Romanceiro III: Romances Cavalherescos Antigos

Part 3

Chapter 33,598 wordsPublic domain

A edição arraiana d’este romance que me veio de Tras-os-montes chama-lhe ‘A filha do imperador de Roma.’ Não a segui no titulo nem em muitas partes do texto, incostei-me antes á licção da Beiralta. E so éstas duas me chegaram; não me consta que n’outras provincias do reino seja conhecido.

Que imperador será este? Teremos aqui algum episodio da crapulosa historia byzantina, ou é outro capitulo licencioso da chronica secreta de Carlos-Magno? O trovador, que a trovou n’essa meia-edade, cujo sêllo visivelmente lhe pende de todas as coplas, não pôs nomes nem datas, segundo o geral costume: e adivinhe quem quizer se este imperador de Roma era do occidente ou do oriente, do alto ou do baixo imperio, Cesar verdadeiro ou Kaiser de imitação germanica? Deve de ser d’estes ultimos pela menção do duque de Lombardia que no fim apparece.

A licção da Beira, que segui mais que a transmontana, tem muitas variantes obscenas que forçosamente deviam ser desprezadas. Nem as creio originaes, senão introduzidas pelo depravado gosto de algum _roué_ d’aldea.

Nos romanceiros castelhanos não se incontra, e para o sul de Portugal é inteiramente desconhecido. Todavia, assim restituida pela collação dos dois textos que obtive, ésta ficou uma das mais completas reliquias da nossa poesia popular que possam incontrar-se.

O CEGADOR

O imperador de Roma Tem uma filha bastarda A quem tanto quer e tanto Que a traz mui mal criada. Pedem-lh’a condes, senhores[87], Homens de capa e d’espada; Ella isenta e desdenhosa A todos lhes punha tacha: Um é criança, outro é velho[88], Este que não tinha barba, Aquelle que não tem pulso Para puchar pela espada. Dizia-lhe o pae surrindo: —‘Inda hasde ser castigada! De algum villão de porqueiro Te espero ver namorada.’

Por manhan de San’ João, Manhan de doce alvorada, Ao seu balcão muito cedo[89] A infanta se assomava. Viu andar tres cegadores Fazendo sua cegada; O mais pequeno dos tres Era o que mais trabalhava. Fitta que traz no chapeu De oiro e seda era bordada; Fina prata que luzia A foice com que ceifava. De seu garbo e gentileza A infanta se namorava. O ceifeiro vai ceifando... Bem sabe elle o que ceifava!

Alli estava a aia discreta Em quem toda se fiava: —‘Ves, aia, aquelle ceifeiro Que anda n’aquella cegada? Condes, duques, cavalleiros, Nenhum que o ceifeiro valha. Vai-m’o chamar em segredo, Que ninguem não saiba nada.’

—‘Bom cegador, vem commigo, Que te quer fallar minha ama.’ —‘Tua ama, não n’a conheço Nem tam pouco a quem me chama[90].’ —‘Cegador de boa estrea, Traze’la vista mui baixa: Alça os olhos e verás A estrella da madrugada.’ —‘Vejo o sol que vem nascendo, Não vejo a estrella d’alva.’ —‘Estrella ou sol, vens commigo?’ —‘Irei, pois quem póde, manda.’

Entraram por um postigo, Que a porta inda era cerrada; No camarim da princeza O bom do ceifeiro estava. —‘Senhora que me quereis? Pois venho á vossa chamada.’ —‘Quero saber se te atreves A fazer minha cegada?’

—‘Atrever, me atrevo a tudo; Trabalho não me accovarda. Dizei vós, senhora minha, Onde é a vossa cegada.’ —‘Não é no monte ou no valle, No baldio ou na coitada; Cegador, é nos meus braços, Que de ti estou namorada.’

Passou todo aquelle dia[91], O mais da noite passava, Ceifando vai o ceifeiro... Bem sabe elle o que ceifava! —‘Basta, basta, cegador, Feita está tua cegada: Vai-te, que meu pae não venha, Antes de ser madrugada.’

Palavras não eram dittas, O pae á cama chegava: —‘Com quem fallas, minha filha, Tam cedo de madrugada?’ —‘Fallo com ésta minha aia Que me tem desesperada; Uma cama tam mal feita Que dormir me não deixava.’ —‘É forte aia essa tua Que a barba tem tam cerrada! Vista-se ja a donzella, Que, antes de ser madrugada, Pelo barbeiro do algoz A quero ver barbeada.’ O cegador muito inchuto Sua sentença escutava, Com uma mão se vestia, Com a outra se calçava. Saltou no meio da casa Como se não fôra nada: —‘Venha ja esse barbeiro Com a navalha affiada: Ao duque de Lombardia Veremos quem faz a barba.’

O imperador mui contente Depressa alli os casava. Não quiz senhores, nem condes Homens de capa ou de espada, Senão só o cegador Que andava em sua cegada. Podia ser um porqueiro Que a deixasse deshonrada... Sahiu-lhe um duque reinante, Senhor de alta nomeada. Pois tudo é sorte no mundo, A sorte foi bem deitada.

XXVIII

A NOIVA ARRAIANA

Veio de Almeida ésta xácara; e de nenhuma outra parte do reino me chegou outra licção d’ella, nem vestigio. Bem antiga me parece. O fronteiro que mandou ao mar a armada do cavalleiro ausente, faz pensar que isto seja coisa do tempo das nossas emprezas de Africa. O logar da scena é inquestionavelmente na raia—e bem pôsto está ao romance o titulo de ‘Noiva arraiana’. Mas aqui ha mar, e armadas que vão ao mar: não póde pois ser outra a raia senão a do Algarve. O stylo da cantiga é ingenuo e purissimo; os costumes que descreve primitivos e patriarchaes; ha um sabor homerico n’este narrar e n’este fallar, que ninguem póde confundir com o dizer estudado de trovadores mais modernos. Poetas de civilisação mais adeantada não sabem ou não podem chegar tanto a rés da natureza.

O facto é simples e mil vezes visto. Outra edição da Lucia de Lamermoor, outro cavalleiro de Ravenswood que apparece de repente no meio da voda de sua debil e mal constante namorada, quando ella, ja desposada com outro, menos esperava tornar a ver o primeiro amante—o seu, o que ella unicamente quer. Quem não lembra de Walter-Scott, e de Donizetti tambem, e do que vibram na alma as palavras de um, as notas do outro, inspiradas por ésta situação altamente dramatica; sublime de angústia e desesperação?

O nosso trovador arraiano tomou as coisas com mais tento e socêgo; não indoudeceu nem mattou a sua Lucia; e nem d’ella nem do seu Ravenswood nos diz que mattassem a mais ninguem. O cavalleiro portuguez faz justiça por outro modo nos que o tinham atraiçoado. Levou-lhes a noiva, e deixou-lhes ficar a voda e o jantar.

A NOIVA ARRAIANA

—‘Deus vos salve, minha tia, Na vossa roca a fiar!’ —‘Venha embora o cavalleiro Tam cortez no seu fallar!’ —‘Má hora se elle foi, tia, —‘Má hora torna a voltar! Que ja ninguem o conhece De mudado que hade estar. Por lá o mattassem moiros, Se assim tinha de tornar!’ —‘Ai sobrinho de minha alma, Que es tu pelo teu fallar! Não ves estes olhos, filho, Que cegaram de chorar?’ —‘E meu pae e minha mãe, Tia, que os quero abraçar?’ —‘Teu pae é morto, sobrinho, Tua mãe foi a interrar.’ —‘Qu’é da minha armada, tia, Que eu aqui mandei estar?’ —‘A tua armada, sobrinho, Mandou-a o fronteiro ao mar.’ —‘Qu’é do meu cavallo, tia, Que eu aqui deixei ficar?’ —‘O teu cavallo, sobrinho, Elrei o mandou tomar.’ —‘Qu’é de minha dama, tia, Que aqui ficou a chorar?’ —‘Tua dama faz hoje a voda, Ámanhan se vai casar.’ —‘Dizei-me onde é, minha tia, Que me quero lá chegar.’ —‘Sobrinho, não digo, não, Que te podem lá mattar.’ —‘Não me mattam, minha tia; Cortezia eu sei usar: E onde faltar cortezia, Ésta espada hade chegar.’

—‘Salve Deus, ó lá da voda, Em bem seja o seu folgar!’ —‘Venha embora o cavalleiro, E que se chegue ao jantar!’ —‘Eu não pretendo da voda Nem tam pouco do jantar; Pretendo fallar á noiva, Que é minha prima carnal.’

Vindo ella lá de dentro Toda lavada em chorar, Mal que viu o cavalleiro, Quiz morrer, quiz desmaiar. —‘Se tu choras por me veres, Ja me quero retirar; Se é os teus gastos que choras, Aqui estou para os pagar.’ —‘Pagar devia co’a vida Quem me queria inganar, Quando te deram por morto N’essas terras d’além-mar. Mas que fiquem com a voda E bem lhes preste o jantar, Que os meus primeiros amores Ninguem m’os hade quitar.’

—‘Venha juiz de Castella, Alcaide de Portugal; Que, se aqui não ha justiça, Co’ésta espada a heide tomar.’

XXIX

GUIMAR

Dona Guimar—ou Dona Agueda—de Mexia, como lhe chama a licção do Alemtejo, é um interessante romancinho que apparece na tradição d’aquella provincia e na de Extremadura. Por ambas se apurou o texto que aqui dou.

Nem por outras provincias nossas, nem pelas collecções castelhanas ha outro vestigio d’elle, que eu saiba.

Não é muito antigo o stylo. Mas o facto celebrado é o de uma morte apparente com a qual parece se julgou dissolvido o matrimonio: e d’isto houve exemplos em tempos remotos em que tinham por certa a morte, e por verdadeira resurreição o tornar a si o supposto defuncto.

Seja porêm qual for a data d’esta composição, ha coplas d’ella que vão de par com o mais bello e original da poesia mais primitiva. Notarei especialmente a volta de Dom João á sua terra n’aquella manhan de maio, que os passarinhos cantavam, os sinos tangiam e o rir da natureza se misturava com o chorar dos homens. Tambem não creio que haja nada mais bello que estoutros versos quanto a morta vai tornando a si e pondo olhos no amante:

Volta a vida que se fôra Com todo o amor que não se ia.

GUIMAR

Era a menina mais linda[92] Que n’aquella terra havia; Tam formosa e tam discreta De outra egual se não sabia. Muito lhe quer Dom João, Muito demais lhe queria: Seus amores, seus requebros Não cessam de noite e dia. Por fidalgo e gentil moço Ninguem tanto a merecia; Senão que o pae da donzella[93] Outro conselho seguia: Casá-la quer muito ricca Com um mercador que ahi havia, Sem fazer caso de amores, Sem lhe importar fidalguia. Dom João, quando isto soube[94], Por pouco se não morria: Foi-se d’alli muito longe Sem dizer para onde ia. Tres mezes por lá andou, Tres mezes n’essa agonia; A vida que lhe pesava Soffrê-la ja não podia. Mandou sellar seu cavallo Sem cuidar no que fazia; Deitou por esses caminhos Sem saber adonde ia. O cavallo é quem mandava, Cavalleiro obedecia. Passou por terras e terras, Nenhuma não conhecia. Á sua tinha chegado, Onde estava não sabia. Era por manhan de maio, Todo o campo florecia, Os passarinhos cantavam, O prado verde surria; Lá de dentro da cidade Um triste clamor se ouvia Eram sinos a dobrar, E era toda a clerezia, Eram nobres, era povo Que da egreja sahia... Entrou de portas a dentro, De rua em rua seguia, Chegou á de sua dama[95], Essa sim que a conhecia. As casas onde morava, Janellas aonde a via, Tudo é cuberto de preto, Mais preto que ser podia[96]. Mandou chamar uma dona[97] Que ella comsigo trazia: —‘Dizei-me por Deus, senhora, Dizei-me por cortezia, Esse lutto tam pesado Por quem trazeis, que seria?’ —‘Trago-o por minha senhora, Dona Guimar de Mexia[98], Que é com Deus a sua alma, Seu corpo na terra fria. E por vós foi, Dom João, Por vosso amor que morria[99].’ Dom João quando isto ouviu[100] Por morto em terra cahia, Mas a dor era tammanha[101] Que á fôrça d’ella vivia. Os seus olhos não choravam, Sua bôcca não se abria. Mirava a gente em redor Para ver o que faria. Vestiu-se todo de preto, Mais preto que ser podia[102], Foi-se direito á egreja Onde sua dama jazia[103]: —‘Eu te rogo, sacristão, Por Deus e Sancta Maria, Eu te rogo que me ajudes[104] A erguer ésta campa fria.’ Alli a viu tam formosa Tal como d’antes, a via; Alli, morta, sepultada, Inda outra egual não havia, Pôs os joelhos em terra, Os braços ao ceo erguia, Jurou a Deus e á sua alma Que mais a não deixaria. Puchou de seu punhal de oiro[105], Que na cintura trazia, Para a accompanhar na morte Ja que em vida não podia. Mas não quiz a Virgem sancta[106], A Virgem Sancta Maria, Que assim se perdesse uma alma Que só de amor se perdia. Por juizo alto de Deus Um milagre se fazia: A defuncta a mão direita Ao seu amante extendia, Seus lindos olhos se abriram, A sua bôcca sorria; Volta a vida que se fôra, Com todo o amor que não se ia. Seu pae, o foram buscar, Que ja estava na agonia; Véem amigos, véem parentes, Todos em grande alegria. Dão graças á Sancta Virgem, Cujo milagre seria; E a Dom João dão a espôsa, Que tam bem a merecia.

XXX

DOM DUARDOS

O último conhecido dos nossos poetas populares antigos, o verdadeiro fundador do theatro d’Hespanha, Gil-Vicente, não era só poeta comico, segundo vulgarmente se crê ás cegas, porque poucos abrem os olhos para o ler com attenção, para estudar n’elle, como todos deviam, lingua, costumes, stylo, côr e tom nacional da epocha: nenhum outro escriptor portuguez os teve tam verdadeiros, tam characterizados e sinceros.

O romance heroico ou epico, isto é, o que celebrava grandes feitos e successos nacionaes, ou interessantes aventuras de guerras e de amores—que d’elle tomaram depois o appellido de _romanescas_, ou porque não _romancescas_? hoje mais inglezadamente _romanticas_—este que tambem rhymou muitas vezes devotas legendas de sanctos e de milagres, os passos da historia sagrada de ambos os Testamentos, e até os proprios mysterios do dogma; o romance epico em toda a sua primitiva simpleza foi tambem cultivado por Gil-Vicente.

Com elle e com Bernardim-Ribeiro creio que morreu, litterariamente fallando, nos fins do seculo XV, principios do XVI, para resuscitar depois, á primeira trombeta do seiscentismo, como todos os generos populares que por essa reacção resurgiram; mas rebicado e contrafeito, secante de metaphoras, pesado de conceitos, escripto emfim com a penna d’aza da ‘Phenix-renascida.’

Quanto elle fôra estimado e cultivado entre nós em tempos de Gil-Vicente, vê-se de muitos logares de seus dramas. E ahi se vê tambem que promiscuamente compunham os nossos trovadores ja no dialecto de Castella, ja no de Portugal, e ainda o mesmo romance ou soláo ora se cantava em uma, ora n’outra linguagem.

Para exemplo e próva, leia-se com attenção o dialogo do feiticeiro com a ama de Cismena na scena II de Rubena[107]. Ahi véem citados como portuguezes e em portuguez, apar de outras cantigas castelhanas, muitos romances que alguns passam hoje por legitimos filhos de Castella e em suas collecções se incontram; de outros nem por ellas ha memorias. Tal é o que começa:

‘Eu me sam Dona Giralda’;

de que não achei outro vestigio nem nos romanceiros castelhanos, nem na nossa tradição oral. Tal é est’outro:

‘Em Paris está Donalda’;

que vem nos citados romanceiros, pôsto que differentemente escripto.

Tambem no auto dos _Quatro tempos cantam estes ‘até chegar ao presepio,’_ manda a rubrica[108], _uma cantiga franceza que diz_:

‘Ai de la noble Villa de Paris!

É claro que este é um romance; e romance conhecido, e que não era castelhano nem portuguez, mas francez. E d’aqui se deprehende tambem uma coisa que muitas vezes tenho julgado intrever, e de que tenho quasi uma consciencia íntima, sem ousar dá-la por certa, porque não ha ainda todas as próvas documentaes que se precisam para uma asserção que hade parecer atrevida: e é—que os romances primitivos quasi que eram communs ás linguas _romanas_, e que nenhuma os vindicava exclusivamente; porque o trovador catalão ou provençal, portuguez, normando ou castelhano pertencia mais á _republica litteraria_ e artistica de sua profissão, do que a nenhum reino ou nação, ou divisão politica do paiz. Cantava-se o romance para lá do Ebro? davam-se ás palavras desinencias mais curtas e contrahidas; dizia-se para cá d’elle? produziam-se mais arredondadas. Entre Portugal e Castella menos era preciso ainda, porque as linguas, ja tam similhantes, ainda o eram mais então, e no especial dialecto do romance dobradamente.

Apponto isto aqui somente como ementa, para mais devagar se reflectir e estudar no que indico. Ha grande verdade na indicação; mas até onde ella chega, não sei dizer porora, nem saberei talvez nunca, porque me não sobra tempo nem paciencia para dar professadamente a estas coisas. Vou escrevendo o que me occorre como curioso. A sciencia fará o seu officio com o tempo. Eu não pretendo a litterato nem a crítico, e n’estas coisas menos que em nenhuma. Occupo as minhas horas vagas com estes divertimentos innocentes; não faço mais nada.

Tornando ao nosso Gil-Vicente, na segunda scena—acto, jornada, ou parte II—da _Rubena_, canta a Cismena em portuguez outro princípio de romance mui notavel pelo metro pouco usado na nossa lingua:

‘Grandes bandos andam na côrte, Traga-me Deus meu bonamore.’

Muitas outras próvas achará alli o leitor curioso de que este genero era o mais popular então entre nós. Como tal o cultivou Gil-Vicente; e assim o mostra o romance dos _Padres no Limbo_ no auto da ‘Historia de Deus’, o da _Barca dos Anjos_ no auto do ‘Purgatorio’, o da _Infanta_ no auto das ‘Côrtes de Jupiter’, e muitos outros dispersos por suas obras dramaticas, alêm dos dois bem conhecidos que expressamente compôs, um á morte d’elrei Dom Manuel, outro á acclamação de Dom João III.

Este primeiro que aqui ponho é o de Dom Duardos que vem ao fim da tragicomedia (aliás drama cavalheiresco) do mesmo titulo. Em castelhano foi escripta a tragicomedia, e em castelhano alli vem o romance; na collecção, que por vezes tenho citado, do cavalheiro de Oliveira, apparece em portuguez com declaração de se incontrar assim n’um antigo manuscripto do seculo XVI que visivelmente era contemporaneo do poeta. Eu dou-o em ambas as linguas. E pôsto que os nossos vizinhos o codificassem em seus romanceiros como proprio, fica assim evidente o ser elle de fábrica portugueza e do nosso Gil-Vicente, quer primitivamente o composesse elle na nossa lingua, quer na d’elles.

Eisaqui o que, no fim da tragicomedia, diz Artada, antes de cantar o romance:

‘Por memoria de tal trance Y tam terrible partida Venturosa, Cantemos nuevo romance A la nueva despedida Peligrosa.’

Acabado de cantar e findo o auto, diz o patrão, virando-se para elrei—não o rei da comedia, mas o rei portuguez Dom João III em cuja côrte e presença ella se representava:

‘Lo mismo iremos cantando Por esa mar adelante, Á las sirenas rogando Y Vuestra Alteza mandando: Que en la mar siempre se cante.’

Era pois novo o romance, por seu o dava Gil-Vicente, que não precisava nem usava de brilhar com o alheio, e a elrei seu amo e seu protector, como tal o endereçava. Não posso deixar de o crer e acceitar como seu.

A licção portugueza de Oliveira differe algum tanto da castelhana de Gil-Vicente; e ésta não pouco da que vem no ROMANCEIRO GERAL de Duran e no TESORO de Ochoa.

Juntam-se aqui todas tres, para que as confrontem os curiosos, e se illustre assim a questão que, tórno a dizer, suscito, não resolvo.

DOM DUARDOS[109]

Era pelo mez de Abril, De Maio antes um dia, Quando lyrios e rosas Mostram mais sua alegria; Era a noite mais serena Que fazer no ceo podia, Quando a formosa infanta, Flérida ja se partia; E na horta de seu padre Entre as árvores dizia: —‘Com Deus vos ficade, flores, Que ereis a minha alegria! Vou-me a terras extrangeiras Pois lá ventura me guia; E se meu pae me buscare, Pae que tanto me queria Digam-lhe, que amor me leva, Que eu por vontade não ia; Mas tanto atimou commigo Que me venceu co’a porfia. Triste, não sei onde vou, E ninguem não m’o dizía!...’ Alli falla Dom Duardos: —‘Não choreis, minha alegria, Que nos reinos de Inglaterra Mais claras aguas havia, E mais formosos jardins, E flores de mais valia. Tereis trezentas donzellas De alta genealogia; De prata são os palacios Para vossa senhoria; De esmeraldas e jacynthos E oiro fino de Turquia, Com lettreiros esmaltados, Que a minha vida se lia, Contando das vivas dores Que me déstes n’esse dia Quando com Primalião Fortemente combatia: Mattastes-me vós, senhora, Que eu a elle o não temia...’ Suas lagrymas inchugava Flérida que isto ouvia. Ja se foram ás galeras Que Dom Duardos havia. Cinquenta eram por conta, Todas vão em companhia. Ao som do doce remar A princeza adormecia Nos braços de Dom Duardos, Que tam bem a merecia.

Saibam quantos são nascidos Sentença que não varia: Contra a morte e contra amor Que ninguem não tem valia.

I

VERSÃO CASTELHANA DE GIL-VICENTE[110]

En el mes era de Abril, De Mayo antes un dia, Cuando lirios y rosas Muestran mas su alegria, En la noche mas serena Quel el cielo hacer podia, Cuando la hermosa infanta Flérida ya se partia: En la huerta de su padre A los árboles decia: —‘Quedaos adios, mis flores, Mi gloria que ser solia; Voyme á tierras estrangeras Pues ventura alla me guia. Si mi padre me buscare Que grande bien me queria Digan que amor me lleba Que no fué la culpa mia: Tal tema tomó conmigo Que me venció su porfia. Triste nó se adó vó, Ni nadie me lo decia.’ Alli habla Don Duardos: —‘No lloreis mi alegria, Que en los reinos de Inglaterra Mas claras aguas habia, Y mas hermosos jardines Y vuesos, señora mia. Terneis trecientas doncellas De alta genealogia; De plata son los palacios Para vuesa señoria, De esmeraldas y jacintos, De oro fino de Turquia Con lettreros esmaltados Que cuentan la vida mia, Cuentan los vivos dolores Que me distes aquel dia Cuando com Primaleon Fuertemente combatia: Señora vos me matastes, Que yo a el no lo temia. Sus lagrimas consolaba Flérida qu’esto oia; Fueron-se a las galeras Que Don Duardos tenia. Cincuenta eran por cuenta, Todas van en compañia. Al son de sus dulces remos La princesa se adormia En brazos de Don Duardos Que bien le pertenecia. Sepan cuantos son nacidos Aquesta sentencia mia: Que contra la muerte y amor Nadie no tiene valia.

II

VERSÃO CASTELHANA DE DURAN[111]