Part 8
«Em quanto estava assentado e comia a uma mesa de marmore, meu cavallo nitriu e o meu sabre estrepitou. Disse então para mim: Casam a minha bella; abendiçoam-na com outro; para outro a corôam, desposam-na, e dão-lhe outro marido. Levanto-me e vou direito aos cavallos, que são ao todo setenta e cinco: qual é dos meus setenta e cinco cavallos, o que pode faiscar no Levante e dar consigo no Poente? Todos os cavallos que me ouvem gotejam sangue; todas as eguas que me escutam abortam. Mas um velho, um velho corcel, com quarenta feridas: «--Eu sou velho e feio, não me dou com as viagens; mas pelo amor da minha bella senhora emprehenderei a corrida, porque ella me trazia de comer no avental arregaçado, e de beber na cova da sua mão.» Sella immediatamente o cavallo, e immediatamente o monta. «Cinge a cabeça com uma toalha de nove almas, não puches a redea, nem craves as esporas, porque isso me lembraria a minha mocidade, e eu seria como um pôtro e semearia os teus miollos em um campo de nove covados.» D’uma chicotada no cavallo adianta quarenta milhas; redobra e faz quarenta e cinco; e caminhando roga a Deos:--Meu Deos, fazei com que encontre meu pae entrançando sua vinha. Pediu como christão, como sancto foi ouvido, e encontrou seu pae podando a vinha.--Bem andaes, meu velho; mas de quem é essa vinha?--Para lucto e desgraça é do meu filho Janaki. Hoje dão um outro marido á sua bella. Com outro a abendiçoam, para outro a corôam.--Oh dize-me, dize-me, bom velho, ainda os encontrarei á mesa?--Á mesa os encontrarás, se tiveres um bom cavallo; se tens só um rocim, encontral-os-has na benção.--D’uma chicotada no cavallo avança quarenta milhas; redobra, e faz quarenta e cinco, e caminhando, vae orando a Deos.--Meu Deos, fazei com que eu encontre minha mãe regando no seu jardim! Como christão o pediu, como sancto foi ouvido, e encontrou sua mãe regando o jardim. Bem andaes, minha velhinha; de quem é este jardim?--Para desgraça e luto é do meu filho Janaki. Hoje dão um outro marido á sua bella; com outro a abendiçoam, coroam-na para outro.--Oh! dize-me, dize-me minha velha, encontral-os-hei ainda á mesa?--Á mesa tu os encontrarás, se tiveres um bom cavallo; se tiveres só um rocim, tu os encontrarás na benção.--D’uma chicotada no cavallo galga quarenta milhas, redobra e faz quarenta e cinco. O cavallo começa a relinchar e a donzella o reconhece. «Minha filha, quem conversa comtigo? quem te fala?»--É meu irmão mais velho, que traz o meu dote.--«Se é teu irmão mais velho, sae para ir dar-lhe de beber. Se é teu amante, sáio eu, e mato-o.» É meu irmão mais velho, que me traz o dote.--Ella pega em um copo d’ouro, para sair e dar-lhe de beber.--Põe-te á minha direita, ó encantadora, e dá-me de beber pela esquerda.--O cavallo ajoelhou e a donzella se achou sobre elle. Então desfillou como o vento. Os turcos pegam em seus mosquetes, mas já não alcançam nem o cavallo, nem a poeira d’elle. Aquelle que tinha um bom ginete viu a sua poeira; os que só tinham um rocim, nem sequer a avistaram». (_Chants populaires de la Grèce Moderne_, p. 140.)
Uma outra conclusão, que se tira da ubiquidade d’estes romances, é que o povo adopta sempre aquelles que não dizem respeito a facto algum particular ou historico; os romances communs aos povos do Meio Dia da Europa, são apenas acções cavalheirescas de imaginação, aventuras inspiradas por um certo ideal; isto se confirma pela grande vulgarisação dos romances do cyclo da Tavola Redonda, e pelo pequeno numero dos romances carolinos na Italia, na Hespanha e nullo quasi em Portugal. Na forma portugueza, e grega d’este romance se encontra a côr local de cada povo: comtudo o nosso parece mais antigo; as _terras d’alem mar_ lembram-nos o modo como o povo designa as expedições á Terra sancta.
=8--Romance do Alferes matador=--Este romance ainda não tinha sido recolhido da tradição oral; veiu da Covilhã, a mina mais rica destas preciosidades, e aonde se encontram as versões mais puras. Pela confrontação com os romances francezes e italianos está incompleto, porque a donzella apenas se finge morta para salvar a sua honra: circumstancia que não seria omittida, se o nosso rhapsodo popular completasse a historia. Gerard Nerval (Bohème galante, pag. 71) traz uma canção bourbonesa, _La jolie Fille de la Garde_, tambem conhecida na Picardia. No Pays Messin foi recolhida uma outra versão por M. du Puymaigre (_Vieux Auteurs_, t. II, p. 478):
Au chateau de Beufort y avait trois belles filles Elles sont belles, belles comme le jour; Trois do nos capitaines leur vont faire 1’amour. .................................................... Le plus jeune des trois, celui qui la courtise, A mis la bell’sur son cheval grison, Puis ils l’ont emmenée droit á la garnison.
Deux ou trois jours après, la belle est tombée morte, Sonnez, trompette, et le tambour joli: Voilà la belle morte sans en avoir joui.
Il faut enterrer dans l’jardin de son père; Au dessus de sa tombe on mettra par écrit: «Voilà la belle morte sans en avoir joui.»
Deux, ou trois jours après, le père qui se promène A vu le tombeau frais... «Mon pèr’si vous m’aimez, Faites ouvrir la tombe; J’ai fait trois jours la morte pour mon honneur garder.
Nos _Canti populari_, raccolti da Oreste Marcoaldi (pag. 163) vem um romance similhante, na colleção de Caselli (Chans populaires d’Italie, pag. 203), que o dá como do reproduzido Piemonte.
=9--Romance da Romeirinha=--O grande uso das peregrinações e romagens como pena ecclesiastica e civil na edade media, produziu uma tal perturbação na familia, que muitas vezes os maridos vieram encontrar as mulheres já casadas; tudo isto originava muitas tradições. A promessa de romaria era tambem hereditaria como o castigo na penalidade heroica; Josselin fica herdeiro da peregrinação á Terra santa, que seu pae promettera. No testamento de el-rei D. Diniz se lê: «Item, mando que um Cavaleiro, que seja homem de boa vida, e de verguença, que vá por mi á Terra Santa dultramar, e que estêe hi por dous annos compridos se a cruzada for servindo a Deos por minha alma etc.» (Provas da Historia Genealogica, por Antonio Caetano de Sousa, t. I, pag. 101.) As mulheres tambem faziam romarias, e, expostas aos perigos da estrada e da pirataria, não poucos romances tiveram origem das situações difficeis por que passaram. Nos nossos romances do _Conde Preso_, se vê o fundamento d’aquella carta que escreveu San Bonifacio a Guthbert, bispo de Cantorbery, ácerca das romarias das mulheres: «A maior parte d’ellas succumbem e muito poucas voltam com a sua castidade.»[1] As leis protegiam os peregrinos, coadjuvadas pelas excommunhões dos canones dos Concílios. A lei bávara diz: «Que ninguem faça mal ao estrangeiro, porque uns viajam por Deos, outros por necessidade, e todos precisam de paz». O concilio de Latrão em 1123 excommunga os que vexarem os peregrinos que vão a Roma ou a outro qualquer logar de devoção. No romance portuguez de Dom Garfos, o conde é enforcado por ter violado a romeira de Sanct’Iago. Este romance da _Romeirinha_, que anda na tradição oral de Trás-os-Montes e Minho, encontra-se tambem, na parte essencial da acção, com alguns romances populares da Italia. Pode-se apresentar como o typo dos romances communs ao Meio Dia da Europa; o cavalleiro Nigra e Du Puymaigre determinaram os paradigmas.
M. Amador de los Rios, nos romances asturianos, que publicou em 1861 no _Jahrbuch_, traz um em tudo similhante ao nosso; refiro-mo ao essencial da acção. (Vid. Du Puymaigre, t. II, p. 465.)
O _Rico Franco_ do Romanceiro hespanhol (Du Puymaigre, 406) a _Montferrina_ (Caselli, pag. 190), _O Corsario_ (Du Puymaigre, t. II. p. 406), _Le beau Marinier_ colligido de Beaurepière, e o _Barzas Breiz_, appresentam bastantes situações identicas.
=10 e 11--Romances da Infanta de França=--A versão da Beira-Baixa é notavel por appresentar uma fusão natural de dois romances o _Caçador_ e a _Infeitiçada_, que traz Garrett, (Romanceiro t. II. p. 21 e 32). O final, que não apparece em nenhuma das lições de Garrett, encontrei-o tambem em um fragmento que recebi de Penafiel. A versão da Foz tem os dois romances confundidos, e nella se nota o processo de abreviação que se dá continuamente nos romances populares. Estes mesmos dois romances vêm nos Romanceiros hespanhoes com o nome de _Infantina_ e _Romance de la Infanta de Francia_. (Duran, t. I, p. 152). O espirito d’este conto meio decameronico é manifestamente de origem franceza; as nossas versões vieram-nos da tradição de Hespanha, como se vê pela perfeição d’ellas, quasi sempre mais bem acabadas do que as castelhanas. Saem da ultima demão. «A versão portugueza, segundo Fernando Wolf, está mais proxima do original francez do que da versão hespanhola. Ambas tratam o mesmo assumpto, o logar da scena em ambas é perto de Paris; a lubricidade dos _Fabliaux_, um tom desenvolto e a crença nas fadas, acham-se notadas no primeiro d’estes romances.» (Proben, S. 54). As duas versões que appresentamos, assignalam a influencia normanda na poesia popular portugueza. Gil Vicente no _Auto dos Quatro Tempos_, traz uma cantiga franceza:
Ay de la noble Villa de Paris, etc.
que nos comprova esta asserção; basta-nos porem esse paradigma, para fundamental-a melhor:
Nons étions trois filles, Bonnes à marier; Nous nous en allâmes Dans un pré danser. Nous fîmes rencontres D’un joli berger. Il prit la plus jeune, Voulut l’embrasser. Nous nous mîmes toutes A l’en empêcher. Le berger timide La laissa aller; Nous nous en criâmes: «Ah! le sot berger! Quant on tient l’anguille Il faut la manger. Quant on tient les filles, Faut les embraser.»
Charles de S. Malo traz esta canção a pag. 379 das _Chansons d’autrefois_, referida ao anno 1660 como anonyma. Gerard Nerval recolheu na Normandia um romance popular, que é o pensamento das nossas versões, mas com aquella graça facil que caracterisa o genio francez. Du Puymaigre, d’onde o reproduzimos (Vieux auteurs Castillans, p. 251, t. II), tambem o ouviu cantar na Borgonha e no Pays-Messin:
Après ma journée faite Je m’en fut promener, En mon chemin rencontre Une fille à mon gré; Je la prit par sa main blanche, Dans les bois je l’ai menée.
Quant elle fut dans les bois, Elle se mit à pleurer: --Ah! qu’avez-vous, ma belle, Qu’avez-vous à pleurer? --Je pleure mon innocence, Que vous me l’allez ôter.
--Ne pleures pas tant la belle Je vous le lesserai. Je la pris par sa main blanche Dans les champs je l’ai menée; Quant elle fut dans les champs Elle se mit à chanter.
--Ah, qu’avez-vous la belle, Qu’avez vous à chanter? --Je chante votre bêtise De me laisser aller, Qand on tenait la pule Il fallait la plumer.
Já o sr. Duran tinha dito d’este romance: «Todo indica que este romance es de origen frances, é imitacion de alguna trova caballeresca. De todas maneras é bellissimo por su natural sencillez, y por la festiva e punzante expresion de sus ideas, tan propria de las crónicas bretonas e de los cantos de los Troberos.» (Rom. Gener. p. 152, t. I).
Ha na _Infeitiçada_, que Almeida Garrett colligiu, e na versão da Foz, um lance dramatico de quasi todos os romances populares: é o cavalleiro que se encontra com sua propria, irmã:
«Deixai-me agora chorar, Olhai a minha mofina; Cuido que levo mulher E levo a uma irmã minha!
Este mesmo desenlace se encontra no romance de _Branca-Flor_:
Ai triste de mim coitada, Ai triste de mim mofina, Mandei buscar uma escrava, Trazem-me uma irmã minha.
(Pag. 103, n.º 38.)
No romance catalão _Las dos Germanas_, publicado por M. Milà y Fontanals (Observationes sobre la Poesia popular, p. 117) a cativa dá-se a conhecer por uma cantiga de berço. Na _Bella Infanta_ ha tambem um reconhecimento. No romance de _Dom Bueso_, recolhido por Amador de los Rios, o cavalleiro encontrou uma donzella que estava lavando em uma fonte fresca. Leva-a comsigo; já proximo de casa, ella recorda-se d’aquelles sitios, e é quando Dom Bueso reconhece sua irmã Rosalinda. Na poesia grega, onde o amor não é conhecido com a simplicidade ingenua dos povos modernos, a mulher é quasi sempre a que se apaixona de um modo irresistivel, a que se sente arder em um fogo ignoto; veja-se Sapho, Phedra, Pasiphae; o heroe não comprehende essa hallucinação. Na poesia hespanhola o cavalleiro é quasi sempre tambem incitado pelas graças das donzellas. A rudeza das armas fazia-lhe esquecer os devaneios ferventes. No romance da _Encantada_ e da _Infeitiçada_, a donzella é que se dirige ao cavalleiro, e que ri da sua ingenuidade.
Uma ballada allemã intitulada a _Filha do rei encontrada_, que Du Puymaigre traduziu (Vieux auteurs Castillans, t. II, p. 365) versa sobre a mesma peripecia, mas illuminada pela melancholia vaga do norte: «Um rei tinha uma filha pequenina; chamava-se Annellein. Sentou-se ás abas de um bosque sobre uma pedra. Veio um vendilhão estrangeiro por ali; atirou-lhe uma fita de seda: «Agora é preciso que tu me sigas.» Levou-a para casa de uma mulher, que tinha uma estallagem, e deixou-a para servir. «Estallajadeira, minha estallajadeira, tomae para vos servir essa minha filhinha.»--Oh sim, sim, é o que eu quero; heide tratal-a bem, heide ser como uma mãe para ella. «Passado certo tempo, já se contavam annos, eis que passa um senhor a cavallo, indo em busca de uma mulher. Passou pela casa da estallajadeira; a rapariga lhe trouxe vinho. «Estallajadeira, minha cara estallajadeira, é vossa filha? ou é mulher de vosso filho? como é tão bella?--Não é minha filha, nem tão pouco mulher de meu filho: é a pobre Gudeli; ella ensina os quartos aos hospedes.--Estallajadeira, minha cara estallajadeira, deixai-me ficar uma noite ou tres, tantas quantas me fizer conta.--Oh sim, sim, isso é o que eu quero. Eu vos hospedarei tanto tempo quanto quizerdes.» O cavalleiro tomou a bella Annelein pela mão, e a conduziu, para o quarto de dormir; levou-a para uma bella cama e perguntou-lhe se quereria dormir junto d’elle. O Duque tirou a sua espada d’ouro e pol-a entre os dois corações. A espada não hade ferir nem cortar, mas Annelein hade ficar como uma virgem criança. «Ah Annelein, olha agora para mim. Conta-me a tua sorte, dize-me tudo o que sabes, tudo o que te lembra. Dize-me quem é a tua mãe?--O senhor rei é meu pae, a rainha é minha mãe; eu tenho um irmão que se chama Mannigfalt: Deos sabe por onde elle agora anda.--Já que teu pae é o rei, e tua mãe a rainha, e que tens um irmão chamado Mannigfalt, eu apérto a mão de minha irmã.» E quando rompeu a madrugada, a estallajadeira veio à porta do quarto: «Levanta-te, priguiçosa, levanta-te, vem dar de almoçar aos hospedes.»--Oh não, deixa dormir a bella Annelein; serve tu os viajantes; minha irmã Annelein já não é criada.» Monta-se a cavallo, e leva sua irmã á garupa; toma galhardamente sua irmã pela cintura e leva-a atrás de si. E quando chegou á corte, veiu sua mãe ao encontro: Bem vindo sejas, meu filho mais essa terna mulhersinha.--Não é uma mulhersinha, é vossa filha, que tinhamos perdida ha tanto tempo. «Sentaram á meza a bella Annelein, deram-lhe peixe frito e cosido; meteram-lhe no dedo um annel d’ouro: «Até que fôste encontrada, minha filha real.» (_Volksliedei_, S. 186) Uma outra ballada allemã, de uma orphan, que vae bater á porta de uma irmã casada, para a servir, tem sua analogia com a _Branca-Flor_ (Deutsches Balladenbuch, S. 10). Esta mesma peripecia se encontra em cantos suecos, dinamarquezes, em um fragmento do poema bretão _Les Breiz_ (M. de Villemarqué, _Barzaz Breiz_, t. I, p. 137-180), nos _Cantos populares do Norte_ (Marmier, p. 175), nos _Cantos populares da Grecia moderna_ (Conde de Marcellus, p. 146). O maravilhoso feérico das margens do Rheno tambem apparece n’estes romances da _Infanta de França_, e _Encantada_. M. Du Puymaigre indica a maior parte dos romances em que se encontram situações analogas de reconhecimento, cujas collisões formam ordinariamente os lances da poesia popular. (Vid. Vieux auteurs castillans, t. II, p. 357, 374).
=12--Romance da Silvana=--É dos mais populares e antigos; encontra-se em Lisboa, Ribatejo e Beira Alta. Já no seculo XVII D. Francisco Manuel de Mello o cita como velho, como se deprehende d’aquelle verso do Fidalgo apprendiz: _Uma letra nova quero_, que diz Brites, recusando-se a escutar este romance que Gil lhe ia cantar á guitarra. (Pag. 247). A _Silvana_ faz lembrar a Myrrha da mythologia grega. Pertencerá ella ás ficções eruditas do cyclo greco-romano? Não parece o combate de Tristão com o Morouhet de Irlanda uma imitação o combate de Theseu com o Minotauro? Arthur não é trahido por Ginebra, como Hercules por Djanira? Têm ás vezes origens caprichosas estas tradições do povo. O principio da _Sylvana_ anda quasi sempre confundido com o romance do _Conde Alarcos_. Foi pela primeira vez publicado por Almeida Garrett, que o dá como originario portuguez. (Rom. t. II, p. 98). Encontra-se porem nas Asturias, e o sr. Amador de los Rios o publicou no _Jahrbach für romanische und englische Literatur_, _t. III_, _p. 284_, com o titulo de _Delgadina_: «O rei tinha tres filhas, cada qual como uma flor, e a mais nova d’ellas todas chamava-se Delgadina. Estando um dia á meza, estando um dia a comer, seu pae que a estava a mirar, seu pae que tanto a mirava.--Porque é que me olhaes, meu pae? Porque é que me estaes a olhar?--Ólho, filha, porque quero sejas minha namorada.--Isso é o que Deos não quer, nem a Virgem soberana. Deos do céo não quer que eu seja tua namorada. O pae quando isto ouviu a levou para uma torre; não lhe dava para comer, mais que sardinhas salgadas; não lhe dava de beber mais que summo de laranja. Delgadina, morta á sêde, foi pôr-se a uma janella, e vendo os irmãos que estavam a par dos grandes de Hespanha: Oh meus irmãos, meu irmãos, se me daes um pingo de agua, que o meu coração se quebra, e a minha alma se parte.--Não t’a darei, Delgadina, pois se o soubesse meu pae a vida me tiraria com a ponta da sua espada. Delgadina morta á sêde, foi pôr-se a outra janella, viu suas irmãs estarem bordando tea de Hollanda: Oh manas, manas queridas, mandae dar-me uma pouca de agua.--Não t’a darei Delgadina, Delgadina não darei, porque perderia a vida se é que meu pae o soubesse. Delgadina morta á sêde, foi pôr-se a outra janella, e vendo seu pae já prestes a partir para a caçada: Meu pae, vós que sois meu pae, dae-me vós uma gota de agua?--Eu te darei Delgadina, se tu commigo falares.--Ouvirei as vossas falas, bem contra minha vontade. Os criados que elle tinha, todos foram buscar agua, uns a trazem em jarros de ouro, outros n’um gomil de prata. Ao primeiro que chegou, mandou sua corôa dar, ao que chegou derradeiro, manda a cabeça cortar. O leito de Delgadina estava de anjos cercado, e a cama de seu pae toda cheia de diabos.»
A lição portugueza é mais extensa e mais primitiva, nada perde da sua originalidade; porque os romances asturianos, segundo Amador do los Rios, são de origem extranha, accommodados ás toadas antigas:
=Faustina=
_(Variante de Coimbra)_
O Conde da Villa-Flor, Por ser o Conde maior, De tres filhas que elle tinha Clarinhas como o sol; Uma se chama amada, Outra se chama querida. Outra se chama Faustina for ser a mais fidalgada.
--Queres tu, filha Faustina Ser a minha namorada? «Não permitta Deos do céo, Nem a Virgem consagrada, Que eu, sendo sua filha, Seja sua namorada. --Deixa vir a mãe da missa, Que eu lh’o saberei dizer: Ora vinde mulher minha, Ver o que aconteceu: A nossa filha Faustina De amores me prometteu. Dizei lá, oh mulher minha, O que Faustina mereceu? --«Torre de pedra lavrada Para meteres Faustina! Deras-lhe o pão por onça, Agua por uma medida.
Ali tiveram Faustina Por sete annos encerrada: Davam-lhe agua por onça, E da carne mais salgada. Ao cabo de sete annos Faustina sem ser findada; Foi-se d’ali a Faustina, Tristinha e desconsolada, Assobindo uma ventana Outra ventana mais alta, D’ahi viu estar suas manas Cosendo em uma almofada:
«Deos vos guarde, manas minhas, Manas minhas da minha alma; Peço-vos pelo amor de Deos Que me deis uma pinga de agua! «--Deos te guarde, oh Faustina, Oh mana da minha alma, O nosso pae nos jurou, P’los cópos da sua espada, Que quem désse agua á Faustina Sua cabeça é cortada.
Foi-se d’ali a Faustina, Tristinha e desconsolada, Assobiu a uma ventana, Outra ventana mais alta, D’onde via estar sua mãe Lavrando a ouro e prata: «Deos vos guarde, oh minha mãe, Mãe minha da minha alma! Peço pelo amor de Deos Que me dê uma pinga d’agua. --«Deos te guarde, oh Faustina, Oh filha da minha alma; Ha sete annos que eu vivo Com o teu pae mal casada. Foi-se d’ali a Faustina, Tristinha, desconsolada, Assobiu a uma ventana. Outra ventana mais alta, D’onde viu andar seu pae Passeando n’uma sala:
«Deos vos guarde, oh meu pae, Oh pae meu da minha alma; Peço pelo amor de Deos Que me deis uma pinga de agua. --Deos vos guarde, oh Faustina Minha filha mal fadada. Eu pedi-te a mão direita Tu não m’a quizeste dar. «Aqui tem a mão direita, A esquerda se a quizer! --Venham as jarras de prata De ouro se as houver; Quero dar agua á Faustina, Que já é minha mulher. Corram, corram, cavalleiros, A dar agua á Faustininha; O que primeiro chegar Hade ter uma prenda minha.
A agua era chegada, Era findada Faustina! No meio d’aquelle largo Um tanque d’agua apparecia. Vieram sete senhoras Domingo de madrugada Para levarem Faustina Para o céo em corpo e alma. Nossa Senhora do Pranto É que a pranteava, Tu morreste, Faustininha, P’la honra de seres honrada. Nossa Senhora do Pranto Era quem a pranteava; No seu pranto, que dizia: Domingo de madrugada Vieram sete demonios, Dormiram em tua casa Para levarem teu pae P’r’o inferno em corpo e alma.
Aqui está completa a versão apontada por Garrett, de que apenas deixou alguns versos (Rom. t. II.) É um facto curioso vêr como o povo vae confundindo os romances, produzindo inconscientemente situações novas. O nó da acção é imitado pelo povo dos romances do _Conde de Allemanha_. Nossa Senhora do Pranto, que vem prantear a desgraçada, dá ao romance uma côr de alta antiguidade; era um velho uso de Portugal, já prohibido no tempo de D. João I.
=13--Romance de Bernal Francez=--Anda na tradição oral da Beira Baixa e Estremadura, e já Garrett o tinha encontrado nos manuscriptos do cavalleiro de Oliveira, por onde _aperfeiçoou_ a lição mais circumstanciada e extensa que vem no Romanceiro, t. II, pag. 129. A versão da Foz é egualmente dramatica, e superior por se ter respeitado n’ella a sua rudeza nativa. Tenho para mim que o romance é formado de duas partes distinctas que a tradição confundiu, e que o povo não sabe discriminar; o pensamento da primeira parte, isto é a difficuldade que sente a esposa diante de seu marido, encontra-se no _Romancero General_ (Duran, n.º 298) na _Adultera castigada_; a segunda, parece formar-se do romance _El Palmero_ (Duran, n.º 292) em que o cavalleiro vem ver se vê a sua amada e lhe dizem que é morta por amor d’elle.
Circumstancias do dialogo, desfecho, e o caracter principal da acção, revelam-nos manifestamente a fusão dos dois romances, que pelo andar do tempo e pela desmemoria do vulgo se uniram. Porem de todos os romances hespanhoes que mais se parecem com este é o da _Bella mal maridada_ (Ochoa, Tesoro, p. 490) que já vem citado na Comedia de _Rubena_ por Gi1 Vicente:
Cantará o Demo um grito _Das las mas lindas que yo vi_.
O romance hespanhol principia assim:
La bella mal maridada _Das las lindas que yo vi_.