Scenas Contemporaneas

Chapter 8

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D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa felicidade em sua vida!...

--E depois?

III.

--Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando o somno de um filhinho, que tinha no berço. Perguntou-lhe o marido o que ella fazia a pé á uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho, não podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para repousarem.

O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma carta aberta: «Conhece esta letra, senhora?»--É minha, penso eu--respondeu ella com promptidão.--«Já sabe naturalmente que carta é esta.»--Não sei... será escripta á Antoninha? ou á prima Angela? eu não escrevo a mais ninguem.--«A mais ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais ninguem?»--Juro que não, juro que não... deixa-me vêr essa carta, Luiz, deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela boa sorte da nossa filhinha.--«Veja.»

Miquelina leu estas duas linhas da carta: _Dous dias é uma ausencia insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas flôres_...

Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da desesperação! A surpreza transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina, exhausta de forças, e convencida da realidade daquella infame allusão, desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. Reconheceu que havia alli uma dôr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia dó n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justiça de Deus, devia triumphar.

Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente.

Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte carta:--«Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da Cruz. São quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher. Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da Cruz pôde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe perdão, se lhe já lançaste em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado. Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relações com Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.

_Um teu amigo_.»

Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal sabia ella que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! Eram tocantes as lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena, sem a comprehenderem.

«Peço perdão a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdão d'uma affronta, d'uma calumnia, que a reduziu a esta situação... Na presença de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»--Sim, sim,--bradou ella com enthusiasmo febril--eu perdôo-te de toda a minha alma, Luiz, de todo o meu coração, meu esposo querido!...

Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e foi feliz, verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.

Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.

Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida.

Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta que devia ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões d'um chicote. Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha; mas quando a dôr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lançou a mão. Ella reconheceu-o, e pediu que a deixasse. «Não, minha senhora,--replicou o seu conhecido--eu não posso consentir que v. exc.^a seja assim desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...»--Deixe-me, deixe-me... por piedade, snr. Alvaro de Sousa!

E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota coral.

Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e perguntou a D. Thereza se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que não, que ninguem a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velha _amiga_, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora morava n'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D. Thereza da Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas informações ratificadas por s. exc.^a Perguntou-lhe o nome do aggressor, e ella respondeu que o não dizia.

Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em que a pobre mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; mas Alvaro de Sousa capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher.

E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu comprei com uma libra a satisfação de pagar a v. exc.^a a menor parte d'um grande serviço que lhe devo... Eu não pude esquecer-me nunca de que v. exc.^a com algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para que o servinho de Deus alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que me atacou... Tenha v. exc.^a uma noite feliz.»

E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.

Alvaro de Sousa estava vingado.

--Tens mentido com a mais soberana presença de espirito!--atalhei eu.

--Não minto, juro-te que não minto...

Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de conseguil-a.[3]

E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que qualquer destemido despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...

--O rigor da chronologia--proseguiu o implacavel noticiador--exige que eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.

A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de raiz confiscou-os a fazenda: os moveis estava designado o dia de leilão em que deviam ser vendidos.

O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera que sua mulher ridiculisara as pretenções de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forçar sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que tinha fortes razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal conceito de nobreza de coração, e sensibilidade d'alma que qualquer marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na hora critica d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.

Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situação em que se achavam os negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra que a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos n'estas côres.

Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.

O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram estipulados doze annos seria reformada pelo praso de duas horas......

Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no coração, foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociação com as condições do titulo reformado, conforme a vontade do credor.

E respondeu affirmativamente, com a sagrada condição d'um segredo inviolavel para seu marido.

E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz, com esta carta:

«Meu caro senhor.

«Conforme á negociação que acabo de fazer com sua senhora, remetto doze mil cruzados. Da inclusa carta da exc.^{ma} snr.^a D. Maria da Luz, verá v. s.^a que este contracto é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em vantagem minha é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade que eu não sei se está hypothecada a v. s.^a Supposto me devessem ter sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu não tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transacção que possamos ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos ambos considerar com mais ou menos jus á mesma propriedade. E, como eu tenha resolvido cedêl-a em beneficio de meu lacaio, v. s.^a não terá duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia.

De v. s.^a attento venerador

_Alvaro de Sousa_.»

--E depois?--interrompi com anciedade.

--Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...

--Não digo... palavra d'honra!

--Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente com sua mulher.

--Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?

--Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado.

--E das outras?

--Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma vingança que não póde ser romantisada por ser muito simples.

O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.

Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.

Querem saber onde tudo isto aconteceu?

Agora é que v. exc.^{as} vão ficar surprehendidas...

Foi em Pekim!

Salvei a moral publica!

Cante-se o hymno!

A CAVEIRA.

PROLOGO.

Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances, é capaz de dizer que a lua não tem habitantes, e as alfandegas ratos.

A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins, quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas virgens d'aquella região polar.

Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica.

O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil! (Isto era escripto em 1853...)

A mocidade é assim. A força creadora do talento ha-de supprir a debilidade do thesouro. Onde os capitalistas não chegaram, hirá o artigo de fundo, palpitante de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a aterrar com as forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos periodos arredondados artisticamente.

E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas irradiações do foco civilisador. Um dia, os povos do Marão, agrupados nas cristas das serranias, verão lá em baixo passar o traço negro do carril; e cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor!

Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e influir seriamente no futuro da empreza lyrica.

Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta lerá, na vinha, de barriga ao ar, o _Tymes_, e Benjamin Constant. O proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco ha-de viver quem não vir tudo isto.

Será então chegado o momento solemne de pedir á provincia do norte a historia do seu passado. Serão exploradas então as minas de poesia, entulhadas pelo obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de castellan. O leitor pedirá uma heroica lucta de dous infanções armados da fidalga espada, e verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito de apaixonado melindre.

Mas não será em tudo assim a chronica obscura da provincia, onde vivi alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos para longos trabalhos de muito proveito esthetico, plastico, artistico, e não sei mesmo se cubico, anomalo, e hybrido.

A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, póde ser confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, pelo menos, viviam, ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa authoridade, porque tenho direito a ser acreditado em romances, que tem a honra de assentarem n'uma sincera base.

A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o publico illustrado. Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado _Martim de Freitas_, obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma cornucopia de asneiras este litterato, fallando de Portugal.

O publico tem direitos sagrados, e é realmente ultrajar-lh'os, querel-o capacitar de que Mafra é um porto de mar, e Leiria uma cidade archiepiscopal, e monsieur d'Evora cidadão portuguez.

Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a viabilidade, e o fluido transmutativo são a tripeça em que está sentada a civilisação. Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra.

A CAVEIRA.

I.

Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos. Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada de grande brazão d'armas, e não sei quantas ameias modeladas pelos pilares das açoteas mouriscas. O leitor, que, por louvavel curiosidade, quizer, de perto, capacitar-se da fidelidade architectonica d'esta casa, vá a Villa Real, e na _rua do Cabo da Villa_, pergunte pela casa de D. João de Noronha. Não terá de que maravilhar-se, a não ser da sisuda gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta historias interessantissimas.

Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha.

O _dom_ é quasi sempre, entre portuguezes, indicação de fidalguia remota; mas em D. João de Noronha era uma irrisão para o povo, e uma ignominia affrontosa aos fidalgos da terra. E a razão é esta:

Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da casa.

Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um freguez por causa d'umas tombas, matou-o desastradamente. A justiça apanhou-o, e condemnou-o a pena ultima.

D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os extremos de D. Paula pelo condemnado, e attenda-se á época em que os grandiosos esforços d'uma fidalga são anciosamente empenhados na salvação d'um arrastado verme da plebe.

D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho bastardo de seu irmão, e como tal o perfilha. Desde que esta adopção foi consignada no livro dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha está salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o réo a cinco annos de degredo para Castro-Marim.

O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de figos do Algarve; e, honra lhe seja feita, á hora da morte, declarou que vivera sapateiro e christão, e como sapateiro pedia perdão aos homens, e como christão a Deus porque muito queria salvar-se.

Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque não quiz partilhar das honras heraldicas de seu irmão, que, pelos modos, não eram muito lisongeiras para a memoria de sua mãi.

Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna avultada, adquirida na bigorna.

João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as vocações ardentes do sacerdocio.

Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. João da Silva invejava o acaso d'um nascimento, e desesperava-se na impotencia de associar-se dous appellidos euphonicos, que o guindassem á região dos homens superiores em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha superior em raça ao onagro de Cacilhas.

Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se encabeçasse na linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscripto no livro dos costados a folhas 1473.

João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou uma certidão, hypothecou metade da sua fortuna ao fôro, e consegui-o. Não diremos ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que lhe recebeu os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado de hoje eram litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres móres do reino.

A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria. Fechou os seus salões ao adepto insolente, que ousára assignar-se D. João de Noronha, e mandára insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos Noronhas, É tradição em Villa Real que os Pintos Coelhos, representados hoje por José Antonio Teixeira Coelho de Mello Pinto da Mesquita, mandaram borrifar de sangue as armas de D. João de Noronha. Nada fez recuar o proposito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os odios ao pobre homem não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. João, seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as differenças no azul do sangue fossem saldadas com o amarello do ouro.

Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem creança, e respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a mais sisuda tolerancia. Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se com uma donzella (oitava maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquelle par conjugal, e quiz ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões delirantes, as ternuras idealissimas. Não pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu não era homem de privar d'um capitulo precioso a _Physiologia do Casamento_ de Balzac.

O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra linha no mappa-mundi das minhas observações; e o meu caro D. João morreu poucos dias depois de sua mulher, e é de crêr que, abraçados em frenetica paixão, renascessem, viçosos e frescos como Paulo e Virginia, em mundos novos, e novas constellações. Assim seja!

Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei n'uma caveira, contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviezado de arabescos de marfim.

Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor. Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre cobria aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não concebi que relação podesse existir entre aquella caveira e a paixão de Jesus Christo não ousava, porém, interrogar-lhe o profundo mysterio.

Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na presença da caveira. Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu não pude recuar sem ser conhecido. Vi-lhe lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos meus leitores de coração petrificado chorariam, se vissem a sincera angustia d'aquelle rosto venerando.

--Venha cá--me disse elle--que eu não tenho vergonha de chorar; Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no tumulo a chorar como se entra na vida.

Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha aprendido estas palavras artificiosas, com que fingimos um quinhão de sentimento impostor. Então senti e chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia diz que choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf.

--Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia--proseguiu o consternado ancião.--Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o segredo d'este craneo. Eu gosto de quem respeita a dôr alheia. Quero pagar-lhe essa fineza invocando do tumulo do meu coração o mysterio, que aqui está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr da minha historia, respeite o meu silencio... É que não poderei... Talvez possa... O coração... dizem que manda aos labios muito do seu fel, quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma grande desgraça... Será assim? Eu não sei... vel-o-hemos.

Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia, onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho é um livro. Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, hoje, que, ámanhã, talvez a pedra rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu durmo alli o suspirado somno do infeliz...

II.

D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello á mesa da redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda commoção:

«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito annos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha tenção ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou ambições de subir na posição social. Quiz ser padre, e era-o, se nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a cruelissima amputação da vida da alma, em commercio com o mundo.

Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem, perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdocio. Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga, aberta no coração com um ferro em brasa.

Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem, finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.

No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. Então apaixonava-se um homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me prendiam á deshonra d'um abandono injustificavel.