Part 6
Em villa Franca do Campo, Que de nobre precedia Na Ilha de Sam Miguel A quantas villas havia, Era de mil e quinhentos E vinte e dois que corria, Vinte e dois dias d’outubro, Quarto da lua seria; Correu a terra de um monte Que da alta serra pendia, E com ímpeto furioso Sobre a villa se estendia. Alí começa a dar gritos A gente que se affligia; D’elles chamavam por Deos, D’elles por Santa Maria. Quando chegou a manhã Nenhum d’elles perecia; Todos cobertos de terra, E de grande penedia, Que correu d’aquella serra, Que sobre a villa jazia. Essa gente que escapara, Como pasmada morria. Outra que viva ficava, Vivendo assi, não vivia. Aqui chega Frei Affonso, E com a tocha que trazia Da Ordem de Sam Domingos De Toledo reluzia, Esse Padre glorioso Que da gloria parecia. Para consolar o povo, Assi falava e dizia: --Confessae-vos, irmãos meus, Em quanto vos tem o dia. Resae todos o rosario Da Virgem Santa Maria, Edificae-lhe uma Casa, Indo a ella em romaria. Tomae-a por valedora, Que ella por vós rogaria, Tende n’ella confiança, Que certo vos valeria. Não acaba de falar, Quando a casa se fazia, Uns acarretando pedra, Outros madeira á porfia. Trabalham moços e velhos, Pessoas de grão valia; Até as nobres mulheres Serviam sem fantazia. Trazem telhas e telhados, Que no arrabalde havia, Como formigas ligeiras Andam a quem mais faria. Tanto que em poucos dias, A Ermida já servia, Já celebram missa n’ella, Já lá vão em romaria.
VI--XACARAS E COPLAS DE BURLAS
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Xacara da Linda Pastorinha
(_Versão da Beira-Baixa_)
--Deos te salve, Rosa, Lindo seraphim! Linda pastorinha Que fazeis aqui?
Que fazeis pastora Por essa ribeira? Tirae-vos ao sol, Do sol que vos queima.
«O sol não me queima, Que estou calejada Do rigor da chuva, Do rigor da calma.
--Tão gentil senhora A guardar o gado, Ao longo do rio Tão bem repastado.
«Criado tão nobre Com meias de seda! Olhe não as rompa Por essa resteva.
--Sapatos e meias Tudo romperei, Pela pastorinha Tudo eu farei.
«Por altas montanhas Ouço gritar gado; São as ovelhinhas Que me tem faltado.
--Dê-me cá a cesta, Tambem o cajado, Que eu lh’as vou buscar Com todo o cuidado.
«Vá-se embora, homem, Não me dê tormento; Não o posso vêr Nem por pensamento.
--O que está de ingrata, Tão impertinente! Homens não são lobos Que comam a gente.
«Eu se sou ingrata Faço muito bem; Quero ser ingrata, Assim me convem.
--O teu gado, Rosa, Eu aqui t’o trago: Um formoso moço Para teu criado.
Não tenha esse medo Que o gado se perca, Por aqui passarmos Uma hora de sésta.
«Vá-se d’aí, negro, Não me dê mais pena; Que aí vem meus amos Trazer-me a merenda.
--Isso é que eu quero Que venham seus amos; Quero que elles saibam Que falamos ambos.
«Tal razão como essa Não a ouvirei; Já dirão meus amos Que de mais tardei.
--Diga-lhe, menina, Que se demorou Com esta nuvem d’agua Que tudo molhou.
«Va-se d’aí, homem, Não me dê tormento; Não o quero vêr Nem por pensamento.
--Que tem a menina Que está agastada? No meu coração Trago-a retratada.
Uma vez que quer Que me vá embora, Lá verá o gado Que vae serra fóra.
«Se vae serra fóra Pois deixal-o ir; Se o não matarem Tornará a vir.
--Por altas montanhas Corre grande p’rigo; Oh linda pastora Queira vir commigo.
«Não é de homem nobre O dar tal conselho, Pois quer que se perca O gado alheio.
--O gado alheio Não quero se perca; Quero que tenhamos Uma hora de sésta.
«Guardemos a sésta Lá para depois; Eu quero saber Quem é que vós sois.
--Sou filho da côrte, Assisto em palacio; Linda pastorinha Dae-me um abraço.
Já me vou embora Pela serra acima, Linda, pastorida Dae-me a despedida.
«Venha cá, oh homem, Venha aqui correndo; O amor é cego, Já me vae rendendo.
--Se você me chama Eu me vou andando, Que a aposta que fiz Já a vou ganhando.
«Bem sei o que queres, Queres um abraço; O abraço se o deres Dá bem apertado.
O abraço se o deres Dá-m’o apertado, Para apagar penas Que commigo trago.
--O abraço que der Não tem má tenção, Cala-te lá, Rosa, Que sou teu irmão.
Quer ella a menina Que demos um brado Á gente do povo Que accudam ao gado?
«Oh gente do povo Accudi ao gado, Que foge a pastora Com o seu namorado!
Eu quero fugir, Que é ventura minha; Depois de pastora Irei ser rainha.
-Se a pastora foge, Deixal-a fugir, Nem cravos, nem rosas Lhe hão de accudir.
Digo-te a verdade, Do meu coração: Não sou teu esposo, Mas sou teu irmão.
Digo-te a verdade, Oh meu camarada; A aposta que fiz Já cá vae ganhada.
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Xacaras dos Conversados
(_Versão de Coimbra_)
Fui indo áquella casa Com pequena confiança, Com o sentido apurado, Já com a minha lembrança.
Fui indo ali aos domingos E dias santos do anno; Procurando a certeza, Ou então o desengano.
Já n’isso lhe ia tocando Cora boa sinceridade; Para vêr se ella me tinha Parte de alguma amisade:
--Oh que estado tão bonito De solteiro bem logrado; Mas pretendo a menina Se quizer mudar de estado.
«A resposta ao seu recado Eu lh’a darei quando fôr, Eu não lhe dou a certeza Sem sabêr seu interior.
--P’ra saber meu interior Quinze dias lhe heide dar; Bem pode tirar inculcas Para se certificar;
«Vá indo e vá voltando, A resposta eu lh’a darei; Se você me fôr leal, Eu sempre firme serei.
--Que palavrinhas tão doces, Com ellas me consolou; Se você jura ser firme, Eu tambem leal lhe sou.
«Sou a mesma que aqui estou, E lhe torno a affirmar, Se você de mim pretende Trate de a meu pae falar.
--Se essa é a sua duvida Eu já d’ella a vou tirar, Falando eu a seu pae Quero com você casar.
«Commigo pode contar, A certeza eu lh’a darei; Se meu pae lhe der o sim, Eu sempre firme serei.
--Eu já com seu pae falei, Elle me disse prudente: Se você quizer ser minha, Da sua parte é contente.
«Não o diga a muita gente Por murmuração não dar; Que isto anda em segredo Em quanto se não falar.
--Quero recommendar Algumas recommendações, Temos tratado de tudo Faltam agora os pregões.
«São boas recommendações Com que se deve importar, Tratemos de os fazer E na egreja os ir prantar.
--Já os banhos são corridos, Estamos apregoados; Vamos agora tratar Do dia d’este noivado.
«E bem dado esse recado, Commigo pode contar, Espere mais algum tempo P’ra me poder arranjar.
--Ora vâmos lá com isso, Deos lhe a saude conserve, Eu tenho casa e vida, Não tenho quem m’a governe.
«Se não tem quem lh’a governe Já não é por muito tempo; É emquanto não arranjo O fato do casamento.
Eu com isso fui contando, Ella ficou descansada; Estando na fonte um dia Pedi-lhe um pucaro de agua:
--Que pucaro tão formoso, Que agua tão saborosa! Tomára ser seu esposo P’ra você ser minha rosa.
«Se essa agua é gostosa E gosto que Deos lhe deu; Sendo você meu esposo Já sua rosa sou eu.
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A Conversada da Fonte
(_Versão de Penafiel e Coimbra_)
--Entre canas e canaes Agua deve de nascer; Menina que estaes na fonte Dê-me agua, quero beber.
«Por um pucarinho novo E rodeado de flores, Quem me fôra tão ditosa Que désse agua aos meus amores.
Que désse agua aos meus amores Mais á Senhora da Guia; Diga-me, senhor manata, Se vem por alguma via.
--A via por que aqui venho Eu lhe digo na verdade, Venho por passar o tempo Que é cousa da mocidade.
«Essa sua mocidade Já me vieram dizer, Que a sua sabedoria Se occupava em saber ler.
--Não sei ler, nem escrever, Nem tambem tocar viola; Eu desejava aprender Na sua real eschola.
«Na minha real eschola Você não hade aprender, Andam mestres mais bonitos Desejosos de saber.
--Oh minha gaia menina, Que tão forte me falaes, Se até aqui mui vos queria, Agora vos quero mais.
«Ainda mais vos quero eu Da raiz do coração; Mas tambem comtudo isso Não haveis de pôr a mão.
--Oh que lindas, oh que lindas, Pois ellas assim serão? Dá-me licença, menina, Para vêr como ellas são?
«A licença vós a tendes, Mas por ora ainda não; Não haveis de ser o gabo Que lhe haveis de pôr a mão.
--Eu a mão não vol-a ponho, Nem menos bulo comvosco; Só de estar ao pé de ti D’isso faço muito gosto.
«Tendes gosto desgostae, Que não é por via vossa; Esta rosa que aqui vêdes Já é d’outro, não é vossa.
--Se ella é d’outro e não é minha, Inda o póde vir a ser; Menina, diga a seu pae Que nos mande arreceber.
«Isso não lhe digo eu, São palavras escusadas, Que eu sou rapariga nova Para ir governar casas.
--Outras de menor edade São casadas, tem marido, Assim serás tu, oh Rosa, Quando casares commigo.
Casarei, não casarei Quando vier outra vez; Diga, menina, a seu pae Que elle tambem assim fez.
«O recado está dado, Vós, magano, vós o déstes; Se já sabeis o caminho Tornae por onde viestes.
--O caminho bem o sei, Por elle heide de tornar, Se vós me deres a prenda Que eu aqui venho buscar.
«Eu a prenda não a dou, Que a tenho na janella, Para dar ao meu amor, Que faz grande gosto d’ella.»
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Os estudos de Coimbra
(_Versão de Penafiel_)
--Os estudos de Coimbra Para te amar aprendi; Com penas e saudades Uma carta te escrevi.
«Com penas e saudades O meu coração chorou; A carta que me escreveste Ainda cá não chegou.
--Antoninha, cara linda, Eu queriate falar; A vergonha me retira, O amor me faz chegar.
«Eu falar-te, falaria De todo o meu coração; Quem me dera adivinhar Qual era a tua tenção.
--A minha tenção é boa, Mas é só para comtigo; Se eu saír d’esta terra Heide-te levar commigo.
«Eu comtigo não iria, Que diria a minha gente? Que ficava d’esta terra Desterrada para sempre.
--Oh menina não se assuste, Não é caso de assustar; Se eu em fama te meter, Da fama te heide livrar.
«Eu a fama não a tenho, Mas ella me póde vir; Fale baixo, não acorde Meu pae, que está a dormir.
--Teu pae, que está a dormir, Está em somno socegado; Dize-me, oh minha menina, Se eu serei do teu agrado?
«Oh do meu agrado é, Que mais o não pode ser; Ausente da tua vista Melhor me fôra morrer.
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Xacara do Cego andante
(_Versão da Beira-Baixa_)
--Abre a porta, Anna, Abre o teu postigo; Dá-me um lenço, amor, Que venho ferido.
«Se vindes ferido, Vinde muito embora; Porque a minha porta Não se abre agora.
--Abri-me vós a porta, Ao menos o postigo; Venham dar esmola Ao pobre ceguinho.
«Acorde, minha mãe, Acorde de dormir; Ande ouvir o cego Cantar e pedir.
--«Se elle canta e pede, Dá-lhe pão e vinho; E o pobre do cego Que vá a seu caminho.
--Não quero o seu pão, Não quero o seu vinho, Só quero que a menina Me ensine o caminho.
--«Péga, minha filha, Na tua roca e linho, Vae ao triste cego Ensinar o caminho.
«Espiou-se a roca, Acabou-se o linho, Agora adiante, cego, Lá vae o caminho.
--Ande a menina Mais até alem, Que eu ainda sou cego E não vejo bem.
Ande a menina Mais um boccadinho; Ande mais até Áquelle verde espinho.
Ande a menina Por este carreiro; Ando até áquelle Verde centeio.
Ai, arreda, arreda Para este altinho; Que aí vem cavalleiros Por esse caminho.
«Adeos, minhas casas, Adeos minhas terras, Adeos minha mãe, Que tão falsa me eras;
De Condes e Duques Me vi pretendida; Agora de um cego Me vejo vencida.
Que gente é aquella De cavalleria?... --Ai, arreda, arreda Para este altinho.
Se vem cavalleiros, Vem devagarinho, Que ha muito me tardam Por este caminho;
É a minha mãe Mais sua madrinha, Que a vem buscar Para a terra minha.
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Xacara da Moreninha
(_Versão do Porto_)
Frei João se levantou N’uma bella madrugada, Chega á porta da Morena. Da Morena engraçada:
--Abre-me a porta, Morena, Morena da minha alma. «Comote heide abrir a porta, Frei João da minha alma? Tenho o menino nos braços O meu marido á ilharga. --«Com quem falas, mulher minha, A quem dás as tuas falas? «Falo com a padeirinha, Se cozia ou se amassava; Se cozia pão de trigo ’ Que lhe não botasse agua; Se cozia pão de ló Uma pinguinha bondava; Levantae-vos, meu marido, Levantae a vossa casa, Mandae as moças á lenha, E os criados buscar agua; Que o melhor coelhinho É o que sae de madrugada.»
Seu marido que saía, Ella muito se aceiava; Seu sapato de setim, Que de polido estalava; Sua mantinha de seda, Que o ventinho levantava. Chega á porta do Convento Por Frei João perguntava; Frei João que tal ouvia Por vir a correr saltava, Pegou-lhe pela mãosinha E para a cella a levava; Deu-lhe muito de comer, Deu-lhe muita marmelada, Deu-lhe um copinho de vinho Do melhor que a Ordem dava:
--Fica-te embora, Morena, Morena da minha alma, Vou á Egreja de Sam Pedro Dizer a missa cantada.
No meio do Evangelho O calix cahiu da mão; Acodiu o Provincial E toda a Religião:
--O que é isto, meus peccados! O que é isto, Frei João? --São amores da Morena Que trago no coração.
Moreninha que tal viu, Saíu muito apaixonada, Já no meio do caminho Seu marido encontrava: --«D’onde vindes, mulher minha? Que vindes tão arreiada? «Venho de fazer visitas A quem veio á nossa casa. -«D’onde vindes, mulher minha, Que vindes tão insentada? Ou tu me temes a morte, Ou tu não és bem fadada! «Eu a morte não a temo, Pois d’ella heide morrer; Temo só os meus meninos, D’outra mãe podiam ser. --«Confessa-te, mulher minha, Faz acto de contrição, Que te não tornas a vêr Nos braços de Frei João.
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Xacara do Soldado
(_Versão de Trás-os-Montes_)
Lá se vae o capitão C’os seus soldados á guerra; Duzentos eram quintados, Eram duzentos de leva. Se todos elles vão tristes, Um mais que todos o era; Baixa traz a sua espada, Seus olhos postos em terra. Lá no meio do caminho O capitão lhe dissera: --Porque vás triste, soldado, Essa paixão por quem era?
«Não é por pae, nem por mãe, Nem por irmão que eu tivera, É pela esposa que deixo, Lá tam só na minha terra. Este cordão de ouro fino, Que sete arrateis bem péza, Mais me pesa a mim leval-o, Que ao partir lh’o não dera. --Soldado, tens sette dias Para que voltes a vel-a. Se a encontrares chorando, Fica sete annos com ella: Senão, nem mais uma hora Terás de aguardo ou de espera.
Quem saltava de contente O meu soldadito era; Deixou estrada direita, Por atalhos se mettera. Inda não é meia noite Á sua porta batera.
--«Quem bate á minha porta, Quem bate com tanta pressa? «É um soldado, senhora, Que vos traz novas da guerra. --Mal haja as novas que traz E mais quem veio trazel-as! Ergue-te tu, minha vida, Assoma-te a essa janella; Despede-me esse soldado, Que a tam má hora aqui chega. --Amigo, vindes errado Co’as vossas novas da guerra; Deixae-nos dormir em paz, Que bem precisamos d’ella. Foi-se d’ali o soldado Mais prompto do que viera:
«Bem haja o meu capitão Pelo bem que me fizera! Com sette dias de aguardo.... Nem sette horas carecêra Para me quitar saudades, Livrar-me de toda a pena! Tomae lá, meu capitão, Os mimos da minha terra, Este cordão de ouro fino, Que agora inda mais me pésa; Minha mulher não precisa, Que os primos podem mantel-a. --Pois tua mulher tem primos, E tu vinhas com dó d’ella?
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Xacara do Toureiro namorado
(_Versão da Beira-Baixa_)
Lá acima em Catalunha, Junto ao pé de Sevilha, Correm os moços um touro Que admirar-se podia. O touro era tam bravo, Ninguem esperal-o queria! Nomearam capitão Um moço da mesma villa: Calçava meia de seda, Seu sapato de palmilha, Com seu chapeo aprumado Com tres plumas que tinha. Volta pela rua abaixo, Volta pela rua acima, Ergueu os olhos ao céo A vêr a hora que seria. Vae da uma para as duas, Já passava do meio dia.
--Alerta, álerta soldados, Álerta, nobre companhia; Deitem o touro cá fóra, Que já passa do meio dia.
O touro era tam bravo, Ninguem esperal-o queria! Esperava-o aquelle moço Para mostrar valentia. Sette voltas deu ao curro, Outras sette á mesma villa; Metteu-lhe a chave direita Entre a sóla e a palmilha. Não lhe accudiu pae, nem mãe, Nem irmã, que a não tinha; Accudiu-lhe uma esposa Pelo amor que lhe tinha, Accudiu-lhe toda a gente Pela lastima que via.
--Se eu morrer d’esta morte, Como d’ella estou esperado, Não me toquem a campana, Nem me enterrem em sagrado, Enterrem-me áquella quina Aonde foi o namorado.
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Xacara da Tecedeira
(_Versão da Beira-Alta_)
--Quero fazer uma aposta, Ou eu não sei apostar: De dormir com Mariana Antes do gallo cantar. «Tal cousa não faças, filho, Que não a hasde ganhar; Mariana é mui sisuda, E não se deixa enganar.
Não quiz ali dizer nada, Não quiz ali mais falar; Vestiu traje de donzella, Ao jardim foi passear,
«Quem é aquella donzella, Que alem anda a passear? --«É a tecedeira, senhora, Que vem das praias do mar; Tem a sua têa urdida E a falta vem-na buscar. «Essa falta eu a tenho, Mas não a posso dobar. --Dobe-a já, minha senhora, Trate de a mandar dobar; De noite pelo caminho Donzellas não hãode andar. «Para a honra da donzella Aqui hade hoje poisar. --Tendes criados tão moços, Mui atrevidos no olhar! «Para a honra da donzella No meu quarto hade ficar.
A donzella de contente Á noite não quiz cear, Estava a cahir com somno Que se quiz logo deitar. Lá por essa noite adiante Mariana de gritar!
--Cala-te, oh Mariana, Não te queiras desgraçar; Tinha a têa já urdida A falta vim a buscar. Aos sete para outo mezes, Sem o teu pae reparar, Quando te vires pejada Eu comtigo heide casar.
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Despedida de Lisboa
(_Versão de Coimbra_)
Dom João, que Deos guarde, Aviso mandou ao mar, Que se aparelhasse o Conde Para uma manhã largar. O Conde se aparelhou, De uma maneira tão bella! Era meia noite em ponto, Deitou o tiro de leva. Deitaram a lancha a terra Para a maruja embarcar, Uns abordo, outros na praia, Outros na lancha a chorar. Deitaram novos apitos Encastoados em ouro; Oh que bello commandante Que leva o real thesouro! Deitaram novos apitos Encastoados em prata; Oh que bello commandante Que leva a real fragata! Deitaram novos apitos Encastoados em latão; Oh que mestre e contra-mestre, Tão malvado guardião.
Adeos oh Beato Antonio, Melhor cousa de Lisboa! Deos nos leve a salvamento A esta coverta bôa. Adeos oh Caes do Tejo, Aonde está o cativo; Eu me encommendo ao santo Que me livre d’este perigo! Adeos Fundição de cima Do armamento d’el-rei; Eu cá vou n’esta viagem, Não sei quando tornarei. Adeos oh venda do pezo, Onde se vende o azeite; Adeos Praça da Figueira, Adeos saloias do leite. Adeos oh caza da India, Despacho do algodão; Adeos oh caixões do assucar, E os faiantes do torrão. Adeos Terreiro do Paço, Adeos do Paço terreiro; Adeos memoria real Que és de Dom José Primeiro. Adeos tambem Arsenal Onde se fazem navios, Adeos escalér real, És fama dos algarvios. Adeos, adeos Corpo Santo, Armazem dos pucarinhos, Adeos oh moças bonitas, Adeos quartilhos de vinho. Adeos castellos e torres Da cidade de Lisbôa; Que eu cá vou n’esta viagem Na Corveta Nova Gôa.
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Á Freira arrependida
(_Versão da Beira-Baixa_)
Não sei para que nasci De tão bello parecer; Formosa e gentil mulher, E tão bonita.
Metteram-me a capuchinha Cá n’este pobre mosteiro, Onde pago por inteiro Meus peccados.
Nunca me faltam enfados Em cuidar em tal clausura, Pois se me faz noite escura Ao meio dia.
Nunca terei alegria, Nem no mundo a pode haver, Em cuidar que heide comer Em refeitorio.
Lá juncto ao dormitorio Onde dormem as mais madres, Suspiram por seculares Cá entre nós.
Em vêr que dormimos sós Me causa grande agonia, Pois lá pela noite fria Já me alevanto.
Agora faço o meu pranto, Já me desvaneço em choro, Em cuidar que heide ir ao côro Rezar matinas.
Rezando as horas divinas, Lá por esses corredores Me lembram os meus amores, Por quem morro.
Toda a minha cella corro, Indo-me ver ao espelho; Meu rosto já vejo velho, Sem que eu queira.
E a abbadeça ligeira, Como malvada leôa, Manda que tanjam a Nôa E a disciplina.
Triste, coitada, mofina, Que estás mettida entre redes, Entre tão fortes paredes, Em casa escura.
A meu pae tórno a culpa. E a meus irmãos tambem, Podendo casar-me bem, Me desterraram.
A meu pae aconselharam Que me não désse o meu dote; Porque era melhor sorte O ser freira.
Avisaram a porteira, Tambem a madre abbadeça, Que me mettesse em cabeça Que casaria.
Eu como menina cria, Cuidando que era verdade, Que qualquer freira ou frade Casar podia.
Toda a gente me dizia Que fosse sem arreceio; Que havia aqui mais recreio, Divertimento.
Agora que estou cá dentro, Que ainda casar podia, Eu vejo-me noite e dia Aqui fechada.
Mais valêra ser casada, De noite embalar meninos, Do que andar a tocar sinos No campanario.
Quando tudo é solitario E estão todas a dormir, Ainda estou a carpir Mágoa tamanha.
Minha mãe, que Deos a tenha, Deos lhe dê contentamento; Deixou no seu testamento Que me casassem.
E se bem não me esposassem, Que me botem d’aqui fóra; E da casa arrenegasse Que não tem homem.
NOTAS