Scenas Contemporaneas

Chapter 13

Chapter 133,505 wordsPublic domain

Eduardo.--Nós não fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que n'esse caso não está de certo v. exc.^a

Viscondessa.--Quem sabe!... (_Á parte_). Ai! o que eu fui dizer!...

Eduardo.--Sei-o eu porque a conheço desde menino, sempre esposa exemplar...

Viscondessa.--Desde menino, não!... pois que annos tem v. s.^a?...

Eduardo.--Trinta, minha senhora.

Viscondessa.--Trinta?!... Ha-de ser isso... Não levamos grande differença...

Eduardo.--Queira perdoar-me, minha senhora, mas eu andava na escóla, quando v. exc.^a deu um baile para celebrar os annos de seu filho, que era meu condiscipulo... Ha quantos annos isto vai!

Viscondessa (_enfronhada_).--Dê-me licença que vá ao meu banho... São horas, e a maré principia a vasar...

Eduardo.--Vasa, vasa, minha senhora... Será bom aproveitar a vasante...

Viscondessa (_á parte_).--É muito grosseiro!...

Eduardo.--Vai a resfolegar polvora pelos narizes...

D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi está um dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia... E é por causa d'estas... que me chamam inconstante!... Que pessimo charuto!... Gilbert se vivesse n'este tempo suicidava-se com um d'estes canudos de acido prussico...

SCENA VII.

Eduardo _e_ Jorge.

Jorge.--Leocadia?

Eduardo.--Já lá vai... Disse que hia para casa.

Jorge.--Dá-me lume... (_accende o charuto_). Quero dar-te um conselho, Eduardo...

Eduardo.--Sim?!

Jorge.--Não te cases.

Eduardo (_Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas barracas_).--Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico, pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento é bom para ti que és um anjo de virtude, e para Alvaro que é o typo da sisudez... Diz-me cá, és muito feliz, não és?

Jorge.--Não. Estou cançado... Minha mulher... é uma mulher...

Eduardo.--É _uma_ mulher? Pois louva a Deus por não serem duas... Quantas querias tu? Aposto que estás desmoralisado como um turco?!

Jorge.--Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que és homem de expedientes, não me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia?

Eduardo (_ironicamente_).--Estás a zombar! Pois o anjo de virtude vem consultar o cynico!? Não abuses da tua superioridade, Jorge...

Jorge.--Se tu soubesses que tormentos aqui vão n'esta alma!... A paixão allucinada que me abriu o inferno no coração!... Tenho necessidade de respirar... Quero que tu me ouças, porque não és d'esses tartufos que torcem o nariz á menor expansão d'um espirito atormentado!... Sabes que amo até ao delirio uma mulher?

Eduardo.--É a tua naturalmente... Isso é muito justo...

Jorge.--Não é a minha...

Eduardo.--Pois a minha tambem não...

Jorge.--Não motejes a minha dôr... Se me não queres ouvir com seriedade, calemo-nos...

Eduardo.--Ora diz...

Jorge.--Eu amo... Julia...

Eduardo.--A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te não ouçam os caranguejos...

Jorge.--Não soffro o escarneo... És incapaz de comprehender um sentimento nobre...

Eduardo (_rindo_).--Sim... esse sentimento é muito nobre... Eu é que sou o cynico... Tens razão... estou estragado a ponto de não comprehender a nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, verás o galardão que recebes...

Jorge.--Não me importa a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher do meu coração era Julia...

Eduardo.--E ella... concorda?

Jorge.--Não... despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me responde...

Eduardo.--Mas sempre vai lendo as cartas?... Então continúa, visto que esse sentimento é nobre... Eu é que sou o cynico...

Jorge.--E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas?

Eduardo.--Talvez para papelotes, quando se frisa...

Jorge.--Adeus!... estás insoffrivel... Isso offende!...

Eduardo.--Pois eu sei cá para que ella recebe as cartas?

Jorge.--Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se assim...

Eduardo.--Isso póde ser... A historia antiga conta tres factos semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o segundo com Fredegonda...

Jorge.--Deixa lá isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um favor?... Se fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito...

Eduardo.--Sondal-a?... não sei de que modo!... Tu não sabes que o marido é meu figadal inimigo? Só se a vir por aqui destacada do osso do seu osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...

Jorge.--Com minha mulher!

Eduardo.--Sim...

Jorge.--Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!...

Eduardo.--Daria?! Que grande immoralidade!

Jorge.--E por isso Leocadia se retirou...

Eduardo.--E olha que não hia boa... Parece-me que a estas horas já ella admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vêr Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em quanto ella te não vê... e quando passar, falla-lhe...

Jorge (_cumpre_).--Que hei-de eu dizer-lhe?!...

Eduardo (_sorrindo_).--Vê se ella comprehende o _o teu nobre sentimento_...

Jorge.--Ella não pára a ouvir-me... tu verás...

Eduardo.--Se não parar, anda tu com ella... (_Retira-se_).

SCENA VIII.

Jorge _e_ Julia.

Jorge.--Não tenho animo... Sou um imbecil...

Julia (_sem o vêr, sentando-se em cadeira_).--A minha querida vingança!... Não vim só para soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...

Jorge (_dirigindo-se com irresolução_).--Animo!

Julia (_voltando-se de repente, e erguendo-se_).--O senhor!... (_Quer retirar-se_).

Jorge (_sustendo-a_).--Não me fuja...

Julia.--Retire essa mão, senhor!

Jorge.--Esse enfado é muito pouco senhoril... Esta mão não mancha a sua pureza...

Julia.--Para mim tem o horror de mão que me feriu com um punhal... O senhor não tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido póde vêl-o.

Jorge.--Que veja... Eu não temo seu marido...

Julia.--Pois não o tema a elle, mas respeite-me a mim, para que a sua posição de marido seja respeitada... (_Eduardo tem vindo por entre as barracas esconder-se atraz da mais proxima do dialogo_).

Jorge.--Eu já me não respeito na minha posição... Seu marido que tire represalias, que eu sou indifferente a todos os ultrajes d'essa ordem.

Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico...

Julia.--Então devo acreditar que o senhor requintou em immoralidade...

Jorge.--Acredite o que quizer... Saiba que foi uma paixão que me perverteu... Hei-de cuspir na sociedade, visto que a não posso calcar aos pés... Despreso todas as formalidades... Para a desesperação não ha conveniencias a guardar...

Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!...

Julia.--Pois, senhor, eu entendo que as devo guardar todas... Snr. Jorge, tenha vergonha diante da sua propria consciencia. (_Vai retirar-se_).

Jorge (_segurando-a_).--Ha-de ouvir-me... Que destino deu ás minhas cartas?

Julia.--Entreguei-as a sua senhora.

Jorge.--Isso foi um vil procedimento...

Julia.--Deveria antes entregal-as a meu marido?

Jorge.--Não tenho nada com seu marido, Julia... Não me cite tantas vezes o nome de seu marido, que é de nenhuma importancia n'este objecto...

SCENA IX.

_Os mesmos e_ Alvaro _sahindo da barraca, vestido de banho_.

Julia.--Ah! meu marido...

Eduardo (_escondido_).--Isto ha-de ser bonito...

Alvaro.--Pois, snr. Jorge, eu pensei que importava alguma cousa n'este negocio... Isto que é? Cahiram miseravelmente n'um silencio estupido!... Julia, tu não fallas? Snr. Jorge! não fique embuchado!... O senhor está-me dando uma importancia, que não era a do seu programma...

Jorge.--Esta situação é melhor que a não prolonguemos. V. s.^a vai pedir-me uma satisfação... (_Julia retira-se_).

Alvaro.--Está enganado... Não tenho de que lhe pedir satisfação... Faz v. s.^a muito bem... Não lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e põe os seus meios... Tudo isto é natural... Que satisfação lhe hei-de eu pedir!...

Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!

Jorge.--Acabemos, snr. Alvaro...

Alvaro.--Tranquille-se, cavalheiro... Eu ainda não disse senão metade. Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a occasião para lhe dizer que não desgosto dos olhos da sua. Com a differença, porém, que eu, declarando-me a v. s.^a, dou-lhe a importancia que v. s.^a me não deu... Visto que nos encontramos no mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O senhor fica com os olhos da minha, e eu com os olhos da sua... Parece-me que me vai pedir uma satisfação...

Jorge.--Não sei com que intenção me faz semelhante proposta...

Alvaro.--Com a melhor intenção do mundo... É um contracto bilateral... sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha casa para v. s.^a estudar bem os olhos de minha mulher, e o cavalheiro franqueia-me occasiões de estudar os olhos da sua.

Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!...

Jorge.--E se na sociedade se desconfia esta convenção?

Alvaro.--Deixe-se d'isso... A sociedade, deu-nos diplomas de excellentes pessoas... Eu creio que ambos temos a finura necessaria para desempenharmos, sem pateada, os nossos papeis... Aqui o grande plano é que afastemos do nosso commercio Eduardo, porque esse tem a alma sufficientemente estragada para nos adivinhar...

Eduardo (_á parte_).--Muito, obrigado!... Até este me dá diploma de cynico!

Alvaro.--Agora, meu amigo, vou tomar banho... Hoje á noite espero-o com sua senhora em minha casa para tomarem uma chavena de chá... (_Apertando-lhe a mão_). _Au revoir_, meu caro senhor... (_Sahem_). Ó banheiro!... Vamos lá, que nos foge o mar...

SCENA X.

Eduardo.--Visto que eu sou o cynico, e os virtuosos são estes, passo a ser um pouco mais virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como eu... Alguma vez hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que é a d'elles... O genero não é caro... Veremos...

CORRE O PANO.

ACTO III.

_Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa: luxo sem gosto: muita cadeira de estôfos amarellos: muito relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem significação nem serventia_. _É noite_.

SCENA I.

Viscondessa de Valbom, D. Julia, Jorge, visconde de Valbom.

_Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e retira-se_.

Viscondessa (_a Jorge_).--A snr.^a D. Leocadia não virá?

Jorge.--É natural que venha.

Viscondessa.--Com o capellão?

Jorge.--Sim... com o capellão...

Viscondessa (_a Julia_).--O snr. Alvaro que andará a fazer?

Julia.--Naturalmente... das suas...

Visconde.--Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo da honradez personalisada...

Julia.--Agradecida a v. exc.^a, snr. visconde.

Viscondessa.--Não tem de que, menina. Seu marido é um anjo, e a sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas. São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a todos os respeitos.

Jorge.--Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os esforços por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho conseguido...

Viscondessa.--Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o não teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo?

Jorge.--Uma pessima opinião.

Visconde.--Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua depravada, e costumes horriveis...

Viscondessa.--Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão. Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente desfigurado. É outro homem...

Julia.--Totalmente outro.

Visconde.--Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!...

Jorge.--É pasmosa!

Viscondessa.--As suas palavras são todas serias, medidas, e reflectidas. Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas... tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação...

Jorge.--Muito se lucra, quando se é honrado!...

Visconde.--Pois não! Não ha nada como a honra!

Jorge.--Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações!

Viscondessa.--Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto se deixou hir á mercê dos seus extravagantes desejos!...

Visconde.--Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma libertinagem!...

Julia.--Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram distinctamente os seus crimes.

Visconde.--Immensos, immensos...

Viscondessa.--Immensissimos, immensissimos...

Julia.--Mas posso eu saber algum d'elles?

Visconde.--Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são muitos... muitos...

Julia.--E a snr.^a viscondessa sabe quaes são?

Viscondessa.--Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um prodigio de immoralidade...

Julia.--E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...

Jorge.--Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse homem, todavia, eu não sei nenhuma...

Julia.--Mas vive com elle ha mais de sete annos...

Jorge.--É verdade... mas, como elle me não chamava a testemunhar os seus desvarios, nada sei...

Julia.--O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que consistiu a depravação de Eduardo!...

Viscondessa.--A sociedade não se engana, menina. Ella que o condemnou lá sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...

Julia.--Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...

Um creado--O snr. Eduardo...

SCENA II.

_Os mesmos e_ Eduardo.

(_Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas, dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma imbecilidade moral, de fazer piedade_).

Viscondessa _e_ visconde.--Muito bem vindo.

Eduardo.--Como passaram vv. exc.^{as}?

Viscondessa.--Maravilhosamente... queira sentar-se.

Eduardo.--E a snr.^a D. Julia?

Julia.--Um pouco affectada dos nervos.

Eduardo.--Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a soffrimentos de todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa?

Jorge.--Assim, assim...

Viscondessa.--Então! senta-se? (_Eduardo senta-se_).

Eduardo.--Como está tua senhora, Jorge?

Viscondessa.--Estamos á espera d'ella.

Eduardo.--E seu marido, snr.^a D. Julia?

Visconde.--Não deve tardar... (_Eduardo em ar de pensativo, esfregando as costas das mãos_).

Viscondessa.--Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! Não o queremos assim! Que tem?

Eduardo.--Pesares... que vem de longe, minha senhora...

Visconde.--O passado já lá vai... Agora v. s.^a é outro homem... Toda a gente diz que quem o viu e quem o vê...

Viscondessa.--Nada de tristezas. A virtude é sempre alegre... Ó menina, vá tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor quando ouve tocar... Que quer que ella toque?

Eduardo.--O que s. exc.^a quizer...

Julia.--Cousas tristes?

Viscondessa.--Não, menina! Bem triste está elle!... Toque alguma cousa do Barbeiro de Sevilha...

Julia.--Pois, sim... (_Vai tocar na sala immediata_).

Viscondessa (_a Eduardo_).--Quer que vamos á sala do piano, ou quer gosar de longe?

Eduardo.--De longe, se v. exc.^a não manda o contrario. (_Jorge, logo depois, segue Julia_).

Visconde.--Muito folgamos de o vêr rehabilitado na opinião publica.

Eduardo.--E estarei-o eu por ventura?

Viscondessa.--Está... Veja... n'um só mez recuperou os creditos perdidos em tantos annos...

Eduardo.--Muito devo a Deus, porque é o contrario que costuma acontecer... Então a snr.^a D. Julia não nós dá o prazer de a ouvirmos? Vai-nos demorando o goso...

Visconde.--Eu vou lá... (_Sahe_).

SCENA III.

Eduardo _e a_ viscondessa.

Viscondessa (_com vivacidade_).--Vês como sahiu certo tudo o que eu te disse? A sociedade é uma excellente pessoa.

Eduardo (_mudança de tom. Ouve-se o piano_).--Tenho notado isso... Achas que vou bem assim?

Viscondessa.--O melhor possivel... Ponto é que te conserves...

Eduardo.--N'este pé de virtude? Já me não desmancho... E, com effeito, dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto...

Viscondessa.--Até o visconde está espantado da tua mudança...

Um creado.--A snr.^a D. Leocadia, e o snr. Alvaro. (_Sahe_).

Viscondessa.--Não sei o que me parece este grupo, a estas horas!... Sabes que eu suspeito...

Eduardo.--Suspeitas?!... Oh!... eu não... Facilidades da innocencia!...

SCENA IV.

_Os mesmos_, D. Leocadia, _e_ Alvaro.

Viscondessa.--Tão tarde!...

Leocadia.--Foi impossivel aquietar o pequeno até agora...

Eduardo (_tornando ao tom beatifico_).--Passou bem, minha senhora?

Leocadia.--Bem...

Alvaro (_dá uma gargalhada_).

Viscondessa.--Que riso é esse?

Alvaro.--Não é nada, minha senhora... Quem toca, é minha mulher?

Viscondessa.--É sim... se quer vá á sala...

Alvaro.--Não, minha senhora. (_Senta-se trombudo a um canto da sala_).

Viscondessa (_a Leocadia_).--Que terá elle? Estranho-o!...

Leocadia.--Eu não sei... Chegou a minha casa quando eu estava para sahir... Disse-me que me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra... e não sei mais nada, nem me importa...

Eduardo (_pesaroso_).--Terá dôr de dentes? São dôres dos nossos peccados... Deus nos acuda...

Viscondessa.--Venha cá, snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que é o S. Paulo dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes... (_Alvaro dá outra gargalhada_).

Leocadia.--Ora entendam lá aquillo!...

SCENA V.

_Os mesmos, e_ Julia, Jorge, _e o_ visconde.

Jorge (_apertando a mão de Leocadia_).--Até que finalmente...

Julia (_apertando a mão de Alvaro_).--Com effeito... demoraste-te.

Alvaro.--Negocios...

Leocadia.--O pequeno não queria adormecer... (_Alvaro dá terceira gargalhada_).

Jorge.--Que riso é esse?

Julia.--A que vem o destempero d'essa gargalhada?...

Viscondessa.--Lá está outra vez mergulhado na sua melancolia o snr. Eduardo!... Quer, talvez, mais musica...

Eduardo.--Se não receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.^a aquella aria da Norma... no acto final...

Viscondessa.--Executada por quem?

Eduardo.--Por v. exc.^a... dá-lhe uma graça particular... Não quero offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas não sei que toque melancolico...

Viscondessa.--Pois sim... hirei... Vamos todos...

Eduardo.--Se me concedesse...

Viscondessa.--Ficar sósinho aqui?... Pois sim... fique.

Visconde.--Eu cá fico com elle...

Viscondessa.--Não, não... deixa-o... são necessidades organicas... Eu tambem tenho d'estas tempestades moraes...

Vozes.--Pois sim... pois sim... (_Sahem_).

SCENA VI.

Eduardo, _e depois_ Julia.

Eduardo.--A gargalhada de Alvaro quer dizer muito... (_Ouve-se a aria da Norma_).

O maldito veria alguma cousa? Se viu, lá vai a terra todo o meu edificio de virtude... Dizem que ella é facil, eu vejo-me illaqueado n'uma rede tal, que se me descobrem não sei por onde hei-de evadir-me... Que pena se me não deixam ser honrado!... Tenho, só n'um mez, colhido tantas palmas de virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um palmito...

Julia (_agitada_).--Eduardo...

Eduardo.--Julia...

Julia.--Pelo amor de Deus, desvanece-me d'uma suspeita que me despedaça...

Eduardo.--Que é?!

Julia.--Tu amas Leocadia.

Eduardo.--É falso...

Julia.--Mas ella adora-te com delirio...

Eduardo.--Que culpa tenho eu?

Julia (_tomando-lhe a mão com frenesi_...)--Não me sacrifiques a ella... a nenhuma... porque nenhuma te amará tanto...

Jorge (_ao fundo_).--Isto é espantoso!...

Eduardo.--Não vês que represento um papel hypocrita, tão contra o meu caracter, para te não perder?

Jorge (_o mesmo_).--É incrivel!...

Julia.--Conheço tudo... meu anjo... Vou á sala... póde notar-se a minha falta...

SCENA VII.

Eduardo , _e depois_ Leocadia, _e depois o_ Visconde _na porta do fundo sem ser visto_. (_Ouve-se ainda a musica da Norma_).

Eduardo.--Tornemos á posição do benemerito Tartufo. Oh meu querido Moliere, onde quer que estás recebe os meus agradecimentos pelo excellente molde que me cá deixaste!

Leocadia (_impetuosamente_).--Eduardo... só duas palavras... Olha que Alvaro viu-te sahir de minha casa...

Eduardo.--Viu?! estão explicadas as gargalhadas...

Leocadia.--Receio maus resultados... Elle é capaz de tirar qualquer vingança... Oh meu Deus!... estou sobre um vulcão...

Eduardo.--E eu dentro d'uma tina... Deixa correr os successos... Vai, que podem descobrir-nos...

Visconde (_á parte_).--Como se explica isto?

Leocadia.--Que has-de tu dizer se elle nos denuncia?

Eduardo.--Provo que não sou mais immoral que elle... As pretenções são as mesmas...

Visconde.--Isto é bonito!... (_Retira-se_).

Leocadia.--Que situação a minha!...

Eduardo.--Retira-te, que podem surprehender-nos... (_Leocadia sahe_).

SCENA VIII.

Eduardo, _e depois a_ viscondessa, _e_ Alvaro _ao fundo_.

Eduardo.--Atropellam-se os acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir que eu tenho sido um homem verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu era cynico, antes que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres não andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim! Ó benevola opinião publica, quanto te devo!... Ahi vem outra que me não faz muita honra!...

Viscondessa.--Aproveitei um instante para estar só comtigo antes que elles venham...

Eduardo.--Como és carinhosa!

Viscondessa.--Desconfiei que Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes que tenho ciumes de todas as mulheres!...

Alvaro (_á parte_).--Que ouço!...

Eduardo.--Continuo a representar bem? A platea applaude?...

Viscondessa.--O visconde disse-me n'este momento que tinha muito que contar-me... perguntei-lhe a que respeito... e elle de fugida pronunciou o teu nome e de Leocadia...

Alvaro (_aparte_).--E Leocadia!...

Eduardo.--E Leocadia!... Como se entende isso?...

Viscondessa.--Não sei... Mudemos de tom que elles ahi vem...

SCENA IX.

_Os mesmos, e_ Julia, Alvaro, Jorge _e_ Leocadia.

Viscondessa (_com emphase_).--Pois não queremos uma virtude assim melancolica... É necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr. Eduardo... A verdadeira felicidade está na consciencia. O seu passado não tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braços como ao filho prodigo... (_Alvaro solta uma risada_).

Que riso é esse, snr. Alvaro?

Alvaro.--É um riso nervoso!...

Eduardo (_á parte_).--Mau!...

Leocadia.--Não tem razões para tanta melancolia!... É estimado geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiança de todas as pessoas... (_O visconde solta uma risada_).

Que risada é essa, snr. visconde?

Visconde.--É uma risada como a d'aquelle senhor (_apontando Alvaro_). É uma risada nervosa!

Eduardo (_á parte_).--Peor!...

Julia.--Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfigurações moraes custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr. Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o não ter sido desde muito... (_Jorge solta uma risada_).

Tambem o senhor se ri?

Jorge.--É uma risada como a d'aquelle senhor... (_apontando Alvaro_) é uma risada nervosa...

Eduardo (_á parte_).--Está tudo por terra!... (_Alto_). Vejo que os meus amigos estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes proveitosos... Não acho bonito que me escarneçam... Fazem-me lembrar a fabula do leão e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas culpas!... (_Riem todos tres_).

Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu não lhes mereço isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e não se cospe assim na honra...

Jorge (_á parte_).--Vou-lhe arrancar a mascara!...

Visconde (_á parte_).--Hypocrita!

Alvaro (_á parte_).--O impostor não passará d'hoje...

Viscondessa.--Que falsa posição é esta?

Leocadia.--Não entendo isto!

Julia.--Nem eu!

Eduardo.--Nem eu!...

Viscondessa.--Que modos são esses!... em que pensam os senhores?...