Chapter 14
Alvaro.--Eu pensava nos recursos do talento depravado!... Senhores!... é necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor (_indicando Eduardo_) é um impostor!
Eduardo.--Eu! Calumnia! infamia... quero as provas...
Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia que as dê...
Visconde.--Justamente: a snr.^a D. Leocadia que as dê!...
Jorge.--Minha mulher!...
Leocadia.--Eu!
Eduardo.--Ella!...
Alvaro _e_ Visconde.--Sim! ella!...
Jorge.--Pois bem... cáia a mascara... Esse senhor é um infame seductor!
Eduardo.--Eu!
Viscondessa.--Elle!
Jorge, Visconde, _e_ Alvaro.--Sim, sim, elle!
Eduardo.--Provas, senhores calumniadores!
Jorge.--Provas? a snr.^a D. Julia que as dê!
Alvaro.--Minha mulher!
Julia.--Eu!
Eduardo.--Ella!
Jorge _e_ Visconde.--Sim, sim, ella!
Alvaro.--N'esse caso... rasgue-se o véo do mysterio... Todos somos victimas da hypocrisia d'esse homem!
Visconde.--Menos eu!
Viscondessa.--Nem eu!
Eduardo.--Provas, senhores!
Alvaro.--Provas? a snr.^a viscondessa que as dê.
Visconde.--Minha mulher!
Viscondessa.--Eu!
Eduardo.--Ella!
Alvaro _e_ Jorge.--Sim, sim!
Eduardo.--Todas tres!...
Alvaro (_para Julia_).--Responde!
Jorge (_para Leocadia_).--Que dizes a isto?
O visconde (_para a viscondessa_).--Pois não te defendes?
Todas tres.--É falso!...
Eduardo (_mudando de tom_).--Eu vou defendêl-as, minhas senhoras!
Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia não tem defeza nenhuma, porque...
Eduardo.--Silencio!
Jorge.--A snr.^a D. Julia não tem defeza nenhuma, porque...
Eduardo.--Esperem!...
Visconde.--Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é preciso que me provem que...
Eduardo.--Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram retirar-se... (_Ellas sahem_).
SCENA X.
Eduardo, Jorge, Alvaro, _e o_ Visconde.
Eduardo.--Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu me regenerei? Respondam, sim ou não?
Alvaro.--Qual _regenerou-se_! É um impostor!...
Eduardo.--Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me: a opinião publica a meu respeito é essa?
Visconde.--Não é... porque o senhor enganou-nos.
Eduardo.--Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a opinião publica á qual me mandaram obedecer?
Visconde.--Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o senhor!
Eduardo.--E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que hoje?
Jorge.--Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio... Quero uma satisfação immediata.
Alvaro.--E eu tambem.
Eduardo.--E o snr. visconde?
Visconde.--Veremos, depois...
Eduardo (_sorrindo_).--Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam, arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda asneira... Que lucram os senhores com isto?
Alvaro.--Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha honra um duello...
Jorge.--Não prescindo.
Eduardo.--Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros que hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (_Indicando Alvaro e Jorge_).
Alvaro _e_ Jorge.--Nós?!...
Eduardo.--Os senhores...
Alvaro.--Porque?!
Eduardo.--Porque teem trabalhado reciprocamente na sua deshonra.
Jorge.--Isso é uma nova infamia!
Eduardo.--Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados!
Alvaro _e_ Jorge.--Na praia dos Inglezes!...
Eduardo.--Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem... Querem explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança... Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (_Comprime os labios com os dedos_...) Os senhores, se -----File: 245.png---\psaborano\zurc\Manela\psaborano\luisa\---------------são honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem...
Visconde.--Mas eu é que não entro n'esse contracto...
Eduardo.--Nem lh'o propuz... mas, v. exc.^a contando com o silencio d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a respeito de... Veja lá o que resolve...
Visconde.--Mas v. s.^a não ha-de entrar mais em minha casa...
Eduardo.--D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de Pariz, e tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio approva... Muito bem... (_Ao fundo_). Minhas senhoras! queiram entrar!... (_As damas entram_). Vv. exc.^{as} foram julgadas innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os seus nomes...
Viscondessa.--Assim o suppuz!
Julia.--Assim devia acontecer!
Leocadia.--Mas eu não perdôo a quem me infamou!
Viscondessa _e_ Julia.--Nem nós!
Eduardo.--Hão-de perdoar, que são muito boas senhoras, e o perdão das injurias é o sentimento mais nobre do coração humano... Eu retiro-me com os meus creditos, e vv. exc.^{as} ficam com os seus... Muito boas noites... (_Sahe_).
* * * * *
Os outros, como é natural, ficam a olhar uns para os outros com aquellas caras proprias de taes conflictos. O author vem fóra dizer que não ha na comedia allusões nenhumas. A platéa retira satisfeita, e continúa a guardar-se dos cynicos.
No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia é immoral, e attentatoria contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o jornal, e mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, vem no conhecimento de que os mordentes são os legitimos _Orgons_ d'este seculo; mas, um pouco menos felizes que os d'uma grande comedia, que o leitor, se se não recorda, ou não leu nunca, póde encontrar com o titulo de _Tartuffe_. Se, todavia, detesta a letra redonda, estude a vida pratica, e chegará á mais difficil das formaturas, ao _ultimatum_ da sabedoria: «o conhecimento dos homens.» É tão facil, ao primeiro intuito, estremar o cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que repellis, e não me relacioneis com o segundo, que abraçaes: que eu, profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o dinheiro, e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a virtude não seja sempre uma irrisão n'este planeta. Disse.
FIM.
INDICE.
Morrer por capricho (romance) 5 Uma paixão bem empregada (romance) 25 De abysmo em abysmo (romance) 35 Aventuras d'um boticario d'aldêa (romance) 41 Cousas que só eu sei (romance) 55 Dinheiro! dinheiro! (romance) 109 A caveira (romance) 131 Uma praga rogada nas escadas da forca (romance) 155 Pathologia do casamento (drama em 3 actos) 183
Notas:
[1] Systema pathologico do snr. Borges de Castro, facultativo distincto, na cidade do Porto, em 1853.
[2] Escripto em 1853.
[3] .......
End of Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco