Romanceiro geral

Part 5

Chapter 53,603 wordsPublic domain

Uns vão pelo mar abaixo, Outros pela terra acima; Os que foram mar abaixo Não encontraram cativa; Os que foram terra acima Tiveram melhor atina. Deram com o conde Flores, Que vinha da romaria: Vinha lá de Sanctiago, Sanctiago da Galliza. Mataram o conde Flores, A condessa vae cativa; Mal que o soube a rainha Ao caminho lhe sahia:

«Venha embora a minha escrava, Boa seja a sua vinda! Aqui lhe entrego estas chaves Da dispensa e da cosinha; Que me não fio de moiras, Que me não dêem bruxaria. »Acceito as chaves, senhora, Por grande desdita minha! Hontem condessa jurada, Hoje moça da cosinha.

A rainha está pejada, A escrava tambem o vinha; Quiz a boa ou má fortuna Que ambas parissem n’um dia. Filho varão teve a escrava, E uma filha a rainha; Mas as perras das comadres, Para ganharem alviçaras, Deram á rainha o filho, E á escrava deram a filha.

»Filha minha da minha alma, Com que te baptisaria? As lagrimas dos meus olhos Te sirvam de agua bemdita. Chamar-te-hei Branca Rosa, Branca-Flor d’Alexandria, Que assim se chamava d’antes Uma irmã que eu tinha. Captivaram-n’a os mouros Dia da Paschoa Florida, Quando andava a apanhar rosas N’um rosal que meu pae tinha.

Estas lastimas choradas Veis la rainha que ouvia, E co’as lagrimas nos olhos Muito depressa accudia:

«Criadas, minhas criadas, Regalem-me esta cativa; Que se eu não fôra de cama Eu é que a regalaria.

Mal se alevanta a rainha Vae-se ter com a cativa:

«Como estás, oh minha escrava, Como está a tua filha? »A filha boa, senhora, Eu como mulher parida. «Se estiveras em tua terra Que nome lhe chamarias? »Chamava-lhe Branca Rosa, Branca-Flor de Alexandria; Que assim se chamava d’antes Uma irmã que eu tinha: Cativaram-n’a os mouros Dia de Paschoa Florida, Quando andava a apanhar rosas N’um rosal que meu pae tinha, «Se vira’la tua irmã Se tu a conhecerias? »Assim eu a vira nua, Da cintura para cima; Debaixo do peito esquerdo Um lunar preto ella tinha, «Ai, triste de mim coitada, Ai triste de mim mofina! Mandei buscar uma escrava Trazem-me uma irmã minha.

Não são passadas três dias Morre a filha da rainha: Chorava a condessa Flores Como quem por sua a tinha; Porem mais chorava a mãe, Que o coração lh’o dizia. Deram á lingua as criadas, Soube-se o que succedia: A mãe com o filho nos braços Cuidou morrer de alegria. Não são passadas tres horas, Uma á outra se dizia:

«Quem se vira em Portugal, Terra que Deos bemdizia!

Juntaram muita riqueza D’ouro e de pedraria; Uma noite abençoada Fugiram da moiraria. Foram ter á sua terra, Terra de Santa Maria, Metteram-se n’um mosteiro, Ambas professam n’um dia.

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Romance da Moira Encantada

(_Versão do Algarve_)

Meia noite alem ressôa Cerca das ribas do mar, Meia noite já é dada, E o povo ainda a folgar. Em meio de tal folguedo Todos quédam sem falar, Olhos voltam ao castello Para ver, para avistar A linda moira encantada, Que era triste a suspirar.

--Quem se atreve, ai quem se atreve Ir ao castello e trepar, Para vencer lo encanto Que tanto sabe encantar?

Ninguem ha que a tal se atreva, Não ha que em moiras fiar; Quem lá fosse a taes deshoras Para só desencantar, Grande risco assim corrêra De não mais de lá voltar.

--Ai que linda formosura, Quem a pudera salvar! O alvor dos seus vestidos Tem mais brilho que o luar! Doces, tão doces suspiros, Onde ouvil-os suspirar?

Assim um bom cavalleiro Se estava a delatar, Em amor lhe ardia o peito, Em desejos seu olhar. Tres horas eram passadas N’este continuo anciar, Cavalleiro d’armas brancas Nunca soube arreceiar, Invoca a linda moirinha, Mas não ouve o seu falar; Nada importa a Dom Ramiro Mais que a moira conquistar. Vae subir por muro acima, Sente os pés a resvalar! Ai que era passada a hora De a poder desencantar. Já la vinha a estrella d’alva Com seus brilhos a raiar. No mais alto do castello Já mal se via alvejar A fina e branca roupagem Da linda filha de Agar. Ao romper do claro dia, Para bem mais se pasmar, Sahiu do castello uma nuvem, Era apenas a pairar. Jurava o povo, jurava E teimava em affirmar, Que dentro d’aquella nuvem Vira a donzellinha entrar. Dom Ramiro de enraivado De não poder-lhe chegar, D’ali parte e contra os mouros Grande briga vae armar, Por fim ganha um bom castello, Mas sem moira para amar.

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Romance de Nossa Senhora dos Martyres

(_Versão do Algarve_)

Candida Virgem dos Martyres, Formosa Virgem Maria; Estrella do céo fulgente Clara luz do claro dia, Contar todos seus milagres Quem contal-os poderia? De todos o mais patente Acha-se ahi n’essa villa De Castro-Marim chamada, Que já foi da mouraria. É este santo milagre De tal poder e valia, Que em Portugal e Castella, E mais ainda em Barberia, A quantos bem o conhecem Faz espanto e maravilha:

Era um christão que passava Negra vida que tenia Debaixo de duros ferros. Lá para as bandas de Arzilla Cativeiro mais penoso Outro christão não havia. O perro mouro infiel, Que o comprara em Almeria, Por seguro se não dava De que lhe não fugiria. Sempre o maldito do perro, Que receioso vivia, Maltratar o pobre escravo Com ferrenha mão sohia. Já invenção lhe faltava De como elle o guardaria; Mandou fazer um caixão Muito forte em demasia, E n’elle sem mais detença O triste christão mettia; Mas por certo inda o não dava Apesar do que fazia; Aquella mente maldita Em mil receios ardia. Nova ideia de tormento Alma lhe enche de alegria; Com uma grossa corrente De pés e mãos o prendia, E ainda sobre o caixão O indino perro dormia! Negro pão e agua turva Era o manjar que tenia; Mas uma ardente esperança Que na Virgem Santa havia, Vida nova lhe apontava Sobre a que já lhe fugia. A Virgem Mãe soberana Invocava noite e dia Para que lhe désse n’alma Vigor que se lhe extinguia, E de todo o livrasse De tão dura escravaria. A Santa Virgem dos Martyres, Que todo o seu rogo ouvia, D’aquelle espirito afflicto Muito bem se condoía; O caixão, que em terra estava, Cercado d’agua se via, E com o perro do mouro Que em cima d’elle dormia, Á tona d’agua boiando Tres dias assim corria. Já despontava a manhã, A manhã de um claro dia; Novas areas se mostram, Outras céos, outra alegria! Da torre o gallo tres vezes Este milagre annuncia; Os sinos do campanario Repicavam á porfia Sem que ninguem os tangesse, Porque tudo inda dormia. O ladrar de muitas cães, Em todo o mar percutia. Quando o perro ouviu os sinos Sobre tudo se doria, Que junto de terra extranha, Terra que não conhecia, Por sua desaventura Com seu escravo se via! Encalhado em fina areia O mesmo caixão se abria, Com rosto mais que magoado O mouro ao escravo dizia:

--Christão, que paiz é este De tão alta senhoria? Na tua terra, christão, Cantam gallos á porfia, Tocam sinos, ladram cães Logo ao despontar do dia? --Esta terra sei que é minha. Mas eu não a conhecia; Na minha terra, senhor, Cantam gallos á porfia, Ladram cães, repicam sinos Logo ao despontar do dia.

Assombrado o sarraceno Do que do christão ouvia, Sem mais pergunta fazer-lhe Da corrente o desprendia.

--Ergue-te, christão, perdoa-me Todo o mal que eu te fazia; Até hoje eras meu escravo, Teu escravo sou n’este dia!

Para vêr este milagre Toda a gente ali corria: Com seus gibões encarnados Os da justiça assistiam. Já todos vão, já se partem, Caminho da santa ermida; O mouro com viva crença O baptismo requeria. Eis que aos pés da Virgem Santa D’agua uma fonte se abria, Tão crystallina e tão pura, Que a todos pasmar fazia. Com esta agua bemdita, Agua de tanta valia, Foi logo ali baptisado O mouro da Barbaria. Baptisado o agareno, Ao pé da fresca fontinha Se formára um lindo mar D’aquella agua que corria. E para maior milagre: Ao cabo de sete dias Mesmo no meio das aguas Um verde freixo nascia, Que o que mais maravilhava. Era o vêr como crescia! Desde então ficou a Virgem Tendo grande romaria; De Portugal e Castela Tudo ali corre em seu dia,

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Romances do Cativo de Argel

(_Lição manuscripta do seculo XVII_)

--Mi madre era de Hamburgo, Mi padre de l’Antequera, No hubo perro, ni mouro Que por mim ni blanca dera; Si no um perro Judio Que alcançar-me não debera. Daba-me una vida mala, Daba-me una vida perra, De dia a moêr esparto, De noche a pizar canella, Com uma mordaça na bocca Para lhe não comer d’ella. Quiz Deos e Santa Maria Dar-me uma Ama tam bella; Quando perro ia a caçar Cataba-me na cabeza. Daba-me a comer pan blanco Del que El-Rey Moro comia, Daba-me a beber bon vino Del que El-Rey Moro bebia. Muitas vezes me decia:

«Christiano, vae p’ra tu tierra. --Como me heide ir, mi señora, Dexar una Ama tam bella! «Mais vale tu liberdade, Que amores em terra alheia. --Como me heide ir, mi señora, Se me falta la moneda? «Mete a mão en tu faltriquera, Docientos dobrões te dera, Cento para teu resgate, Cento para tua terra.

--«Vem ali, oh Christiano, Quem te dió tanta moneda? --Fue un vecino mio Venido de minha tierra. --«Queres tu, oh Christiano, Seres Mouro arrenegado? Dera-te os mais lindos olhos Que em Argel foram criados. --Como me tornarei Mouro, E Mouro arrenegado, Se eu já tenho em mi pecho A Jesus crucificado? --«Se eu soubera, Christiano, Que eras assim avisado, Em dias de tua vida Nunca fôras resgatado. «Oh, mi padre, oh mi padre, Dexe ir el Christiano, Que el no me deve nada, Debe-me a flor de mi bocca, Dou-lh’a por bem empregada.

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O Cativo

(_Variante de Lisboa_)

--Eu vinha do mar de Hamburgo N’uma linda Caravella; Cativaram-nos os mouros Entre la paz e la guerra. Para vender me levaram A Salé, que é sua terra, Não houve mouro, nem moira Que por mim nem blanca dera; Só houve um perro judio Que alí comprar-me quizera. Dava-me uma negra vida, Dava-me uma vida perra: De dia pisar esparto, De noite moêr canella, E uma mordaça na bocca Para lhe não comer d’ella. Mas foi a minha fortuna Dar com uma patrôa bella, Que me dava do pão alvo, Do pão que comia ella. Dava-me do que eu queria, E mais do que eu não quizera, Que nos braços da judia Chorava, que não por ella.

Dizia-me então: «Não chores, Christão, vae á tua terra. --Como me heide eu ir, senhora, Se me falta la moeda? Se fôra por um cavallo Eu uma egua te dera, Se fosse por um navio Dar-te-hia uma galera.

--Não fôra por um cavallo, Não fôra, senhora bella, Que está longe Mazagão, Ceuta tem voz de Castella. Nem por navio não fôra, Que eu fugir não quizera, Que era roubar a teu pae Dinheiro que por mim dera. «Toma esta bolsa, christão, Feita de seda amarella; Minha mãe quando morreu Me deixou senhora d’ella. Vae-te, paga o teu resgate, E ás damas da tua terra. Dirás o amor da judia Quanto vale mais que o d’ellas.

Palavras não era ditas O patrão que era chegado:

--Venhaes embora, patrão, E vinde com Deos louvado, Que agora recado tenho De que chega o meu resgate. --«Christão, christão, que disseste! Olha que é muito cruzado! Quem te deu tanto dinheiro Para seres resgatado? --Duas irmãs m’o ganharam, Outra m’o tinha guardado; E um anjo do céo m’o trouxe, Um anjo por Deos mandado. --«Dize-me, oh christão, dize Se queres ser renegado? Que te heide fazer mouro, Senhor de todo o meu estado. --Eu não quero ser judio, E nem turco arrenegado, E não quero ser senhor De todo esse teu estado, Porque trago no meu peito A Jesus crucificado. --«Anda cá, oh filha Angelica, Dize-me cá, filha amada, Se é pelo christão maldicto Que ficaste desgraçada? «Meu pae, deixe o christão, deixe Que elle não me deve nada; Deve-me a flor de meu corpo, Mas de vontade foi dada.

Mandou fazer uma torre De pedraria lavrada; Que não dissessem os mouros: A judia é deshonrada.

«Viola, minha viola, Fica-te aqui pendurada; Que os amores da Judia Vão por essa agua salgada.

V--LENDAS PIEDOSAS

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Jesus Mendigo

(_Versão do Minho e Beira Baixa_)

Indo um lavrador p’ra arada Ai Jesus! Encontrou um pobresinho, Ai Jesus! E o pobresinho lhe disse: Ai Jesus! Leva-me n’esse carrinho. Ai Jesus!

Levantou-se o lavrador Ai Jesus! A pôr o pobre no carro, Ai Jesus! Levou-o p’ra sua casa Ai Jesus! Para a melhor sala que tinha; Ai Jesus! Mandou-lhe fazer a cêa Ai Jesus! Do melhor manjar que havia, Ai Jesus! E depois da meza posta Ai Jesus! O pobre nada comia. Ai Jesus! Mandou-lhe fazer a cama Ai Jesus! Da melhor roupa que tinha, Ai Jesus! Por baixo damasco roxo, Ai Jesus! Por cima cambraia fina. Ai Jesus!

Era meia noite em ponto, Ai Jesus! O pobresinho gemia. Ai Jesus! Levantou-se o lavrador Ai Jesus! A vêr o que o pobre tinha; Ai Jesus! Achou-o crucificado Ai Jesus! N’uma cruz de prata fina. Ai Jesus!

--Meu Senhor, quem tal soubera Ai Jesus! Que em minha casa vos tinha, Ai Jesus! Mandava fazer preparos Ai Jesus! Que a minha casa não tinha. Ai Jesus! «Cala-te, oh lavrador, Ai Jesus! Não te enchas de phantasia, Ai Jesus! No céo te tinha guardado Ai Jesus! Cadeira de prata fina: Ai Jesus! Outra p’ra tua mulher. Ai Jesus! Que tambem a merecia. Amen Jesus!

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Romance de Santo Antonio e a Princeza

(_Versão do Algarve_)

Achava-se em Realmonte Com sua côrte real, Casada uma princeza, Princeza de Portugal. De Antonio, santo varão, Do seu paiz natural, Devota a princesa era, Por crença a mais singular; Filha infante ella tinha Mais formosa que o luar; Mas a infante era um anjo, E ao céo se foi parar. Toda a côrte lá se ajunta Para lhe o corpo levar; Mas não consente a princeza Que o levem a soterrar. Tres dias eram passados E ainda por sepultar; A mãe em continuo pranto, Mas a filha a regelar; Sómente ella não chorava, Que estava a bom resar Ao santo varão Antonio Que tanto soubera amar; A infante encommendava Para lhe a resuscitar; Com grande fé verdadeira Assim começa a orar:

--«Santo que sois de mi terra Onde não ha outro igual, Que por todo o mundo andavas Noite e dia a milagrar! A esta vossa devota Vinde por Deos escutar; Aquella que vêdes morta Mandae-a resuscitar, Mais sete dias de vida Depois fazei-a expirar: Afugentai-me esta ausencia, Que a não posso supportar:

Inda a oração era em meio Já no céo ia a entrar:

--Sete dias tens de vida Podes á terra voltar.-- Disse Deos e santo padre, A vida lhe foi a dar. Do atahude se erguera A infante de Portugal, E com divinal semblante Á princeza foi falar:

«Senhora mãe que choraes, Onde me quereis guardar? Aqui me tendes na terra Onde já não sei estar. D’entre as virgens me arrancastes, Sem saber, por meu pesar; Deixae-me, senhora mãe, Que eu no céo tenho um altar; Eu apenas vim ao mundo Para vos vir consolar. Prometteis, senhora mãe, De não mais por mim chorar? --«Assim o prometto, oh filha, Podes para Deos voltar: Ora por mim tu que és anjo, E que no céo tens altar.

Os sete dias findavam Ao nascer de o luar, A alma da bella infante Para o céo se viu voar; O corpo que era de terra, Á terra o foram levar. Toda a côrte se espantava De não ver a mãe chorar.

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Romances de Iria a Fidalga

(_Versão de Santarem_)

«Estando eu á janella co’a minha almofada, Minha agulha d’ouro, meu dedal de prata,

Passa um cavalleiro, pedia pousada: Meu pae lh’a negou: quanto me custava!

Já vem vindo a noite, é tam só a estrada... Senhor pae não digam tal da nossa casa,

Que a um cavalleiro que pede pousada Se fecha esta porta á noite cerrada.

Roguei e pedi, muito lhe pezava! Mas eu tanto fiz, que por fim deixava.

Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava; Ao lar o levei, logo se assentava.

Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava; Pus-lhe uma toalha, n’ella se limpava.

Poucas as palavras, que mal me falava, Mas eu bem sentia que elle me mirava.

Fui erguer os olhos, mal os levantava, Os seus olhos lindos na terra os pregava.

Fui-lhe pôr a cêa, muito bem ceava; A cama lhe fiz, n’ella se deitava.

Dei-lhe as boas noites, não mo replicava; Tam má cortezia nunca a vi usada!

Lá por meia noite, que me eu suffocava, Sinto que me levam com a bocca tapada....

Levam-me a cavallo, levam-me abraçada, Correndo, correndo sempre á desfillada.

Sem abrir os olhos vi quem me roubava; Calei-me e chorei, elle não falava.

D’ali muito longe, que me perguntava: Eu na minha terra como me chamava.

Chamavam-me Iria, Iria a fidalga; Por aqui agora Iria a cansada.

Andando, andando, toda a noite andava; Lá por madrugada que me attentava....

Horas esquecidas que por mim luctava; Nem força, nem rogos, tudo lhe mancava.

Tirou do alfange... ali me matava, Abriu uma cova onde me enterrava.

No fim de sette annos passa o cavalleiro, Uma linda ermida viu n’aquelle outeiro.

--Minha santa Iria, meu amor primeiro, Se me perdoares serei teu romeiro.

«Perdoar não te heide, ladrão carniceiro, Que me degollaste que nem um cordeiro.

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Santa Iria

(_Variante da Covilhã_)

«Estando eu a coser na minha almofada, Com agulha de ouro e dedal de prata,

Veio o cavalleiro pedindo pousada, Se lh’a meu pae dera, estava bem dada.

Deu-lh’a minha mãe, que mui me custava, Fui fazer a cama no meio da sala.

Era meia noite, a casa roubada, De tres que nós éramos só a mim levava.

Eram sete leguas, nem fala me dava, Lá para as oito é que me perguntava:

--Lá na tua terra como te chamavam? «Lá na minha terra era eu morgada,

Cá n’estas montanhas serei desgraçada. --Por essa palavra serás degollada.

Ao pé de um penedo serás enterrada, Coberta de rama bem enramalhada.

No fim de sette annos por ali passava, E a todos que via lhe perguntava:

--Dizei-me, pastores que guardaes o gado, Que ermida é aquella que alem branquejava?

--É de Santa Iria bemaventurada, Que ao pé de um penedo morreu degollada.

--Oh minha santa Iria, meu amor primeiro, Perdoa-me a morte, serei teu romeiro.

«Não te perdôo, ladrão carniceiro, Que me degollaste, que nem um carneiro.

Veste-te de azul, que é a cor do céo, Se elle te perdoar, perdoar-te quero.

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Santa Helena

(_Variante do Minho_)

’Stando santa Helena Á porta assentada, Cosendo mui linda Na sua almofada, Sua agulha de ouro, Seu dedal de prata, Veio um cavalleiro Pediu-lhe pousada.

«Se meu pae lh’a dera Está mui bem dada.

Entrou para dentro, Logo se assentou; Fizeram-lhe a ceia, Elle não ceiou; Fizeram-lhe a cama, Então se deitou. Lá por meia noite Se alevantou; De tres irmãs que eram Só n’ella pegou. Levou-a p’r’o monte E lhe perguntou: Como lhe chamavam E como a tratavam .................

«Em caz’ do meu pae Helena fidalga, Agora na tua Serei desgraçada.

Puchou pelo alfange E logo a matou, Cobriu-a de ramos, Ali a deixou. Findos sette annos Por ali tornou:

--Pastorinhos novos, Que guardaes o gado, Que ermida é aquella Que está n’aquelle adro? --É de Santa Helena, Morreu degollada. --Minha santa Helena, Meu amor primeiro, Perdoa-me a morte, Serei teu romeiro.

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Romance da Devota da Ermida

(_Versão de Trás-os-Montes_)

No alto d’aquella serra Está uma bella ermida; Uma devota está ’nella, Serva da Virgem Maria. Uma visinha da porta Mau testimunho lhe erguia: Ella que andava d’amores Com um sacerdote de missa! Sacerdote se agastava, E ella pena não tinha. Veio o marido de fóra:

«Boa seja a vossa vinda, Que vos quero perguntar Que vae lá por essa villa. --Que te confesses, traidora, Que te vou tirar a vida. «Quer m’a tires, quer m’a deixes, Eu confessar-me queria. Marido, se me matares, Enterra-me na Ermida Aos pés de Nossa Senhora, Aos pés da Virgem Maria.

Prenhadinha de oito mezes Para os nove corria; No cabo dos nove mezes Um lindo cantar se ouvia. Abriram a sepultura Onde a encontraram parida, Com uma menina nos braços, Que se chamava Maria.

--Perdoa-me, oh Mariquinhas! Perdoa-me, oh mulher minha! «Como te heide eu perdoar Se a tua alma está perdida? A minha está na gloria Dos anjos bem assistida.

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Oração do Dia de Juizo

(_Versão do Minho_)

Por aquella noite escura Morreu uma criatura, Com grande arrependimento, Sem receber sacramento! Suas culpas e peccados Foram á face de Christo.

--Oh meu senhor Jesus Christo, Aqui visitar-vos venho; Sou a alma mais perdida Que tem o vosso rebanho.

«Escuta, oh alma zellosa, Que primeiro te escutei; Ensinei-te a benzer, Não quizestes aprender. Lá te deixei meus jejuns, Sempre passaste comendo. Lá te deixei meu Calvario, Sempre passaste correndo. --«Oh meu filho tão amado, Oh meu filho tão querido! Filho, salva-me aquella alma, Pois que se me vae perdendo. «Pois a minha Mãe o manda Faço o seu mando correndo: Sam Miguel pesae as almas, Ponde pesos na balança.

Os peccados eram tantos, Foram com elles ao chão! Pôz Nossa Senhora o manto, Ficaram pesos suspensos: Com a graça de Maria Ficou a alminha contente! Quem esta oração disser Um anno continuamente, Terá por certo viver Lá no céo eternamente. Quem a sabe e não a diz, Quem a ouve e não a aprende, Lá no Dia do Juizo Saberá o bem que perde.

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Romance do Terremoto de Villa Franca do Campo

(_Lição de Gaspar Fructuoso_)