Chapter 12
Eduardo (_para Alvaro, sorrindo_).--Os reis da noite somos nós, snr. Alvaro... Logo despimos a purpura de reis de comedia, e fumamos um pessimo cigarro do contracto...
Alvaro.--Não entendo a finura do epigramma.
Eduardo.--Então, é mais feliz do que eu suppunha... Póde contar com o reino do céo... Deveras não entende?
Alvaro.--Não, e dispenso as explicações officiosas do meu amigo...
Eduardo (_rindo_).--Espero que á solemnidade do estilo, se não siga um cartel de desafio...
Leocadia.--Que linguagem!... É bem galhofeiro o seu caracter, snr. Eduardo!
Eduardo.--Muito galhofeiro, minha rica senhora... E alli o do meu amigo é sombrio como o d'um encapotado de drama em cinco actos.
Alvaro.--A verdade é que nos não parecemos...
Eduardo.--Felizmente para o senhor ou para mim... Mas na singelesa do coração, na temperatura do amor, ha-de permittir que sejamos parecidos como Pylades com Orestes...
Alvaro.--Não temos semelhança nenhuma... Eu não posso brincar com as paixões...
Eduardo (_áparte, a Leocadia_).--É da força de trinta Paulos; mas a Virginia que o escuta, só com os olhos, d'aqui a pouco remette-o ao catalogo dos Othellos em quarta mão. (_Alvaro e Julia retiram-se_). Espero que não se baterá comigo, snr. Alvaro... Não respondeu!... Aquelle silencio não quer dizer nada; mas, quem não conhecer o homem, ha-de suppor que a cratera vai rebentar... Quer sentar-se, minha senhora?...
Leocadia.--Sim... um momento... Ahi vem Jorge.
Eduardo.--Ah!... V. exc.^a estremece!... Muito me ama! (_rindo_). É d'uma ingenuidade mythologica!...
SCENA VIII.
Leocadia, Eduardo _e_ Jorge.
Jorge.--Eduardo, preciso roubar-te um instante a essa senhora... tens a bondade!
Eduardo.--Ah! sim... esta senhora não vai de certo queixar-se á policia pelo roubo...
Jorge (_a sós_).--Fazes um sacrificio deixando-me cinco minutos com ella?
Eduardo.--Sacrificio... nenhum; mas a decencia pede que eu não esteja aqui servindo de sentinella á vista a um teu namoro... Ai!... espera... eu dirijo-me a estas duas almas penadas, que ahi vem... Vou comprimental-as, e tu, como penetrante abutre, desce o vôo sobre a presa... (_Comprimenta duas damas, vestidas de branco, em quanto Jorge vai sentar-se ao lado de Leocadia_). Parecem-me dous anjos, minhas senhoras. São duas virgens de Taurida, que fazem lembrar as alvissimas virtudes de Ephigenia... (_As damas, que elle acompanha, com gaifonas cortezãs, retiram-se sorrindo_).
SCENA IX.
Jorge _e_ Leocadia.
Jorge.--Que caprichos são estes, Leocadia?
Leocadia.--Caprichos!... O sentimento d'uma offensa é um capricho?!
Jorge.--Qual é a offensa? Uma leviandade de Julia?
Leocadia.--A leviandade foi minha, que não quiz imital-a a ella e a muitas, que sabem pisar os homens aos pés antes de lhes darem a mão para que se levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do meu amor um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a olhal-o, em publico, com indifferença, para que ninguem me invejasse. Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje é que eu comprehendo a horrivel significação d'este plano. O senhor precisava do segredo para agradar a muitas victimas illudidas com um só lance de olhos... Creia que tenho tanta pena de mim como de Julia...
Jorge.--Olha, Leocadia... se o meu crime foi grande, a tua vingança excede-o... Não me pareces o anjo resignado que eu imaginei... O que eu acabo de fazer foi uma experiencia na tua alma... O resultado foi infeliz! Nunca previ que consentirias ao teu coração um arrojo vingativo, indigno de ti...
Leocadia.--Que fiz eu?
Jorge.--Que fizestes tu?... É boa a pergunta!... Procuraste n'esse salão o homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente ás suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle, apresentando-m'o como rival!... Eu... rival de Eduardo!...
Leocadia (_com vivacidade_).--Como rival... nunca! Elle não podia ser seu rival... porque eu não tenho dous corações.... Fui imprudente... confesso que fui; mas não pude mais... a punhalada feriu-me de repente, não me deu tempo de pensar... disse-lhe não sei quê dos labios, mas o coração aborrece-o, porque eu não posso amar alguem com mais virtudes do que tu... pouco me importa que tu sejas tão cynico, tão desmoralisado como Eduardo... Oh! Deus queira que me não ouvissem... Ahi vem Julia... Eu retiro-me... A mãi está com os olhos fixos em mim... (_Menção de sahir_).
SCENA X.
Alvaro , Julia _e_ Jorge.
Julia (_passando por Leocadia_).--Muitos parabens, minha amiga...
Leocadia.--De que?
Julia.--Transigiste amigavelmente?...
Leocadia.--Não sei que dizes...
Julia (_ironica_).--Innocentinha... (_Leocadia sahe_. _Passam alguns grupos de homens e senhoras_).
Alvaro (_que não vê Jorge_).--Jorge não é homem talhado para o seu coração...
Julia.--Falle baixo, que elle está muito perto... Mas não se cale... diga alguma cousa.
Alvaro.--É necessario ter o coração puro de amores viciosos para conceber a sublime candura do seu...
Julia.--Hei-de morrer sem ser comprehendida...
Alvaro.--Não nasceria eu para comprehendêl-a?
Julia.--Ai! não... a minha alma é um abysmo, onde se esconde o anjo do bem, e a serpente do mal... Tenho na mesma intensidade transportes d'amor e odio...
Alvaro.--Qual lhe mereço?...
Julia.--Quer-me sincera? uma verdadeira estima de irmã...
Alvaro.--Só?
Jorge (_sem erguer-se do sophá_).--Ó snr. Alvaro!... Que tal acha a eloquencia d'esta senhora?
Alvaro.--A pergunta é celebre; todavia, responderei: a eloquencia d'esta senhora é excellente...
Jorge.--E v. exc.^a, snr.^a D. Julia, que tal acha a eloquencia d'aquelle senhor?
Julia.--Eu sou menos generosa que este cavalheiro: não lhe respondo.
Jorge.--Responda, responda, que v. exc.^a não é responsavel pelo que diz...
Alvaro.--Eu não posso consentir que se affronte assim uma senhora!...
SCENA XI.
_Os mesmos e_ Eduardo, _que vem passando com uma dama pelo braço, e pára._
Jorge.--Pois senão póde, resigne-se...
Alvaro.--Tenho a optar por outro expediente antes da resignação...
Eduardo.--Naturalmente quer bater-se... Eu sou de opinião que os meus amigos devem cortar-se reciprocamente os pescoços ás 4 horas da tarde...
Jorge (_sorrindo_).--Fecha lá as torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui falla-se seriamente... Não vês que aquelle senhor está formalisado?
Eduardo.--Pois o senhor está formalisado? e v. exc.^a (_para Julia_) tambem está formalisada? e a menina (_para a que tem no braço_) tambem se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber porque. Formalisem-se todos, desde o dono da casa até ao creado da campainha. Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, porque são quasi quatro horas... não acha?
Alvaro.--Se me dá licença...
Eduardo.--A respeito de licenças, isso não é comigo: é com o dono da casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar de que a snr.^a D. Julia é a rainha das mais formosas? (_Com escarneo_).
Alvaro.--Snr. Eduardo, as suas zombarias são intempestivas!... Entre cavalheiros é d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um salão...
Eduardo.--O meu caro senhor está funebre como um mestre de cantochão... Fallou muito bem; mas eu é que não me sinto disposto a manter a reputação de eloquente ás quatro horas da manhã... Se me querem vêr dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me cá... já tomou chocolate?
Julia (_desprendendo-se do braço_).--Dê-me licença... Minha mana chama-me...
Alvaro.--Eu acompanho-a, minha senhora... (_Vão sahir_).
Jorge.--Minha bella menina, estamos quites... D'hoje em diante cada um de nós caminha para o seu polo diverso...
Julia.--São indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe aprouver, snr. Jorge... (_Sahe_).
Eduardo.--Disse que caminhasses para onde te approuvesse... Eu de mim vou para casa... Queres vir?... É verdade... que é da transparente creatura, que eu tinha no braço? Evaporou-se?... Deixal-a... (_Atira-se ao sophá_). Ai que somno!... Em que pensas tu?... (_Entra um creado com chavenas de chocolate_). Isso que é? Venha cá... É chocolate... Vm.^{ce} não terá a habilidade de converter isto em vinho do Porto?...
Creado.--Não, senhor...
Eduardo.--Então vm.^{ce}, pelo que diz na sua, é um grande idiota. (_Toma duas chavenas da bandeja_). Póde retirar-se... Aquelle senhor está fazendo versos... (_O creado sahe_). Ó Jorge, não tens no coração um reservatorio onde caiba uma chavena de excellente chocolate?
Jorge.--Adeus... retiro-me...
Eduardo.--Alto lá!... Eu preciso saber em que lei devo viver... Reconsideraste a respeito de Leocadia? Quem é que a ama, sou eu, ou és tu?
Jorge.--Fallas d'ella com tão pouco respeito!...
Eduardo.--De quem? de s. exc.^a!?... Pois eu disse alguma cousa que possa chamar-se grosseira?
Jorge.--Leocadia não é uma apolice que se passe com o mesmo valor de mão em mão...
Eduardo.--Justamente o peor que ella tem é não ser apolice, nem ao menos acção da empreza do caminho de ferro de leste...
Jorge.--Estás estragado!...
Eduardo.--Do estomago? Palavra d'honra que sim! As taes sandwichs são indigestas como um artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo... Ella ahi vem... Queres ficar só com ella?... Eu vou entreter Julia... Que mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto não está de todo estragado...
SCENA XII.
Jorge _e_ Leocadia.
Leocadia.--Vou sahir, Jorge... Dê-me uma só palavra, que me salve...
Jorge.--Que queres que eu te diga, Leocadia?... Ámanhã vou consultar a vontade de teu pai... Queres assim tão breve o desenlace das tuas affeições?
Leocadia.--É muita felicidade, meu Deus. Eu não merecia tanto... E Julia!... Coitadinha!... quanto não soffrerá ella!...
Jorge.--Que tenho eu com Julia!... Poderia amal-a com a paixão violenta d'uma febre... mas estimal-a com a serena amisade que te dedico, Leocadia, isso nunca...
Leocadia (_reparando_).--Ai!... minha mãi... não me deixa um instante... Adeus...
SCENA XIII.
_Os mesmos e_ Julia, _e depois_, Eduardo _e_ Alvaro.
Julia.--Espera, menina (_para Leocadia que se retira_)... São só duas palavras... Snr Jorge... V. s.^a, não é digno d'ella, nem de mim, que valho menos que ella... Não te felicito pela reconciliação, minha querida amiga... D'este a Eduardo, que a sociedade chama cynico, não vai distancia que tu não vejas desapparecer vinte e quatro horas depois de casada... São tudo Eduardos...
Eduardo.--Que é isso de Eduardos? Ainda falta este... Trata-se de levar ao capitolio os Eduardos, minha senhora? N'esse caso peço que não sejam exceptuados os Alvaros. (_Para Alvaro que entra_).
Venha cá, meu amigo... Á vista d'este quadro, confesse que fizemos tristissimas figuras... Aquelle senhor (_apontando Jorge_) fez monopolio de dous corações, que nós tivemos o imbecil heroismo de conquistar ás tres horas da noite... Sabe que mais? Olhemos para ellas, e digamos como a raposa: «Estão verdes!» Pois não convém n'isto?
Vozes dentro.--Vamos meninas! São quatro horas.
Eduardo.--Nenhum dos senhores se quer bater pelo que vejo!... Boas noites... Minhas senhoras...
Vozes.--O ultimo _cotillon_, o ultimo.
Eduardo (_para a viscondessa de Valbom que entra_).--O ultimo _cotillon_, minha senhora, se não tem par... (_Retiram-se todos os outros_).
Viscondessa.--Eu não danço senão quadrilhas.
Eduardo.--Faz v. exc.^a muito bem... Tem dançado muitas?
Viscondessa.--_Un peu_... _un peu_.
Eduardo.--Ah! V. exc.^a falla francez! Ha quantos annos aprendeu, minha amavel senhora? Antigamente ensinava-se um francez muito solido... Hoje é tudo pela superficie...
Viscondessa.--É verdade; mas as bases d'uma verdadeira instrucção são os solidos rudimentos.
Eduardo.--Muito bem, minha senhora... O seu coração deve ser tão sensivel como a sua cabeça é illustrada.
Viscondessa.--O meu coração está morto.
Eduardo.--Deveras!... Quem fará o milagre de o chamar á vida?... Eu de certo não ousaria tão difficil empresa...
Viscondessa.--V. s.^a zomba?...
Eduardo.--Não zombo, porque não sei zombar com o amor...
Viscondessa.--Falle baixo que ahi vem meu marido...
Eduardo (_para o marido que entra_).--Snr. visconde!... estavamos fallando na guerra da Crimea.
Visconde.--Vai por lá o diabo... Eu acho que os alliados não mettem o nariz em Sebastopol.
Viscondessa.--Pelo menos em quanto a Austria e Prussia não expedirem forças que suppram a mortandade dos inglezes...
Visconde.--E que me diz o senhor á exportação dos bois? Cessa ou não cessa?
Eduardo.--A respeito de bois, não sei nada... (_reparando para fóra_) Ahi vem tudo... Que é isto!... uma senhora desmaiada?
SCENA XIV.
_Os mesmos, e_ Julia _desmaiada nos braços de algumas damas._
Vozes.--Que seria?
Coitadinha...
Tragam agua...
Eduardo.--Fumo de charuto não é mau...
Visconde.--Faz favor de lhe botar um pouco de fumo pelas ventas?...
Eduardo (_accendendo o charuto_).--Lá vou... lá vou, snr. visconde.
Vozes.--Não é preciso...
Julia.--É Jorge!... Jorge é o responsavel da minha vida...
Vozes.--Ah!...
Eduardo.--É uma maneira bonita de terminar um acto! Está tudo com a bocca aberta... e eu tambem! (_Abrindo a bocca_).
CORRE O PANO.
ACTO II.
_A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes. Senhoras e homens tomando banhos; outros, entrando nas barracas, horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios do salva-vidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O author dá carta branca ao actor para que diga centenares de parvoices: póde até discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o melhor é calar-se_.
SCENA I.
_Afóra estes entes nullos_, Jorge _e_ Leocadia _sentados em cadeiras_.
Leocadia (_fazendo SS com o guarda-sol na areia_).--Estás tão sombrio, Jorge!
Jorge (_fazendo TT na areia com a chibata_).--Estou optimamente. (_Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no banho_. _Alguns homens urram_).
Leocadia.--Parece que te aborrece a Foz!...
Jorge.--Nada me aborrece... Estou bem em toda a parte...
Leocadia.--Niguem o ha-de dizer... Todas as minhas amigas me perguntam o que tens...
Jorge.--Diz-lhes que se não incommodem...
Leocadia.--Hão-de suppor que a tua amisade para comigo foi uma illusão desvanecida pelo casamento...
Jorge.--A opinião é livre... Supponham o que quizerem.
Leocadia.--Mas não consideras que eu soffro muito se ellas imaginam tal?
Jorge.--Não me lembrava essa especie... Isso é amor proprio...
Leocadia.--Não é amor proprio... é _dôr_ do coração...
Jorge.--Será algum aneurisma?
Leocadia.--É uma zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.
Jorge.--Tambem eu me estranho... Não achas que é melhor estarmos calados?
Leocadia.--Calar-me-hei...
Jorge.--E fazes bem... Estes dialogos terminam sempre mal... A necessidade da variar a conversação é a tisica das grandes paixões... Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que seja... Nós podiamos ter sempre cousas novas a dizer, se não tivessemos gastado a inspiração em quatro mezes de casados. Dissemos tudo... definimos tudo que nos rodeava, e agora sentimos a dura necessidade de nos definirmos a nós... É onde está o mal.... Tu queres que eu te repita o que te disse ha cinco mezes, e eu zango de repetições... Não sei fazer phrases como tu fazes punhos de camizas... Exhauri-me... Agora é necessario esperar uma nova colheita do terreno que já deu fructo. Essas lagrimas vem muito a proposito... (_Erguendo-se e espreguiçando-se_). Ai! que vida!... (_Reparando_). Olá, Eduardo!... por cá?
SCENA II.
_Os mesmos, e_ Eduardo.
Eduardo.--É verdade... Como passou, minha senhora?
Leocadia (_disfarçando as lagrimas_).--Muito bem... agradecida... Está bom?
Eduardo.--Como sempre... Tenho uma saude insupportavel!... Não sou capaz de arranjar uma dôr de cabeça, para me dar certos ares romanticos. Vejo por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em quanto a mim, são infelizes creaturas que soffrem dos callos... Já tomou banho, minha senhora?
Leocadia.--Não tomo banho hoje. Constipei-me hontem.
Eduardo (_para Jorge_).--E tu?
Jorge.--Vou tractar d'isso... Ficas por aqui?
Eduardo.--Vamos nós conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-me com disposição para dizer cousas muito philosophicas... (_Jorge sahe_).
SCENA III.
Leocadia _e_ Eduardo.
Leocadia.--V. s.^a tem sempre um humor tão alegre...
Eduardo.--Será isto idiotismo? Já me lembrou se eu seria tão doudo como por ahi me julgam!
Leocadia.--Quem o julga doudo?!
Eduardo.--É toda essa sociedade...
Leocadia.--Doudo... não!... Dizem que v. s.^a não tem persistencia em cousa nenhuma; e escarnece tudo...
Eduardo.--Em quanto á persistencia, é falso o que dizem, minha senhora, e sinto que v. exc.^a, tão distincta do commum, queira ser o ecco das opiniões vulgares da rançosa sociedade... Não sou inconstante...
Leocadia.--A quem diz isso? Pois não sei eu a sua vida!... Só namoros, tenho-lhe conhecido cincoenta.
Eduardo.--Serão mais, talvez; mas... que namoros!... V. exc.^a não se recorda de que foi meu namoro vinte minutos no baile do barão de Valbom? (_Leocadia abaixa os olhos_). Pois os taes cincoenta namoros foram todos assim... Não sou constante, porque não encontrei ainda uma mulher, que possa adorar-se seriamente. Não ha paixão que o ridiculo não mate. As minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.
Leocadia.--Pois não amou nunca seriamente?
Eduardo.--Eu lhe digo, minha senhora... amei... Vou contar-lhe a minha vida; mas só lhe digo os argumentos dos capitulos que são tres. _Capitulo_ 1.^o Conta-se que Eduardo Leite amou diabolicamente uma mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas loucuras por ella, que, não tendo mais que fazer, quiz suicidar-se com pós dos ratos, e foi uma tia que lhe valeu com um copo de azeite... Pois v. exc.^a ri-se das minhas desgraças!... E eu suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo dramaturgo que endoudeceu porque a platéa se riu justamente no pedaço mais triste da tragedia!...
Leocadia.--É que v. s.^a dá um colorido comico ás scenas mais tristes...
Eduardo.--_Capitulo_ 2.^o No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez tristissima figura, vociferando injurias contra as mulheres, emmagrecendo na razão inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando de noite nas Fontainhas, perguntando ás estrellas pela mulher dos seus sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o vulcão, que lhe queimava as entranhas. Dizem-se outras muitas cousas tristes a este respeito, como por exemplo um duello que elle teve com o seu rival, de que lhe resultou estar quinze dias de cama, com uma bala mettida n'um hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?
Leocadia (_sorrindo_).--É funebre; mas faz-lhe muita honra...
Eduardo.--Estou por isso... É uma honra muito grande...
Leocadia.--Pois não é? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!... Quem seria a ditosa?
Eduardo.--Era a filha do meu sapateiro, minha senhora...
Leocadia (_com seriedade_).--Não diga tal... V. s.^a não se fascinava por tal mulher!...
Eduardo.--Pois fascinei-me... Era linda como a edição mais nitida, que sahiu da typographia celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e dos labios fugiam-lhe espiritos d'azas scintillantes, como não vi em nenhuns, excepto nos de v. exc.^a...
Leocadia.--Dispenso a comparação...
Eduardo.--E faz bem, minha senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio a que eu a levantei, e tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo bate-folha, que é a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar comigo, e vencer-me...
Leocadia.--E foi esse que teve o duello com v. s.^a?
Eduardo.--Nada... foi uma segunda victima, que ainda hoje faz quadras a uma certa visão que lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta visão é a sobredita filha do meu sapateiro...
Leocadia.--A sua vida é um poema epico... E o terceiro capitulo?
Eduardo.--É verdade, o terceiro capitulo... O terceiro capitulo... é isto... É este riso, esta zombaria, esta conscienciosa abnegação de mim mesmo... é a resignada docilidade com que me prestei a ser o instrumento de v. exc.^a para ferir a vaidade de seu marido... Queira desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.^a que eu lhe escolha duas conchinhas? (_Procurando na areia_). Aqui está uma bem bonita... (_Reparando_). Ahi vem a sua amiga Julia...
Leocadia (_sobresaltada_).--Ai!... vem?...
Eduardo.--Como se dá ella com o marido, sabe dizer-me?
Leocadia.--Não sei.. penso que não é feliz...
SCENA IV.
Leocadia, Julia, _e_ Eduardo.
Julia.--Snr. Eduardo, se me concedesse alguns instantes com a minha amiga...
Eduardo.--Pois não, minha senhora... (_Sahe_).
Julia.--São só duas palavras... Vi entrar teu marido para a barraca, e não nos vê... Leocadia... Eu não sou mais feliz que tu... Jorge fez-nos desgraçadas a ambas... Tu sabes que o meu casamento com Alvaro foi um capricho que tenho sustentado com lagrimas... Mas tu não tens culpa... Sei que não és amada... Eu tambem o não seria... Sou ainda tua amiga... Não poderei prestar-me nunca a ser o cutello na mão do teu algoz... ahi tens essas cartas.
Leocadia.--Que cartas são estas?!
Julia.--São cartas, que teu marido me escreve...
Leocadia.--Meu marido!...
Julia.--Sim... mais nada... adeus... (_Sahe_).
SCENA V.
Leocadia, _e depois_ Eduardo.
Leocadia.--Vou sondando toda a profundidade do meu abysmo... Eu bem sabia que era infeliz; mas tanto... não!...
Eduardo.--Parece-me que a sua amiga não veio dar-lhe prazer... Tão descorada, minha senhora! Que tem?
Leocadia.--Nada, snr. Eduardo... É uma nuvem passageira... Queira dizer a Jorge que me retirei...
Eduardo.--Eu acompanho-a...
Leocadia.--Não consinto... a minha casa é alli...
Eduardo.--Não insto, minha senhora, para não ser importuno... (_Ella sahe, cortejando-o_).
SCENA VI.
Eduardo, _e depois a_ Viscondessa de Valbom, _com um creado de farda, que conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho_.
Eduardo (_accendendo um charuto_).--Ora aqui está o que são os môços honestos, honrados, e bem comportados!... São estes dous maridos. Jorge passa por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que é o typo da bondade; e, comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se escrevessem jornaes, estavam em opposição com os maridos. Os honrados são elles... Eu é que sou o cynico!... Esta sociedade é uma grande patacuada!... Ahi vem a viscondessa de Valbom. Não me larga desde aquelle baile... (_Olhando sobre o hombro_). Ella cá está comigo... (_Erguendo-se_). Minha querida senhora viscondessa, como passou v. exc.^a desde hontem?
Viscondessa.--_Passablement_. Esperei-o á noite para a partidinha, e o maganão não nos quiz honrar com a sua visita...
Eduardo.--Urgentes negocios obrigaram-me a hir ao Porto.
Viscondessa.--Namôro... diga a verdade... namôro...
Eduardo.--Não, minha senhora. O meu coração está desde muito na terceira secção... Não ha poder que o faça entrar na effectividade...
Viscondessa.--Ora deixe-se d'isso... Eu sei que ama... e ama uma senhora... que... digo?
Eduardo.--Se lhe apraz...
Viscondessa.--Não direi; mas... lembre-se de que _la proprieté n'est pas un vol_ como diz Proudhon...
Eduardo.--Eu acredito que a propriedade não seja um roubo, e por isso mesmo não tento contra ella.
Viscondessa.--Tenta, tenta... Isso não é bonito... Se quer merecer a minha estima, não tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem sei...
Eduardo.--E v. exc.^a acha que sou indigno da sua estima, se tentar...
Viscondessa.--Pois não? Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A reputação d'uma senhora!... (_Mudando de tom_). É verdade que muitas vezes toda a philosophia é pouca para conter os impetos do coração... (_Mudando para o tom da honestidade_). Ainda assim, a mulher digna reprime-se, e faz-se superior a si propria... (_Mudando de tom_). Apesar d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem, porque tem a imprudencia de tentar com a ponta do pé o desfiladeiro, e por fim...
Eduardo.--Escorregam...
Viscondessa.--Justamente...
Eduardo.--E n'esse caso...
Viscondessa.--Está a pessoa de quem fallamos...