Romanceiro geral

Part 4

Chapter 43,702 wordsPublic domain

--«Oh que razões serão essas Entre uma mãe e a filha? «Com bem venha, senhor pae, Com Deos seja a sua vinda; Tenho para lhe contar Um conto de maravilha: Estando eu no meu tear, Tecendo cambraia fina, Veio o Conde de Allemanha... --«Algum fio te quebraria? Não te zangues, minha filha, Nem me faças tu zangar, Porque o Conde é divertido, Talvez fosse por brincar. «Mal o hajam os seus brincos, Mais o seu negro brincar; Que me pegou por um braço E á cama me quiz levar. --«Accommoda-te pois, filha, Não me faças mais zangar, Ámanhã por estas horas Vae o Conde a degollar. «Levante-se, minha mãe, Venha vêr a bizarria! E o Conde da Allemanha Tambem vae na companhia, Com a cabeça n’um prato, E o sangue n’uma bacia. --Mal o hajas tu, oh filha, Fóra o leite que mammaste; Sendo o Conde tão bonito A morte que lhe causaste. «Accommode-se minha, mãe, Não me faça mais zangar, A morte, que o Conde leva Não lh’a faça eu levar. --Bem hajas, oh minha filha, Mais o leite que mammaste; Menina de doze annos Da morte que me livraste.

30

O Conde de Allemanha

(_Variante de Trás-os-Montes_)

Já o sol dava na côrte, E já era o claro dia, Inda o Conde de Allemanha Com a rainha dormia. Não no saberia el-rei, Nem quantos na côrte havia, Sabia-o a Dona Infanta Filha da mesma rainha.

--«Infantinha, se o sabes, Não me queiras descobrir, Que o Conde é mui brioso, De ouro te hade vestir. «Não quero vestidos d’ouro, Que os tenho de damasco, Meu pae ainda é bem novo, Já me querem dar padrasto. As mangas d’esta camisa Não as chegue eu a romper, Se quando vier meu pae Eu lh’o não fôra dizer. Venha, venha, senhor, pae, Santa seja a sua vinda, Um conto quero contar, Um conto á maravilha. --Conta, conta, minha filha, Que eu gósto do te ouvir! «Estando eu na minha cella, Dobando seda amarella, Veio o Conde de Allemanha Tres fios me tirou d’ella, --Cala-te lá, oh filha, Vamos p’r’a mesa jantar, Que o Conde é rapaz novo, É menino quer brincar. «Mal hajam os seus brinquedos, Mal haja do seu brincar, Que pegou em mim nos braços, Á cama me foi lançar. --Dize pois, oh minha filha, Que castigo lhe heide dar? «Quero escadas dos seus ossos Para o jardim passear. --Cala-te lá, oh filha. Vamos para a mesa jantar, Que amanhã por estas horas Vae o Conde a degollar. --«Arrenego-te, Mariana, Mais o leite que mammaste, Oh que Conde tão bonito E a morte que lhe causaste, «Minha mãe, minha mãesinha, Venha á janella do canto, Venha ver o senhor Conde Todo vestido de branco. Venha vêr, oh minha mãe, Á janellinha do poço, Venha vêr o senhor Conde Com uma corda ao pescoço. Venha, venha, minha mãe, Venha p’r’a sala do meio, Vêr o Conde da Allemanha Feito n’um cravo vermelho. --«Mal o hajas tu, oh filha, Fóra o leite que mammaste, Sendo o Conde tão bonito A morte que lhe causaste. «Cale-se ahi, minha mãe, Ninguem a ouça falar; Que a morte que leva o conde Não a vá você levar.

31

Romances de Dom Carlos de Montealbar

(_Versão do Porto e Beira-Alta_)

Estando Dona Silvana, Mais Dom Carlos Montealbar, Debaixo de uma roseira, Debaixo de um rosal, Passou por ali um pagico, Que nunca elle passasse:

--Pagico, do que has visto A el-rei não vás contar, Que eu te dou a minha chave, Quanto puderes levar; E da parte da senhora O que ella te quizer dar. «Não quero ouro, nem prata, Se ouro e prata me heis dar; Quero guardar lealdade A quem a devo guardar.

Pagem, como ignorante, A el-rei o foi contar, Á casa dos estudantes Onde estava a estudar,

«Deos vos salve, senhor rei, E a vossa corôa real; Lá deixei o conde Carlos Com a princesa a folgar, «--Se á puridade o dissesses Tença te havia de dar; Mas pois tam alto falaste, Alto hasde ir a enforcar. --«Ganhas-te, mexeriqueiro, Com o teu mexericar. «Ganhei a morte, senhora, E a vida me podeis dar. --«Se ella está na minha mão, A vida não te heide dar; Para outra não fazeres Já irás a degollar, E ao rabo do meu cavallo Te mandarei arrastar.

Aos sette para outo mezes Seu pae que a estava a mirar;

-«Que me mira, senhor pae, Que tanto me está a mirar? «--Eu miro-te, minha filha, Que me pareces pejada. --«Calle-se d’ahi, meu pae, Que é das saias mal talhadas.

Mandou chamar dois obreiros A quem elle mais amava, Olharam um para o outro: »Estas saias não tem nada!

«--Call’-te, call’-te, minha filha, Ámanhã serás queimada! --«Não se me dá que me queimem, Que me tornem a queimar; Da-se-me d’este meu ventre Que é de sangue real. Ai quem me dera um pagico Que me fôra bem mandado, Que me levara uma carta A Dom Carlos Montealbar. «Escreva, minha senhora, Em quanto eu vou jantar. --«Se elle estiver a dormir Façam-no logo acordar, Se elle estiver a comer Não o deixem acabar. «Aqui lhe trago, senhor, Novas de grande pesar, Que a sua bella menina Ámanhã vae a queimar. Jornada de trinta leguas Temol-a nós para andar.

Era meia noite em ponto Dom Carlos a repousar; Chamou um dos seus criados O que lhe era mais leal, Lhe aparelhasse um cavallo Dos que tem melhor andar; Doze campainhas d’ouro Lhe puzesse ao peitoral. Onde vás tu, oh Dom Carlos, Sósinho por esse andar? Vestiu-se em trajos de frade Ao caminho foi esperar.

--Cesse, cesse, senhor conde, Cesse se hade cessar, Que a menina que aí vae Inda está por confessar. «--Confesse-a, senhor padre, Em quanto eu vou jantar. --Diga-me, minha menina, Verdade me hade falar: Se algum dia teve amor A leigo, crelgo, ou a frade? --«Nunca tive amor a crelgo, Nem a leigo, nem a padre; Tive amores com Dom Carlos, Por isso vou a queimar. No primeiro mandamento O padre nada lhe disse; No meio da confissão Um beijinho lhe pediu. --«Cesse, cesse, senhor padre, Cesse se hade cessar, Onde Dom Carlos beijou Ninguem mais hade beijar. --Esse sou, minha senhora, Que a venho aqui buscar.

Tomou-a logo nos braços, Puzeram-se a caminhar; Correm d’alem os criados E puzeram-se a gritar:

«Senhor padre, deixe a moça, Que a manda seu pae queimar! --Pois vão dizer a seu pae, Que a venha d’aqui tirar.

32

Dona Lisarda

(_Variante da Beira-Baixa_)

--Oh Lisarda, oh Lisarda, Oh Lisarda meus amores, Quem dormira uma só noite Comvosco n’esses alvores. «Dormirieis uma ou duas Se não vos fôsses gabar. --Tenho feito juramento Na folhinha do Missal, Menina com quem dormir De eu a não ir diffamar.

Ainda não era manhã Ao jogo se foi gabar:

--Dormi esta noite com uma.... Não ha na corte uma egual! Puzeram-se uns para os outros: Quem seria? quem será? Aonde estava um irmão Á mãe o veio contar; A mãe assim que o soube Logo a mandou fechar. O pae perdeu confiança, Lenha lhe mandou cortar.

«--Oh Lizarda, oh Lizarda, O pae te manda queimar. «Não se me dá que me queime, Nem que me mande queimar; Dá-se-me d’este meu ventre Que leva sangue real.

Chegou a uma janella Mui triste do coração:

«Haverá por’hi um pagem O qual queira do meu pão, Que esse levasse uma carta Ao conde de Montalvão?

Appareceu-lhe um menino De sete annos e mais não:

--«Eu lh’a levarei, senhora, Escripta no coração. «Se o achares a dormir Deixa-o primeiro acordar; Se o achares á janella, Cartas lhe vás entregar.

Foi fortuna do menino Á janella o ir achar:

--«Cartas lhe trago, senhor, Cartas de muito pesar; Menina com quem dormistes Ámanhã a vão queimar. Não se lhe dá que a queimem, Nem que a levem a queimar; Dá-se-lhe só do seu ventre Que leva sangue real. --Ala, ala, meus criados, Cavallos ide ferrar, Com ferraduras de bronze Que não se hajam de gastar. Jornada de outo dias Esta noite se hade andar.

Vestiu-se em trajos de frade Começou a caminhar; Quando chegou ao pé d’ella Então já a iam queimar.

--Quéde, quéde essa justiça, Se não a farei quedar, A menina que aí levam Ainda vae por confessar. --Confessae-a, senhor padre, Emquanto vamos jantar; A confissão é de um anno, Ella hade-se demorar. --Venha cá, minha menina, Faça confissão geral, No meio da confissão Um beijinho me hade dar. «Tenho feito juramento Na folhinha do Missal, Bocca que beijou o conde Frade não hade beijar.

--Venha cá, minha menina, Que a quero confessar; No meio da confissão Um abraço me hade dar. «Não permitta Deos do céo Nem os santos do altar, Braços que o conde abraçaram Frades não hão de abraçar.

Começa-se elle a sorrir No meio da confissão:

«Pelo rir estás parecendo O Conde de Montalvão! --Esse sou, minha senhora, Criado para a salvar.

Montou-a no seu cavallo, Foi á pressa a caminhar, Quando veio a justiça Não a puderam alcançar.

--Digam agora a seus manos ’ Que a venham cá accusar; Digam agora a sua mãe Que a venha cá fechar; Digam também a seu pae Que a mande agora queimar! Vae na minha companhia Para com ella casar.

33

Dona Areria

(_Variante de Coimbra_)

A cidade de Coimbra Tem uma fonte de agua clara; As moças que bebem n’ella Logo se vêem pejadas. Dona Areria bebeu n’ella Logo se viu occupada Estando com seu pae á mesa Seu pae que muito a mirava:

--Dona Areria, Dona Areria, Parece que estás pejada? «A culpa é dos alfaiates, Que talharam mal a saia.

Chamaram-se os alfaiates Á sua salla fechada, Olharam uns para os outros: --Esta saia não tem nada. Ao cabo de nove mezes Ella será abaixada.

Arrecolheu-se ao seu quarto Muito triste, desmaiada.

--Dona Areria, Dona Areria, Ámanhã serás queimada.

«Não se me dá que me queimem, Que me tornem a queimar; Dá-se-me d’este meu ventre Que é de mui nobre linhagem. Oh quem me dera um criado Que me comêra o meu pão; Que me levara uma carta Ao conde de Montalvão. --Escreva, menina, escreva, Escreva do coração, Que eu lhe levarei a carta Ao conde de Montalvão. --Aqui tem, oh senhor conde, Carta de muito pesar; Menina com quem dormiu Ella aí vem a queimar. --«Se tu me dizes devéras, Cavallos mando apromptar; A jornada de oito dias Ainda hoje se hade andar. --Lá ao fim de nove legoas Liteiras se hão de encontrar.

Vestiu-se em trajos de frade Ao caminho a foi esperar; Em chegando ao pé d’ella Aos criados foi falar:

--«Pára, pára, oh da liteira, Que eu te farei parar, A menina que vem dentro Ella vem por confessar: --«Diga-me, minha menina, Verdade me hade falar, Se teve amores com clerigos Ou com frades, mal pesar? «Não tive amores com clerigos, Nem frades de mal pesar; Tive amores com Dom Carlos, Por isso vou a queimar. --«Lá no meio da confissão Um beijinho me hade dar. «Onde o conde pôz a bocca Padre algum lhe hade tocar. --«Pois Dom Carlos sou eu mesmo E comtigo heide casar.

34

Romance do Passo de Roncesval (_Versão de Trás-os-Montes_)

--Quêdos, quêdos cavalleiros, Que el-rei os manda contar!

Contaram e recontaram, Só um lhe vinha a faltar; Era esse Dom Beltrão, Tão forte no batalhar; Nunca o acharam de menos Senão n’aquelle contar, Senão ao passar do rio, Nos portos de mal passar. Deitam sortes á ventura A qual o ha de ir buscar. Que ao partir fizeram todos Preito, homenagem no altar, O que na guerra morresse Dentro em França se enterrar. Sete vezes deitam sortes A quem no hade ir buscar; Todas sete lhe cahiram Ao bom velho de seu pae. Volta redeas ao cavallo, Sem mais dizer, nem falar... Que lh’a sorte não cahira, Nunca elle havia ficar. Triste e só se vae andando Não cessava de chorar; De dia vae pelas montes. De noite vae pelo val; Aos pastores perguntando Se viram ali passar Cavalleiro de armas brancas, Seu cavallo tremedal?

«Cavalleiro de armas brancas, Seu cavallo tremedal, Por esta ribeira fóra Ninguem não no viu passar.

Vae andando, vae andando Sem nunca desanimar, Chega áquella mortandade D’onde fôra Roncesval: Os braços já tem cansados De tanto morto virar; Viu a todos os francezes, Dom Beltrão não pôde achar. Volta atrás o velho triste, Volta por um areal, Viu estar um perro mouro Em um adarve a velar:

--Por Deos te peço, bom mouro, Me digas sem me enganar, Cavalleiro de armas brancas Se o viste por’qui passar? Hontem á noite seria, Horas do gallo cantar, Se entre vós está cativo A oiro o heide pezar. «Esse cavalleiro, amigo, Diz’-me tu que signaes traz? --Brancas são as suas armas, O cavallo tremedal, Na ponta da sua lança Levava um branco sendal, Que lh’o bordou sua dama Bordado a ponto real. «Esse cavalleiro, amigo, Morto está n’esse pragal, Com as pernas dentro d’agua, O corpo no areal. Sete feridas no peito A qual será mais mortal: Por uma lhe entra o sol, Por outra lhe entra o luar, Pela mais pequena d’ellas Um gavião a voar. --Não tórno a culpa a meu filho, Nem aos mouros de o matar: Tórno a culpa a seu cavallo De o não saber retirar.

Milagre! quem tal diria, Quem tal poderá contar! O cavallo meio morto Ali se pôz a falar: --«Não me tornes essa culpa, Que m’a não podes tornar; Tres vezes o retirei, Tres vezes para o salvar; Tres me deu de espora e rédea, Co’a senha de pelejar. Tres vezes me apertou silhas, Me alargou o peitoral... Á terceira fui a terra D’esta ferida mortal.

VERGEL DE ROMANCES MOURISCOS, CONTOS DE CAPTIVOS, LENDAS PIEDOSAS E XACARAS

IV--ROMANCES MOURISCOS E CONTOS DE CAPTIVOS

35

Fragmento de um Romance do Cid

(_Versão de Gil Vicente_)

Ai Valença, guai Valença, De fogo sejas queimada, Primeiro foste de Mouros Que de Christianos tomada. Alfaleme na cabeça En la mano uma azagaya, Guai Valença, guai Valença, Como estás bem assentada; Antes que sejam tres dias De Moiros serás cercada. ........................ ........................

36

Romances de Dom Gayfeiros

(_Versão de Trás-os-Montes_)

Sentado está Dom Gayfeiros Lá em palacio real, Assentado ao taboleiro Para as tavolas jogar. Os dados tinha na mão, Que já os ia deitar, Se não quando vem seu tio Que lhe entra a pelejar:

--Para isso és Gayfeiros, Para os dados arrojar; Tua esposa lá têm mouros, Não és para a ir buscar. Outrem fôra seu marido, Já lá não havia estar.

Palavras não eram ditas Os dados vão pelo ar, A que não fôra o respeito Da pessoa e do logar, Tavolas e taboleiro Tudo fôra espedaçar:

--«Sette annos a busquei, tio, Sem a poder encontrar; Os quatro por terra firme, Os tres por cima do mar. Andei por montes e valles Sem dormir, nem descançar; O comer de carne crua, No sangue a sêde matar, Sangue vertiam os pés, Cansados de tanto andar; E os sete annos cumpridos Sem a poder encontrar. Ella estava em Salsonha Lá em palacio real! Mercê vos peço, meu tio, Se m’a vós quizereis dar, Vossas armas e cavallo Que m’as queiraes emprestar. A minha esposa entre mouros Eu a quero ir buscar. --Minhas armas não te empresto, Que as não posso desarmar; Meu cavallo bem vezeiro Não o quero mal vezar.

Dom Gayfeiros, que isto ouviu, A espada foi a tirar:

--«Bem parece Dom Roldão, Bem parece mal pesar, O muito amor que me tendes Para assim me affrontar. Mandae-me dizer por outrem Que me las possa pagar, Essas palavras, meu tio, Que vos não quero tragar. --Bem parece, Dom Gayfeiros, Bem se deixa de mostrar, Que a falta de annos, sobrinho, Em tudo vos faz falar. Aquelle que mais te quer Esse te hade castigar: Fôras tu mau cavalleiro, Nunca te eu dissera tal! Porque sei que és bom, o disse, E agora armar e sellar. Meu cavallo e minhas armas Ahi estão ao teu mandar, E aqui tendes o meu corpo Para vos acompanhar. --«Só quero ir, meu tio, só Para melhor a tirar; Venham armas e cavallo, Que já me quero marchar. «Oh que lindo cavalleiro De tão gentil cavalgar! --«Melhor sou jogando ás damas, Com mouros a batalhar. «Se sois christão cavalleiro Recado me haveis levar, Que digaes a Dom Gayfeiros Porque me não vem buscar; Pois me querem fazer moira, E de Christo renegar. Com um rei mouro me casam De alem das bandas do mar, Dos sette reis da moirama Rainha me hão de coroar. --«Esse recado, senhora, Eu mesmo lh’o heide dar, Pois Dom Gayfeiros sou eu, Que vos venho a buscar.

A fala não era dita Puzeram-se a caminhar; Tirou-a pelo balcão Por não haver mais logar. Cavalgam, vão caminhando, Não cessam de caminhar, Por essa moirama fóra Sem mais temor, nem pesar; Falando de seus amores Sem de mais nada pensar. Em terras da christandade Por fim vieram a entrar, As festas que se fizeram Não teem conto, nem par.

37

Melisendra

(_Variante de Trás-os-Montes_)

--Sette annos são cumpridos Bem n’os deves de contar, Que a Melisendra é cativa E a vida leva a chorar. Outrem fôra seu marido, Já lá não havia estar!

A seu tio Dom Roldão Tal resposta lhe foi dar:

--«Os sette annos são cumpridos Sem a poder encontrar! Agora a saber sou vindo Que a Salsonha foí parar. E eu sem armas, nem cavallo Com que a possa ir buscar! --Eu sempre te vi com armas, Com cavallos a adestrar; Agora que estás sem elles É que a queres ir buscar? --«As vossas armas meu tio, Que m’as não queiraes negar; A minha esposa cativa Como heide eu ir buscar? --Em Sam João de Latrão Fiz juramento no altar De a ninguem emprestar armas Que m’as faça acovardar.

Saltam-lhe os olhos da cara, De merencorio falar:

--«De covarde a mim! ninguem Nunca me hade appellidar! --Fôras tu mau cavalleiro, Nunca te eu dissera tal.

Dom Roldão a sua espada Ali lhe foi entregar:

--E mais terás o meu corpo Para te ir acompanhar. --«Mercês, meu tio, heide ir só, Só, tenho de a ir buscar. --Pois se queres ir só, sobrinho, Esta te hade acompanhar; Meu cavallo é generoso Não o queiras sopear; Dá-lhe mais rédea que espora, N’elle te podes fiar.

Andando vae Dom Gayfeiros, Andando a bom andar; Por essas terras de Christo Té á moirama chegar. Ia triste e pensativo, Cheio de grande pesar, Para as portas de Salsonha, Sem saber como hade entrar; Melisendra em mãos de mouros Como lh’a hade sacar? Estando n’este cuidado As portas se abrem de par, El-Rei com seus cavalleiros Sahia ao campo a folgar. Furtou-lhe as voltas Gayfeiros, Pelas portas foi entrar; Deu com um christão cativo Que ali andava a trabalhar:

--«Por Deos te peço, cativo, E elle te venha livrar, Assim me digas se ouviste N’esta terra anomear A uma dama christan, Senhora de alto solar, Que anda cativa de mouros E a vida leva a chorar? «--Deos te salve, cavalleiro, Elle te venha ajudar! E assim me dê outra vida, Que esta se vae a chorar. Pelos signaes que me déste Já bem te posso affirmar, Que a dama que andas buscando Em palacio deve estar. Toma essa rua direita, Que leva ao passo real, Lá verás pelas janellas Muitas christãs a folgar.

Tomou a rua direita, Que no palacio vae dar, Alçou os olhos ao alto, Melisendra viu estar Sentada áquella janella, Tão entregue ao seu pensar, Que as outras em redor d’ella Não as sentia folgar. Rua abaixo, rua acima, Gayfeiros a passear:

«D’onde é o cavalleiro De tão lindo passear? --«O cavalleiro é christão Das bandas d’alem do mar. «Se o cavalleiro é christão Recado me haveis levar, Que digaes a Dom Gayfeiros Porque me não vem buscar, Em quanto eu presa e cativa. A vida levo a chorar. --«Esse recado, senhora, Vós mesma lh’o haveis de dar; Dom Gayfeiros aqui o tendes, Que vos vem a libertar.

Palavras não eram ditas Os braços lhe foi a dar, Ella do balcão abaixo Se deitou sem mais falar.

Maldito perro de mouro Que ali andava a rondar Em altos gritos o mouro Começava de bradar:

«--Accudam á Melisendra, Que se vae para alem-mar. --«Melisendra, Melisendra, Agora é o esforçar!

Aperta a cilha ao cavallo, Affrouxa-lhe o peitoral, Saltou-lhe em cima de um pulo, Sem pé no estribo poisar. Tomou-a pela cintura, Que o corpo ergueu por lh’a dar. Assenta a esposa á garupa Para que a possa abraçar; Finca esporas ao cavallo, Que o sangue lhe faz saltar, Os mouros pela cidade A correr e a gritar; Quantas portas ella tinha Todas as foram cerrar, Sette vezes deu a volta Da cerca sem a passar, O cavallo ás outo vezes De um salto a foi saltar. O rei que vinha da caça Lá deitou a desfilar. Sentiu logo Dom Gayfeiros Como o iam alcançar:

--«Não te assustes, Melisendra, Que é força aqui apear; Entre estas arvores verdes Um pouco me hasde aguardar, Em quanto eu volto a esses perros, Que os heide affugentar. As boas armas que trago Agora as vou a provar.

«--Renego de ti, christão E mais do teu pelejar! Não ha outro cavalleiro Que se te possa egualar; Só se fosse Dom Roldão, O encantado sem par.

--«Calla-te d’aí, rei mouro, Calla-te, não digas tal, Sou o infante Dom Gayfeiros, Roldão meu tio carnal, Alcaide mor de Paris, Minha terra natural.

Gayfeiros, senhor do campo, Não tem com quem pelejar; Cheio de grande alegria Melisendra foi buscar:

«Ai, se vens ferido, esposo, E que ferido hasde estar? Eram tantos esses mouros, E tu só a batalhar! Mangas da minha camiza. Com ellas te heide pençar; Toucas da minha cabeça Faxas para te apertar. --«Calla-te d’aí, infanta, E não queiras dizer tal, Por mais que foram-n’os mouros Não me haviam fazer mal: São de meu tio Roldão Estas armas de provar.

A Paris já são chegados, Já sáem para os encontrar, Sete leguas da cidade A côrte os vae esperar; Sahia o imperador A sua filha a abraçar: Grande honra a Dom Gayfeiros, Os parabens lhe vão dar; Por sua muita bondade Todas o estão a louvar, Pois libertou sua esposa Com valor tão singular.

38

Romance de Branca-Flor

(_Versão da Extremadura_)

--Á guerra, á guerra, mourinhos, Quero uma christã cativa! Uns vão pelo mar abaixo, Outros pela terra acima; Tragam-me a christã cativa, Que é para a nossa rainha.