Part 9
Este romance foi muito imitado em Portugal pelos poetas cultos dos principios do seculo XVII.
=14--Romance do Conde Ninho=--Pertence pelo seu caracter maravilhoso ao cyclo da Tavola Redonda. Encontra-se na tradição oral dos Açores, e em Trás-os-Montes foi novamente recolhido. Na lição de Garrett (Rom. t. III, p. 7) não se encontra o _cantar_ que o conde armou. Nesta versão o rei manda cortar as arvores que rebentam das sepulturas dos amantes, porque o não deixam ir á missa; correm d’ellas leite e sangue, que symbolisam os sexos; situação que faz lembrar, se não é directamente imitada, o mais popular de todos os romances da Europa na edade media _Tristan e Yseult_. Eis como essa deliciosa imagem se encontra na seguinte passagem do _Tristan_: «Et de la tombe de monseigneur Tristan, yssoit une ronce belle et verte et bien feuilleue qui alloit par dessus la chapelle, et descendoit le bout de la ronce sur la tombe de la reyne Yseult et entroit dedans. La virent les gens du pays et le comptèrent au roy Marc. Lo roy la fist couper par troys foys et, quant il l’avoit le jour fait couper le lendemain estoit aussi belle comme avoit aultre fois esté, etc.» (_Tristan, Chevalier de la Table ronde_, fol. CXXIV). Este mesmo maravilhoso se encontra no _Lord Thomaz and fair Annet_, (Percy, Reliques of ancient english poetry, t. III, p. 296); no _Prince Robert_, e no _The Douglas Tragedy_ (Walter Scott, Minestrelsy of the Scottish Border, t. III, pag. 59, t. II, pag. 224). O romance de Tristão era conhecido já em Portugal no tempo de D. Diniz, como se vê do seu Cancioneiro:
Qual mayor poss’e o mui _namorado_ _Triste_, sey ben que non amou o seu, Quant’eu vos amo......(Pag. 53.)
Tambem no Catalogo dos _livros de uso_ de el-rei D. Duarte, (Sousa, Provas da Hist. Genealogica, t. I, p. 544) se encontra citado o livro de _Tristam_. As almas dos amantes voam na forma de pombas; nas lendas ecclesiasticas, e no hymno latino de Santa Eulalia, a alma do justo ascendia para o céo na apparencia do uma pomba. Portanto não é nem provençal, nem francez, ou normando, como pretende Garrett. O nome do conde Niño é talvez a forma hespanhola de conde _menino_. Garrett chama-lhe Nillo, e diz que não é nome portuguez; com tudo Bernardes, na _Floresta_, traz um nome de santo similhante, o que bastava para o povo o adoptar.
Quanto á realidade historica d’este romance, alguma se lhe pode assignar:
Na _Chronica do conde D. Pedro Niño_, narração meio historica meio fabulosa de Gutierre Diez de Games, se encontram vestigios do romance, porque ahì se fala em varias aventuras de amores. Como d’ali veio a tradição para Portugal, é facil de comprehender, porque o conde Niño foi casado com D. Beatriz, infanta portugueza. Quanto á origem do nome de _Niño_, diz a chronica: «Segund que de antigüa edad quedó en memoria, dícen qe vino en Castilla un Duque de Francia, é vivió é moró en ella grand tiempo, hasta que morió: é dejó dos fijos pequeñeruelos, é tomólos el Rey, é diólos á un Caballero que los criasse en su casa del Rey.
El Rey llamabalos siempre los _Niños_: é el su Ayo, cada que alguna cosa delibrar con el Rey para los Niños, siempre eram mentados Niños. D’esta guísa los llamaban las otras gentes: assi que á cada uno decían su nombre apertadamente, é decian encima el _Niño_.» (Cap. I, 10, 15, pag. 13). O romance fala de um cantar do conde Niño: na Chronica se lê: «Avia graciosa voz, é alta: era muy denoso eu sus _decires_» (Cap. X, p. 44). O casamento de Pedro Niño com D. Beatriz de Portugal, filha do infante D. João, causou-lhe immensos trabalhos, porque a elle se oppunha el-rei Regente de Castella: «E despues de la respuesta del Infante andubo Pero Niño mas de medio año por la corte é cerca d’ella, é vióse en assaz peligros muchas veces por ver á su esposa.» (Cap. III, Part. III, p. 185). No testamento do conde Pero Niño dispõe que elle e sua mulher sejam sepultados no côro da egreja de S. Thiago da Villa de Cigales. Crêmos ter apresentado os principaes traços historicos, para se vêr a formação do romance popular. Os amores do conde Niño foram cantados em verso por Villasandíno, poeta do tempo de Henrique III e João II, como se pode ver pelo _Cancioneiro_ de Baena.
=15--Romance da Promessa de Noivado=--Veio-nos esta versão da Beira Baixa; é uma variante do romance a _Peregrina_, (Romanc. de Garrett, t. III, pag. 22). Apresenta collisões novas, taes como a de estar o cavalleiro já casado e com filhos. A versão de Garrett é artificial, porque a formou dos fragmentos que obteve do Minho, Extremadura e Trás-os-Montes, fundidos na lição do Porto: «Contudo aproveitei bastante d’elles para restituir o texto e dar nexo e clareza à narrativa.» (Pag. 20). Assim fundiu aquella situação de romance de Tristão e Yseult, que apparece no _Conde Niño_ e na _Rosalinda_, de nascerem duas arvores na sepultura dos amantes, e que elle teve de explicar como logar commum dos romances populares. Na versão da Beira Baixa é só a amante que morre de tristeza. Garrett diz que nos Romanceiros Castelhanos nada se encontra parecido com esta singela historia. No _Romancero General_ do Duran, o _Conde Sol_ (n.º 327) tem muitos pontos de similhança com o nosso, e tanto que pela extensão d’elle deduzimos ser o nosso uma abreviação posterior. Foi Walter Scott o que primeiro descobriu a tendencia que têm os romances populares de _se aberviarem_.
=16--Romance de Dom Aleixo=--Se não é de origem hespanhola, o primeiro verso com que o romance principia faz nascer tal suspeita, posto que nas collecções castelhanas se não descubra. Sabe-o o povo de Lisboa e da Beira Alta. Nos manuscriptos do curioso Cavalleiro de Oliveira o encontrou Garrett, por onde restituiu os fragmentos das versões provincianas. (Rom. t. II, p. 91). Assim a lição que appresenta é bella, mas não é puramente popular, como elle proprio confessa: «Ainda assim, algumas raras palavras foram por mim conjecturalmente substituida.» Ha ali um mysterio que faz estremecer a quem lê: parecem palavras de um encantamento. A versão da Foz que recolhemos é estreme e revela-nos o lavor da imaginação popular sobre um thema commum. A dama pediu ao cavalleiro uma confidencia nocturna, em que elle morre por traição dos seus cunhados; Dona Maria mata-se ao pé do cavalleiro moribundo. Na lição de Garrett é ella que se toma de medo e mata o namorado. Uma é mais bella, a outra simplesmente verdadeira; mas na poesia do povo, segundo Grimm, á principal belleza é a sua grande verdade.
=17--Romance de Dom Pedro=--Apparece este romance com o nome de _Helena_ no Romanceiro de Garrett, t. III, p. 40; anda na tradição oral da Beira Alta, Extremadura e Lisboa. Da Beira Baixa recebemos uma variante de uma belleza profunda e inexcedivel; é ali aonde a poesia popular portuguesa se conserva mais primitiva e completa. O romance de _D. Pedro_ é mais simples e menos artificioso do que a versão de Lisboa. Aqui o _cavallo branco_, signal de lucto, demonstra a sua antiguidade. O final, sobre tudo, é a parte mais delicada; não são as penitencias do esposo, mas é elle que enterra _a sua rosa branca_, como quem planta uma flor, o lhe amollece a terra com as lagrimas dos olhos.
=18, 19 e 20--Romances da Filha do Imperador de Roma.=--Estes tres romances, colhidos em differentes provincias, completam a tradição. Já Garrett os tinha publicado, unindo-os e cortando aquellas partes em que a variante destruia a unidade da acção. A primeira parte foi colhida em Trás-os-Montes, terra fertil de tradições locaes, e aonde, logo depois da Beira Baixa, se encontram mais thesouros de poesia popular.
O _Hortelão das flores_ é mais antigo.
Este metro, chamado _rimance em endechas_, é pouco frequente na poesia popular; é ordinariamente de uma incorrecção pittoresca. Recebi o romance recolhido na tradição oral da Beira Baixa em uma letra tão falta, de forma legivel, de pontuação e escripto á maneira de prosa, que não sabemos se o trabalho de interpretal-o destruiria em parte a ingenuidade simples da creação anonyma!
É um facto curioso comparar este romance, de uma elaboração differente, com o romance do _Cegador_, versão da Beira Alta e Trás-os-Montes, que traz Garrett, (Romanceiro, t. III, 98). Ha a mesma peripecia da princeza se entregar a uns amores desconhecidos, ao filho de um corta carne, que lhe sae um Duque, como na lição alludida. Este verso podia cortar-se em redondilha; Jacob Grimm na _Silva de romances viejos_ adoptou a forma monorrima de dezeseis syllabas. Um facto notavel se descobre n’este romance: O celebre romance de Gil Vicente intitulado _D. Duardos_, que os Romanceiros, principalmente o de Anvers, adoptaram, que o povo assimilou e fez quasi de novo, como se pode ver na lição conservada pelo cavalleiro de Oliveira, apparece-nos aqui agora, novamente assimilado, mas deixando ainda ver alguns restos primitivos. A despedida da donzella e as falas de _D. Duarte_, foi o que o povo conservou na versão da Beira Baixa. São sempre as partes dramaticas que se perpetuam. Eis o romance de Gil Vicente:
=Dom Duardos=
En el mes era de Abril, De mayo antes um dia, Cuando lyrios y rosas Muestran mas su alegria, En la noche mas serena Que el cielo hacer podia, Cuando la hermosa Infanta Flerida ya se partia: En la huerta de su padre Á los árboles decia: --Quedáos á Dios, mis flores, Mi gloria que ser solia;
Voyme á tierras estrangeras Pues ventura allá me guia. Si mi padre me buscare, Que grande bien me quería, Digan que amor me lleva, Que no fue la culpa mia: Tal tema tomó conmigo, Que me venció su porfia: Triste no sé a dó vó, Ni nadie me lo decia.-- Alli habla Don Duardos: «No lloreis mi alegria, Que en los reinos de Inglaterra Mas claras aguas havia Y mas hermosos jardines Y vuesos, señora mia. Terneis trecientas donzellas De alta genealogia; De plata son los palacios Para vuestra señoria, De esmeraldas y jacintos De oro fino de Turquia, Con letreros esmaltados Que mentan la vida mia. Cuentan los vivos dolores Que me distes aquel dia Cuando con Primalion Fuertemente combatia. Señora, vos me matastes, Que yo a el no lo temia.» Sus lagrimas consolaba Flerida que esto oia; Fuéronse a las galeras Que Don Duardos tenia. Cincoenta eran por cuenta, Todas van en compañia: Al son de sus dulces remos La Princesa se adormia En brazos de Don Duardos, Que bien le pertencia. Sepan quantos son nacidos Aquesta sentencia mia; _Que contra la muerte y amor Nadie no tiene valia_.
_Obras_, t. II, p. 249.
=21--Romance de Dona Agueda de Mexia=--Nos _Cantos populares da Italia_, de Caselli, pag. 204 e 207, encontram-se dois romances, que tem grande analogia com este, excepto no final, cujo desenlace não é pelo milagre. Creio mesmo que na tradição portugueza é juxtaposição de algum troveiro, como succedeu com o final do romance _A Nau Catherineta_ da versão do Algarve. N’esta versão alemtejana falta a descripção da manhã de Maio que traz a lição de Garrett (Rom. t. III, p. 116). Nem ella tem caracter popular, antes parece um descuido de artista, que teve Garrett quando recompoz as duas versões da Estremadura e Alemtejo para formar o romance de _Guiomar_. Eis como um d’esses romances se canta no Piemonte:
«Nesta terra ha um mancebo, que pretendia casar; foi pedir a conversada, e não lh’a quizeram dar. Ficou com esta recusa tão afflicto e amargurado, que disse adeus aos amigos, e foi-se fazer soldado. Recebeu carta depois de pouco tempo passado. Uma carta bem fechada, em que lhe era declarado: «A tua querida amante está de cama a morrer» Foi-se ter com o capitão. Aos pés d’elle se foi ter: «Capitão, por vossa alma, a baixa me concedei.» O capitão lhe pergunta: «O que queres tu fazer?--Quero ir ver a minha amante, que está de cama a morrer.--Já vinha perto da terra, ouviu os sinos tocar. Tocam sinos n’um enterro, o defunto quem será? Ao entrar na sua terra, foi quando ouviu resar; era o esquife da amante, que levavam a enterrar. Mete esporas ao cavallo; tornou outra vez para trás; morreu-me o meu coração, vou ser outra vez soldado; «Adeos pae e adeus mãe, e tambem d’ella os parentes; se me dessem vossa filha, estariam mais contentes.»
Quasi que parece a forma primitiva da versão portugueza que reune um outro romance piemontez da _Giordanina_.
=22--Romance do Casamento e mortalha=--Foi pela primeira vez publicado por Garrett (Rom. t. III, p. 32). Não o encontrámos na tradição oral; extrahimol-o d’aquella artistica collecção para completar este simples monumento da poesia popular portugueza. De facto não apparece nos Romanceiros hespanhoes. Em um romance francez _Le Roi Renaud_, ha alguns longes de similhança; o rei volta da guerra, moribundo quasi; sua mãe vem ao encontro, e no meio da alegria o filho pede-lhe que faça uma cama ás escondidas de sua mulher, por que está para expirar. No restante diversifica a tradição (Du Puymaigre, t. II, p. 480). Nos cantos italianos existe tambem o romance do _Conde Angilioni_, que volta quasi moribundo da guerra; é até onde a situação é commum á França, Italia e Portugal (Tommaseo, Canti populari, t.I, p. 35).
=23--Romance da Náu Catherineta=--Nas antigas relações de naufragio temos a nossa poesia maritima com toda a profundidade do sentimento; que importa lhe não déssem fórma poetica? Sente-se uma alma em cada palavra do marinheiro, que faz a narração do que passou, com aquella resignação e serenidade de quem ha sofrido muito e tem uns alvores de esperança que o alentam,--o amor da patria, o culto das tradições gloriosas que procura conservar integerrimas. Com que uncção crente e piedosa não desenha elle os maiores transes! Os horrores do desastre fazem-lhe reconhecer um poder immenso, que adora com uma vehemencia e ardor capazes de fazer prodigios. Vêem a nau quasi a afundar-se: «Pelo que, como homens que esperavam antes de poucas horas dar contas a Nosso Senhor de nossas bem ou mal gastadas vidas, cada um começou a ter com sua consciencia, confessando-se summariamente a alguns clerigos, que ahi iam. A este tempo andavam com um retabulo e crucifixo nas mãos, consolando a nossa angustia com a lembrança d’aquella, que ali nos apresentavam. Isto acabado pediamos perdão uns aos outros despedindo-se cada um de seus parentes e amigos, com tanta lastima, como quem esperava serem aquellas as derradeiras palavras que teriam n’este mundo. N’isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em parte onde se não vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma amarellidão e trespassamento de manifesta dor e sobejo receio, que a chegada da morte causava, ouvindo-se tambem de quando em quando algumas palavras lastimosas, signal certo da lembrança que ainda n’aquelle derradeiro ponto não faltava dos orphãos e pequenas filhos, das amadas e pobres mulheres, dos velhos e saudosos paes, que cá deixavam; e acabando cada um de satisfazer ao humano com este pequeno mas devido comprimento, todo o mais certo do tempo se gastava em pedir a Nosso Senhor remedio espiritual (que do corporal ninguem fazia conta).»[2] A lembrança viva representa a cada instante as passadas angustias. A côr da narração é a verdade. O genio aventureiro marítimo do povo portuguez está dentro d’aquellas paginas; cada palavra é um sentimento surprehendido na sua ingenuidade. O marinheiro ama a sua nau e confessa-o irreflectidamente: «levando a phantasia occupada n’esta angustia, e os olhos arrasados de agua, não podia dar passo, que muitas vezes não tornasse a trás, para ver a ossada d’aquella tão formosa e mal afortunada nau, porque posto que já n’ella não houvesse pau pegado, e tudo fosse desfeito n’aquellas rochas, todavia emquanto a viamos, nos parecia que tinhamos ali umas reliquias, e certa parte d’esta nossa desejada terra, de cujo abrigo e companhia, (por ser aquella a derradeira coisa que d’ella esperavamos) nos não podiamos apartar sem muito sentimento, etc.»[3]
Isto que o capitão da nau _S. Bento_ sentia era o mesmo que se passava na alma dos velhos mareantes, que davam aos navios nomes domesticos, de paixão, com que esqueciam os que lhes tinham imposto no baptismo; o galeão _S. João_, que naufragou na carreira da India em 1551, tinha por _alcunha_ o _Biscainho_;[4] a nau _Aguia_ chamava-se vulgarmente _Patifa_.[5] Este nome da nau _Catherineta_, nome popular que Garrett julga um diminutivo de affeição dado por graça a algum navio favorito, parece ter a sua origem do galeão _Santa Catherina do Monte Synai_, que levou a infante D. Beatriz para Saboya. As memorias do tempo descrevem-n’o como digno da affeição popular, capaz de deslumbrar a imaginação do vulgo, e de fazer nascer uma paixão ao mostrar-se á vista penetrante do marinheiro, que sabe tão bem avaliar o bello das curvas, dos pontaes, e a mastreação elegante. O galeão de _Santa Catherina_ começou a ter a sua popularidade nos versos de Gil Vicente, na tragi-comedia das _Côrtes de Jupiter_:
Leva gente muito fina, Poderosa artilharia, E a nau _Santa Catherina_ Que vae por graça divina Co’a a prôa n’Alexandria.[6]
Em uma memoria contemporanea se lê: «e a infante duqueza embarcou esse dia, que eram 5 de agosto, na nau _Santa Catherina do Monte Synai_, nau de 700 toneis, _muito formosa_, e de dentro todalas camaras da infanta pintadas de oiro e forradas de bordados.»[7] Não é hypothese gratuita, ter a imaginação popular motivo sobre que idealisasse uma nau typica, como centro de acção para todos os seus romances maritimos. O genio do povo só exprime os seus sentimentos personalisando e localisando; d’aqui a multiplicidade das lendas, e ao mesmo tempo um fundo de verdade em todas ellas.
A lenda da _Nau Catherineta_ não tem uma determinada origem historica; é a generalidade tetrica de todos os naufragios. Garrett inclina-se a achal-a no naufragio que passou Jorge de Albuquerque Coelho, vindo do Brasil no anno de 1556, em que a fome e a ancia de se devorarem e a resistencia do capitão reflectem muito as cores sinistras da lenda.[8] Tambem na relação, que por vezes havemos citado, do naufragio da nau _S. Bento_, se encontram ameaços do horror da antropophagia: «E porque havia tantos dias que não fizeramos resgate, nem metteramos nas boccas cousa que nome tivesse, constrangeu a necessidade a muitos serem de parecer que comessemos este cafre; e segundo se já soava, não era esta a primeira vez que a desventura d’aquella jornada obrigara a alguns a gostarem carne humana;[9] mas o capitão não quiz consentir em tal, dizendo que se cobrassemos fama que comiamos gente, d’alli até ao cabo do mundo fugiriam de nós, e trabalhariam de nos perseguir com muito mais odio.»[10] O facto de deitarem muitas vezes sola de molho, apertados pela fome, como conta ligeiramente a lenda popular, é frequente nas relações dos naufragios: «mas fizemos a ceia de umas alparcas que eu levava calçadas, a quem tambem a nossa não menor mingua fez que não menos gostosas as achassemos.»[11] O gageiro, que era o diabo que na lenda da _Nau Catherineta_ levantava o temporal, tem alguma reminiscencia, ou melhor, parece ser fundado no grumete que no naufragio do galeão _S. Bento_ se benze e chama pelo nome de Jesus ao ver erguerem-se uns enormes vagalhões a que elle não hade chamar senão diabos, que vêm em tropelia.
Em todas as narrações de naufragios ha mais ou menos uma sombra do quadro horrivel da _Nau Catherineta_; fomos apontando alguns factos, não para determinar origens, mas para reconhecer a generalidade da lenda.
Na poesia das Asturias encontra-se um pequeno romance chamado o _Marinheiro_; tem o mesmo colorido, similhante ao final da _Nau Catherineta_ da versão do Algarve:
=El marinero=
Mañanita de San Juan Cayó un marinero al agua, --Que me dás marinerito, Porque te saque del agua? «Doyte todos mis navios Cargados de ouro y de plata. --Yo no quiero tus navios Ni tu oro, ni tu plata, Quiero que quando tu mueras A mi me entregues el alma. «El alma entrego á Dios Y el cuerpo á la mar salado.
Os naufragios frequentes dos galeões da India acharam Uma forma livre, espontanea, para revelar a extensão do sentimento nos cantos do genio popular. A _Nau Catherineta_ é uma epopea moderna e por isso incompleta, porque o tempo não deu logar a accumularem-se os episodios, nem dependerem mutuamente as _Variantes_. A sua formação descobre-se na diversidade de versões que ella tem. A Estremadura, o Minho, o Algarve, Lisboa, Beira-Baixa e Ribatejo, trabalham sobre a mesma lenda. Mais tarde a variante tornava-se episodio, prendia-se á unidade do poema. A imagem do diabo, que mostra as meninas debaixo do laranjal, é de origem puramente christã. O _gageiro_ que sobe ao mando do capitão, sobre quem cahiu a sorte para ser devorado, e que promette o grau de cavalleiro, sua filha, o seu navio, se lhe avistar terras de Portugal, é uma das mil personificações do diabo. Elle produz a cerração que esconde a praia. O mar, segundo as crenças christãs vindas do paganismo, era a mansão do diabo. Typhon, o principio do mal, a quem o mar fora consagrado,[12] transforma-se depois no diabo da mythologia christã.[13] O espirito supersticioso, a ignorancia das leis naturaes ainda não vulgarisadas na edade media, estão representadas no gageiro que suscita a tormenta. Era a crença da egreja. Na vida de Guibert de Nogent, na _Summa_, de S. Thomaz e no livro de Alberto Magno _De potentia Daemonum_ apparece este pensamento que vêmos determinado na poesia popular portugueza. Na _Divina Comedia_ e na _Jerusalem Libertada_, os ventos são tambem attribuidos ao diabo.
Garrett nas poucas linhas com que precede este monumento da nossa poesia popular maritima, admira-se de que um povo de argonautas não exercesse o seu genio creador no romance maritimo.
O século XVI foi a edade da prosa; comtudo o povo é sempre infante, sempre creador e poeta; mas as imitações classicas infatuadas de sciencia absorveram as attenções a ponto de excluirem a poesia popular. O poema cyclo do mar tivemol-o nós. Basta ler as relações das viagens, dos naufragios, das fomes, das tormentas. Antes de se fixarem na forma prosaica da _Historia Tragico-maritima_, essas dores foram primeiro soffridas e communicadas. A _Nau Catherineta_ não tem uma certa origem historica, como suppõe Garrett, é o germen de uma Odyssea, aonde a multiplicidade das scenas de naufragio estão reduzidas á generalidade mais tetrica. Entre os folhetos de cordel do seculo XVIII encontramos a narração do naufragio da nau _Gloria_, feito em verso por um marinheiro.