Romanceiro I: Romances da Renascença

Part 4

Chapter 43,644 wordsPublic domain

Dom Sisnando é criminoso Quanto o podia ficar; Do intento abominoso Nada resta a consummar. Ja tristemente acordou De seu delirio fatal, E surrindo amargamente, Á infeliz assim fallou: —‘E era por isto... innocente! Que tanto se recatava Tua virtude fingida? Ah! essa alma corrompida Mais do que teu corpo estava. E tu...’ —Não pôde ouvir mais A triste mãe; não lhe soffrem As intranhas maternais Ouvir a filha adorada De tal modo calumniada, E por quem, e em que momento! C’um suffocado lamento, Que do peito rebentando Trouxe aos labios alma e vida, Quebra o silencio:—‘Ah, Sisnando! Ah, senhor, mattae-me embora; A desgraçada sou eu.’ E a terra n’aquella hora Rasgada não soverteu O infeliz, que meio morto, No abysmo do crime absorto, D’este golpe inesperado A violencia cedeu!

XIV

Silencio largo, mortal Foi a unica expressão Que por longa duração N’aquelle estado fatal Entre esses dous foi ouvida. Porêm no perdido peito De Sisnando atribulado Foi a vergonha vencida Pelo irritado despeito: Dos remorsos avexado, Porêm mais pungido ainda De seu crime mallogrado, Brada em cholera abrasado: —‘Pereça a filha descrida Que deshonrou seu...’ —_Pae_ não, _Pae_ não ousa proferir. A palavra, suspendida Por fria, pesada mão De remorso insubjugado, Lhe voltou ao coração A lacerar-lh’o, a vingar-se Da mal-soffrida oppressão.

XV

—‘Ouvi-me, senhor: culpada Sou eu só...’ a triste espôsa Lhe diz; mas não ouve nada Aquella alma furiosa, Ja n’este mundo rallada De quanta pena horrorosa No inferno está guardada Para crimes como o seu.

XVI

Parte, corre;—o brado horrivel Por todo o castello soa Tam medonho como troa Medonho trovão d’outomno. Despertos do brando somno Todos são:—ordens que deu São taes, que de horror tremeu A gente absorta e pasmada. Tristemente obedecendo, Co’a face ao chão inclinada Se vão a medo, e mal crendo Que não seja sonho vão O que ouvindo e vendo estão.

XVII

Do castello para um lado Uma antiga tôrre havia Cercada de largos fossos, Que é memoria haver fundado Um rei mouro que vivia Ha muito, de quando os nossos Mourisca gente regia. Alli uma espôsa sua, Que elle achou ser-lhe infiel, Sette annos e mais um dia Fechada a teve o cruel, Sozinha, a grilhões e nua; E só pão sêcco lhe dava, Mas agua não consentia Que nunca ninguem lh’a desse Para que á sêde morresse. Valeu-lhe quem tudo póde, Que ao infeliz sempre accode: Vinha-lhe orvalho do ceo, De que os sette annos bebeu. E emfim o septimo anno De tal milagre vencido Foi o proprio rei tyranno, Que a liberdade lhe deu, E do crime commettido, Se o havia, se esqueceu.

XVIII

Para ésta tôrre deserta, No verão ao sol exposta, Que abrasado a queima e tosta, No rigor do hinverno aberta A chuvas, á ventania, Sisnando—quem tal diria! Mandou a filhinha linda, Que alli fechada gemesse, A virtuosa Adozinda!... E ai de quem agua lhe desse, Lhe desse vestido ou cama, Que da sêde á morte crua —Qual o mouro a sua dama— Alli quer que morra nua, De todos desemparada, De seu pae amaldiçoada, Só da triste mãe chorada!

XIX

Sem dar somente um gemido, Sem se carpir nem queixar, Como a ovelhinha tremente Que sem dar nem um balido Se deixa á morte levar, Vai Adozinda innocente Para aquella feia tôrre. Pranto que furtivo corre De quantos olhos a viam A acompanha tristemente. E o pae!... Ancias que o remordem Ninguem as sabe nem vê. N’um aposento incerrado, Onde nem ao mais privado Concedido é metter pé, Só ficou, só permanece: Só!—antes acompanhado De quem os seus não esquece, Do remorso,—do peccado.

CANTIGA QUARTA

You do me wrong, to take me out o’the grave:— Thou art a soul of bliss: but I am bound Upon a wheel of fire, that mine own tears Do scald like molten lead.

SHAKSPEARE.

I

Sette annos e um dia Foi a sentença cruel Que Adozinda cumpriria N’aquella tôrre fechada. E o tyranno bem sabia Que nem tres dias somente Viver podia a innocente Com a sêde, a denudez. Uma semana é passada Passado é um mez e outro mez, Anno e annos decorreram; E os sette annos feneceram Sem que Adozinda formosa Em tal mingua perecesse, Sem que ao menos desmer’cesse Em seu rosto uma só rosa.

II

Veio um dia—n’esse dia O captiveiro acabava— No mais alto o sol ardia E a terra toda abrasava, Na tôrre uma voz se ouvia, (E é ésta a primeira vez) Era uma voz que pedia, Que supplicava piedade: —‘Uma sêde, uma só d’agua, Uma só por compaixão, Que me abraso n’esta fragua, Que me estalla o coração.’

III

A voz de Adozinda bella Todos clara conheceram; C’os olhos na alta janella De toda a parte correram: —‘Vive, inda vive!’ bradavam, ‘A innocente! vinde ve-la.’ E uns aos outros recontavam Das virtudes, da paciencia D’aquelle anjo d’innocencia Que, ha muito, morta julgavam. —Outra vez se torna a ouvir O mesmo clamor sahir Da torreada prisão: —‘Uma sêde, uma só d’agua, Uma só por compaixão, Que me abraso n’esta fragua, Que me estalla o coração!’

IV

A todos se commoveu O mais intimo do peito, Mas não ousam a affrontar Do pae o sevo despeito. —‘Tem paciencia, anjo do ceo!’ Com lagrymas responderam, ‘Que ja não póde tardar O pae que te vem soltar. Os sette annos decorreram, O dia está a acabar; Soffre mais este momento, Que hoje acaba o teu tormento.’

V

—‘Oh! como heide eu supportar, Amigos meus da minha alma, Se a vida sinto acabar, Sinto abrasar-me da calma? Sette annos me accudiu Deus, Que por milagre vivi, Dava-me orvalho dos ceos, De que sette annos bebi. Do estio ardentes queimores No meu corpo os não senti, Do hinverno os frios rigores Tambem esses não tremi. Mas ha tres dias que a mão Do Senhor me abandonou. Tudo, tudo me faltou... Oh! tende de mim piedade! Uma sêde, uma só d’agua, Uma só por compaixão, Que me abraso n’esta fragua, Que me estalla o coração!’ —De novo alto chôro ergueram, Lastimado pranto gemem; Mas de seu tyranno tremem, Só a chorar se atreveram.

VI

Soa a nova no castello, Vai correndo em derredor, De que porfim fôra ouvido Aquelle anjo soffredor Soltar queixoso gemido, Piedade emfim suppllicar. Só a Auzenda, que expirando No leito da morte jaz, Para que morresse em paz Vão a noticia occultando. Mas soube tudo Sisnando, E no duro coração Ja vacilla a crueldade, Ja vislumbra a compaixão: Dos seccos olhos covados, Que inspiravam medo e espanto, Como que da mão tocados D’algum anjo punidor, Salta repentino o pranto, Qual onda que estalla em flor Sôbre o penedo ourissado. Todo em lagrymas sanguineas O infeliz debulhado, Para aquella infausta tôrre Com incerto passo corre Em altos gritos bradando: —‘Agua! trazei agua, vinde, Accudi á desgraçada, A uma filha malfadada Que por mãos de seu pae morre!’

VII

Assim correndo e gritando Chegava á horrivel prisão Em que gemia Adozinda: —‘Filha, filha, é tempo ainda; Perdão, ó filha, perdão Para este algoz...’—Cortou-lhe O excesso da paixão Lingua e fôrça; a voz quebrou-lhe, E por morto cai no chão.

VIII

Oh! que povo se ajuntava No castello de Landim! E com que horror que elle olhava Para aquelle triste fim De tammanho cavalleiro, Tam ricco e grande senhor, Tam esforçado guerreiro! A Auzenda chega o rumor Do successo inesperado, Dá-lhe fôrça e vida amor; O fio meio cortado Da existencia lhe atou. Ei-la se ergue, e em mal-firmado Passo corre—e lá chegou.

IX

E ja por ordem de Auzenda Co’a porta negra e tremenda Investem da tôrre erguida: Range o ferro, os gonzos gemem, Parece que ja rendida Vai de todo;—á roda tremem, Do fundamento aluida A tôrre, os solidos muros. Mas em vão de centenares Dos mais rijos braços duros Se movem os instrumentos Que em muralhas mais valentes De castellos regulares, De mais solidos cimentos Têem a miudo triumphado.

X

Parece incanto:—será? O povo maravilhado Ja por tal, tremendo, o dá. Cessam todos, incantado É o negro portão ferrado... E o povo desanimado Da impreza desiste ja.

XI

Arreda, arreda, infançoes, Cavalleiros, dae logar, Com licença, nobre dama, Que ahi vem um sancto ermitão: Com as suas orações Este incanto hade quebrar, Ou, se do demonio é trama, Com o seu bento condão Elle o hade desmanchar. —Ei-lo chega:—este semblante Não é aqui desconhecido... Ésta barba, este vestido... É elle, o mesmo ermitão Que a noite de San’João (Não ha dez annos ainda) No castello pernoitou, —Que Sisnando o maltrattou. Mas, por a bella Adozinda Pedir muito, lá ficou.

XII

Com a cabeça cuberta Do seu agudo capuz, Os olhos de côr incerta, Pasmados, fixos... e a luz Que d’elles sai é tam viva Que a espaços da vista priva Quem de perto os quer fitar! As mãos cruzadas no peito, Vagaroso seu andar, Tam pesado e de tal geito Que faz um echo tremendo Quando os passos vai movendo, E como que a terra e o ar, Com o pêso vão gemendo... —Foi seu caminho direito Da tôrre á porta ferrada; Sem attender a mais nada, Sem olhar nem para Auzenda, Que em lagrymas debulhada Supplices mãos lh’estendia. Chega á porta, e em voz horrenda —‘Abre-te!’—disse. Estallou O ferro medonhamente, E a porta se escancarou, —Mas elle subitamente, Voltando-se para a turba, Que alto alarido alevanta E em derredor se perturba, Com gesto que aos mais ousados Todo o ânimo quebranta, —‘Immudecei!’ lhes bradou. Ficaram todos callados; E—_immudecei_—revibrou De echos em echos dobrados Pelo castello e jardim, Pelos soutos ao redor, Pelos campos dilatados Que a Dom Sisnando obedecem E por senhor reconhecem Ao ricco-homem de Landim. —Depois estendendo a mão Ao logar onde jazia Por morto no frio chão O desgraçado Sisnando, Éstas palavras dizia Que em ouco som vão soando:

—‘Eu te esconjuro, Alma perdida, Volta-te á vida!

‘Que o teu peccado, Abominado Do proprio inferno, Só tem perdão Com longa vida De penitencia, De contrição, Que a alma perdida Salve do inferno, Da maldicção.

‘Eu te esconjuro, Alma perdida, Volta-te á vida!

‘O anjo celeste Na hora última Te perdoou, E ao Pae Eterno A tua victima Por ti rogou

‘Lazaro immundo, N’esta grande hora Volve-te á vida, Vem, surge fóra!’

XIII

Em pé está Dom Sisnando: Vivo está, morto parece, Tam negro veo lh’innoitece O verde-pallido rosto, Onde o seu sêllo ja pôsto Tinha o archanjo da morte.

XIV

De joelhos o ermitão, Com a cabeça cuberta, Á porta da tôrre aberta Faz breve e baixa oração. Eis violento repellão A terra, tremendo, deu, E d’alto abaixo a muralha Largamente se fendeu. Viram todos claramente O interior patente Em que jazia Adozinda, D’onde ha poucas horas inda Sua voz se ouviu clamar, E por uma sêde d’agua Ao seu algoz supplicar.

XV

N’um leito de frescas rosas, Que aromas do ceo recendem, Morta Adozinda jazia: Suas feições mais formosas, Mais angelicas resplendem. Uma suave harmonia Tam brandamente soava, Que ao coração parecia Que por piedade o affagava A quem saudoso gemia. —A alva frente, não tocada Pela mão da morte livida, De lirios do ceo coroada Brilhava com luz tam vivida Que parecia toucada De puros raios do sol. As mãos postas sôbre o peito Para o ceo se alevantavam, E como que d’alma justa Para a morada apontavam.

XVI

Oh! que vista, oh! que momento Para a triste mãe!—Faltava Só este último tormento. A malfadada cuidava Que nenhum padecimento Para gemer lhe sobrava! Era este.—E a dor ignora, Não sabe o que é padecer Quem o filhinho que adora Não viu ainda morrer...

XVII

Levantou-se o ermitão E bradou:—‘Ajoelhemos, E a mão de Deus adoremos.’ —Submissa resignação Póde a voz tolher á dor, Não tira do coração Seu espinho pungidor, Que em silencio é mais cruel, Rasga mais, e na ferida Mais acre derrama o fel. A paciencia soffrida Da triste Auzenda cedeu; Não exclamou, não gemeu, E em tributo de respeito Sua mágoa fechou no peito.

XVIII

E Sisnando?—O desgraçado No pó da terra humilhado, Só se lhe conhece a vida Na agitação comprimida Do convulso soluçar.

XIX

Para a ermida do castello Emfim o corpo levaram E n’um cofre d’ouro fino Como reliquia o guardaram. —Muito a não carpiu Auzenda, Que a morte compadecida Cedo a libertou da vida. Porêm a longa existencia De remorso e penitencia Sisnando foi condemnado: Cuberto de horror e opprobrio Cumpriu seu mesquinho fado; Onde?—Ninguem mais o soube. Do castello aquella noite Com o ermitão se sumiu; Nunca mais d’elle se ouviu. Mas á meia-noite em ponto Na capella de Landim Se ficou sempre escutando Gemer uma voz medonha, Que pede perdão bradando: E essa voz diziam todos Que era a voz de Dom Sisnando.

II

BERNAL-FRANCEZ

Este romance é tirado de uma das mais conhecidas e provavelmente mais antigas xácaras que o povo canta. Sua contextura simples mas forte, a scena tão dramatica com que abre, o fexo sublime com que termina dão-lhe todos os characteres de poesia primitiva e grande de um povo heroico, de uma gente que tomava as coisas da vida ao serio, como a nossa era. Estou que é originariamente portuguez: não apparece em nenhum dos romanceiros castelhanos, nem na vasta collecção de Ochoa.—O texto, como o conservou a tradição oral dos povos, da-lo-hei no logar competente, segundo lh’o talhei no prefacio d’este volume[12], e demandava o systema da minha compilação: e ahi se vejam as conjecturas que tenho feito sôbre ésta preciosa reliquia da nossa poesia popular.

Mr. Southey, o famoso poeta e historiador inglez, tendo lido a Adozinda e o Bernal, quando os publiquei a primeira vez em Londres em 1828, escrevia ao meu amigo Mr. Adamson, o biographo de Camões: ‘que estes eram dois monumentos de mais remota antiguidade talvez do que nenhumas d’aquellas canções irlandezas que elle até alli tivera na conta de serem os vestigios mais antigos de toda a poesia popular das nações do oeste da Europa.’

Communicando-me ésta reflexão, tam lisongeira para um collector enthusiasta de antigualhas, mandou-me o Sr. Adamson a traducção ingleza que pela primeira vez agora sai impressa, e o leitor achará logo adeante do texto portuguez[13].

No verão de 1840, quando apromptei para a presente edição ésta parte do volume, dediquei o Bernal-Francez a uma joven senhora que juntava a outras admiraveis qualidades a de possuir, no mais eminente grau que ainda incontrei, o sentimento do bello, do grande, do verdadeiro nas artes. Este romancinho era o seu valído d’entre todas as minhas escreveduras poeticas: consagrei-lh’o... Hoje é um monumento! bem pobre e mesquinho para memoria de tanta saudade!

Todavia o seu desejo e impenho era que eu fizesse uma verdadeira epopea, e me deixasse d’estas coisas que nunca podiam passar de _bonitinhas_. A perda de D. Sebastião em Africa era o assumpto que me dava: dizia—e dizia bem—que devia ser o reverso da medalha dos Lusiadas, e que podia ser o mais popular e nacional de todos os poemas portuguezes depois d’aquelle. Ponho isto aqui para commentario dos versos que se seguem, e que alias não seriam intendidos.

15 de Outubro de 1842.

A ADELIA

Tu queres, amiga, que eu deixe Minha harpa no chopo do monte, Que nem sempre me chore e queixe, Que seja poeta... a cantar! Que da brava inculta deveza Me não fique pasmado á fonte A admirar só a natureza, Sem um brado de glória alçar! Na escarpada selvatica brenha Não se colhem senão rudes flores, Bem o sei—crescem-lhe hirtas na grenha, São singellas De fôlha e de côres, Não se toucam as bellas Com ellas: Não se infeitem jardins de formosas Com musquetas bravias e rosas!

—‘Vê o nobre, magnifico traço[14] Do regrado edificio de Homero, Do mavioso Virgilio, do Tasso! (Dizes tu, maga musa d’amor) ‘E ora terno e mavioso, ora fero, Ja sublime, ja doce—o cantor De Ignez bella, feio Adamastor. Como erguendo, campea, a alta frente Sôbre todos os vates do Pindo!’ —Vejo, oh! vejo, que ésta alma ardente Ja nos voos andou seguindo Essas aguias mais remontadas... Hoje é abelha, ahi anda zumbindo Por entre agras, singellas flores Desalinhadas:

Mas são flores que nascem na serra Onde todo o seu mundo se incerra, Porque ahi tem—o seu bem—seus amores.

Bemfica, 12 de maio de 1840.

BERNAL-FRANCEZ

I

Ao mar se foi D. Ramiro, Galé formosa levava; Seu pendão terror dos Mouros N’alta poppa tremolava.

Oh que adeus na despedida! De saudades vai rallado; Com tantos annos de amores, Não tem um de desposado.

Nem ha dama em toda a Hespanha Tam bella como é Violante; Não a houvera egual no mundo Se ella fôra mais constante.

Bate o mar na barbacan Do castello alevantado, Só a vela[15] na alta tôrre Não cede ao somno pesado.

Tudo o mais repousa e dorme, Tudo é silencio ao redor; Dobra o recato nas portas Com a ausencia do senhor.

Mas a certa hora da noite Se vê luz n’uma setteira, E logo cruzar por perto Leve barca aventureira.

Muitas noites que passaram, Manso esteja ou bravo o mar, A mesma luz, á mesma hora, A mesma barca a passar.

E isto ignora o bom Rodrigo, Que tam fiel prometteu De guardar a seu senhor Juramento que lhe deu?

Sabera, não sabera: Mas a c’ravella ligeira, Que aopé da torre varada Jazia alli na ribeira.

Uma noite escura e feia Na praia menos se achou... Quem n’ella foi não se sabe, Mas onde foi não tornou.

E o farol que no alto luz Á mesma hora a brilhar... Só a barca aventureira Não foi vista hoje passar.

E d’um lado aopé da rocha Havia um falso postigo: Só o sabem D. Ramiro, Violante e o fiel Rodrigo.

Mas alta noite, horas mortas, Gente que o postigo entrava, E á porta de Violante Manso bater se escutava.

—‘Quem bate á minha porta, Quem bate, oh! quem ’stá ahi? —’Sou Bernal-francez, senhora, Vossa porta a amor abri.’

Ao descer do leito d’oiro A fina hollanda rasgou, Ao abrir mansinho a porta A luz que se lhe apagou:

Pela mão tremente o toma, Ao seu apposento o guia: —‘Como treme, amor querido, Esta mão, como está fria!’

E com osculos ardentes E no seio palpitante, Que lhe aquece as frias mãos A namorada Violante.

—‘De longe vens?’—‘De mui longe.’ —‘Bravo estava o mar!’—‘Tremendo.’ —‘Armado vens!’—Não responde. Vai-lhe as armas desprendendo.

Em pura essencia de rosas O amado corpo banhou, E em seu leito regallado A par de si o deitou.

—‘Meia noite ja é dada Sem para mim te voltares, Que tens tu, querido amante, Que me incobres teus pezares!

‘Se temes de meus irmãos, Elles não virão aqui; Se de meu cunhado temes, Não é homem para ti.

‘Meus criados e vassallos Por essa tôrre a dormir, Nem de nosso amor suspeitam, Nem o podem descubrir.

‘Se de meu marido temes, A longes terras andou: Por lá o detenham Mouros, Saudades ca não deixou.’

—‘Eu não temo os teus criados, Meus criados tambem são: Irmãos nem cunhado temo, São meus cunhados e irmão.

‘De teu marido não temo Nem tenho de que temer... Aqui está aopé de ti, Tu é que deves tremer.’

II

E o sol ja no oriente erguido Da tôrre ameias dourava; Violante mais bella que elle Para a morte caminhava:

Alva tella aspera e dura Veste o corpo delicado, Por cintura rijo esparto Em grosseiro laço atado.

Choram pagens e donzellas, Que a piedade o crime esquece; O proprio offendido espôso Com tal vista se internece.

Dá signal a campa triste, O algoz o cutello affia... —‘Meu senhor mereço a morte’ A malfadada dizia,

‘De joelhos, D. Ramiro, Humilde perdão vos peço, Perdoae-me por piedade... A morte não, que a mereço:

‘Da affronta que vos hei feito Por minha triste cegueira, Dae-me quitação co’a morte N’ésta hora derradeira:

‘Mas só eu sou criminosa Do aggravo que vos fiz, Não tireis, senhor, vingança D’esse misero, infeliz...’

Talvez ia perdoar-lhe O espôso compadecido... Renovou-se-lhe o odio todo, D’aquelle rôgo offendido:

O semblante roxo d’ira Para não vê-la torceu, E co’ a esquerda mão alçada O fatal accêno deu.

Sôbre o collo crystallino, Desmaiado, e inda tam bello, De golpe tremendo e subito Cai o terrivel cutello.

III

Oh! que procissão que sai Da antiga porta da tôrre! Que gente que acode a vê-la, Que povo que triste corre!

Tochas de pallida cera Nas trevas da noite escura Vão dando luz baça e triste, Luz que guia á sepultura:

Cubertos com seus capuzes Rezam frades ao-redor, A dobrar desintoados Os sinos causam terror...

Duas noites são passadas, Já não ha luz na setteira, Mas passando e repassando Anda a barca aventureira.

Linda barca tam ligeira Que nenhum mar soçobrou, O farol que te guiava, Ja não luz, ja se apagou.

A tua linda Violante, O teu incanto tam bello, Teve por ti feia morte, Crua morte de cutello.

Na egreja de San’Gil Ouves a campa a dobrar? Ves essas tochas ao longe? Ella que vai a interrar.

Ja se fez o interramento, Ja cahiu a louza fria, Só na egreja solitaria Um cavalleiro se via;

Vestido de dó tam negro, E mais negro o coração, Sôbre a fresca sepultura De rôjo se atira ao chão:

—‘Abre-te, ó campa sagrada, Abre-te a um infeliz!... Seremos na morte unidos, Ja que em vida o ceu não quiz.

‘Abre-te, ó campa sagrada Que escondes tal formosura, Esconde tambem meu crime Com a sua desventura.

‘Vida que eu viver não quero, Vida que eu só tinha n’ella, Recebe-a, ó campa sagrada, Que não posso já soffrê-la.’

E o pranto de correr, E os soluços de estallar, E a mão que leva á espada Para alli se traspassar.

Mas a mão gelou no punho Voz que da campa se erguia, Voz que ainda é suave e doce, Mas tam medonha e tam fria,

Do sepulchro tão cortada, Que as carnes lhe arripia E a vida deixou parada:

—‘Vive, vive, cavalleiro, Vive tu, que eu ja vivi; Morte que me deu meu crime, Fui eu só que a mereci.