Romanceiro III: Romances Cavalherescos Antigos
Part 4
En el mes era de Abril, De Mayo antes un dia, Cuando los lirios y rosas Muestran mas sua alegria, En la noche mas serena, Qu’el cielo hacer podria, Cuando la hermosa infanta Flérida ya se partia; En la huerta de su padre A los árboles decia: —‘Jamas en cuanto viviere Os veré tan solo un dia, Ni cantar los ruiseñores En los ramos melodia. Quédate á Dios, agua clara, Quédate á Dios, agua fria, Y quedad con Dios, mis flores, Mi gloria que ser solia. Voime á las tierras estrañas, Pues ventura allá me guia. Si mi padre me buscáre, Que grande bien me queria, Digan que el amor me lleva, Que no fué la culpa mia. Tal tema tomó conmigo, Que me forzó su porfia. Triste nó sé donde voy: Ni nadie me lo decia.’ Alli habló Don Duardos: —‘No lloreis mas, mi alegria, Que en los reinos de Inglaterra Mas claras aguas habia, Y mas hermosos jardines, Y vuestros, señora mia. Terneis trescientas doncellas De alta genealogía; De plata son los palacios Para vuestra señoria; D’esmeraldas y jacintos Toda la tapeçaría; Las camaras ladrilladas D’oro fino de Turquia, Com letreros esmaltados Que cuentan la vida mia, Contando vivos dolores Que me diéstedes un dia Cuando com Premaleon Fuertemente combatia. Señora, vós me matastes, Que yo a el no lo temia.’ Sus lagrimas consolaba Flérida qu’esto oia, Y fueron-se á las galeras, Que Don Duardos habia: Cincuenta eran por todas, Todas van en compañia. Al son de sus dulces remos La infanta se adormecia En brazos de Don Duardos, Que bien le pertenecia. Sepan cuantos son nacidos Aquesta sentencia mia: Que contra muerte y amor Nadie no tiene valía.
XXXI
A AMA
Bernardim-Ribeiro foi natural da villa do Torrão no Alemtejo, vivia por fins do XIV, principios do XV seculo; era moço fidalgo d’elrei Dom Manuel e servia no paço, onde a belleza e perfeições da infanta Dona Beatriz lhe inspiraram uma paixão de verdadeiro ‘Macias namorado.’ Ainda não estava tam longe o tempo em que princezas e rainhas ouviam sem infado e acceitavam sem desaire as homenagens dos trovadores. Bernardim era moço, talvez bem parecido, discreto decerto: ha toda a razão de crer que foi ouvido com sympathia e indulgencia. Toda a sua felicidade ficou por aqui, segundo elle diz:
‘Que para mais esperar Nunca me deram logar.’
E ésta deve de ser a verdade; ou elle, de fino amante, no’la occultou: em qualquer dos casos devemos crê-lo sôbre sua palavra.
A infanta casou por procuração com o duque Carlos de Saboia, em Lisboa nos paços da Ribeira, a 7 de Abril de 1520[112]; e em Agosto seguinte partiu para Italia. As ‘Saudades’[113] do seu amante ficaram eternizadas no mysterioso livro que com esse titulo compôs. D’elle se extrahiu este romance, propriamente soláo. Tudo aqui é contado e ditto por um modo de enigmas e allegorias inteiramente inexplicaveis para quem ignorasse os mysteriosos amores do trovador e da princeza. Tam sincero—e amiude grosseiro a podêr de sincero—é o modo de dizer dos antigos menestreis, quanto este é delicado por demais, e á força de o ser, obscuro.
O argumento simplissimo diz-se em poucas palavras. Beatriz está retirada em sua camera. Sua paixão por Bernardim é segredo para a boa ama que a criou e que tanto lhe quer. Canta-lhe ésta um ‘cantar’ a modo de ‘soláo’ em que tristemente conta e lamenta a má ventura que desde a nascença tem perseguido a sua querida menina, e que maiores desgraças lhe faz temer no futuro.
O stylo tem toda a ingenuidade dos antigos cantares, todo aquelle perfume de bonina selvagem que só se incontra pelas devezas incultas da poesia primitiva. E todavia, se ainda são as flores singelas do monte, ja se conhece arte no formar do ramalhete. Ja não são as notas desgarradas, e asperas por vezes, do primeiro trovar asturiano ou leonez que tiniam á dureza de ferro dos descendentes de Pelayo. Ja por aqui andam _modos_ de trovador proençal. A melodia porêm ainda é puramente romantica; as harmonias é que presentem fórmas mais classicas. Vê-se o antigo toante do romance peninsular cedendo á difficil e dura lei das complicadas rhymas proençaes. Ha mais ainda; ha uma perfeição no _número_ dos rhytmos que adivinha ja as doçuras italianas. É o trovador do seculo XV dando a mão ao poeta do seculo XVI. O que predomina todavia é o modo provençal; e este é, repitto, um legitimo soláo.
A AMA
Pençando-vos[114] estou, filha, Vossa mãe me está lembrando; Enchem-se-me os olhos d’agua, N’ella vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa; Pera bem inda vos seja! Pois em vosso nascimento Fortuna vos houve inveja.
Morto era o contentamento Nenhuma alegria ouvistes; Vossa mãe era finada, Nós outros eramos tristes.
Nada[115] em dor, em dor criada, Não sei onde isto hade ir ter: Vejo-vos, filha, fermosa, Com olhos verdes crescer.
Não era ésta graça vossa Pera nascer em destêrro: Mal haja a desaventura Que pôs mais n’isto que o êrro!
Tinha aqui sua sepultura Vossa mãe, e a mágoa a nós! Não éreis vós, filha, não, Pera morrerem por vós.
Não ouvem fados razão, Nem se consentem rogar; De vosso pae hei mor dó, Que de si se ha de queixar.
Eu vos ouvi a vós só Primeiro que outrem ninguem; Não foreis vós se eu não fôra: Não sei se fiz mal se bem.
Mas não póde ser, senhora, Pera mal nenhum nascerdes, Com esse riso gracioso Que tendes sob olhos verdes.
Confôrto, mas duvidoso, Me é este que tómo assi! Deus vos dê melhor ventura Do que tivestes téaqui.
A Dita e a Fermosura, Dizem patranhas antigas, Que pelejaram um dia, Sendo d’antes muito amigas.
Muitos hão[116] que é phantesia: Eu, que vi tempos e annos, Nenhuma coisa duvido Como ella é azo de damnos[117].
Nem nenhum mal não é crido, O bem so é esperado: E na crença e na esperança, Em ambas ha hi cuidado, Em ambas ha hi mudança.
XXXII
AVALOR
Este, que é verdadeiro romance na fórma assim como no stylo, parece ter sido feito á partida da infanta para Saboia, ou talvez por occasião da viagem que Bernardim-Ribeiro alli fez para a ver.
Fôsse como ou quando fôsse, elle é admiravel. Ha menos artificio metrico, não menos belleza de poesia que nos outros, não menos sentimento. O stylo é mais desleixado, mais vago, mais de romance.
Em todas as vastissimas collecções castelhanas não ha nada tam bello de elegante simplicidade. Ja se vê que não faço a comparação no genero heroico ou historico; digo-o dos romances de amor e aventura.
AVALOR
Pela ribeira de um rio Que leva as aguas ao mar, Vai o triste de Avalor, Não sabe se hade tornar. As aguas levam seu bem, Elle leva o seu pesar; E so vai, sem companhia, Que os seus fôra elle leixar;[118] Ca quem não leva descanço Descança em so caminhar. Descontra d’onde ia a barca, Se ia o sol a baixar; Indo-se abaixando o sol, Escurecia-se o ar; Tudo se fazia triste Quanto havia de ficar. Da barca levantam remos, E ao som do remar Começaram os remeiros Da barca este cantar: —‘Que frias eram as aguas! Quem as haverá de passar?’ Dos outros barcos respondem: —‘Quem as haverá de passar?’ Frias são as aguas, frias, Ninguem n’as póde passar; Senão quem pôs a vontade Donde a não póde tirar.[119] Tra’la barca lhe vão olhos Quanto o dia dá logar: Não durou muito, que o bem Não póde muito durar. Vendo o sol pôsto contr’elle[120], Não teve mais que pensar; Soltou redeas ao cavallo Á beira do rio a andar. A noite era callada Pera mais o magoar, Que ao compasso dos remos Era o seu suspirar. Querer contar suas mágoas Seria areias contar; Quanto mais ia alongando, Se ia alongando o soar. Dos seus ouvidos aos olhos A tristeza foi egualar; Assi como ia a cavallo Foi pela agua dentro entrar. E dando um longo suspiro Ouvia longe fallar: Onde mágoas levam olhos, Vão tambem corpo levar. Mas indo assi por acêrto, Foi c’um barco n’agua dar Que estava amarrado á terra, E seu dono era a folgar. Saltou assi como ia, dentro, E foi a amarra cortar: A corrente e a maré Acertaram-n’o a ajudar. Não sabem mais que foi d’elle, Nem novas se podem achar: Suspeitaram que foi morto, Mas não é pera affirmar: Que o imbarcou ventura, Pera so isso aguardar. Mas mais são as mágoas do mar Do que se podem curar.
XXXIII
CUIDADO E DESEJO
Todo este soláo—e creio que propriamente este é tambem um verdadeiro soláo—todo elle é alegorico dos mysteriosos amores do ‘poeta das saudades.’
Bernardim-Ribeiro vaga triste e solitario pelas margens de um rio escuro e cuberto de arvoredo. Apparece-lhe o seu _Cuidado_ na figura de um velho incannecido que lhe mostra o seu fatal _Desejo_ todo cuberto de dó; chorando e pensativo declara-lhe que em má hora o viu porque nunca mais o hade esquecer. Some-se a visão; e elle caminha rio abaixo, até dar ‘antre uns medonhos penedos’ (se será Cintra?) onde a _Phantasia_ lhe apresenta sua triste _Lembrança_ na figura de uma bella mulher de ‘loiros cabellos e olhos verdes,’ cuberta de um negro manto. É Beatriz que elle ama, que o adora e que não póde ser sua! Escura noite lhe esconde a visão bemaventurada; e de um ‘alto oiteiro’ lhe bradam (porque não dos Alpes, do Piemonte onde lh’a tinham levado?)—‘Bernardim-Ribeiro, olha onde estás.’
Da demasiada altura onde subiram, seus atrevidos pensamentos lhe fazem recordar quam baixo o tinha pôsto a sorte para se atrever a tanto.—O namorado trovador cerra os olhos para nunca mais os abrir. Que lhe resta a elle que ver o mundo?
Este romance seria feito ao ordenar-se o casamento da infanta com o duque de Saboia? Não vem inserto nas SAUDADES, como o antecedente, da Ama, e o subsequente de Avalor: por isso aqui pôs claro o seu nome de Bernardim-Ribeiro, que no mysterioso livro de cavallarias, ora se disfarça em anagrammas de suas proprias lettras, ora sob as de outros se desfigura, para confundir e inredar a todo o que não tivesse a chave do querido segredo. O nome porêm da infanta nem aqui, nem em parte nenhuma o expôs a ser deciphrado pela mais remota inducção. N’este romance não ha nomes femininos; os que se incontram em tudo quanto escreveu, assim podem ser Maria, Antonia, como Joanna, etc. Em nenhum ha lettras ou sons que se pareçam com os de Beatriz.
Nada digo do stylo, é o mesmo da peça precedente. As bellezas são infinitas; nenhum poeta portuguez escreveu tanto com o sangue de seu coração.
CUIDADO E DESEJO
Ao longo de uma ribeira Que vai pelo pé da serra, Aonde me a mi fez a guerra Muito tempo o grande amor, Me levou a minha dor: Ja era tarde do dia, E a agua d’ella corria Por antre um alto arvoredo, Onde ás vezes ia quedo O rio, e ás vezes não.
Entrada era do verão, Quando começam as aves Com seus cantares suaves Fazer tudo gracioso. Ao ruido saudoso Das aguas cantavam ellas: Todalas minhas querellas Se me puseram deante; Alli morrer quizera ante Que ver por onde passei. Mas eu que digo—passei! Antes inda heide passar, Em quanto hi houver pezar, Que sempre o hi hade haver.
As aguas, que de correr Não cessavam um momento, Me trouxera’ ao pensamento Que assim eram minhas mágoas, D’onde sempre correm aguas Por estes olhos mesquinhos, Que têem abertos caminhos Pelo meio do meu rosto. E ja não tenho outro gôsto Na grande desdita minha. O que eu cuidava que tinha Foi-se-me assim não sei como, D’onde eu certa crença tómo Que, para me leixar, veio.
Mas, tendo-me assi alheio De mi o que alli cuidava, Da banda d’onde agua estava Vi um homem todo cam[121], Que lhe dava pelo cham A barba e o cabello. Ficando eu pasmado d’ello, Olhando elle para mi, Fallou-me e disse-me assi: —Tambem vai ésta agua ao Tejo.’
N’isto olhei, vi meu Desejo Estar de trás triste e só, Todo cuberto de dó, Chorando sem dizer nada, A cara em sangue lavada, Na bôcca posta ũa mão, Como que a grande paixão, Sua falla lhe tolhia.
E o velho que tudo via, Vendo-me tambem chorar Começou a assi fallar: —‘Eu mesmo são[122] teu Cuidado Que n’outra terra criado, N’esta primeiro nasci. E ess’outro que está aqui É o teu Desejo triste; Que má hora o tu viste Pois nunca te esquecerá! A terra e mar passará Traspassando a mágoa a ti’
Quando lhe eu aquisto ouvi, Soltei suspiros ao chôro; Alli clarante o fôro Meus olhos tristes pagaram De um bem só que elles olharam, Que outro nunca mais tiveram. Nem o tive, nem m’o deram, Nem o esperei somente: De só ver fui tam contente, Que pera mais esperar Nunca me deram logar.
E n’aquisto, triste estando Com os olhos tristes olhando D’aquellas bandas d’alêm, Olhei e não vi ninguem. Dei então a caminhar Rio abaixo, até chegar A cêrca de Montemór.
Com meus males de redor, Da banda do meio-dia, Alli minha Phantasia, D’antre uns medrosos penedos, Onde aves que fazem medos De noite os dias vão ter, Me sahiu a receber Com ũa mulher pelo braço, Que, ao parecer de cansaço Não podia ter-se em si, Dizendo:—‘Vês, triste, aqui A triste Lembrança tua.’ Minha vista então na sua Pus, d’ella todo me enchi: A prima coisa que vi E a derradeira tambem, Que no mundo vão e vem!
Seus olhos verdes rasgados De lagrymas carregados, Logo em vendo-os, pareciam Que de lagrymas enchiam Contino as suas faces, Que eram, gran’ tempo, paces[123] Antre mi e meus cuidados.
Loiros cabellos ondados Um negro manto cubria: Na tristeza parecia Que lhe convinha morrer. Os seus olhos de me ver, Como furtados, tirou, Depois em cheio me olhou. Seus alvos peitos rasgando Em voz alta se aqueixando, Disse assi mui só sentida: —‘Pois que mor dor ha na vida Para que houve ahi morrer?’ Callou-se sem mais dizer. Eu de mi gemidos dando, Fui-me para ella chorando Para a haver de consolar...
N’isto pôs-se o sol ao mar, E feze-se noite escura, E disse mal á ventura E á vida, que não morri... E muito longe d’alli, Ouvi de um alto oiteiro Chamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’ E dizer:—‘olha onde estás!’ Olhei de ante e de traz E vi tudo escuridão, Cerrei meus olhos então, E nunca mais os abri, Que depois que a perdi Nunca vi tam grande bem. Porêm inda mal, porêm!
XXXIV
O CORDÃO DE OIRO
Não parece ésta uma d’aquellas _verdes_ anecdotas que a prosa de Bocacio e os versos de Lafontaine immortalizaram? O stylo é menos licencioso, porque, sincera e nua ás vezes, comtudo é sempre mais casta a poesia primitiva. O seu pudor é o da ingenuidade que se despe porque mal não pensa, não o da hypocrisia que por maliciosa se cobre. Comtudo os dois ultimos versos são um verdadeiro remate de epigramma que faria honra a um poeta da eschola de Voltaire, e podia ser feixo de uma cantiga de vaudeville de Scribe. Entre portuguezes, só D. Francisco Manuel de Mello ou Nicolau Tolentino os faria tam naturaes e tam picantes ao mesmo tempo.
Assim a adivinhar, que é o unico modo de entrar n’estes pontos, orço a data d’esta composição pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por meados do seculo XVII.
É ommisso nos romanceiros dos nossos vizinhos; e em Portugal não tenho noticia de que se incontre senão na tradição oral de Tras-os-Montes, onde achei tres cópias d’elle, uma mais completa que as outras: d’ellas se appurou o presente texto. As variantes quasi todas despreziveis.
O CORDÃO DE OIRO
Lá se vai o capitão C’os seus soldados á guerra: Duzentos eram quintados, Eram duzentos de leva[124]. Se todos elles vão tristes, Um mais que todos o era; Baixa trás a sua espada, Seus olhos postos em terra. Lá no meio do caminho O capitão lhe dissera: —‘Porque vais triste, soldado, Essa paixão por quem era?’ —‘Não é por pae nem por mãe, Nem por irman que eu tivera[125], É pela espôsa que deixo Lá tam só na minha terra. Este cordão de oiro fino, Que sette arrateis bem pésa, Mais me pésa a mim levá-lo, Que ao partir lh’o não dera!’ —‘Soldado, tens sette dias Para que voltes a vê-la. Se a incontrares chorando, Ficas sette annos com ella: Senão, nem mais uma hora Terás de aguardo ou de espera.’ Quem saltava de contente O meu soldadito era.
Deixou estrada direita, Por atalhos se mettêra; Inda não é meia-noite, Á sua porta batêra. —‘Quem bate á minha porta; Quem bate com tanta pressa?’ —‘É um soldado, senhora, Que vos trás novas da guerra.’ —‘Mal haja a nova que trás, E mais quem veio trazê-la! Ergue-te tu, minha vida, Assoma-te a essa janella; Despede-me esse soldado Que a tam má hora aqui chega.’ —‘Amigo, vindes errado Co’as vossas novas da guerra: Deixae-nos dormir em paz, Que bem precisamos d’ella.’
Foi-se d’alli o soldado Mais prompto do que viera: —‘Bem haja o meu capitão Pelo bem que me fizera! Com sette dias de aguardo... Nem sette horas carecêra Para me quitar saudades, Livrar-me de toda a pena! Tomae lá meu capitão Os mimos da minha terra; Este cordão de oiro fino, Que agora inda mais me pésa. Minha mulher não precisa, Que os primos podem mantê-la.’ —‘Pois tua mulher tem primos, E tu vinhas com dó d’ella!...’
XXXV
O CEGO
Ha duas balladas escriptas em dialecto escocez por elrei James V de Escocia, que ambas se parecem muito com ésta. Uma especialmente, ‘_The Gaberlunzie man_,’ até no metro e nas fórmas exteriores dá bastantes ares da nossa xácara. Começa assim:
The pauky auld carle come ovir the lee Wi’ mony good-eens and days to mee, Saying: Goodwife, for zour courtesie, Will ze lodge a silly poor man?[126]
O rei James, que morreu de trinta e tres annos, em 13 de Dezembro de 1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos de mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras pelas aldeas ou pelos bairros escusos das cidades. Cantor de seus proprios feitos, celebrava-os depois em gallantes trovas, a que não falta a graça nem o chiste do genero. A que se intitula _The Jolly Beggar_, e que por licenciosa e fresca de mais, a não admittiu o bispo Percy na sua collecção, talvez tenha ainda mais merito de arte.
O _Gaberlunzie man_ da real ballada é porêm todo inteiro o _Cego_ da nossa xácara, menos em certos incidentes que são mais poeticos e mais interessantes na composição portugueza.
Disfarçado em trajos de cego mendigo, um senhor de alta jerarchia fallou de amores a uma donzella de muito inferior nascimento que vivia com sua velha mãe. Por accôrdo, mais ou menos expresso entre os dois amantes, se appresenta este por noite á porta da velha com sua caramunha. A mãe dorme; e Anninhas, que responde ao cego, parece fazê-lo ou com ironia ou em pique de ciumes, e por nenhum modo lhe quer abrir ‘porta ou postigo.’
Põe-se o cego a cantar lamentosamente a soa desgraça; e com a chorada cantilena se abranda ou finge abrandar-se o coração da rapariga. Desperta a mãe para que o venha ouvir; e quando ésta condoida lhe manda dar esmola, o cego recusa, não quer senão que o ponham no caminho que perdeu. É a propria velha, coitada, a que diz á filha que lh’o va insinar. E assim fogem os dois, com a maior tranquilidade com que ainda fugiram amantes.
Note porêm a maestria do nosso poeta popular. A fugitiva sustenta sempre aquella tam perdoavel hypocrisia feminina, último protesto do pudor moribundo. Fiando homericamente na sua roca, vai fingindo guiar o cego, vai parecendo acreditar que não sabe aonde nem a que vai. Senão quando, apparece um tropel de cavalleiros: é a comitiva do nosso rei incuberto, principe ou conde pelo menos. Adeus gaivão de cego, e andrajos de mendigo! A cavallo e trotar largo! Ja o cego vê, ja a donzella sabe onde vai. E com este seu fino e malicioso ditto, conclue a trova:
Um cego me leva, e vejo o caminho!
Tal é o argumento da cantiga portugueza muito mais romanesco do que o das escocezas, pôsto que seja o mesmo o fundo da anecdota.
Não duvido suppor que talvez de Glasgow ou de Aberdeen trouxessem os nossos mareantes ésta historia, e de Vianna ou do Porto se internasse pelo Minho onde ella é mais vulgar. Não lh’o pagariamos so em vinho e frutta aos nossos amigos do norte, porque em mercadorias d’aquelle mesmo genero para lá temos exportado bastante.
A forma métrica é a do romance de Sancta Iria. O texto foi restituido com difficuldade, porque ésta fórma se presta ainda mais á corrupção do que a outra, desafiando o prolifico talento dos nossos trovadores de aldea a bordar seus pretenciosos floripondios sôbre a singela telagarsa do original.
Vão por ementa, appontadas algumas variantes menos absurdas.
O CEGO
—‘Abre a porta, Anna, abre de mansinho[127], Que venho ferido, morto do caminho.’ —‘Se vindes ferido, pobre coitadinho! Ireis muito embora por outro caminho.’ —‘Ai! abre-me a porta, abre de mansinho, Que tam cego venho, não vejo o caminho.’ —Porta nem postigo não abro ao ceguinho, Va-se na má hora pelo mau caminho.’ —‘Ai do pobre cego que anda sosinho Cantando e pedindo por esse caminho!’
Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho[128] Como canta o cego que perdeu o caminho.’ —‘Se elle canta e pede, da-lhe pão e vinho; E o pobre cego que va o seu caminho.’ —‘O teu pão não quero, não quero o teu vinho, Quero só que Anninhas[129] me insine o caminho.’ —‘Toma a roca, Anna, carrega-a de linho, Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.’
—‘Espiou-se a roca, acabou-se o linho, Fique embora o cego, que este é o seu caminho.’ —‘Anda mais, Anninhas, mais um bocadinho, Sou um pobre cego, não vejo o caminho.’ —Ai! arreda, arreda para este altinho, Que ahi véem cavalleiros por esse caminho.’ —‘Se vêem cavalleiros, vêem de vagarinho, Que ha muito me tardam por este caminho.’ A cavallaria passou de mansinho... Cego, lo meu cego ja via o caminho[130]. Montou-me a cavallo com muito carinho... Um cego me leva... e vejo o caminho!
XXXVI
LINDA-A-PASTORA
Quem desce Tejo abaixo, por ésta margem do Norte onde está Lisboa, e tendo saudado o precioso monumento de Belem, a sua tôrre não menos bella, entra no fashionavel Pedroiços e d’ahi segue ás praias do Dafundo até á Cruz-quebrada, tem dado o mais bonito passeio que se póde dar nas vizinhanças da capital, e visitado os sitios que, depois de Cintra, mais frequenta a sociedade elegante da nossa terra. De fins de Agosto a principios de Novembro é que tudo alli corre, e que os banhos do mar povoam aquelles bellos ermos, nas outras estações desamparados.