Scenas Contemporaneas

Chapter 4

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--Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és nada original! _Anjo!_... é um appellido tão safado como _Ferreira_, _Silva_, _Sousa_, _Costa_... et cetera. Não vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade. Ficarei sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?... Imagina que te possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que phantasiaste linda, e insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperança, um sorriso affectuoso através da mascara, um aperto convulsivo de mão, uma promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E essa mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez mais radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias, declarando-se muita feia, indecentissima de nariz, horrivel até, e, como tal, pesa-lhe na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando a mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas, abrasas-te n'um ideal, que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de lhe dizer que te abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella não levanta a cortina d'aquelle mysterio que te dilacera uma por uma as fibras do coração. Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se chama Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que, na minha humilde opinião, são completamente fabulosos. O dominó quer fugir-te ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um dito espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os mascaras, que a fixam como quem sabe que está alli uma rainha, envolta n'aquelle manto negro. Por fim, a tua perseguição é tal, que a desconhecida Desdemona finge assustar-se, e sahe comtigo ao salão do theatro para levantar a mascara. Arfa-te o coração na anciedade d'uma esperança: sentes o jubilo do cego de nascimento, que vai vêr o sol; estremeces como a creança a quem vão dar um bonito, que ella não viu ainda, mas imagina ser quanto o seu coração infantil ambiciona n'este mundo... Ergue-se a mascara!... Horror!... vês um nariz... um nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um nariz maior que o do duque de Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a cavallo!... Recúas!... sentes despregar-se-te o coração das entranhas, córas de vergonha, e foges desabridamente...

--Tudo isso é muito natural.

--Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o resto, que é o mais interessante para um mancebo que faz do nariz d'uma mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do coração. Imagina, meu joven Carlos, que sahiste do theatro depois, e entraste na _Aguia d'Ouro_ a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te apparecia fatidico dominó, e se assentava ao teu lado, silencioso e immovel, como a larva das tuas asneiras, cuja memoria procuravas delir na imaginação com os vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes contracções no estomago, que te ameaçam com o vomito. A massa enorme d'aquelle nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já não pódes levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um fragmento d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir com o silencio do dominó; mas não pódes. A inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com um sorriso cruelmente sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos?

--Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a desgraça, porque a missão do poeta é a indulgencia não só para as grandes affrontas, mas até para os grandes narizes.

--Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão da generosidade para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher, pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingança do céo!... aquella mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha seis mil annos! O hespanhol quer ajoelhar áquella dulcissima visão de um sonho, mas a nobre andaluza repelle-o com um gesto, onde o despreso está associado á dignidade mais senhoril.

II.

Carlos scismava na applicação da anedocta, quando o dominó lhe disse, adivinhando-lhe o pensamento:

--Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia não vai tão longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um nariz enorme: não é physico nem moral; é um defeito repulsivo e repellente: é uma cousa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do inferno, que é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me lembro que sou assim defeituosa!

--És um enigma!...--atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que encontrára um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em Portugal.

--Sou, sou!...--acudiu ella com rapidez--sou aos meus proprios olhos um dominó, um continuado carnaval de lagrimas... Está bom! não quero tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui, procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que és espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar algumas horas de illusão. Fóra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me: vamos ao camarote 10 da 2.^a ordem. Conheces aquella familia?

--Não.

--É uma gente da provincia. Não digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e verás que não passas mal... É muito orgulho, não achas?

--Não acho, não, minha querida; mas eu antes queria não desperdiçar estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que tenho ciumes de ti?

--Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas fazer feliz, em quanto a enganas...

--Julgas, por tanto, que te minto!...

--Não julgo, não. Se mentes a alguem é a ti proprio: bem vês que não te creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se não...

--Senão... o que?

--Senão... olha...

E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e retirara-se, apertando-lhe a mão.

Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o frenesi apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se mataria.

--Não--exclamou elle com enthusiasmo--não me fujas, porque me levas a esperança mais bella que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem te conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas deixa-me vêr a face da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete annos...

--Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve cançar-te, e a tragedia desde Sophocles até nós não póde dispensar uma segunda pessoa...

--És um prodigio...

--De litteratura grega, não é verdade? Inda sei muitas outras cousas da Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E serei eu o mesmo? Já vês que a litteratura não é symptoma de virtudes dignas da tua affeição...

Tinham chegado ao camarote na 2.^a ordem. O dominó-velludo bateu, e a porta foi, como devia ser aberta.

A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a attenção d'um leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia um mundo, ou cousa maior que o mundo--o coração d'um poeta.

As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma vida agitada, via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a debilidade d'um sexo, que não póde acompanhar com a materia as evoluções desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi d'aquellas feições! que projecção de uma sombra azulada lhe descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.

O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura.

Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a mão repentinamente como se uma vibora lh'a tivesse mordido.

Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.

--Laura--repetiu o dominó--não me apertas a mão? Deixa-me ao menos sentar-me perto... muito perto de ti... sim?

O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a distincção pela mão.

E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria disfarçar a sua angustia intima.

A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos, enleado nos embaraços naturaes d'aquella situação toda para elle enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinações d'uma mulher que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia aos dominós. Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo, e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia.

Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita, profundamente conhecedora da situação da sua victima, fallou ao ouvido de Carlos:

--Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em circumstancias de ser Max... Soffro demasiado para contar as pulsações d'este coração. Se te sentires condoido d'esta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais desgraçada que ella.

E voltando-se para Laura:

--Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar homenagem á tua conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra, nem esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo, não despresarás vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depôr a teus pés o obulo sincero da sua adoração.

Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, que o sustinha, tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro afflictivo.

E o dominó continuou:

--Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o fructo abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graças á Providencia, que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abysmo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao throno das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma excepção a milhares de desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os olhos da razão a desgraça sentada á cabeceira do teu leito... e, com tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que pódes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?...

Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava, não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder affirmativamente com um gesto.

--Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.

Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar _Laura_, perguntou á mulher que assim era chamada:

--Elisa, ella chama-te _Laura_?

--Não, meu pai...--respondeu Elisa, titubeando.

--Chamo Laura, chamo... e que tem lá isso, snr. visconde?--Atalhou a incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.--É um nome de carnaval, que passa com os dominós. Quarta feira de cinza torna a filha de v. exc.^a a chamar-se Elisa.

O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e fallando naturalmente:

III.

--Henriqueta...

Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia estranho á conversação intima d'aquellas suppostas amigas, não o pôde ser á agitação febril de sua filha.

--Que tens, Elisa?!--perguntou elle sobresaltado.

--Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...

--Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa...

--Antes para casa--respondeu Elisa.

--Eu vou mandar buscar a sege--disse o visconde; e retirou-se.

--Não vás, Elisa...--disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça inexoravel.--Não vás... porque, se vaes, contarei a todo o mundo uma historia que só tu has-de saber. Este outro dominó, que tu não conheces, é um cavalheiro: não temas a menor imprudencia.

--Não me martyrises!--disse Elisa.--Eu sou infeliz de mais, para ser flagellada com a tua vingança... Tu és Henriqueta, não és?

--Que te importa a ti saber quem eu sou?!...

--Importa muito... Sei que és desgraçada!... Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.

O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no salão do theatro. Elisa satisfez a carinhosa anciedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.

--Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não é assim?--perguntou Henriqueta.

--Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia encontrar-te... Que historia me queres tu contar?... a tua? Essa já eu sei... imagino-a... tens sido muito infeliz... Olha, Henriqueta... deixa-me dar-te esse tratamento affectuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo stygma de infortunio...

--O mesmo... não!...--atalhou Henriqueta.

--O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te, direi que invejo a tua sorte, seja ella qual fôr...

Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque eram inimigas. A belleza impõe-se á compaixão. Elisa era bella, e Carlos era d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle já sabia decidir-se entre aquellas duas mulheres. A mascarada _poderia ser_, mas a outra _era_ um anjo de sympathia e formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde o bello; mas decide-se pela belleza real, sem mysterio.

Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes não era possivel avaliar-lhe o coração pela exterioridade da physionomia, exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra:

--Teu marido?

--Está em Londres.

--Ha quanto tempo o não viste?

--Ha dous annos.

--Abandonou-te?

--Abandonou-me.

--E tu?... abandonaste-o?

--Não concebo a pergunta...

--Ainda o amas?

--Ainda...

--Com paixão?

--Com delirio...

--Escreves-lhe?

--Não me responde... Despresa-me, e chama-me _Laura_.

--Elisa!--disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com enthusiasmo nervoso--Elisa! perdôo-te... És bem mais desgraçada que eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um nome... sou Henriqueta! Adeus.

Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com precipitação, e sahiu do camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.

--Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas não me atraiçoes, se queres a minha amisade.

--Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és? Pódes chamar-te Julia em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo mysterios! Tens-me, ha mais d'uma hora, n'um estado de tortura! Eu não sirvo para estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher...

--Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado?

--Não a conhecia...

--Então que mais queres que eu te diga?

--Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella mulher...

--Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra... Estás satisfeito?

--Não... Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquella Laura?

--Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um profundo silencio a respeito do que ouviste. Á menor pergunta que me faças, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a obrigação de te contar a minha vida?

--Não; mas contrahiste com a minha alma a obrigação de eu me interessar na tua vida e nos teus infortunios desde este momento.

--Obrigado, cavalheiro!--Juro-te uma sincera amisade.--Has-de ser o meu confidente.

Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou conversação com a familia que o occupava. Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se para um novo enygma.

Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma analyse rigorosa. Não era possivel, porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda.

--Dominó, porque não deixas vêr este annel?--Perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro, como uma viuva rigorosamente enluctada.

--Que te importa o annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, aqui em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? Fica-te bem essa côr de esquifes, mas não sustentas o caracter artistico com perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade?

--Não me offendas, dominó, que eu não te mereço essa injuria... A desgraça nunca se finge...

--Disseste uma verdade, que é a tua condemnação. Eu, se tivesse sido abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um baile de mascaras. A desgraça não se finge, é verdade; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa d'esse sorriso que te brinca nos labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres que nasceram para esta época, e para estes homens. Ha outras que a Providencia caprichosa atirou a esta geração corrompida como os imperadores romanos atiravam os christãos ao amphitheatro dos leões. Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonisar com o teu genio folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um sophá de pennas, onde te recostas com um perfeito conhecimento das attitudes languidas das mulheres cançadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio!... És a unica mulher para quem este paiz é pequeno. Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e as filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e as aias da duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá é pequenissimo para as Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente pesado em que o coração, nas suas expansões romanticas, encontra, quasi sempre, a mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os respiradouros... Parece que te enfadas de mim?...

--Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me não deres o incommodo de te mandar retirar.

--És muito delicada, minha nobre Sophia!... Já agora, porém, deixa-me dar-te uma idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá... Tens uma sincera paixão, uma saudade pungente por aquelle bello capitão de cavallaria, que te deixou, tão sosinha, com as tuas agonias de amante?

--Que te importa?...

--És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta pergunta?... Quantos annos tens?...

--Metade e outros tantos...

--A resposta não me parece tua... Aprendeste essa vulgaridade com a filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 annos, a não ser mentiroso o assento de baptismo, que se lê no cartorio da freguezia dos Martyres em Lisboa.

Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal... como se chamava... não me recordo... diz-me, por piedade o nome d'esse homem, que, se não, fica o meu discurso sem o effeito do drama... Não dizes, má?... Ai!... eu tenho aqui a mnemonica...

Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou vêr um annel... Sophia estremeceu, e córou até ás orelhas.

--Já te recordas?... Não córes, minha querida amiga... que não fica bem ao teu caracter de mulher que conhece o mundo pela face positiva... Deixa-me agora arredondar o periodo, como dizem os litteratos... Ora tu que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres fingir debaixo d'esse vestido negro, um coração varado de saudades e orphão de consolações?... Adeus, minha bella hypocrita...

Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.

IV.

Eram tres horas.

Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros, mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o sarcasmo só com a presença, só com o vulto corporal, só com a semsaboria de um remoque parvo e pretencioso. O carnaval é uma exposição annual d'estes infelizes.

Carlos, ao vêr que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto irritára a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até com resentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua felicidade de algumas horas.

--Eu não me arrependo--disse elle--de ter sido a voluntaria testemunha de teus desforços... Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria... Ouvi-te, illudi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu coração... estou recompensado de mais... Ainda assim, Henriqueta, eu não tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te um desejo de conhecer-te que não posso illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo n'uma dôr; e será logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixão se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo _impossivel_. Se tu m'o não dizes, quem me dirá o teu nome?

--Não sabes que sou Henriqueta?

--Que importa? E serás tu Henriqueta?

--Sou... juro-te que sou...

--Não basta isto... Ora diz-me... não sentes a precisão de ser-me grata?

--A que, meu cavalheiro?

--Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata á delicadeza com que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencivel que me manda ajoelhar-te... Será nobre zombar d'um amor que involuntariamente fizeste nascer?