Scenas Contemporaneas

Chapter 2

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Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de Côrte-Real, e a tisica de Amelia.

X.

Almoçamos.

D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo não sei que palavras a meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim, supposto que ahi se fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina. Tudo mysterios!

O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares, tremendo de frio, ao pé d'uma bacia de brazas. O attencioso levita teve a delicadeza de nos não convidar a participarmos da sua missa, que n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos devotos.

--Ahi vai agora a continuação da historia--disse o academico, engulindo o fumo de quatro cigarros successivos--A familia d'esta senhora é muito realista, muito fanatica, arde em odio contra os impios, que são todos, menos os sectarios de D. Miguel, e alguns, senão todos, de D. Sebastião. A familia de Côrte-Real é ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle odio saturado na emigração, e não admitte honra, intelligencia, nem merecimento em homem que não fosse capaz de cortar as orelhas a um miguelista, se elle estiver por isso. Já vê que as duas familias detestam-se. De parte a parte no momento em que as relações de Amelia com Côrte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que não hiria!

--Então elles namoravam-se?

--Pois eu não lhe disse já que sim?

--Não, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes no cemiterio para vêl-o, mas que não o via muitas vezes. Eu queria saber como se encontraram... porque... desejo saber como é que a gente póde sahir d'um encontro d'esses!... Não ha muito que me vi entalado com um d'esses encontros... Eu tinha o recado na ponta da lingua, e, quando vi a mocetona, que não era cousa de atarantar um estudante de logica, pegou-se-me a lingua ao céo da bocca, como diz não sei que poeta... _vox faucibus hoesit_... Que lhe disse elle quando a viu?

--Isso é que eu não sei, porque não ouvi. O que sei é que se fallavam por cartas, e entretiveram assim relações seis mezes. Por fim, descobre-se o namoro. Côrte-Real fallava da rua para a janella com Amelia: um tio d'ella é avisado; espera-o no pateo, com a porta fechada, e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto abre a porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram fóra do combate. No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa, o chapéo, e uma clavina, que fôra tres vezes batida á queima roupa do tal varredor de feiras.

--E depois?

--D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e conduzida a casa d'este padre.

--Para que?

--Para ninguem saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde ella tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um convento.

--E Côrte-Real que fez?

--Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia. Como o não soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve accessos de loucura, e, pelo que o senhor me disse, está hoje no hospital de Rilhafolles.

--E Amelia casou-se?

--Pois no casamento é que está o interessante da historia.

Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o irmão do padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito natural que sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se, porque sabia os precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, tractava-o com a fria delicadeza da indifferença, até ao momento, em que recebeu de uma sua tia a noticia de que viera ordem do conselho de familia para ser conduzida a Lisboa, e lá recolhida em um convento.

Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo dispensa de banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem consultar a philosophia, a religião, e a consciencia, casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a liteira que devia levar a orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio com um desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida nenhuma em hir para Lisboa, e para um convento, mas é necessario que meu marido vá comigo.»

--Seu marido!--exclamou o tio estupefacto.

--Meu marido... aqui lh'o apresento.

XII.

--Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido arrependeu-se muito cedo. Ella não se arrependeu, porque sabia que dava um passo que devia matal-a. E, com effeito, está alli... está morta...

...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa... ........................................................................... ...........................................................................

CONCLUSÃO.

Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares:

--Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as suas ultimas palavras ao marido foram estas: MORRO POR CAPRICHO.

UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA.

UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA.

I.

O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no _Penedo da Saudade_, sentou-se, accendeu um cigarro com perfeição academica, abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes, me recitára em Alpedrinha.

--Lembras-te?--disse elle.

--Perfeitamente. Prometteste contar-me então uma historia.

--Vou cumprir a promessa.

--E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa.

--Disse, e vaes vêr porque. Olha que eu não vou fazer estilo. Prepara-te para uma narração simples, e clara. Não pertenço á escóla dos nossos lapidarios de palavras, que nos dizem em estilo de Corneille as scenas comicas de Moliere. A minha historia, se tal nome lhe cabe, é uma tragedia com muitas scenas de farça. Ainda que me não vejas rir, tens a liberdade da gargalhada. Ahi vai:

Em 1843 fui á feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei ahi uma familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se d'uma senhora idosa, que era mãi d'um cavalheiro, e este cavalheiro era pai d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei d'ella, ou antes confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde que a vi, pela primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes. Não lhe disse quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e, aos dezoito annos, um moço d'aldêa tem o coração acanhado, e córa facilmente, quando encontra os olhos d'uma mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A rapariga chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te digo que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que é o tempo!...

Combinamos partir juntos de Villa-Real. Não recordo na minha vida um dia mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade animava-me a dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem senão a sombra do sentimento. Miquelina corava, mas nem por isso sustinha as redeas do cavallo para esperar a avó e o pai, que vinham alguns passos distantes.

Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.

Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabeça, e uma perna quebrada. Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos recolhessemos. Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre onde me encontraste.

O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o irmão do abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os facultativos disseram que era impossivel continuar jornada, e ahi ficamos vinte dias.

N'este espaço de tempo, sonhei a felicidade, por que hoje sei que não existe a realidade d'esses sonhos. Fui muito feliz, senti-me poeta, idealisei á sombra de Miquelina cousas e pessoas que nunca tiveram senão materia vilissima para as aspirações do poeta. Em fim, meu caro, cheguei a recuperar a fé perdida nas cousas da Providencia, porque me parecia impossivel tanta felicidade sem consentimento especial da Providencia.

Disse a Miquelina tudo que humanamente póde dizer-se. Traduzi-lhe em palavras os extasis, que as não tinham. Interessei-a na comprehensão da minha alma, e arranquei-lhe uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos labios, como queimada pelo ardor do pejo. Quando ella me disse «amo-o» se não endoudeci de contentamento, é porque a disposição do meu cerebro é invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e tu, se te não ris, agouro-te que não poderás dizer o mesmo a respeito da tua cabeça, passados alguns annos.

--Porque?

--Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade é endoudecer. Viver com ella em boa paz é escarnecel-a. Ou doudo ou cynico. Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que indistinctamente voto a tudo, é a negação da piedade para todas as dôres nobres, e a do odio para todos os prazeres infames. Não me espanta nada. Aperto a mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma graça. Recebo todos os desaforos como factos consumados. Não dou dez reis pela virtude dos missionarios do Japão, nem daria cinco de volta se elles me trocassem a sua fé pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos bons, ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos de Deus, e Deus, que nos conserva, lá sabe a razão porque o faz...

--Tu não sentes o que dizes...

--Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que digo?! Tu não vês o que está dentro d'este homem, nem pódes ainda ajustar á face do cadaver a mascara que o retrate...

--Mas é possivel ser-se o que tu és?!

--Se é!... Se me não tivesses interrompido, já sabias a razão porque o sou... Nada de interrupções... Se começo a divagar, digo diabruras, perco-me em abstracções, que te hão-de parecer pretenciosas, e lá vai a historia...

--Palavra, que não te interrompo...

--Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina eram já suspeitas ao pai, que não se entremettia paternalmente no negocio. Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e Miquelina não era muito mais rica. Era possivel, e até vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este assumpto em casa do padre, e eu fui consultado por elle.

Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem tão cedo direitos ao materialismo. A pequena, porém, não tinha culpa. Eram cousas da velha, que quebrára a perna, mas ficára com a alma inteira para seguir o recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos, casamento, filhos, aborrecimento, barrete de dormir, catarrho, cangalhas no nariz, e rheumatismo.

Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do officioso abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque não queria dar tal passo sem o consentimento d'um tio, que fôra receber ao Brazil uma herança, que viria augmentar consideravelmente a minha casa.

Ficamos n'isto.

Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão não era das que fogem quanto mais faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de coração, ajuizada de cabeça, fina de espirito, e em quanto á cara, ao corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as seducções eram tantas, e tão a proposito que nunca tive occasião de me sentir de uma illusão desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica. Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao coração com o enthusiasmo do primeiro abraço. Recebi da sua mão tremula, como prenda, o lenço com que enxugára as lagrimas, e retirei-me com o coração partido, mas vaidoso de esperanças, que a saudade me dourava no meu lindo futuro.

Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei, e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo o que a minha alma podia dar de superior áquillo que todos os homens sabem dizer n'uma carta de namoro.

Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram verdadeiros... pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a primeira carta, o coração timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que é a felicidade do homem que primeiro os tira do coração d'uma virgem.

Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis das suas cartas. Tristezas dôces quando me faltavam n'um correio. Zangas sem odio, se o coração de tão longe a criminava de ingrata. Tres mezes assim... e no fim de tres mezes... adevinha o que aconteceu...

--Eu sei cá... morreu?

--Não.

--Veio cá ter comtigo?

--Não.

--Abandonou-te?

--Abandonou.

--Isso é incrivel!

--Acredita. Agora adevinha por quem eu fui preferido.

--Eu só te conheço a ti na tua terra...

--Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura succumbiu ás seducções invenciveis?

--Só assim.

--Ora adeus! Tu não adevinhas, porque não sabes nada de mulheres...

--Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro muito rico?...

--Tambem não...

--Diz lá isso, que estou impaciente...

--Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o meu halito lhe roçava nas faces, a minha pudibunda Virginia que recebeu o meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que parecia resequir-se á mingoa dos meus carinhos... sempre queres que te diga?

--Pois então?

--A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?

--Acaba, homem!

--Com um lacaio da casa!... Ólá! não fiques assim atordoado! Rite, como eu...

--Isto é inconcebivel!... E depois?

--Depois... que queres que eu te diga?

--Que fim teve essa mulher?

--Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado summariamente para não dar que fazer á justiça.

--E ella... vive?

--Creio que sim.

--Na companhia da familia?

--Não... Tu não me disseste que viras no Porto... Fiquemos aqui...

--Isso de modo nenhum... Has-de concluir...

--Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no Porto uma meretriz que revelava uma boa educação, e não queria dizer d'onde era, nem como viera áquella vida?...

--Disse... mas não se chamava Miquelina...

--Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, é a mesma... é a minha promettida esposa, é o anjo dos meus primeiros amores, é a pomba alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... É ella... Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te quizeres embriagar comigo, vamos ao _Paço do Conde_, e beberemos á saude da exc.^{ma} Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixão pelo infeliz lacaio, que desceu ao tumulo... das illustres victimas. Já sabes como se faz um cynico? A esses parvos, que por ahi andam a gaguejar um scepticismo que cheira a cueiros, dá-lhe com uma palmatoria.

E não tornou a fallar-me n'esta mulher.

DE ABYSMO EM ABYSMO.

Eu é que não podia satisfazer a minha curiosidade com a descosida revelação de Valladares.

Muitas vezes acalorei a questão do cynismo, applicando-a a Miquelina; mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas relações estiveram a romper-se, e reataram-se com a condição de eu nunca lhe tocar ligeiramente em semelhante assumpto.

Sujeitei-me; mas, na primeira occasião prosperada pelo acaso, alcancei esclarecimentos, que illucidam a degradação da pobre mulher.

Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida já a sabem. Como veio ella tão abaixo?

Foi assim:

Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina foi conduzida a Lisboa. A avó, que pôde sobreviver ao golpe, quiz salvar a neta da colera do filho. Este ausentára-se para Chaves, no momento em que a filha entrára em casa. De lá, escrevendo á mãi, dizia-lhe que désse á infame algum destino, porque, em quanto a sua presença envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria alli.

D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de Miquelina. Foi este o encarregado de recebêl-a durante alguns mezes na sua casa.

Não se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os seus instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.

O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem, que, por força, havia de ter um nome, e poderia muito bem chamar-se José Maria, não era tão escasso de meios que não comprasse um creado da casa. O creado era o intermedio da correspondencia, menos da ultima carta, surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava José Maria a empregar a força judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo dia, a perigosa «donzella» foi mudada para casa de um general, cunhado de seu tio.

O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para não desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas praticas das theorias um pouco irrisorias na sua idade.

Tinha comsigo duas irmãs, mais novas, que, _mutatis mutandis_, professavam as idêas do irmão.

Dito isto, vê-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era um viveiro de moral.

Foi bem recebida, e até muito bem aconselhada. As irmãs do general fallavam muito da virtude, e da honra. Quem as não conhecesse, acrescentaria duas martyres ineditas ás onze mil virgens conhecidas, de que Byron duvidou, e eu não me sinto muito propenso a acreditar, nem o meu amigo Valladares.

O José Maria não sei que fim levou. Seria algum d'esses quatro que em 1845 se precipitaram dos «Arcos das Aguas-livres!?» Se foi, não andou bem, porque fez as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os _Werthers_ sabem escolher as occasiões, senão... é melhor deixarem-se morrer de tedio, que é a morte que me espera a mim, e a ti, leitor, no fim d'este livro, se não morreres no meio.

O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a, abriu-lhe a outra meia porta da corrupção.

Porque foi assim que as cousas se passaram:

Miquelina affeiçoou-se ao general, como se affeiçoára a Valladares, ao lacaio, e ao José Maria. Trazia o cunho da perdição! Era uma d'estas desgraçadas que a gente vê cahir, cahir, cahir a despeito de todos os estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o movimento n'estas machinas, sem coração nem cabeça? Não se sabe! A verdade é que eu sinto vontade de chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este mundo... Vamos adiante, senão atiro a penna fóra, e rasgo o papel...

Ora já vedes que o general era um devasso, e a pobre menina deve merecer-vos uma pouca de compaixão, se eu vos afianço que o amou, até ao ciume.

Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e lenço entrára no quarto do general, que era ao rez da rua. Miquelina estava doente de cama. Ergueu-se com febre, vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas cambaleando de fraqueza, escutou á porta do traidor, e ouviu risadas, e palavras obscenas.

Era noite, quando isto se passava.

As irmãs do general deram pela falta da hospeda, e desceram a procurar o irmão. Miquelina, quando as sentiu, na incerteza do que devia responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma rua que não conhecia, atravessou umas poucas, chegou a uma praça onde encontrou umas mulheres esfarrapadas que a tractaram por tu, e fugiu até deparar as escadas d'uma igreja, onde um soldado lhe veio dizer palavras desconhecidas.

Fugiu ainda; mas a desgraça corria a par d'ella.

O frio da noite, e a febre do coração aniquilaram-na. Sentou-se n'um portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe com a ponta do pé, e a desgraçada não respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.

Outra patrulha sacudiu-lhe a cabeça pelos cabellos. Miquelina gemeu, abriu os olhos, e pediu erguendo as mãos que a deixassem morrer. Estava perto do hospital de S. José. Os soldados pediram soccorro ao proximo corpo da guarda, e mandaram-na para lá.

No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... não sabemos que enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de manhã, mandou retirar a mulher para um quarto particular, pago á sua custa.

Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de caridade? Não. «Pois não tens uma palavra boa para explicar uma acção nobre?» Nobilissimos leitores, deixai-me suppôr que sois melhores pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada, com as feições de Miquelina. As despezas da cura, além de ficarem encontradas no seu ordenado, seriam pequenas. Uma febre benigna não resistiria ao tratamento de oito dias.

Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela enfermeira, em cuja casa foi residir.

Desde esse dia, chamou-se Rosa. ........................................................................... ...........................................................................

--Que bonita rapariga é aquella que está em casa da A * * * na calçada do Duque?

--É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se Rosa, mas não diz d'onde é, nem quem a trouxe alli.

--Parece bem educada!

--Parece... e não é desbocada... Não tem ainda a consciencia do seu officio... É necessario que perverta a linguagem, se quizer celebrisar-se...

--De quem fallam vossês?--disse um terceiro, que, na Praça do Rocio, veio associar-se ao grupo.

--D'aquella Rosa, que tu denominaste um _cherubim precipitado_ na tua poesia.

--E é...

--É!... pois tu sabes a vida d'ella?

--Sei...

--Contas?

--Não...

Este terceiro era Valladares.

Teve elle coragem de vêl-a face a face?

Não teve: entrou alli com uma mascara na terça feira de Entrudo.

Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de Lisboa.

É por isso que eu a vi no Porto em 1848... ...........................................................................

O general é hoje conde. O menos torpe dos florões da sua corôa é este... Foi _honrado e hospitaleiro_!...

Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde assim viver muitos mais, porque já não sente no paladar o acido do cognac.

E Miquelina?

Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla medico-cirurgica do Porto a retalharam fibra a fibra com os seus escalpellos observadores.

Já vêdes que morreu no hospital, e foi em pedaços atirada ao monturo da santa casa, depois de se prestar, como cadaver, ás lucubrações da anatomia.

Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, porém, que vos não dei aqui a verdade descarnada como ella é no conto melindroso, que vos contei. Escondi-vos metade.

AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.

AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.

O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico que não foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica n'uma aldêa do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratorio chimico era um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no collo por um cylindro de lata. A sua livraria era o _Medico lusitano_, in folio; uma Pharmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado--_Segredos da natureza_. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro vidrado, atapulhados de hervas, que tinham o merecimento chronologico de serem contemporaneas dos garrafões. Afóra isto, não sei que liquidos verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos modos, continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas dôces, extracto d'amoras, solimão, e oleo de mamona.

Com tantos elementos não admirava nada que o snr. Manoel Pires fosse um sabio, não digo consumado, mas superior á intelligencia d'alguns cirurgiões d'aquella redondeza.

Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da snr.^a Therezinha da Fonte. Este triumpho da pharmacia sobre a espinhela elevou o snr. Pires, não direi até ás columnas do _Zacuto_, mas até onde podiam leval-o as suas aspirações de mestre Manoel Pires, como respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.

Um segundo triumpho veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A cura d'uma _ostrução_, que eu não sei o que é, e outra d'umas almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aquelles arredores.