Romanceiro I: Romances da Renascença

Part 3

Chapter 33,606 wordsPublic domain

No, I’ll not weep: I have full cause of weeping; but this heart Shall break into an hundred thousand flaws Or ere I’ll weep.

SHAKSPEARE.

I

Onde vas tam alva e linda, Mas tam triste e pensativa Pura, celeste Adozinda, Da côr da singella rosa Que nasceu ao-pé do rio? Tam ingenua, tam formosa Como a flor, das flores brio Que em serena madrugada Abre o seio descuidada A doce manhan d’Abril! —Roupas de seda que leva Alvas de neve que cega Como os picos do Gerez Quando em Janeiro lhe neva. Cinto côr de violeta Que á sombra desabrochou; Cintura mais delicada Nunca outro cinto apertou. Anneis louros do cabello Como o sol resplandecentes Folgam soltos; dá-lh’o vento, Dá no veo ligeiro e bello, Veo por suas mãos bordado, De um sancto ermitão fadado Que vinha da Palestina; Passou pelo povoado, Foi-se direito ao castello Pediu pousada, e lh’a deram Porque intercede a menina: Que o pae suberbo e descrido, —‘N’essa gente peregrina, Disse, quem sabe o que vem?’ —Mas pede Adozinda bella, Tal virtude e formosura, Quem lh’o hade negar a ella? Não póde o pae nem ninguem.

II

Mas o outro dia á luz nada Houve quem visse Adozinda Debruçada em seu balcão Haver prática alongada Co’ aquelle velho ermitão. Quem sabe o que lhe elle disse? —Ninguem no castello ouviu: Mas d’aquella occasião A alegria lhe fugiu Dos olhos e do semblante: Ficou triste, sempre triste; Mas em seu rosto divino Fez-se formosa a tristeza. Como olhos d’amor quebrados Disseras os olhos d’ella; Mas não tem d’amor cuidados, Que a ninguem conhece a bella.

III

Qual semente arrebatada Da flor de vergel mimoso Pelos furacões do Outomno, Vai no incôsto pedregoso Cahir de serra escalvada; Vem Abril, e a seu bafejo Brota e nasce a linda flor, De ninguem vista ou sabida, Nem de damas cubiçada Nem de pastores colhida, E o vento da solidão Lhe bebe o perfume em vão.

IV

Quinze annos tem Adozinda; E desd’a vez que o romeiro Do saio pardo e grosseiro Lhe fallou ao seu balcão, Faz tres para o San-João.

V

E Adozinda sempre triste Vai sosinha pelo eirado Pelo jardim, pelo prado; Nem ja a divertem flores Em que punha o seu cuidado. Pelos sombrios verdores De sua espessa coutada Vaga á toa e derramada, Como a novilha perdida, Como a ovelha desgarrada A quem o tenro filhinho Lobo do mato levou: —Desfaz-se a mãe em balidos, Que de ninguem são ouvidos, E o filhinho não tornou!

VI

Que tem Adozinda bella Que em tal desconsôlo a traz? Serão saudades do pae Que anda co’os Mouros á guerra Por defender sua terra Mais a sancta lei de Deus? Tres annos ha que se foi; E dous filhos que levou, A cadaqual sua espada Com juramento intregou De lh’a tornarem lavada No sangue mouro descrido: E assim cada um jurou. Fizeram gente em suas villas, (Que preito muitas lhe dão) E guiaram seu pendão Para terras de Moirama. Ja vejo chorar donzellas, Vejo carpir muita dama, Que onde chega Dom Sisnando, Com sua espada portugueza Não ha lanças nem rodellas Que sirvam para defesa.

VII

Mas não são do pae saudades, Que sempre a lidar com armas Como ellas duro se fez; Mais lhe importam do que a filha Seus ginetes, seu arnez. E até—quem diria tal!— Quando a mãe, por diverti-la, Lhe falla do pae ausente E lhe diz que hade voltar, Parece que se lhe sente O coração apertar. —Suspira em silencio Auzenda, Auzenda tam bella ainda Que ao-pé da bella Adozinda Mais irman que mãe parece De filha tam môça e linda. Suspira em silencio a triste, Porque suspira não diz: —‘Filha amante de seu pae Conceder-me o ceo não quiz!’ —Ai! que sem razão se chora! —Ai! Auzenda malfadada, Tem de vir minguada hora Que á filhinha desgraçada Darás mais razão que agora.

VIII

Que tropel que vai nos paços De Landim ao-pé dos rios! Sons de festa e sons de guerra Em seus muros e alta tôrre? Geme a ponte, treme a terra C’o peso d’homens armados. Cavallos acobertados Trotam ligeiros;—e corre O alferes que tremolando Vai guião de roxa cruz... Ja chegado é Dom Sisnando. Entre os cavalleiros todos Sua armadura reluz: E o pennacho fluctuante Das plumas alvas de neve Sôbre o elmo rutilante De longe a vista percebe.

IX

—‘Portas do castello, abri-vos, Correi, pagens e donzellas, Que é chegado meu senhor, Meu espôso e meu amor!’ Auzenda bradava e corre. Portas se abrem, soam vivas, E o echo da antiga tôrre Com o som festivo acordou. —‘Viva, viva Dom Sisnando!’ E o tropel que dobra e cresce, E ás portas que chega o bando Dos guerreiros triumphantes. Do corcel suberbo desce E aos braços anhelantes Da cara espôsa voou. Doce amor que os apertou Não lhes deixou mais sentidos Que para se ver unidos, Ajuntar-se peito a peito, E em laço tam brando e estreito Longa saudade afogar. A Auzenda gotteja o pranto, Pranto que é todo alegria; E o rosto que nunca infia Do esforçado lidador Tambem sentiu—mais que a dor Póde o gôso!—descuidada Uma lagryma sensivel De seus olhos escapada.

X

Mas as lagrymas de gôsto, Como as de mágoa, teem fim; Dom Sisnando inchuga o rosto, E tomando a mão á espôsa: —‘D’onde vem, lhe diz, senhora, Que a joia mais preciosa Não vejo d’estes meus paços, D’onde vem que aos meus abraços Minha filha?..’ A filha bella, Pasmada, trémula, a um lado, O rosto ao chão inclinado, Parecia humilde estrella Que ao primeiro raio vivo Do sol que no alvor reluz Não fica, não, menos bella, Porêm pállida e sem luz.

XI

Tres annos ja são passados Que Dom Sisnando a não via, N’essa joven, linda dama Sua filha não conhecia. —‘Ei-la aqui, senhor,’ dizia A mãe, que d’um braço a trava, ‘Ei-la aqui.’—Os olhos crava O pae na formosa filha, E de assombro e maravilha Mudo, estatico ficou. Cora Adozinda, suspira, E—‘Pae!’ disse em voz tremente Submissa...—; languidamente Ajoelha, osculo frio Na paterna mão imprime: Pranto que atelli reprime, Corre agora em sôlto rio. —‘Que tens tu, filha querida, Que assim choras tam carpida? É teu pae, que hade querer-te, Que hade amar-te como eu te amo.’ E tomou-a nos seus braços, E a levanta Auzenda bella. Pasma o pae, suspira ella; E a custo os doces abraços De pae, de filha se deram.

XII

Pouco alegre a companhia Entrou nos paços brilhantes; E os atabales soantes Pregoaram festa e alegria No castello de Landim.

CANTIGA SEGUNDA

But yet thou art my flesh, my blood, my daughter!

SHAKSPEARE.

I

Oh! que alegrias que vão Pelos paços de Landim! Que magnificos banquetes, Que sumptuoso festim! Juncto ao valente campeão, Á cabeceira da mesa Ficou a bella Adozinda. A tam celeste belleza Estão todos admirando; E o imbevecido Sisnando Não se farta de abraçá-la, De beijar filha tam linda. Auzenda de gôsto chora, E abençoa a feliz hora Em que tanto amor nasceu. —‘Inda bem’ diz ‘que a rudeza De tanto lidar com armas Á innocencia, á belleza Da amada filha cedeu!’ Ella as caricias paternas Ja não ousa de esquivar-se; Cora, mas deixa abraçar-se; Ve-se que tantos affagos A repugnancia venceram Da timidez natural, —Ou, se outra causa fatal, Mais incuberta ella tinha... Ao menos lh’a adormeceram.

II

Ja de exquisitos manjares Os convivas saciados, De folias e cantares Pagens, donzellas cançados, E dos brindes amiudados Finda a primeira alegria, Doce repoiso pedía Quanto ésta noite em Landim Velou em baile e festim. A seus nobres aposentos Adozinda retirada, Com permissão outorgada —A custo—do pae, se foi. Auzenda, em grave cortêjo De suas damas rodeada Deixou ha muito o festêjo, E em seu camarim deitada Espera o momento anciosa Em que a sós a amante e a espôsa Nos braços de Dom Sisnando Se hãode em breve confundir.

III

Como um tapete mimoso, Juncto ao paço de Landim Se estende jardim formoso, De boninas arrelvado Da verde gramma e de flores: Remata em bosque frondoso Cujos opacos verdores Eternas sombras acoitam. —De pesados sentimentos Oppresso o peito fremente, A respirar livremente O ar puro da noite fria Entrou insensivelmente Dom Sisnando em seu vergel Jamais tam rico docel De azul bordado d’estrellas Se estendeu por sôbre a terra Do estio nas noites bellas.

IV

Alta a lua vai no ceo, E as sombras leves e raras Não impedem ás florinhas, Não tolhem ás aguas claras De brilhar co’a luz nocturna, Menos resplendente e fúlgida, Porêm mais suave e placida, Mais amavel que a diurna. Manso o vento, que murmura Entre as folhas brandamente, Convida suavemente A respirar, a bebê-la, Essa fresca viração, Das flores exhalação, Tam doce como o bafejo De dous amantes queridos Quando por amor unidos Se dão mútuo e doce bejo.

V

Na feiticeira belleza Da noite, do ceo, das flores Várias d’aroma e de côres, Sisnando todo imbebido, No seio da natureza Do resto do orbe esquecido, Pouco a pouco a agitação D’alma lhe foi abrandando, E o pesado coração Do affôgo desappertando: Ja póde gemer,—suspira, E como que se lhe tira Um pêso de sôbre o peito, Que a suspirar foi desfeito.

VI

Porque geme, porque anceia Dom Sisnando, o lidador? Sisnando, o triumphador, Cujo alto pendão campeia Victorioso e senhor Por tanta suberba ameia De nunca entrado castello, De jamais vencida tôrre! —Dor que lhe nasce no peito É dor que no peito morre; Ancia que lhe ralla a vida Não é para ser sabida. —E desde quando? ha tam pouco Feliz e ditoso ainda, Com tanta alegria e júbilo Festejada sua vinda!.. Vassallos, espôsa, filha... Filha!.. A filha é tam formosa! Oh! essa Adozinda bella Nos olhos incantadores Tem com que matar d’amores A metade dos humanos! Não, não é peito sensivel Peito que lhe resistir: Mas o pae!.. não é possivel.

VII

Não é, não é.—Mas Sisnando, Sem saber onde caminha, Melancholico e pesado, Insensivel foi entrando Pelo bosque immaranhado Que ao jardim avizinha: E o silencio, que o seguiu, Que no espesso coito habita, Nem um verde ramo agita, Nem uma folha buliu. —Á toa por entre as árvores Sem seguir carreiro ou trilho, Nem guiado d’um só brilho De froixa estrella que entrasse Por tam medonha espessura, Ora lento e vagaroso, Ora os passos apressura, Ja por caminho fragoso, Ja por vereda macia, Té que n’um claro onde os troncos Escasseiam de repente, E onde pallido e tremente Seu reflexo a lua infia, Sem o saber, foi parar.

VIII

Agreste, não feio é o sitio, Medonho, horrivel de ver; Porêm tem a natureza Horrores que são belleza, Tristezas que dão prazer, Mão d’arte alli não chegou; A virginal aspereza Ficou em toda a rudeza Que a creação lhe deixou. De um lado, choupos anciãos Seus ramos lobregos pendem, E o vivo seixo fendem Crespas raizes nodosas Das sovereiras annosas Que as cortiças remendadas Têem dos estios lascadas A pedaços a cahir. —Do outro, altivos rochedos, Como do ceo pendurados, Diffundem pallidos medos Que em funda gruta acoitados De espectros a povoaram. —Di-lo toda a vizinhança, Que ou são sombras de finados, Ou de negras bruxas más Alli ha nocturna dança. —Redobra ao sítio o pavor Um jôrro alto que despenha Saltando de penha em penha, E os echos em deredor Vai temeroso acordando. Este unico som d’horror Á callada solidão Da mudez quebra o condão. —Sisnando, o ardido Sisnando, O do forte coração, Sentiu soçobrar-lhe o ânimo: Uma voz dentro do peito Lhe diz que não passe ávante; Mas outra voz mais possante, Outra voz que é voz do fado, Voz que ao mortal desgraçado Não deixa fôrça ou razão, Lhe brada: _Persiste, segue_... —Ai do que a ella se intregue, Que se intrega á perdição!

IX

No seixo cavada grutta Tem escassa entrada aberta, Quasi de todo cuberta De festões d’hera lustrosa Que cingindo a rocha bruta Pende em grinalda ramosa. Entre as folhas, que meneia Ligeiro sôpro de vento, Viu Sisnando—e alma lhe anceia— Um lampejar vago, incerto De luz fraca,—ouve um accento De voz doce mas gemente, Voz que se ouve que está perto, Que intoa suavemente Uma angelica harmonia, Tam triste que faz chorar! E ésta voz assim dizia Em seu languido cantar:

—‘Anjos do ceo, acudi-me, Valei-me, sanctos do ceo, Que me rouba mais que a vida Quem só a vida me deu.

‘Sancto ermitão, que me deste Aquella esperança ainda Que a desgraçada Adozinda Viria a ser venturosa Apóz de longo penar... Sorte que vieste Sôbre mim deitar, Sorte desastrosa Vem ver começar.

‘Anjos do ceo, acudi-me, Valei-me, sanctos do ceo, Que me rouba mais que a vida Quem só a vida me deu.

Mas ah! tam negro crime, Tam horrida paixão D’um pae no coração... D’um pae...—Como é possivel! Não, não, não hade entrar.’

X

—‘Pois treme, infeliz, e sabe Que essa horrorosa paixão Aqui n’este coração...’ Sisnando, a quem ja não cabe No peito a angústia, o tormento De tam criminoso amor, N’estas vozes de terror Rompendo, a caverna entrou.

XI

Oh que pavoroso instante! Os anjos todos cubriram Seus rostos co’a aza brilhante; Sem vento os troncos d’emtôrno A ramagem sacudiram; A lua no ceo mais pallida Como de susto infiou E para traz da montanha Foi correndo, e se eclipsou.

XII

Quem hade a filha chorar Que está nos braços paternos! Oh! quem se hade horrorizar Dos beijos doces e ternos Que o amor...—Que amor é esse De ouvir tam medonho horror O proprio inferno estremece, E só lá... ha tal amor!

XIII

Oh! como heide eu cantar Se no peito a voz me treme! Historia que é de chorar, Quem a diz não canta, geme. —Só não gemia Adozinda, Que toda morta, gelada, Sancto Deus!—mais bella ainda, Na viva rocha, estirada Como um cadaver ficou.

XIV

E o pae ousou levantá-la, E apertar juncto a seu peito Aquella morta belleza! —Repugnou a natureza; E, da paixão a despeito, De si a affasta, vacilla... O anjo da sua guarda Inda um momento o resguarda... Mas ha na terra ou no ceo Fôrça maior que a paixão, Que subjugue um coração Que d’amor indoudeceu? Se a ha, não lhe acudiu Deus, Venceram peccados seus. Lembrou-lhe fugir... ficou: Sim, lembrou-lhe a salvação... E á sua condemnação O infeliz se votou.

XV

Geme, chora; altos soluços Do peito lhe véem bradando; Porêm fugir de Adozinda Não póde o triste Sisnando. Ella acorda, e em voz sumida: —‘Piedade, senhor, piedade!...’ Só pôde dizer: perdida Nos echos da soledade Vai soando e murmurando A voz triste e condoida. Ouve-a elle; e o coração No peito lhe estremeceu; Na execranda pretenção Recúa,—mas não cedeu.

XVI

Palavras que lh’elle disse, Respostas que lh’ella deu, Oh! não as contarei eu, Não as contará ninguem.... Quiz que lh’ella promettesse (E a terra alli não se abriu Quando tal a um pae ouviu!) Que para a noite seguinte, Quando tudo em paz jazesse Em seu leito o recebesse....

XVII

Chora a infeliz, chora, geme, De horror e de pasmo treme: Insta o perigo imminente, A esperança na demora.... Com voz cortada e gemente: —‘Senhor, não insteis agora, Deixae-me cobrar alento, E ámanhan responderei.’ —‘Pois solemne juramento Farás de que...’—‘Sim, farei...’ —‘Que ámanhan, antes que o dia Do horisonte despareça, Darás resposta final E ai de ti, ai do mortal A quem ousasses!...—Pereça O infeliz n’esse momento: Só a morte, só o inferno De meu cru resentimento O poderiam salvar.’

CANTIGA TERCEIRA

I must a tale unfold whose lightest word Will harrow up thy soul; freeze thy blood; Make thy two eyes, like stars, start from their spheres.

SHAKESPEARE.

I

Que mau fado, que hora má, Oh! qual agoirada estrella Levou Adozinda bella Á fadada grutta escura? Que foi ella fazer lá? No mais denso da espessura, A tão aziagas horas, Só, alta noite, a deshoras, Sem donzella ou escudeiro, Como o pedia a decencia, Sem levar mais companheiro Que sua debil innocencia, Que seu joven coração!

II

Quem o sabe?—No castello Nem a propria mãe, que a adora, Que pela filha querida Dera tudo, dera a vida... Nem a propria mãe sabê-lo! E como é que Auzenda ignora, Por que incanto ou maravilha, Que ao pino da meia noite Todos os dias a filha O escuro parque atravessa, E tenteando a treva espessa Vai sosinha áquella grutta Que no mais claro do dia Ninguem a entrar ousaria? —Mas vai; não o sabe Auzenda: N’este segredo fatal Coisa sobrenatural, Coisa medonha, tremenda Ha por certo... oh! que inda mal!

III

Desde aquella madrugada Que Adozinda em seu balcão Fallou c’o velho ermitão, De noite á grutta fadada Sempre vai. Sibille o vento No bosque medonho e feio, Ás nuvens o pardo seio Rasgue horrisono trovão, Nada teme; a passo lento, Só, para alli se incaminha E em rezas, em penitencia Horas longas jaz sosinha. Talvez d’aquelle romeiro, Por salutar providencia, Seu fado lhe foi preditto; Talvez lhe fôsse prescritto Por tam sancto conselheiro Que passasse em oração N’aquellas medonhas fragas Certas horas aziagas Em que a fatal conjuncção D’um astro seu inimigo Maior fizesse o perigo Da terrivel maldicção Que a persegue,—ella inocente!— Que tam injusta cahiu N’aquella votada frente... Mas diz que não ha condão Peior que o da maldicção! E quantas não attrahiu Sôbre a familia inculpada A suberba despiedada D’esse orgulhoso Sisnando? Quantas vezes o infeliz, C’os filhinhos expirando, Á porta do seu castello Se viu gemendo e chorando, E o desalmado senhor Essa gentalha atrevida Escorrassar a mandou! Taes peccados não guardou Para os punir na outra vida O supremo Arbitrador.

IV

Mas ja despontava o dia, Que tam alegre hoje vem, Tam risonho parecia, Que não dissera ninguem Senão que traz alegria: —E tantas, tam negras mágoas, Nunca as trouxe o sol nascente Desde que assoma no oriente E se sepulta nas aguas. Toda a noite longa, immensa, Auzenda velou chorando, De suas lagrymas regando O leito viuvo e só; A ninguem sua dor intensa A desgraçada confia: Ninguem da triste houve dó, Que do espôso em companhia Todo o castello a julgou. Porêm a noite passou, E porfim, do novo dia Ja o alvor vinha raiando, Sem apparecer Sisnando.

V

É manhan;—tenue inda a luz, Mas ve-se que é madrugada. Auzenda ainda acordada Sente abrirem-lhe com tento A porta do aposento, E entrar...—‘Será elle?... Oh vem! És tu, suspirado espôso?! Disse ella em timida voz: Não lhe responde ninguem. Um suspiro doloroso Lhe dissipou a illusão. Oh! quem se hade inganar Com aquelle suspirar! É Adozinda,—voaram Do maternal coração Toda a mágoa e dissabores; E os sentidos que ficaram Foi para amargar as dores Que n’aquelle _ai_ a assaltaram.

VI

—‘Filha, filha... a ésta hora! Que succedeu?... que tens tu?’ Callada Adozinda chora. —‘Ai, não, não me chameis filha!’ Rompe em fim, a soluçar, Nadando n’um mar de pranto. Pasmo, terror, maravilha, Susto, medo, horror, espanto No peito da triste Auzenda Em confusão estupenda De tropel foram quebrar. —Que será?—E esse tyranno De todo o socêgo humano, _Dúvida_, o monstro fatal, Que até nos deixa a esperança Paraque do incerto mal Seja maior a pujança, Venha mais fino o punhal Quando n’alma se nos crava, Esse do peito lhe trava, E ao cruel padecimento Dobra angústias e tormento.

VII

Adozinda, ajoelhada Juncto ao leito onde convulsa Jaz a mãe attribulada, Do coração, que lhe pulsa Como se fôra quebrar, Traz d’amargo pranto um rio, Que dos olhos vem a fio As maternas mãos banhar; As mãos que ella aperta e beja, E que o pranto que gotteja Ja não sentem derramar.

VIII

Volve a ti, mãe desgraçada, Volve, que o morrer agora Tammanha ventura fôra Que da sorte despiedada Concedido não será. Vem ouvir tua sentença De morte... peior que morte, Vergonha horrorosa, offensa... E de quem!... de teu consorte, Do pae monstro, monstro espôso... Ai! para o tormento odioso, Para tammanha afflicção Não tem fôrça o coração.

IX

Tudo lhe conta Adozinda, Tudo... tudo,—interrompendo A horrorosa narração Ora as lagrymas fervendo, Ora os soluços rompendo Do rasgado coração, Ora os labios descorados De pejo e terror gelados, Sem podêr nem balbuciar O que é fôrça revelar.

X

—‘Irás’ disse Auzenda emfim, E a voz, que treme, assegura: ‘Irás a teu...’—_pae_ não disse, E um som rouco lhe murmura Nos labios onde a meiguice, Onde a maternal ternura Procuram em vão surrir: ‘Irás, filha, a Dom Sisnando E lhe dirás que...’ —‘Senhora!’ Interrompe ella chorando —‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora Da meia-noite soar, Em teu quarto o hasde esperar. Não temas, filha, não tremas, Não chores, minha Adozinda, Querida filha, não gemas, Que hasde ser feliz ainda. No angustiado seio Guardemos inda a esperança: Do ceo mandada me veio Uma ditosa lembrança Que nos poderá salvar. No teu leito d’ouro fino Sou eu que me heide ir deitar; Tua camiza de hollanda A meu corpo heide lançar: E quando elle nos seus braços Ter Adozinda julgar... Ah! que o ceo hade abençoar Este ingano virtuoso, E a ser pae, a ser espôso Dom Sisnando hade voltar.’

XI

O dia em rezas passaram Em devotas orações; Mas quando as trevas poisaram Sôbre as muralhas da tôrre, Voltaram as afflicções: E o tempo—que leve corre Para todos os viventes— Só áquellas innocentes Accintoso parecia Que da ampulheta fadada Bago por bago espremia Cada hora minguada.

XII

Emfim meia-noite soa: Dom Sisnando, aguilhoado Do torpe amor—do peccado, Impaciente ao prazo voa Que elle d’amor julga dado. Como louco, arrebatado Corre ao leito de Adozinda, Cego bêja a face linda, Que decerto não é d’ella, Mas que não é menos bella; Ao convulso peito aperta Aquelle peito formoso... —Desgraçado, é tempo ainda, Do cruel sonho desperta, Que ao precipicio horroroso Ja te vai a despenhar!...

XIII