o serviço, não é verdade?
Ora ande lá... não perca o animo, supposto que o escarlate do pejo não lhe fica mal... acho-a muito mais bella... Parece-me que adivinho o segredo... V. exc.^a encontrou em flagrante delicto de ternura o sensivel Jorge com a sensivel Julia... Ferida na sua vaidade, quer vingar-se, e eu represento n'este negocio o _tertius_ sem o _gaudet_. Perdoará o latim... quiz dizer que represento n'este negocio uma triste figura... Já não é a primeira vez... Não se inquiete, que eu tambem me não incommodo... Tire de mim o partido que quizer...
Leocadia.--Snr. Eduardo... não devia fallar-me assim... Essas palavras são tão repassadas de ironia...
Eduardo.--É o meu genio... Sou um Democrito pequenino, porque tambem são ridiculamente pequenas as cousas que me fazem rir... Ahi vem uma que me arranca do profundo da consciencia uma legitima gargalhada.
Leocadia.--Que é?
Eduardo.--É a sua amiga Julia pelo braço de Alvaro, em intima conversação... Não acha tudo isto tão comico?
SCENA VII.
Leocadia, Eduardo, Julia _e_ Alvaro.