Chapter 3
O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe cedêra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o juiz de paz, e associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos destinos da freguezia. E o que elles não fizessem dez leguas em redor ninguem o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da Pôça que o sobredito juiz de paz se correspondia com os _governos_ de Lisboa. Não posso abonar na sua integra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a cousa, attendendo á importancia d'um juiz de paz, quando se tracta de fazer um deputado.
O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance. Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das bochechas cahiam-lhe em fórma de sanefas sobre os collarinhos engommados com pós de batata.
As ventas eram dous vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não sei porque analogia estupenda, os dentes acavallados simulavam uma Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capiteis.
Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava quarenta conquistas das melhores raparigas da freguezia. E, honra lhe seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que désse o menor escandalo. Lá como elle fazia as cousas, e a felicidade dos seus triumphos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus peccados, quizer lêr uma pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.
Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dôr de _reins_ na pessoa da tia Maria do Eiró. Não é necessario dizer que a molestia obedeceu. Na mesma casa curou da _triz_ o tio João, e por fim talhou o _bicho_ com perfeição e felicidade á Mariquinhas, rapariga d'uma vez, e cousa de pôr a cara a um lado a mais de quatro _Antonys_ de sócos que lhe andavam por lá a regougar palavras de ternura.
O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo, que não consultei o diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a nossa ignorancia; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso nunca talhar o bicho.
O caso é que o mestre Manoel Pires fallou ao coração da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila viu archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos d'anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os olhos da cara para vêr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a verdade, não era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava á porta.
Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um _estalecidio_ que lhe cahiu nos bofes, segundo a opinião do boticario, e a cura demorada d'esta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes occasiões ditosas de se trocarem palavrinhas de pôrem o coração em maré-cheia de poesia chula.
O dialogo, que mais concorreu para a solução final, foi incontestavelmente o seguinte:
Elle.--O deus Cupido fez dos olhos de vm.^{ce} duas settas, que trespassaram o meu coração.
Ella.--E as palavras de vm.^{ce}, como o outro que diz, são palavrinhas de mel a que não _regeste_ meu sensivel peito.
Elle.--Eu bem queria dizer a vm.^{ce} as ternuras do meu coração, e as congeminencias do meu pensamento. Vm.^{ce} é mais bonita que Venus, e Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vm.^{ce}
Ella.--Pois se vm.^{ce} me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o outro que diz.
Elle.--O fim para que eu fallei a vm.^{ce} só eu o sei; e a troco d'esse negocio faz mingoa fallarmos outra vez.
Ella.--Quando vm.^{ce} quizer, e Deus o faça para bem, que lá eu querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim não é. Uma rapariga que tem seus _cretos_ não deve de perdel-os, e vm.^{ce} bem entende as cousas que é sabio e homem de cabeça, por muitos annos e bês.
Elle.--E vm.^{ce} que os conte. Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde faça-se ao cedo. Se vm.^{ce} me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá da minha bocca as affectiveis ternuras do meu amante coração, onde o deus Cupido cravou as mais duras settas.
Ella.--Pois se vm.^{ce} promette de ter toda áquella de... sim, dizia eu, se vm.^{ce} promette de ter toda áquella... sim... como diz lá o ditado...
Elle.--Pelo deus Cupido lhe prometto a vm.^{ce} de lhe não pôr a minha mão, nem palavra lhe direi que seja escontra a honra de vm.^{ce}.
A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um amante, é certo o triumpho. O amor é realmente o galvanismo dos estupidos, d'esses cadaveres moraes, que se levantam do tumulo da intelligencia, e cantam lerias n'um alamiré celeste! Não nos recordamos de ter lido em romances francezes um dialogo tão fertil d'imagens, tão vibrante de affectos, tão digno, em fim, de ser copiado na carteira d'estes obtusos amadores das salas, para os quaes não ha assumpto, se lhes falharem as reminiscencias do borda d'agua.
Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos para a numerosa clinica que o esperava. Sem exageração, este pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,[1] não podesse salvar o enfermo das aggressões mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade, quer na bocca do _estamago_, quer nos _bofes_ quer nos _miolos_! Este homem despresava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros creadores de nomes barbaros que não fazem nada á saude do cidadão. Honra lhe seja feita!
O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que pythonissa magica, e, por fim de contas, era um relogio, cujo involucro suppria á farta uma bacia de semicupios.
Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes. Manoel Pires enfiou as suas meias de lã até á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado de amarello, e partiu.
Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da Mariquinhas, esperando-a, com a anciedade propria da sua organisação nervosa. Maus fados quizeram que n'aquella noite, e a taes horas, andasse fóra de casa o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu boticario, em quanto o pai não recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na córte das vaccas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava hir afagar a sua vacca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitára sete moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua, mas a bestinha, egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o snr. Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces, que por um tris o não remetteu á galeria posthuma dos pharmaceuticos illustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fêl-o descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava o pai.
--Que fazes tu ahi, rapariga?--bradou elle.
Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos.
Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para comprar, á surrelfa, o seu cordãosinho de ouro.
Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e não ha nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em flagrante delicto.
--Onde está a chave d'este alçapão, rapariga? interpellou o tio João no mesmo diapasão.
--A chave tem-na vm.^{ce}
O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave, resmungando:
--Ora deixa-te estar, que não has-de cá tornar po'lo vêso, minha cabra de não sei que diga!
Fechou o alçapão, e foi-se deitar.
A loja não tinha outra sahida. O boticario, por tanto, achava-se n'uma posição falsa, diz o leitor. Elle sabia lá o que eram posições falsas! O que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá comsigo: «no chão não me deito eu.» Continuou fleugmaticamente a fazer o seu juizo critico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz n'um presunto. Não obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclusão: «de fome não morro eu.» Mais adiante esbarrou n'uma pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para vêr se estava cheia. E o caso é que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade! «Deixa correr o mundo!...» disse elle, e estirou-se francamente sobre a caixa á espera d'um somno regalado.
Passára-se uma hora, e o boticario, começando a pensar seriamente na sua situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Applicou o ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em Dezembro não é facil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos maquinaes, buscando uma sahida qualquer, e encontrou um albardão. «Valha-nos ao menos isto,» disse elle, e pegou do albardão, collocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.
Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.
Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua o seu querido pharmaceutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua dôr sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor sorte.
O pai resonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e sahiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judith não sahiu mais contente da tenda de Holofernes!
Abriu o alçapão com subtileza, mas, no momento em que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um sacco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: «ó rapariga!»
Não se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento profundo dos classicos, a atrapalhação da cachôpa! O tio João procurou as calças, e não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (_proh pudor!_) saltou do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o quinteiro.
O tio João, contra todas as leis da decencia, foi atraz de sua filha, e filou-a pelo gasnete:
--O que hias tu fazer á loja, Maria?
--Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia á caixa do pão ou dos feijões!
--Então a que hias tu lá, diabo?
--Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa...
O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão; mas... ai d'elle!... o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade até á loja.
Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que já não foi ouvido pelo João do Eiró, que desmaiára.
Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido, mas suppoz que era o cahir do alçapão. Atravessou a cozinha, amaldiçoando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar no desenlace d'aquella tragedia.
A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do intimo, tres vezes, o seu João, e como ninguem lhe respondesse, a mulher começou a vestir-se, enfiando responsos a Santo Antonio, de mistura com não sei quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das suas sócas.
E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!
A tia Maria accendeu a candêa, e foi direita á cozinha, que era o ponto convergente de todas as operações d'aquelle drama. Viu o alçapão aberto, e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e grita desentoadamente «aqui d'el-rei ladrões!» A visinhança alarmou-se, e pouco depois os 60 fogos d'aquella aldêa agglomeravam-se no quinteiro do tio João do Eiró.
Os mais destemidos rapazes da aldêa desceram á loja, e encontraram o pobre velho com a cabeça aberta por dous lados, e não sei quantas costellas desmanchadas. Reinou o silencio do mysterio! Ninguem conjecturava a causa d'aquelle estranho successo, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo d'um albardão! Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o albardão, soltou um brado terrivel d'espanto:
--O senhor mestre Manoel Pires!
Hão-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que é necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma sucia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o boticario produziu na chusma de valentões de fouce roçadoura, que o cercavam.
O tio João, tornando a si, foi direito ao boticario para agradecer-lhe a promptidão com que viera cural-o. Mas a tia Maria poz tudo em pratos límpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflicto.
Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladrão, por que a sua importancia, passado o momento da surpreza, começava a soffrer uma grande baixa na opinião dos lavradores.
Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma honrosa satisfação estava chegada. O pharmaceutico, superando com a sua voz o ruido da turba conspirada, disse:
--Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negocio como elle é.
O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante, o segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabeça do seu rival.
--Oh su alma do diabo!... exclamou elle.
Contiveram-no. O snr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era uma cascata de lagrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a _sua fim_, como ella depois disse.
A sua apparição impoz ás multidões um respeitavel silencio.
Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o braço direito em attitude prophetica:
--Esta rapariga é minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a troco d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado é mal acabado. Ámanhã se Deus quizer lêem-se os banhos, e não ha nada mais a fazer aqui!
A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. Os paes, d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu á saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno.
Já lá vão cinco annos.
Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este anno veio a banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram o louvavel desejo de o ser.
E ha-de ser, se Deus quizer.
COUSAS QUE SÓ EU SEI.
COUSAS QUE SÓ EU SEI.
I.
Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de Fevereiro, do corrente anno[2] pelas 9 horas e meia da noite entrava no theatro de S. João, d'esta heroica, e muito nobre e sempre leal cidade, um dominó de setim.
Déra elle os dous primeiros passos no pavimento da platêa, quando um outro dominó de velludo preto veio collocar-se-lhe frente a frente, n'uma contemplação immovel.
O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e virou-lhe as costas com indifferença natural.
O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma attenção, com a mesma penetração de vista.
D'esta vez o dominó-setim aventurou uma pergunta n'aquelle desgracioso falsete, que todos nós conhecemos:
--Não quer mais do que isso?
--Do _qu'isso_!...--respondeu um mascara que passava por casualidade, esganiçando-se n'uma risada que raspava o tympano.--_Olha do qu'isso!_... Já vejo que és pulha!...
E retirou-se repetindo--_do qu'isso... do qu'isso..._
Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a menor contrariedade com este charivari. E o dominó-velludo nem se quer acompanhou com os olhos o imprudente que viera embaraçar-lhe uma resposta digna da pergunta, fosse ella qual fosse.
O _setim_ (fique assim conhecido para evitarmos palavras, e tempo que é um preciosissimo cabedal) o _setim_, d'esta vez, encarou com mais alguma reflexão o _velludo_. Conjecturou supposições fugitivas, que se destruiam mutuamente. O _velludo_ era forçosamente uma mulher. A pequenez do corpo, cuja flexibilidade o dominó não encobria; a delicadeza da mão, que protestava contra o ardil mentiroso d'uma luva larga; a ponta de verniz, que um descuido, no lançar do pé, denunciára debaixo da fimbria do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca reunidos em um homem, captaram as serias attenções do outro, que, incontestavelmente, era um homem.
--Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto! Tomára eu saber o que vês em mim, que tanta impressão te faz!
--Nada--respondeu o velludo.
--Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma semsaboria, mais eloquente que o teu silencio.
--Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e seria um crime de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas graças salobras, capazes de fazer calar para todo o sempre um Demosthenes de dominó.
O _setim_ mudou de opinião a respeito do seu perseguidor. E não admira que o recebesse com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó em corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um theatro, permitte umas suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisongeam a vaidade de quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recahe semelhante hypothese não conhece Demosthenes, nem diz _leso-carnaval_, nem aguça a phrase com o adjectivo _salobras_.
O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O _setim_ juraria, pelo menos, que aquella mulher não era estupida. E, seja dito sem tenção offensiva, já não era insignificante a descoberta, porque é mais facil descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais facil ser Christovão Colombo que Emilio Girardin.
O _setim_, ouvida a resposta do _velludo_, offereceu-lhe o braço, e gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.
--Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, bello dominó...
--_Bello_, me chamas tu!... É realmente uma leviandade que te não faz honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz bonita, ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma exclamação de terror na presença d'um nariz... que nariz não seria, santo Deus!... Não sabes essa historia?
--Não, meu anjo!
--_Meu anjo!_... que graça! Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não sei, nem me importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e voluptuoso como Voltaire aos 60 annos. Imagina que o tedio d'esta vida chilra que se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pythonissa descabellada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de espirito, um anjo de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma d'estas creações miraculosas que fazem rebentar uma chamma improvisa no coração mais de gêlo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão, não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma offensa ao bom senso anatomico, não é verdade? Pois, meu caro dominó; ha corações de toucinho estreme. São os corações, que reçumam oleo em certas caras estupidas... por exemplo... olha este homem redondo, que aqui está, com as palpebras em quatro refêgos, com os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com o queixo inferior pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo d'uma pingadeira, orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece um grande rijão? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho?
--Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado está a gemer debaixo do teu escalpello...
--És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!... É verdade, ahi vai a historia do hespanhol, que tenho que fazer...
--Então queres deixar-me?
--E tu?... queres que eu te deixe?
--Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me...
--És muito amavel, meu querido Carlos...
--Conheces-me?!
--Essa pergunta é ociosa. Não és tu _Carlos_!
--Já fallaste comigo na tua voz natural?
--Não; mas começo a fallar agora.
E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que, que só se escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam a gente a prestar fé aos privilegios, ás prerogativas, aos dons muito peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos não se recordava de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.
«Uma aventura de romance!» dizia elle lá comsigo, em quanto o dominó-velludo, conjecturando o enleio em que pozera o seu enthusiasta companheiro, continuava a fazer gala do mysterio, que é de todas as alfaias aquella que mais alinda a mulher! Se ellas podessem andar sempre de dominó! Quantas mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge Sand! Quantas physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de Abdel-Kader!
--Então quem sou eu?--proseguiu ella--não me dirás?... Não dizes... pois então, tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?
--Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te «anjo.»