Romanceiro III: Romances Cavalherescos Antigos
Part 5
Quem tiver porêm o bom gôsto de resistir ao despotismo tarifeiro da moda, e se abalançar em Maio ou Junho a este largo passeio, que no estado dos nossos caminhos é antes uma pequena viagem, creia que hade ser pago de sua nobre ousadia. Não ha palavras que digam todas as bellezas d’aquella terra, d’aquelle ceo, d’aquellas aguas. Á esquerda o Tejo, os navios que entram e sahem, as frotas de barcos pescarejos, a areia alva juncto á beira d’agua, e logo pegada á salsugem, a prodigiosa vegetação das plantas que a amam e em que se pasce gulloso e largo á vontade o gado. Perto, um saveiro que chegou á terra e cuja companha pucha ao longo da praia pela rede que arrasta os innumeraveis cardumes de peixes que logo virão saltar na areia. Á direita nas eminencias, as ruinas picturescas de conventos desertos, de moinhos abandonados, de fortes, de atalaias. E tudo isto incastoado na verdura viçosa e florida da primavera que ainda não queimou o sol do estio. No fim do verão quando vai todo o mundo, ja não ha senão resteva nos campos, talos de hervas seccas nos montes, árvores sem folha, poeira nos ares, e uma ventaneira despregada que não cessa.
Ja me eram familiares de annos aquelles sitios; mas posso dizer que os não conheci bem e como elles são devéras, senão quando, haverá hoje tres annos, alli fui um dia primeiro de Maio. Fui, como de maravilha em maravilha, por todos os pontos que tenho nomeado; mas chegando á ribeira de Jamor, parei extasiado no meio de sua ponte, porque a varzea que d’ahi se extende, recurvando-se pela direita para Carnaxide, e os montes que a abrigam em deredor, estava tudo de uma belleza que verdadeiramente fascinava. O trigo verde e viçoso ondeava com a viração desde as veigas que rega o Jamor, até os altos onde velejam centenares de moinhos. Árvores grandes e bellas, como rara vez se incontram n’esta provincia _dendroclasta_, rodeavam melancholicamente, no mais fundo do vale, a velha mansão do Rodizio. E lá, em prespectiva, no fundo do quadro, uma aldea de Suissa com suas casinhas brancas, suas ruas em soccalcos, seu presbiterio ornado de um ramalhete de faias; grandes massas de basalto negro pelo meio de tudo isto, parreiraes, jardinzitos quasi pensis, e uma graça, uma simplicidade alpina, um sabor de campo, um cheiro de montanha, como é difficil de incontrar tam perto de uma grande capital.
O logarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda-a-Pastora. Porque? Não sei. Tem-me jurado antiquarios de ‘meia-tijella’ que o seu nome verdadeiro é _Niña a Pastora_. Mas emquanto não achar algum de ‘tijella inteira’ que me saiba dar a razão por que se havia de chamar assim, meio em portuguez meio em castelhano, um aldeote de aopé de Lisboa—heide chamar-lhe eu, como os seus habitantes e toda a gente diz: Linda-a-Pastora.
Namorei-me do sitio por modo, que alli passei o verão todo; e d’alli fiz deliciosas excursões pelas vizinhanças, que todas são bonitas. Foi n’este proprio e appropriado sitio que a Sr.ª Francisca, lavadeira bem conhecida do logar, me deu a última e, ao parecer, mais correcta licção que do presente romance tinha obtido. Em outras partes do reino traz elle o titulo de ‘Pastorinha;’ aqui era justo e natural que se lhe désse o de Linda-a-Pastora’, que assentei conservar-lhe.
Na fórma é um romance em endeixas, mas o fundo é de uma verdadeira pastourella do genero provençal; nem a fariam mais graciosa Giraud Riquier ou Giraud de Borneill.
Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabe e canta. Eu noto somente as principaes.
LINDA-A-PASTORA
—‘Linda pastorinha, que fazeis aqui?’ —‘Procuro o meu gado que por ahi perdi.’ —‘Tam gentil senhora a guardar o gado!’ —‘Senhor, ja nascemos para esse fado.’ —‘Por éstas montanhas em tam grande p’rigo!’ Diga-me, ó menina, se quer vir commigo.’ —‘Um senhor tam guapo dar tam mau conselho[131]. Querer que se perca o gado alheio!’ —‘Não tenha esse medo que o gado se perca[132] Por aqui passarmos uma ora de sésta.’ —‘Tal razão como essa não n’a ouvirei[133]: Ja dirão meus amos que de mais tardei.’ —‘Diga-lhe, menina, que se demorou Co’esta nuvem de agua que tudo molhou.’ —‘Fallarei verdade, que mentir não sei: Á volta do gado eu me descuidei.’ —‘Pastorinha, escute, que oiço ballar gado...’ —‘Serão as ovelhas que me tem faltado.’ —‘Eu lh’as vou buscar ja muito depressa, Mas que me espedace por essa charneca.’
—‘Ai como vai grave de meias de seda! Olhe não as rompa por essa resteva[134].’ —‘Meias e sapatos[135], tudo romperei[136] So por lhe dar gôsto, minha alma, meu bem.’ —‘Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.’ —‘Meu destino foi ser vosso criado.’ —‘Senhor, va-se embora, não me dê mais pena, —‘Que hade vir meu amo trazer-me a merenda.’ —‘Se vier seu amo, venha muito embora; Diremos, menina, que cheguei agora.’ —‘Senhor, va-se, va-se, não me dê tormento: Ja não quero vê-lo nem por pensamento.’ —‘Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora! Fica-te, eu me vou pela serra fóra[137].’ —‘Venha cá, Senhor, torne atrás correndo... Que o amor é cego, ja me está rendendo.’ Sentaram-se á sombra... tudo estava ardendo...[138] Quando ellas não querem, então ’stão querendo.
XXXVII
O MARQUEZ DE MANTUA
Ei-lo que se apea de seu classico barbante em que tantos annos cavalgou, e despindo o papel-pardo em que o imbrulhavam os cegos e vendilhões de nossas feiras, vem o nobre ‘Marquez de Mantua’ tomar o seu logar entre os mais venerandos e antigos romances do cyclo de Carlos-Magno. Sua nobre origem bem sabida é e bem manifesta: franceza ou provençal. Se foi a lingua _d’oeil_ ou a lingua _d’oc_ a primeira que fallou, não sei; quando atravessou os Pyreneus e veio para nós, certo que era ja familiar com ambas. Passou muito tempo em Hespanha por ser composição de Jeronymo Treviño[139]; hoje com razão se crê que o Treviño não foi senão o editor que em 1598 o imprimiu: sem dúvida o romance é muito mais antigo que isso; so da licção portugueza me parece que posso responder que é dos fins do XIV, principios—quando muito—do XV seculo. E todavia a fórma em que elle apparece em portuguez não creio que fosse a primitiva que entre nós teve, e me inclino a que ella seja posterior á que teem os nossos vizinhos castelhanos em suas collecções[140]. Aqui é mais dramatico, lá mais épico: nas multiplicadas edições dos cegos chegou a obter o nome de tragedia. Todavia, não deixarei de observar que revestidos d’esta mesma fórma ha romances muito mais antigos do que os narrativos. As rúbricas de _aqui falla o marquez, agora diz o imperador_ etc., não são indisputavel próva de que a composição fôsse para se representar theatralmente.
Sem profundar nenhuma d’estas questões, contento-me de sacar do lixo da “feira-da-ladra”, ésta bella reliquia da nossa litteratura popular e romanesca, e de restituir ao seu eminente logar o nobre marquez de Mantua, embora me criminem e escarneçam os superciliosos academicos de todas as academias reaes e não reaes d’este mundo.
O MARQUEZ DE MANTUA
Na caça andava perdido De Mantua o velho marquez, E no peito presentido O coração traz de envez; Mais, não sabe o succedido! Farto ja de caminhar Por tam fragosa montanha, Cançado assim sem companha, Sem ter onde repousar N’essa terra tam extranha, Vendo o mato tam cerrado, Assentou de se apear E o seu cavallo deixar Porque estava de cançado Que ja não podia andar:
FALLA O MARQUEZ
—Fortunosa caça é ésta Que a fortuna me ha mostrado, Poisque, por ser manifesta Minha pena e gran’ cuidado, Me mostrou ésta floresta. Nunca vi tam forte brenha Desque me accordo de mi, Eu creio que Margasi Fez ésta serra Dardenha, Estes campos de Methli. Quero tocar a bosina Por ver se algum me ouvirá; Mas cuido que não será, Porque minha gran’ mofina Commigo começou ja. Todavia quero ver Se mora alguem n’esta serra Que me diga d’esta terra Cuja é para saber; Que quem pergunta não erra. Agora vejo-me aqui N’esta tam grande espessura, Que nem eu me vejo a mi, Nem sei de minha ventura, Nem menos será cordura.
DIZ VALDEVINOS
—Oh Virgem minha senhora, Madre do rei da verdade, Por vossa gran’ piedade Sêde minha intercessora Em tanta necessidade. Oh summa regina pia, Radiante luz phebea, Custodia animæ meæ, Pois está na terra fria A alma de pezar chea, Pois es amparo dos teus, Consola os desconsolados, Rainha dos altos ceos, E roga a meu senhor Deos Que perdoe meus peccados.
FALLA O MARQUEZ
—Não sei quem ouço gemer E chorar de quando em quando: Alguem deve de aqui estar... Segundo se esta queixando, Deve ter grande pezar.
FALLA VALDEVINOS
—Domine, memento mei, Lembrae-vos de minha alma, Pois que sois da glória rei, Nascido da flor da palma, Remedio de nossa lei.
DIZ O MARQUEZ
—Segundo d’elle se espera, Aquelle home anda perdido, Ou, por ventura ferido De alguma besta fera. Quero ver este mysterio, Que a falla me dá ousadia, Porque dois em companhia Terão grande refrigerio Para qualquer agonia.
DIZ VALDEVINOS
—Oh minha espôsa e senhora, Ja não tereis em podêr Vosso espôso que assim chora, Pois a morte roubadora Vos roubou todo o prazer. Oh vida do meu viver, Resplandecente narciso, Gran’ pena levo em saber Que nunca vos heide ver Até o dia do juizo. Oh esperança por quem Tinha victoria vencida! Oh minha glória, meu bem, Porque não partis tambem, Poisque sois a minha vida? Senão for vossa vontade De haver de mim compaixão, Mandae-me meu coração, Minha fe e liberdade, Que está em vossa prizão. Madre minha muito amada, Qu’é de o filho que paristes, De quem ereis consolada? Como se ha tornado nada Quanta glória possuistes? Ja me não vereis reinar, Ja me não dareis conselho, Nem eu o posso tomar; Que quebrado é o espelho Em que vos sabeis olhar. Ja nunca me haveis de ver Fazer justas e torneios, Nem vestir nobres arreios, Nem cavalleiros vencer, Nem tomar bandos alheios. Ja não tomareis prazer Quando me virdes armado; Ja vos não virão dizer A fama de meu podêr, Nem louvar-me de esforçado. Oh valentes cavalleiros, Reinaldos de Montalvão, Oh esforçado Roldão, Oh marquez Dom Oliveiros, Dom Ricardo, Dom Dudão, Dom Gaifeiros, Dom Beltrão, Oh gran’ duque de Milão, Que é de vossa companhia? Duque Maime de Baviera, Que é de vosso Valdevinos? Oh esforçado Guarinos, Quem comsigo vos tivera! Meu amigo Montesinhos, Ja nunca mais vos verei; Dom Alonso de Inglaterra, Ja nunca acompanharei O conde Dirlos na guerra. Oh esforçado marquez De Mantua, teu senhorio, Ja não me poreis arnez, Nem me vereis outra vez Gozar vosso senhorio. Ja não quero o vosso estado, Ja não quero ser pessoa, Nem mandar, nem ter reinado; Ja não quero ter coroa, Nem quero ser venerado. Oh Carlos imperador, Senhor de mui alta sorte, Como sentireis gran’ dor Sabendo da minha morte, E quem d’ella é causador: Bem sei, se sois informado Do caso como passou, Que serei mui bem vingado, Ainda que me mattou Vosso filho mui amado. Oh principe D. Carloto, Quem, sendo tam desegual, Te moveu a fazer mal Em um logar tam remoto A teu amigo leal? Alto Deus omnipotente, Juiz direito sem par, Sôbre ésta morte innocente Justiça queirais mostrar, Pois morro tam cruelmente. Oh Madre de Deus benigno, E fonte de piedade, Arca da Sancta Trindade, De donde o Verbo Divino Trouxe sua humanidade, Oh Sancta Domina mea, Oh Virgem gratia plena Em que a alma se recrea, Dae remedio á minha pena, Pois que morro em terra alhea.
FALLA O MARQUEZ
—Senhor, porque vos queixais? Quem vos tratou de tal sorte, E quem é o que tal morte Vos deu, como publicais, Que assás é ésta má sorte? Não me negueis a verdade, Contae-me vosso pezar, Que vos prometto ajudar Com toda a força e vontade.
DIZ VALDEVINOS
—Muito me agasta, amigo, Certamente teu tardar, Dize se trazes comtigo Quem me haja de confessar?
DIZ O MARQUEZ
—Eu não sou quem vós cuidais: Nunca comi vosso pão, Mas vossos gritos e ais Me trouxeram aonde estais Mui movido a compaixão. Dizei-me vossa agonia, Que, se remedio tiver, Eu vos prometto fazer Com que tenhais alegria.
DIZ VALDEVINOS
—Meu senhor, muitas mercês Por vossa boa vontade! Bem creio que me fareis Muito mais do que dizeis, Segundo vossa bondade. Mas minha dor é mortal, Meu remedio so é morte, Porque estou parado tal, Que nunca homem mortal Foi trattado de tal sorte. Tenho, senhor, vinte e duas Feridas todas mortais, As intranhas rotas, nuas, E passo penas tam cruas, Que não poderão ser mais. Ha-me morto á traição O filho do imperador, Carloto, a gran’ sem razão, Mostrando-me todo o amor, Não o tendo no coração. Muitas vezes requeria Minha espôsa com maldade, Mas ella não consentia Pelo bem que me queria, Por sua grande bondade. Carloto com gran’ pezar, Como mais traidor que forte, Ordenou de me matar, Cuidando com minha morte Com ella haver de casar. Mattou-me com gran’ falsia, Tranzendo cinco comsigo, Sem eu trazer mais commigo Que um pagem por companhia. A mim chamam Valdevinos, Sou filho de elrei de Dacia, E primo de elrei de Grecia, E do forte Montesinos, Que é herdeiro de Dalmacia. Dona Hermelinda formosa Minha madre natural, Sibylla minha espôsa De graças especial, Mas com primores famosa. Ésta nova contareis Á triste de minha madre Que em Mantua achareis, E ao honrado marquez Meu tio, irmão de meu padre.
FALLA O MARQUEZ
—Oh desestrado viver, Oh amargosa ventura, Oh ventura sem prazer, Prazer cheio de tristura, Tristura que não tem ser! Oh desventurada sorte, Oh sorte sem soffrimento, Desemparado tormento, Muito peior do que a morte, Morte de desabrimento! Oh meu sobrinho, meu bem, Minha esperança perdida, Oh gloria que me sustêm, Porque vos partis de quem Sem vós não terá mais vida? Oh desventurado velho, Captivo sem liberdade! Quem me póde dar conselho, Pois perdido é o espelho De minha gran’ claridade! Oh minha luz verdadeira, Trevas do meu coração, Penas de minha paixão, Cuidado, que me marteira, Tristeza de tal traição! Porque não quereis fallar A este marquez coitado, Que tio sohieis chamar? Fallae-me, sobrinho amado, Não me façais rebentar.
DIZ VALDEVINOS
—Meu tormento tam molesto Me faz não vos conhecer Nem na falla, nem no gesto; Nem intendo vosso dizer Se não for mais manifesto. Estou tão posto no fim, Que não sei se sou alguem, Nem menos conheço a mim; Pois quem não conhece a sim, Mal conhecerá ninguem.
DIZ O MARQUEZ
—Como não me conheceis, Meu sobrinho Valdevinos? Eu sou o triste marquez Irmão de elrei Dom Salinos, Que era o pae que vos fez. Eu sou o marquez sem sorte, Que devêra rebentar Chorando a vossa morte, Por com vida não ficar N’este mundo sem de porte. Oh triste mundo coitado, Ninguem deve em ti fiar, Pois es tam desventurado, Que o que tens mais exaltado, Mor quéda lhe fazes dar!
FALLA VALDEVINOS
—Perdoa-me, senhor tio, A minha descortezia, Que a minha grande agonia Me pôs em tanto desvio, Que ja vos não conhecia. Não me queirais mais chorar; Deveis de considerar Que para isso é o mundo, Que dobrais meu mal profundo. Para bem é mal passar: E bem sabeis que nascemos Para ir a ésta jornada, E que, quanto mais vivemos, Maior offensa fazemos A quem nos creou de nada. Assim que, necessidade Não tendes de me chorar, Poisque Deus me quiz levar No melhor de minha edade Para mais me aproveitar. Mas o que haveis de fazer, É por minha alma rogar, Porque o muito chorar Á alma não dá prazer, Mas antes mui gran’ pezar. Quero-vos incommendar Minha espôsa e minha madre, Poisque não tem outro padre Que as haja de amparar, Senão vós, como é verdade. Mas o que me dá paixão Em ésta triste partida, É morrer sem confissão; Mas se parto d’esta vida, Deus receberá a tenção.
Vem o ermitão e o pagem.
DIZ O ERMITÃO
—A paz de Deus sempiterno Seja comvosco, irmão! Lembrae-vos de sua paixão Que, por nos livrar do inferno, Padeceu quanto a varão.
DIZ VALDEVINOS
—Com coisa mais não folgára Do que vê-lo aqui chegado, Padre de Deus enviado, Que se um pouco mais tardára, Não me achára n’este estado.
FALLA O PAGEM
—Oh que desestrada sorte, Meu senhor Danes Ogeiro! Olhae vosso escudo forte, Olhae, senhor, vosso herdeiro, Em que extremo o pôs a morte! Oh desditoso caminho, Caça de tanto pezar, Que cuidando de caçar, A morte a vosso sobrinho Vieste, senhor, buscar.
DIZ O ERMITÃO
—A gran’ pressa que trazia Não me deu, senhor, logar De conhecer nem fallar A vossa gran’ senhoria. N’este êrro se ha culpa, Peço-lhe d’ella perdão, Ainda que a discrição Sua me dará desculpa.
FALLA O MARQUEZ
—Rogae a Deus, padre honrado, Que me queira dar paciencia; Que o perdão é escusado, Porque vossa diligencia Vos não deixa ser culpado.
DIZ O ERMITÃO
—O filho de Deus enviado Vos mande consolação! E pois que aqui sou chegado, Quero ouvir de confissão Este ferido e angustiado. Coisa é mui natural A morte a toda a pessoa, A todo o mundo em geral, Poisque a nenhum perdoa. Não a tenhamos por mais. Porque o peccado de Adão Foi tam fero e de tal sorte, Que não só foi perdição: Mas Deus, que é salvação, Quiz tambem receber morte. E por tanto, filho meu, Não se deve de espantar Da morte que Deus lhe deu; Pois em provimento seu Lh’a deu para o salvar Lembre-lhe sua paixão: Veja este mundo coitado, E não o ingode o malvado, Que não dá por galardão Senão tristeza e cuidado. Em quanto, filho, tem vida, Chame a Madre de Deus, Aquella que foi nascida Sem peccado concebida, E coroada nos ceos. Ésta foi santificada E visitada dos anjos, E em corpo e alma levada Á gloria, onde exaltada Lá está sobre os archanjos. Assim, que ao Redemptor E a ésta Virgem sem par Se hade, filho, incommendar Depois que aos sanctos for Sua vontade chamar. As mãos levante aos ceus, Faça confissão geral, Confessando-se a Deus E á Virgem celestial E a todos os sanctos seus.
DIZ O MARQUEZ
—Oh bonancia abhorrecida, Oh desestrada fortuna, De prazeres gran’ tribuna! Porque não desemparais A quem sois tam importuna? Tristeza, desconfiança, Porque não desesperais A quem não tem confiança? Contae-me, pagem Burlor, O caso como passou, Quem foi aquelle traidor Que mattou vosso senhor, Ou por que causa o matou
FALLA O PAGEM
—Seria mui mal contado Se a sua gran’ senhoria Não contasse o que é passado. Eu sei certo que faria O que não é esperado Contra quem me deu estado, E ha feito tantas mercês Que nunca meu pae me fez: Que é meu senhor amado, E mais vós, senhor marquez. Estando pois em Paris O filho do imperador, Mandou chamar meu senhor Nos passos da imperatriz: Fallaram muito a sabor; O que fallaram não sei, Se não que logo n’essa hora, E sem fazer mais demora, Com quatro detraz de si Foram da cidade fóra, Armados secretamente, Segundo depois ouvi. Partimos todos d’ahi, E Dom Carloto presente Tambem armado outrosi. E tanto que aqui chegaram, N’este valle de pezar Todos juntos se apearam E fizeram-me ficar C’os cavallos que deixaram. E logo todos entraram Em este esquivo logar, Onde meu senhor mattaram, E depois de o mattar, Nos cavallos se tornaram. Como eu os vi tornar, Sentindo muito tal dor, Temendo de lhe fallar, Não ousei de perguntar Onde estava meu senhor. Vendo-os assim caminhar, Porque nenhum me fallava, Quiz a meu senhor buscar, Porque o coração me dava Sobresaltos de pezar. Não o podia topar Porque a grande espessura E a noite medrosa, escura Me fazia não o achar: De que tinha gran’ tristura. Buscando-o com gran’ paixão, N’aquelle lugar remoto O achei d’esta feição. Disse-me como á traição O mattára Dom Carloto. Perguntei porque razão: Triste, cheio de agonias, Disse-me com afflicção: —‘Vai-me buscar confissão, Ja se acabaram meus dias.’ Como taes novas ouvi, Com grande tribulação E pezar de vê-lo assi, Me parti logo d’aqui A buscar este ermitão. Isto é, senhor, o que sei D’este caso desastrado, Quanto me ha perguntado: Outra coisa não direi Mais do que lhei contado.
DIZ O MARQUEZ
—Quando sua majestade Justiça me não fizer Com toda a rogaridade. Á força de meu podêr Cumprirei minha vontade.
DIZ O ERMITÃO
—Ja o senhor se ha confessado, E fez actos de christão; Morre com tal contricção, Que eu estou maravilhado De sua gran’ discrição. Muito não póde tardar, Segundo n’elle senti. Acabei de lhe fallar Porque lhe quero rezar Os psalmos d’elrei David.
FALLA VALDEVINOS
—Não tomeis, tio, pezar, Que me parto de vos ver Para nunca mais tornar, Pois Deus me manda chamar E não posso mais fazer. Torno-vos a incommendar Minha espôsa e minha mãe, Que as queirais consolar E ambas as amparar, Poisque não têem mais a quem.
ORAÇÃO DE VALDEVINOS
—Em as tuas mãos, Senhor, Incommendo meu espirito; Poisque es Salvador meu, Meu Deus e meu Redemptor, Não me falte favor teu: Pois, Senhor, me redemiste, Como Deus, que es de verdade, Senhor de toda a piedade, Lembra-te d’esta alma triste Cheia de toda a maldade. Salve, Senhora benigna, Madre de misericordia, Pas de nossa gran’ discordia, Dos peccadores mezinha, Vida doce e concordia, Spes nostra, a ti invocamos, Salva-nos da escura treva. A ti, Senhora, chamamos Desterrados filhos de Eva, A ti virgem, suspiramos, A ti gemendo e chorando Em aqueste lagrymoso Valle sem nenhum repouso, Sempre, Virge’, a ti chamamos, Que es nosso prazer e gôso. Ora pois, nossa advogada, Amparo da christandade, Volve os olhos de piedade A mim, Virgem consagrada, Poisque es nossa liberdade. Dá-me, Senhora, virtude Contra todos meus imigos; Poisque es nossa saúde, Eu te rogo que me ajudes Nos temores e perigos: Roga tu por mim, Senhora, Oh Sancta Madre de Deus, A quem a minha alma adora, Pois es rainha dos ceus E dos anjos superiora.
Aqui expira Valdevinos e
DIZ O MARQUEZ