Romanceiro geral

Part 3

Chapter 33,710 wordsPublic domain

--Tendes-me aqui senhora, mandae como a vassallo, Já estive em noite escura, agora é dia claro;

Dae-me, que tenho sêde, um pucarinho de agua! --«Aqui vos mato a sêde, espelho bello e claro.

--A mim não ha quem mate a sêde continuada... --«Vem cá falar commigo ámanhã de madrugada. Alluga uma burrinha, que o não saiba ninguem, Que eu quero para sempre ir d’aqui para alem.

--Como a levarei, senhora, com quem irá d’aqui? Filho d’um corta carne, que apregôa aqui!

--«Não se me dá que o sejas ou que apregôe aqui. --Alluguei a burrinha, vá-se despedir.

--«Adeos oh fontes claras e poços de agua fria, Eu já não ouço aqui rouxinóes ao meio dia. Se meu pae perguntar quem é que me queria, Dizei que a desgraça não é a que me guia. --Cala-te, Magdalena, lagrimas de peregrina! Nos reinos estrangeiros melhor agua haveria. Tambem ha claras fontes, poços de agua fria, E canta o rouxinol á hora do meio dia.

--«Pareces Dom Duarte! oh que fortuna a minha, Tornemos ao palacio a dizel-o á rainha: Rainha e mãe senhora, humildo-me ao castigo, Aqui está Dom Duarte, que vem por meu marido. Rainha e mãe senhora, que pena me acompanha, De não achar meu pae senhor de toda a Hespanha. Rainha e mãe senhora, humildo-me com dor, Não tem a quem pôr culpa, é mui cego o amor.»

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O Duque da Lombardia (_Variante da Beira-Alta_)

Por manhã de Sam João, Manhã de doce alvorada, Ao seu balcão muito cedo A Infanta se assomava. Viu andar tres cegadores Fazendo sua cegada; O mais pequeno dos tres Era o que mais trabalhava. Fitta que traz no chapeo De ouro e seda era bordada. Fina prata que luzia A foice com que ceifava. De seu garbo e gentileza A Infanta se namorava. O ceifeiro vae ceifando... Bem sabe elle o que ceifava.

«Vês, aia, aquelle ceifeiro Que anda n’aquella cegada? Vae-m’o chamar em segredo, Que ninguem não saiba nada.

Entraram por um postigo, Que a porta inda era cerrada; No camarim da princeza O bom do ceifeiro estava:

«Quero saber se te atreves A fazer a minha cegada? --Atrever me atrevo a tudo, Trabalho não me acobarda. «Não é no monte ou no vale, No baldio ou na coutada; Cegador é nos meus braços Que de ti estou namorada.

Passou todo aquelle dia, O mais da noite passava, Ceifando vae o ceifeiro... Bem sabe o que elle ceifava.

«Basta, basta, cegador, Feita está tua cegada; Vae-te que meu pae não venha Antes de ser madrugada.

Palavras não eram ditas El-rei á cama chegava:

--«Com quem falas, minha filha, Tão cedo de madrugada? «Falo com esta minha aia, Que me tem desesperada; Uma cama tão malfeita Que dormir me não deixava. --«É forte essa tua aia Que a barba tem tão cerrada! Vista-se já a donzella, Que antes de ser madrugada, Pelo barbeiro do algoz A quero ver barbeada.

O cegador muito enchuto Sua sentença escutava; Com uma mão se vestia, Com a outra se calçava. Saltou no meio da casa, Como se não fôra nada:

--Venha já esse barbeiro Com a navalha afiada: Ao Duque da Lombardia, Verêmos quem faz a barba.

O imperador mui contente Depressa ali os casava: Não quiz senhores, nem condes, Homens de capa ou de espada, Senão só o cegador Que andava em sua cegada. Sahiu-lhe um Duque reinante, Senhor d’alta nomeada, Pois tudo é sorte no mundo, A sorte foi bem deitada.

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Romance de Dona Agueda de Mexia

(_Versão do Alemtejo_)

Era uma menina bella, Discreta e bem parecida, Dom João a namorava, Mil requebros lhe fazia. Por fidalgo e gentil moço Ninguem tanto a merecia; Mas o pae d’aquella moça Por melhor conselho havia Casal-a com um mercador Que áquellas partes vivia. Dom João quando isto soube Por pouco se não morria: Foi se d’ali muito longe Sem dizer para onde ia. Tres mezes por lá andou, Tres mezes n’essa agonia. Mandou sellar seu cavallo Sem cuidar no que fazia; Deitou por esses caminhos Sem saber adonde ia. O cavallo é quem andava, Cavalleiro obedecia; Passou por terras e terras Nenhuma não conhecia. Á sua tinha chegado, Onde estava não sabia.

Té que veio a passear Á rua da sua amiga; As casas onde morava, Janellas aonde a via, Tudo é coberto de preto Mais preto que ser podia. Mandou chamar uma dama Por Deos e á cortezia:

--Dize-me tu por quem trazes Ausencias tam doloridas? «Trago-as por minha senhora Dona Agueda de Mexia, Que é com Deos a sua alma, Seu corpo na terra fria; E por vós foi, Dom João, Por vosso amor que morria.

Dom João quando isto ouviu Por morto em terra cahia; Os seus olhos não choravam, Sua bocca não se abria. Mirava a gente em redor A vêr o que elle faria. Foi-se direito á egreja Onde a sua dama tinha:

--Eu te rogo, sacristão, Por Deos e Santa Maria, Que me ajudes a erguer A campa da minha amiga.

Ali a viu tão formosa Tal como d’antes a via. Pôz os joelhos em terra, Os braços ao céo erguia; Jurou a Deos e á sua alma Que mais a não deixaria. Puchou por um punhal d’ouro Por lhe fazer companhia. Permittiu a virgem santa A virgem Santa Maria, Que se não perdesse uma alma E um milagre fazia: A defuncta a mão direita Ao seu amante estendia, Seus lindos olhos se abriram A sua bocca sorria; Volta á vida que se fôra Com todo o amor que não se ia. Seu pae o foram buscar, Já estava na agonia; Vêm amigos, vêm parentes Todos com grande alegria; E a Dom João dão a esposa Que mui bem a merecia

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Romance do Casamento e mortalha

(_Versão do Minho_)

Lá das bandas de Castella Triste nova era chegada; Dom João que vem doente, Mal pesar da sua amada. São chamados tres doutores Dos que têm mais nomeada: Que se algum lhe desse a vida Teria paga avultada. Chegaram os dois mais novos, Dizem que não era nada; Por fim que chega o mais velho Diz com voz desenganada:

--Tendes tres horas de vida E uma está meia passada; Essa é para o testamento, Deixar a alma encommendada. A outra é para os sacramentos, Que inda é mais bem empregada; Na terceira as despedidas Da vossa dama adorada.

Estando n’estas conversas Dona Isabel que é chegada. Ergueu os olhos para ella Com a vista já turvada:

--«Ainda bem que vieste, Minha prenda desejada; Que tanto queria ver-te Nesta hora minguada, «Tenho fé na Virgem Santa, N’ella venho confiada, Que me hade ouvir e salvar-te, Que teu mal não será nada. --«Oh que se eu chegar a erguer-me, Minha rosa namorada, No vaso d’este meu peito P’ra sempre serás plantada, Com as bençãos de um Arcebispo, E de agua benta regada, Com a estóla da santa egreja Ao meu coração atada. Estando n’estas conversas, Sua mãe que era chegada:

«--Que tens tu, filho querido D’esta alma amargurada? --«Tenho mãe que estou morrendo, Que esta vida está acabada; Com só três horas por minhas, E uma já meio passada. «--Filho de minhas entranhas, N’esta hora minguada, Lembra-te se algo deves A alguma dama honrada. --«Minha mãe, que devo, devo, E Deos me não peça nada! Dona Isabel, que em má hora Por mim fica diffamada. Mas deixo-lhe mil cruzados Para que seja casada. «--A honra não se paga, filho, Mil cruzados não é nada. --«Já lhe deixo mais duzentos E a cruz da minha espada. «--A honra não se paga, filho, Os cruzados não são nada. --«Deixo-a a estes tres doutores Muito bem encommendada; E a vós, minha mãe, vos peço Que a tenhaes bem guardada. O que com ella casar Tem uma villa ganhada; O que lhe disser que não Tenha a cabeça cortada. «--A honra não se paga, filho, Nem com terras é comprada: Se a essa dama lhe queres, Não a deixes deshonrada. --«Pois fique esta mão já fria Na sua mão adorada; De Dom João é viuva, Condessa será chamada.

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Romance da Nau Catherineta

(_Versão de Lisboa_)

Ora da nau Cath’rineta D’ella vos quero contar, Sete annos e mais um dia Andou nas aguas do mar. Não tinham lá que comer, Nem mais quê para manjar, Deitaram sólas de môlho Para o domingo jantar. A sóla era tão dura Não a puderam tragar. Deitam sortes á ventura A vêr quem se hade matar! Logo foi cahir a sorte No capitão general.

--Sóbe, sóbe marujinho Áquelle tópe real, Vê se vês terras de Hespanha, Ou praias de Portugal. «Não vejo terras de Hespanha, Nem praias de Portugal, Vejo sete espadas nuas Todas para te matar. --Acima, acima, gageiro Áquelle tópe real, Vê se vês terras de Hespanha, As praias de Portugal. «Alviçaras, capitão, Meu capitão general; Já vejo terras de Hespanha E praias de Portugal. Tambem vejo tres meninas Debaixo de um laranjal: Uma sentada a cozer, Outra na roca a fiar, A mais formosa de todas Está no meio a chorar. --Todas tres são minhas filhas, Oh quem m’as dera abraçar! A mais formosa de todas Comtigo a heide casar. «A vossa filha não quero, Que vos custou a criar. --Dar-te-hei tanto dinheiro Que o não possas contar. «Não quero o vosso dinheiro Pois vos custou a ganhar. --Dou-te o meu cavallo branco Que nunca houve outro igual. «Guardae o vosso cavallo Que vos custou a ensinar. --Que queres tu, meu gageiro, Que alviçaras te heide eu dar? «Eu quero a Nau Cath’rineta Para n’ella navegar. --A Nau Cath’rineta, amigo, É de el-rei de Portugal; Mas ou eu não sou quem sou, Ou el-rei t’a hade dar.

III-ROMANCES QUE SE ENCONTRAM NAS COLLECÇÕES HESPANHOLAS

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Romances do Conde prêso

(_Versão de Trás-os-Montes_)

Prêso vae o Conde, prêso, Prêso vae a bom recado; Não vae prêso por ladrão, Nem por home’ haver matado. Mas por violar a donzella Que vinha de Sanctiago. Não bastou dormir com ella, Se não dal-a ao seu criado! Accommetteu-a na serra, Mui longe do povoado; Por morta ali a deixára Sem mais dó, sem mais cuidado. Foi á presença do rei Onde o Conde era levado:

«Eu te requeiro, bom rei, Pelo Apostolo sagrado, Que n’esta sua romeira O fôro seja guardado. Da lei divina é casar-se, Da humana ser degollado; Não ha fôro ou privilegio Onde Deos é o aggravado.

Disse o rei aos do conselho, Com semblante carregado:

--Sem mais detença este feito Quero já desembargado! --«Visto está o feito, visto, Julgado está, bem julgado; Ou hade casar com ella, Ou senão... ser degollado. --Pois que me praz, disse o rei, O algoz seja chamado; Ou já casar com a romeira, Ou aqui ser degollado. «--Venham algoz e cutello, (Respondeu o accusado) Antes morrerei mil vezes, Antes que ser deshonrado! Não me enterrem na egreja Nem tam pouco em sagrado: N’aquelle prado me enterrem Onde se faz o mercado. Cabeça me deixem fóra, O meu cabello entrançado; De cabeceira me ponham A pelle do meu cavallo, Que digam os passageiros: Triste de ti, desgraçado! Morreste de mal de amores, Que é um mal desesperado!

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Dom Garfos

(_Variante da Beira Baixa_)

Lá abaixo vem o Conde, Prêso vem, arreatado, Não por furtos que haja feito, Nem por homens que ha matado; Foi por zombar da romeira Que vinha de Sanctiago. A romeira era nobre, A el-rei se ha queixado. Mando que case com ella, Ou que seja enforcado!

Não heide casar com ella, Nem heide ser enforcado! Quem me dera aqui meus pretos, Ou meus velozes cavallos, Ou meu sobrinho Dom Garfos, Que eu me vira bem vingado.

Palavras não eram ditas Dom Garfos era chegado:

«Quem vos trouxe aqui, meu tio, Tão prêso e arreatado? Não por furto que haja feito, Nem por homens que ha matado? --Foi por zombar com a romeira Que vinha de Sanctiago; A romeira era nobre A el-rei se ha queixado. Manda que case com ella, Ou que seja enforcado. Vae tu falar com el-rei, A vêr se me ha perdoado.

Entrou por palacio dentro:

«Deos vos salve, meu bom rei! Mandae-me soltar meu tio, Se não eu o soltarei. --«Vae Dom Garfos para casa, Dorme um somno descançado; Das onze pr’a meia noite Teu tio será soltado.

Lá pela noite adiante Acordou sobresaltado! Disse p’ra sua mulher Que um sonho tinha sonhado:

«Lá no Terreiro do Passo Está meu tio enforcado. --Não digas isso zombando, Que esta noite ouvi um brado.

Com uma mão veste a capa, Com outra sela o cavallo; A um pretinho que tinha Uma lança lhe ha dado. Foi-se ao Terreiro do Paço E viu seu tio enforcado! «Deos te perdôe, meu tio, Deos te tenha perdoado.

Sete condes caminhavam A verem o enforcado; A um mata, outro degolla, Só um lhe ha escapado; E esse mesmo que escapou Foi a unha de cavallo.

--«Oh Dom Garfos, oh Dom Garfos, Não sejas desatinado, Mataste-me já seis condes, Os melhores do meu reinado. «E a vós tambem proprio Rei, Se cá estivesses em baixo; Mas como estaes de ventana Palraes nem um papagaio! Mas n’uma filha que tendes Eu me verei bem vingado.

Vae Dom Garfos para casa, Quatro facadas lhe ha dado:

«Uma é á honra de tu padre, Outra á honra de tu madre; Outra por minha saúde Que te as haja mui bem dado! Outra por seres traidora, Que me não has acordado.

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Justiça de Deos

(_Variante da Beira-Alta_)

Prêso vae o conde, preso, Prêso vae a bom recado; Não vae preso por ladrão, Nem por homem ter matado, Mas por violar a donzella Que vinha de Sanctiago: Não bastou dormir com ella, Senão dal-a ao seu criado. Accommetteu-a na serra, Mui longe do povoado: Por morta ali a deixara Sem mais dó, nem mais cuidado. Chorou tres dias, tres noites, E mais teria chorado, Senão que Deos sempre acode A amparar o desgraçado. Passou por ali um velho, Um pobre velho soldado, As barbas brancas de neve, Em sua espada abordoado. Vieiras traz na esclavina, O chapeo d’ellas cercado; Chegou-se á pobre romeira Com muito amor, muito agrado:

--Não chores mais, filha minha, Filha, de mais tens chorado; Que esse villão cavalleiro Prêso vae a bom recado.

Levou comsigo a donzella O bom velho do soldado, Vão á presença d’el-rei Onde o conde era levado.

--Eu te requeiro, bom rei, Pelo Apostolo sagrado, Que n’esta tua romeira O fôro seja guardado. Da lei divina é casar-se, Da humana ser degollado: Que não valem fidalguias Onde Deos é o aggravado.

Disse el-rei aos do conselho Com semblante carregado:

--«Sem mais detença, este feito Quero já desembargado, «--Visto está o feito, visto, Julgado está, bem julgado: Ou hade casar com ella, Ou senão, ser degollado. --«Pois que me praz, disse o rei, O algoz que seja chamado; Ou já casar com a romeira, Ou aqui ser degollado. «Venham algoz e cutello, Respondeu o accusado: Mas antes morrer mil vezes Que viver envergonhado. Agora ouvireis o velho, O bom velho do soldado:

--Fazeis, bom rei, má justiça, Mau feito tendes julgado; Primeiro casar com ella, E depois ser degollado. Lava-se a honra com sangue, Mas não se lava o peccado.

Palavras não eram ditas A espada tinha arrojado; Despe o gaivão de romeiro, Despe as armas de soldado, Nos trajos de um santo Bispo Apparece transformado! Sua mitra de pedras finas, De ouro puro o seu cajado; Tomou a mão da romeira, A mão do conde ha tomado, Por palavras de presente Ali os tem desposado. Choravam todos que o viam, Chorava mais o culpado; Chorando, pedia a morte Por não ficar deshonrado. O santo Bispo o absolvia Contricto do seu peccado: D’ali o levam por morto, Que nem o algoz foi chamado; Justiça de Deos foi n’elle: Antes de uma hora é finado.

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Romances do Conde Alberto

(_Versão do Porto_)

Indo Dona Silvaninha Pelo corredor acima, Tocando sua guitarra, Muito bem que a tangia; Acordou seu pae da cama Com o estrondo que fazia.

--Que tendes, Dona Silvana, Que tendes, oh vida minha? «Raparigas do meu tempo São casadas, têm familia, Eu por ser a mais formosa Para o canto ficaria? --Não tenho com quem te case Neste reino, minha filha; Só se fôr o Conde Alberto, É casado e tem familia. «Mandai-o chamar, meu pae, Da sua parte e da minha, Que mate sua condessa, E case com vossa filha; Que traga a cabeça d’ella Nesta dourada bacia.

Eis manda chamar o Conde Da sua parte e da filha; Matasse a sua condessa, Casasse com Silvaninha. Veio o Conde mui depressa, Mais depressa que podia:

--Quero mates a condessa, Que cases com minha filha. --«Como matar a condessa Se ella a morte não merecia? --Mata, mata, Conde Alberto; Antes de uma Ave-maria Me traz a sua cabeça N’esta dourada bacia.

Foi o Conde para casa, Muito triste que elle ia; Mandou fechar seus palacios, Cousa que nunca fazia. Mandou vestir seus criados De luto á maravilha; Mandou pôr a sua mesa Para fazer que comia. As lagrimas eram tantas Que pela mesa corria; Os suspiros eram tantos Que o palacio estremecia. Desceu a condessa abaixo A vêr o que o Conde tinha:

»Que tens tu, oh Conde Alberto, Que tendes, oh vida minha? Conta-me as tuas tristezas Como contaes alegrias. --«Minhas tristezas são tantas Que contar-vos não queria, »Conta, conta, Conde Alberto, Conta, conta, vida minha. --«Manda-me el-rei que te mate, Que case com sua filha. »Cala-te lá, Conde Alberto, Que isso remedio teria: Meter-me-has n’um convento, Que não veja sol, nem dia; Deras-me o pão por onça, Agua por uma medida. --«Ai! como pode isso ser, Condessa da minha vida? Diz que te leve a cabeça Nesta maldita bacia. »Cala-te d’ahi, oh Conde, Que isso remedio teria: Matarias a donzella Que se parece commigo. --«Cala-te d’ahi, mulher, Que isso não é honra minha. »Vou para casa de meu pae Nunca mais apparecia.

Palavras não eram ditas El-rei á porta batia: Se a condessa era morta, Senão elle a mataria.

--«A Condessa não é morta, Anda n’essas agonias. »Deixa-me dar um passeio Da sala até á cosinha: Adeos moças, adeos aias Com quem eu me divertia, Adeos espelho real Onde me via e vestia; Que ámanhã por estas horas Já estarei na terra fria. Dá-me cá esse menino Que o quero pentear; Dá-me cá o outro mais novo, Quero-lhe dar de mammar: Mamma, mamma, meu menino, Este leite de paixão, Que ámanhã por estas horas Está tua mãe no caixão. Mamma, mamma, meu menino, Este leite de pesar, Que ámanhã por estas horas Vae tua mãe a enterrar. Mamma, mamma, meu menino, Este leite de amargura, Ámanhã por estas horas Está tua mãe na sepultura.

Tocam sinos em palacio, Ai, Jesus, quem morreria?

--Morreu a filha do rei Pela soberba que tinha, Descasar os bem casados Cousa que Deos não queria.

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Conde Alves

(_Variante da Beira Baixa_)

Estando a princesa a chorar, Filha do rei de Castilla: Seu pae se foi ter com ella Ao estrondo que fazia:

--O que é isso, oh Silvana, Que é isso, oh filha minha? «De tres manas que eu tenho São casadas tem família; Eu por ser a mais formosa Solteirinha ficaria? --Não tenho com quem te case Na mais alta senhoria; Só sendo com o Conde Alves, É casado e tem familia. «Com esse, meu pai, com esse, Com esse é que eu queria; Mande-o chamar, meu pae, Da sua parte e da minha! --Ála, ála, meus criados, O Conde Alves vão chamar. --«Ainda agora de lá venho, Já para lá heide tornar?

Entrou pelo passo dentro Fazendo mil cortezias:

--«Que me quer a Vossa Alteza, Vossa Alteza Senhoria? --Quero que mates a Condessa, E cases com minha filha! --«A Condessa não a mato, Que ella a morte não merecia. Mando-a deitar aos matos, Que os bichos a comeria. --Mata, mata, Conde Alves, Não me tornes demasia; A cabeça me ha de vir N’esta dourada bacia. Não m’a troques lá por outra, Que eu bem a conhecia; Que ao seu lado direito Um sinal preto teria.

Foi-se d’ali o bom Conde, Cheio de melancholia; Mandou fechar suas portas, Cousa que nunca fazia! Mandou pôr a sua mesa, Nem um, nem outro comia; As lagrimas eram tantas, Que pela mesa corria.

«--O que é isso, oh bom Conde, Que é essa melancholia? Conta-me as tuas tristezas, Que eu te conto alegrias! --«Se eu te contasse tristezas, Morta para trás cahirias: Mandou o rei que te mate, Que case com sua filha. «--Isso não, bom conde, não, Que eu a morte não merecia; Manda-me deitar aos mares, Que os peixes me comeria. --«Isso não, condessa, não, Que o rei logo o sabia, A cabeça te hade ir N’aquella negra bacia, Que te não troque por outra Que elle bem te conhecia; Que ao teu lado direito Um sinal preto teria. «--Deixa-me dar um passeio Da sala para o jardim: Adeos cravos, adeos rosas, Adeos flor do alecrim. Deixa-me dar um passeio Da sala para a cosinha; Deixa-me dar de mammar Ao filho que tanto queria. Mamma, filho, mamma, filho, Este leite amargurado, Ámanhã por estas horas Já teu pai está coroado. Mamma, filho, mamma, filho, Este leite de amargura; Ámanhã por estas horas Já estarei na sepultura. Anda cá, filho mais velho, Que te quero ensinar A tua mãe a rainha Como lhe haveis de chamar, Com o joelho no chão, O chapeosinho no ar.

Estando n’estas razões El-rei á porta batia: A condessa já é morta, Senão elle a mataria.

--«A condessa não é morta, Está n’essas agonias.

Tocam os sinos na côrte, Ai, Jesus, quem morreria? Morreu, foi Dona Silvana, Por crimes que commettia; O pae morreu ás dez horas, E a filha ao meio dia. Apartar os bem casados Era o que Deos não queria.

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Romances do Conde de Allemanha

(_Versão da Beira-Baixa_)

Já o sol nasce na serra, Já lá vem o claro dia, Inda o Conde de Allemanha Com a rainha dormia. Não o sabia o rei, Nem quantos na côrte havia, Sabia-o só o princesa Juliana sua filha.

--Juliana, se o sabes, Não o queiras descubrir; Porque o Conde é muito rico De ouro te hade vestir. «Não quero seus fatos d’oiro, Já os tenho de damasco; Inda meu pae não é morto, Já me querem dar padrasto! As pregas d’esta camisa Eu não as chegue a fazer, Quando meu pae vier da missa Se eu lh’o não fôr dizer. As pregas d’esta camisa Não as chegue eu a acabar, Em meu pae vindo da missa Se lh’o eu não fôr contar.

Estando n’estas rasões O pae á porta batia: