Romanceiro geral

Part 7

Chapter 73,453 wordsPublic domain

Muitos trovadores provençaes, vendo inutil a galanteria de suas canções, sem esperança de abrandarem o coração ou pelo menos de alcançarem um sorriso das castellãs, precipitaram-se na empreza das Cruzadas; era a resolução extrema a que se entregavam, ao acaso das peregrinações e dos combates, em vez da vida ociosa dos castellos e das côrtes do amor, que mais satisfazia a sua natureza meridional. Quando a Europa, se alevantava levada pelo sentimento religioso, com a idêa no sancto Sepulchro, o trovador ía acompanhado pelo desalento para esquecer o sepulchro dos seus amores--a Provença. Assim se espalharam as grandes tradições cavalheirescas, repetidas na Italia, em Portugal, Hespanha e na Grecia moderna; tradições que se não prendiam a algum facto historico, que versavam quasi sempre sobre peripecias e situações então produzidas pelo estado social: ora se vê um peregrino que pede, tocando na theorba, hospedagem em seu castello para reconhecer a fidelidade de sua dama; ora um mancebo volta da guerra ainda a tempo para salvar a noiva de um casamento forçado; umas vezes uma donzella disfarça-se em trajos de guerreiro; outras vezes é a historia de uma romeira accommettida por algum conde em altas serras, aonde ninguem lhe pode valer. Não se prendendo as versões a facto particular da historia, eram mais promptamente acceitadas na tradição oral, que as accommodava ao gosto da phantasia popular, e á prosodia dos differentes dialectos do Meio Dia da Europa. O povo guardava na memoria o romance ligeiro, com que o trovador peregrino, na sua passagem, pagava a hospitalidade; ía-o repetindo, e o recordar-se era como crear novamente sobre as impressões que tinham ficado: assim dramatisava mais aquellas partes em que o trovador fôra conciso, era mais plangente onde lhe falara á paixão, e prescindindo completamente das transições que não comprehendia. Pons de Capduelh, enamorado trovador da dama Mercoeur, vae morrer na Palestina, inconsolavel pela morte d’aquella que nunca lhe acceitou os galanteios; Gancecem Faidit, depois de amar sete annos a esquiva Maria de Vantadour, alista-se na Cruzada para se tornar mais digno d’ella; Pierre Vidal, na sua doudice, parte levando na alma a imagem de Adelaide de Roquemartine, e na imaginação a conquista do Oriente. D’este poeta encontram-se documentos da sua passagem em Portugal.

A vinda dos Cruzados pelo Mediterraneo á Terra Santa, e o auxilio que prestavam na conquista de Lisboa, fazem crer que pelas narrações das viagens e dos arraiaes espalhassem entre nós essas grandes tradições cavalheirescas do cyclo carolino, que então percoriam a Europa. Os factos levam-nos a estas inducções. Existem na poesia popular da Grecia moderna alguns romances cavalheirescos communs ao Meio Dia da Europa; espalharam-se ali na tradição pela passagem dos Cruzados. Falando do romance piemontez, _A Guerreira_, o cavalheiro Nigra determina as similhanças que se dão entre elle e um canto slavo publicado por Tommaseo nos seus _Canti Greci_, _illirici_, e com outro canto grego que traz o conde de Marcellos nos _Cantos da Grecia moderna_; por este facto assigna-Ihe a Provença por origem, passando para ali no tempo das Cruzadas. Este romance é em tudo similhante á versão portuguesa da _Donzella que vae á guerra_, e accresce a circunstancia de ser uma tradição do líttoral, porque é omissa nas collecções hespanholas. Um facto analogo se dá com o romance portuguez da _Noiva roubada_, e com o romance da _Dona Infanta_, cujos paradigmas se podem ver na citada collecção do conde de Marcellus. Se estes cantos foram levados para a Grecia pelos Cruzados, e se encontram tambem entre nós, não é destituida de fundamento a inducção, posto que não pizemos o campo da historia.

=1 e 2--Romances da Dona Infante.=--São estes romances os mais repetidos na tradição oral; um allude ao tempo das Cruzadas; no outro, mais moderno, o Brazil substitue na imaginação do povo o ponto para onde converge a aventura cavalheiresca. A origem d’estes romances é litteraria; na _Esposa Fiel_ de Juan Ribera se determina ella visivelmente. (Duran, Romancero general, n.º 318) Encontram-se paradigmas nos _Cantos populares da Grecia moderna_, (pag. 152, 162 e 163) no romance catalão de _Brancaflor_, na collecção ingleza de Percy (Liv.I, p. 261) na Ballada allemã de _Liebesprobe_ (Deutsches Balladenbech, S. 14) nos cantos da França e da Italia (Du Puymaigre, _Vieux auteurs castillans_, p. 389). Pode com certeza affirmar-se que é um dos principaes romances communs aos povos do Meio Dia da Europa.

=3, 4 e 5--Romances de Dom Martinho de Avisado.=--Quasi todos os romances portuguezes são de origem castelhana e ainda se encontram nos Romanceiros hespanhoes. _A donzella que vai á guerra_ não apparece n’essa collecção; apesar d’isso Garrett não o julga originalmente portuguez. Fala d’este romance Jorge Ferreira de Vasconcellos (Scena I, acto III; fol. 84 da Aulegraphia) conhecido no seculo XVI pelo _Rapaz do Conde Daros_. Versões d’elle se encontram no Alemtejo, Extremadura, Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta, Beira Baixa, Açores e Lisboa; a donzella que vae á guerra, segundo cada provincia, ora se chama Dom Martinho de Avisado, Dona Leonor, Dom Carlos, Dom João e Dom Barão. Foi pela primeira vez publicado por José Maria da Costa e Silva nas notas ao seu poema _Isabel ou a heroina de Aragão_, em 1832. M. Nigra, em seus interessantissimos estudos da poesia popular do Piemonte (Revista Contemporanea de Turin, novembro de 1858) publíca um romance piemontez, intitulado a _Guerreira_, que é como uma variante da versão portugueza:

«Porque choraes, meu pae, porque Choraes? Se tendes de ir á guerra, eu irei por vós; apromptai-me um cavallo que possa levar-me bem, e um bom pagem em quem me possa fiar. Tomae meus vestidos cinzentos, dae-me umas calças e um _gonel_, e com a minha pequena fita fazei-me um laço sobre o chapéo.» Quando chegou a Nice, eis que sobe aos bastiões: «Oh! vêde-a! que linda pequena vestida de rapaz!» O filho do rei estava á janella, a miral-a: «Oh! que pequena tão bella: se ella quizesse ser minha! Oh minha mãe, minha mãe, ella é uma rapariga! Oh que pequena tão bella: se ella quizesse ser minha! «--Se queres saber quem é, leva-a a casa de um negociante; se fôr uma donzella, só ha de comprar luvas.--Olhae, meus soldados, olhae para estes guantes!--Soldados que vão á guerra não têm frio nas mãos.--Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella! Oh que pequena tão linda: se ella quizesse ser minha!--Se queres saber quem é, leva-a a casa de um ourives; se fôr uma rapariga, ha de comprar um annel.--Olhae, meus soldados, vêde que anneis tão bellos.--Soldados que vão á guerra só precisam de espadas e punhaes.--Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella. Oh que rapariga linda! Se ella quizesse ser minha!--Se queres saber quem ella é, leva-a para dormir comtigo. «Ella apagou o candil e mandou para lá o seu creado.» Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella! Que rapariga, linda! se ella quizesse ser minha!--Se queres saber quem é, fal-a passar na agua; se for uma donzella, não se ha de querer descalçar. Ella despiu uma perna, quando chegou uma carta; a carta diz que lhe dêem a sua baixa. A pequena a meio caminho se poz a cantar: «Donzella estive na guerra, donzella voltei de lá».

No romance portuguez também se encontra esta prova do banho, e da carta que o pagem lhe traz, mas continúa, porque o capitão acompanha-a na volta á patria e vem a casar com ella. Na licção dos Açores, que traz Garrett, (t. III, pag. 65) termina egualmente o romance com um conceito engraçado:

Sette annos andei na guerra E fiz do filho barão, Ninguem me conheceu nunca, Senão o meu capitão; Conheceu-me pelos olhos, Que por outra cousa não.

M. Nigra encontrou tambem na Servia vestigios d’este romance. Posto que se não ache nos Romanceiros hespanhoes, Jorge Ferreira na Comedia da _Aulegraphia_ traz uns fragmentos em castelhano:

Pregonadas son las guerras Da Francia contra Aragone... Como los haria triste Viejo, cano o peccador?...

que fazem suppor ter elle existido primitivamente n’esta lingua, attendendo á grande importancia que o castelhano tinha na corte portugueza. Tommaseo recolheu nos seus _Canti greci_, _illirici_, etc., um canto slavo, cuja similhança com o canto piemontez e portuguez faz suppor uma origem commum. Tommaseo publicou tambem um canto grego moderno. Qual será essa origem commum? M. Nigra diz que «os cantos romanescos communs á poesia romanesca das raças latinas devem, sem se hesitar, ser considerados como vindos e muitas vezes originarios da Provença, etc.» M. Nigra julga este romance do tempo das Cruzadas, passando da Provença para os paizes Slavos e para a Grecia. É o unico modo como se pode explicar o seu apparecimento na poesia popular das duas Peninsulas. (Du Puymaigre, _Vieux Auteurs Castillans_, Append. p. 462 e 465.)

=6--Romance de Gerinaldo=--São muitas as influencias das tradições do norte sobre a poesia do nosso povo. O Conde _Niño_ tem um final como o romance de Tristão e Yseult; a _Imperatriz Porcina_, de Balthasar Dias, encontra-se na lenda de _Hildegarda_, recolhida por Jacob Grimm. O romance de _Reginaldo_ pertence ao cyclo carlingiano; não nos veiu através da Hespanha, como a maior parte dos romances carolinos; os dois romances recolhidos das folhas volantes publícados no _Romancero general_ de Duran (1849-51, tomo I, p. 175 e 176,) differem muito do nosso; o primeiro é incompleto, e o segundo tem uma côr mourisca da fronteira. Em cada provincia dão ao pagem feliz diversos nomes; no Alemtejo _Generaldo_, no Minho e Porto _Girinaldo o atrevido_, e na Beira, segundo descobriu primeiro Garrett, chamam-lhe _Eginaldo_, que é a traducção mais proxima de _Eginhart_. Quasi todos os nomes dos personagens carolinos foram aportuguezados pelo nosso povo, como Valdovinos, Reinaldos de Montalvão, Roldão, Oliveiros, Beltrão, Dones Ogeiro, transformados de Bauduin, Reynaud de Monteauban, Roland, Olivier, Bertrand, Ogier le Danois. O romance portuguez de _Reginaldo_, tal como corre no Alemtejo, Extremadura, Beira Alta, Beira Baixa, Minho, apesar de todas as differenças de acção nas variantes, aproxima-se o mais possivel da tradição, que Jacob Grimm recolheu do _Chronicon Laurishamense_, (ed. Manheur, 1768, in 4.º, I, f. 40, 46) e que Vicente de Bauvais refere ao tempo de Henrique III: «Eginhart, primeiro camarista e secretario de Carlos Magno, alcançou, pelos bons e leaes serviços na corte, a estima de todos, e sobretudo o amor de Emma, filha do Imperador. Estava promettida em esponsaes ao rei da Grecia; e quanto mais o tempo do casamento se aproximava, mais a intima inclinação d’Eginhart e de Emma se fortificava em seus corações. Detinha-os o medo de que o rei não viesse a descobrir esta paixão e se enfurecesse. Por fim o mancebo não pode dominar os seus transportes; revestiu-se de coragem, e, não podendo communicar com a joven princeza por algum confidente, veiu protegido pelo silencio da noite ao quarto d’ella. Bateu levemente á porta do aposento, como se viera mandado pelo rei, e entrou. Ali protestaram o mutuo amor, e regosijaram-se nos abraços tão ardentemente desejados. Eis que, ao romper da alvorada, o mancebo ao retirar-se viu que havia cahido durante a noite muita neve, e não se atrevia a dar passo da soleira da porta, porque as pegadas de homem o teriam logo trahido. N’esta perplexidade, os dois amantes resolveram o que haviam de fazer, e a menina concebeu um plano atrevido: quiz a toda a força pegar em Eginhart aos hombros, e antes do rasgar da manhã levou-o até á porta do seu quarto, e voltou cuidadosamente sobre as mesmas pegadas. Logo n’esta noite não tinha o imperador pregado olhos; levantou-se, e mal raiavam os primeiros alvores, se poz a olhar para os jardins do palacio. Então viu passar por debaixo das janellas a filha, que vergava sob o doce, mas carregado pezo, e que, depois de o haver deposto, correu rapidamente sobre os primeiros passos. O imperador firmou-se bem, para se não enganar, e ao mesmo tempo se sentiu tocado de dor e admiração; comtudo calou-se. Eginhart que sabia muito bem que mais hoje ou amanhã chegaria o caso aos ouvidos do rei, resolveu-se, e veiu ter com seu amo, deitou-se-lhe aos pés, pedindo que o despedisse, a pretexto de que seus fieis serviços não eram suficientemente recompensados. O rei ficou silencioso por longo tempo, e refreiou seus sentimentos; alfim prometteu ao joven de lhe dar uma prompta resposta. No entanto formou um tribunal, reuniu os primeiros e mais íntimos conselheiros, e descobriu-lhes que a magestade real fôra ultrajada pelo commercio amoroso de Emma com o secretario; e em quanto ficaram todos surprehendidos com a nova de um crime tão inaudito e grave, explicou-lhes como se haviam passado as cousas, e como observara tudo com os proprios olhos; depois, quando acabou, pediu-lhes parecer sobre o facto. A maior parte dos conselheiros, homens prudentes e inclinados á doçura, foram de voto que o rei pronunciasse de motu proprio sobre esta circunstancia. Carlos, depois de haver considerado o caso em todas as suas faces, reconheceu n’este acontecimento o dedo da Providencia, resolveu usar de clemencia, e casar os dois amantes. Applaudiram todos com alegria a moderação do rei, que mandou chamar o secretario e lhe falou assim: «Ha mais tempo devera ter compensado melhor os teus serviços, se me tivesses já manifestado o teu pezar; agora quero, em recompensa, dar-te em casamento minha filha Emma, pois que ella propria, levantando sua cintura, te quiz levar aos hombros.» Immediatamente deu ordem para que chamassem a filha, que appareceu muito córada, e em presença da assembleia foi casada com o enamorado. Deu-lhes um rico dote em bens immoveis, em ouro e em prata: e depois da morte do imperador, Luis-le-Debonaire fez-lhes presente, por um acto particular de doação, de Michlinsadt, no Maingan. Os dois amantes, depois de mortos, foram enterrados n’esta referida cidade. A tradição oral do paiz conserva ainda a sua memoria, e a floresta vizinha, se se der credito a esta tradição, se chamou _Odenwald_, porque uma vez Emma se dirigiu a ella exclamando «O _duwald_! «Oh tu, floresta.» (_Tradições allemãs_ de Jacob Grimm, ed. franceza de 1838, t. II, p. 149, 152.) O nosso romance popular apenas differe d’esta tradição em lhe faltar a pequenissima circumstancia da neve e das pégadas. Em nada altera a acção; os trovistas do Meio Dia só tiraram da tradição os episodios que conheciam; descreveram a paixão como a sentiam; pintaram a natureza como estavam costumados a vel-a. É assim qne se transplantam e naturalisam as tradições e as formas poeticas. Garrett, no engraçado estudo com que precede a sua versão de Reginaldo, quer achar na ballada ingleza de _Little Musgrave and Lady Barnard_ uns longes de semilhança com o nosso romance: (Percy’s _Reliquis_, XI, secç. III, book the first), o que o leva a julgar a tradição de todos os paizes; no romance de _Blancefleur_ ha o mesmo episodio do sonno dos dois amantes (v. 2363). Este assumpto era da predilecção dos menestreis populares; representa a acção que, segundo Edgar Quinet (Revoluções de Italia) exerceu a poesia provençal, isto é--a fusão do elemento aristocratico e feudal com o povo, pelo sentimento; a nossa lenda dos amores de Bernardim Ribeiro e da infanta Dona Beatriz, promettida ao duque de Saboya, tambem se parece bastante com a de Eginhart, accommodada ao gosto de uma civilisação mais conveniente. No romance de Reginaldo se encontram costumes dos povos do norte; o imperador, quando encontra o pagem dormindo com sua filha,

Tira el-rei seu punhal d’oiro, Deixa-o entre os dois mettido, O cabo para a princeza, Para Reginaldo o bico. Foi-se a virar o pagem, Sentiu-se cortar no fio: --«Accorda já, bella infanta, Triste sonno tens dormido! Olha o punhal do teu pae, Que entre nós está mettido.»

Tambem no thalamo de Brunhilde e Sigurd, e na pyra, se collocou entre ambos uma espada (Ampère, _Litterature du Nord_; Michelet, _Origines_, p. 32). Já nos romances de cavalleria, quando o esposo encontra Yzeult dormindo com o amante entre a relva, retira-se tranquillo, porque ha entre ambos uma espada (Michelet, _Histoire de France_, t. II, c. 1, prope finem). A significação d’este symbolo cavalheiresco era o respeito, como ainda no seculo XV se usava, quando o procurador do archiduque Maximiliano desposou Maria de Bourgonha, e dormiu com ella separado por uma espada núa. (Grimm, _Antiguidades do Direito Allemão_, p. 170.) No romance popular o cabo voltado para a princeza e o fio para o pagem, denota aquelle symbolo juridico da Lei Ripuaria: «que uma mulher livre que desposasse um escravo contra a vontade da familia devia escolher entre a espada e a roca, que o rei ou o conde lhe apresentassem. Se pegava na espada, era preciso que ella matasse com suas mãos o escravo; se escolhesse a roca, devia permanecer tambem na escravidão.» (Lex Rip. 58, 18, d’après Michelet, _Origines_, p. 31.) Na Hespanha havia tambem um costume em que a mulher renegava o marido de inferior condição depois de morto, e tornava a alcançar os seus fóros.

Uma das verdades da poesia popular é o seu apparecimento logico; o romance de _Gerinaldo_ encontra-se em Hespanha e Portugal, justamente até onde se estendeu a acção da poesia provençal; o genio hespanhol, impulsionado pelo sentimento cavalheiresco da _honra_, e o caracter portuguez, dominado pela integridade do _dever_, acceitam esta creação dos trovadores da Provença, em que a dama do solar, a filha do hidalgo se deixa amar por um homem de condição inferior. Cumpre citar aqui a auctoridade de Edgar Quinet no seu brilhante livro das _Revoluções de Italia_: «A feição caracteristica dos trovadores é que quasi todos são filhos de servos que, pelo acaso do genio, pela elevação do coração, se acham por instantes em uma relação de egualdade ficticia com a aristocracia feudal. Entrando no solar o filho do povo, o trovador, todo emoção, ingenuidade, alma, poesia, paixão, é immediatamente deslumbrado pelo encanto da dama sua soberana; ousa apenas levantar os olhos para ella. D’onde resulta, que pela sua propria origem, o amor dos trovadores nasceu de relações inteiramente novas, que repugnavam á antiguidade, em que a mulher se torna o forte, e o homem fica o ente fraco. As relações dos sexos estão invertidas: é a mulher que protege, e o homem que necessita do apoio. Do lado d’ella está a auctoridade, o mando, o pleno poder; para elle ha só timidez, a submissão do servo. O trovador dedica-se a uma pessoa, que das alturas sociaes em que está collocada o domina, o opprime com a superioridade; é sempre para elle um ser inaccessivel.» (p. 80). Em outro logar o profundo pensador dá ainda mais relevo a esta idea: «O começo da sociedade moderna é a alliança da castellã e do filho do povo sobre os confins da barbaria; n’este laço chimerico, n’este momento de extasis que aproxima as duas extremidades da humanidade e casa duas condições que no decurso dos seculos estiveram sempre desunidas, está verdeiradamente encerrado o nascimento civil do mundo moderno. Emancipação real do escravo pelo amor d’aquella a quem elle pretence, instincto manifesto de fraternidade social, egualdade das almas, tudo está contido nestes esponsaes invisiveis da dama nobre com o humilde servo» (p. 85). Todos estes sentimentos nos são despertados ao lêr o romance de _Gerinaldo_; é incontestavelmente de origem provençal, e tanto que até pode servir como prova do pensamento luminoso de Quinet. Cada vez nos convencemos mais do que uma vez disse Jacob Grimm: que não ha uma só mentira na poesia popular.

Este romance canta-se em Freixo de Espada á Cinta; é mais breve do que na lição de Garrett; differe em pequenas circumstancias, e no desenlace principalmente. El-rei vae dar com o pagem dormindo com a infanta por causa de um sonho, um pezadello sinistro, _que bem certo lhe sahia_; no _Reginaldo_ de Garrett, é já dia e não apparece o pagem para trazer os vestidos a el-rei, caso que o leva a serias desconfianças. Na versão do Alemtejo remata com um epigramma: el-rei castiga o pagem dando-lhe a filha por mulher. O final do romance, como traz o Romanceiro de Garrett (t.II, p. 161), parece não pertencer-lhe, como ampliação que afrouxa as situações; antes parece mais uma addição do romance hespanhol de _Virgílios_. Nas collecções hespanholas o romance de Gerinaldo termina sem a ampliação da versão de Garrett.

O romance de _Gerinaldo_ encontra-se no Romanceiro de Duran; a primeira versão (n.º 320) é a das Asturias, aonde se encontram tambem vestigios da Náu Catherineta, e uma versão da _Rainha e Captiva_. A segunda versão (n.º 321), tambem anonyma, é um romance que os cegos vendem em folha volante, aonde se não encontra a segunda parte do Reginaldo de Garrett, que é visivelmente uma interpollação. Na Andaluzia ha um _Corrio_ ou romance tradicional de Gerinaldo:

=Carrerilla de Gerineldo=

«D’onde vienes, Gerineldo, Tan triste y tan affligido? --Vengo del jardin, señora, De regar flores y lirios. «Gerineldo, Gerineldo, Mi camarero es Pulio El que te pondrá esta noche Tres horas á mi servicio. --Como suy vuestro criado, Señora, os burlais comigo. «No me burlo, Gerineldo, Que de veras te lo digo: A la una de la noche Has de venir al castillo, Con zapatitos de seda, Para que no seas sentido.» Esto le digo la Infanta, Y al punto se ha despedido, Diciendole Gerineldo: --Señora, será cumplido.

DURAN, t. I. p. 177.

=7--Romance da Noiva roubada=--Na bella collecção dos _Cantos populares da Grecia moderna_, feita pelo conde de Marcellus, na quinta parte, que encerra as legendas, se encontra uma intitulada o _Rapto_, em tudo semelhante ao romance portuguez. Eil-a: