Romanceiro geral

Part 2

Chapter 23,838 wordsPublic domain

--Deos vos salve minha tia, Na vossa roca a fiar! «Venha embora o cavalleiro Tam cortez no seu falar. --Má hora se elle foi, tia, Ma hora torna a voltar! Que já ninguem o conhece De mudado que hade estar. Por lá o matassem mouros, Se assim tinha de tornar. «Ai sobrinho de minha alma, Que és tu pelo teu falar! Não vês estes olhos, filho, Que cegaram de chorar? --E meu pai e minha mãi, Tia que os quero abraçar? «Teu pai é morto, sobrinho, Tua mãi foi a enterrar. --Que é da minha armada, tia, Que eu aqui mandei estar? «A tua armada, sobrinho, Mandou-a o fronteiro ao mar. --Que é do meu cavallo, tia, Que eu aqui deixei ficar? «O teu cavallo, sobrinho, El-rei o mandou tomar! --Que é da minha dama, tia, Que aqui ficou a chorar? «Tua dama faz hoje a boda, Amanhã se vae casar. --Dizei-me onde é minha tia, Que me quero lá chegar. «Sobrinho não digo, não, Que te podem lá matar. --Não me matam, minha tia, Cortezia eu sei uzar. E onde faltar cortezia Esta espada hade chegar.

--Salve Deos, oh la da boda, Em bem seja o seu folgar! --«Venha embora o cavalleiro, E que se chegue ao jantar. --Eu não pertendo da boda, Nem tam pouco do jantar; Pretendo falar á noiva, Que é minha prima carnal. Vindo ella lá de dentro Toda lavada em chorar, Mal que viu o cavalleiro, Quiz morrer, quiz desmaiar. --Se tu choras por me veres, Já me quero retirar; Se é os teus gastos que choras, Aqui estou para os pagar. «--Pagar devia com a vida Quem me queria enganar, Quando te deram por morto Nessas terras d’alem-mar. Mas que fiquem com a boda, E bem lhes preste o jantar, Que os meus primeiros amores Ninguem m’os hade quitar.

--Venha juiz de Castella, Alcaide de Portugal; Que, se aqui não ha justiça Co’ esta espada a heide tomar.

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Romance do Alferes matador

(_Versão da Covilhã_)

--Indo eu por quelha abaixo, Topando por quelha acima, Olhei para uma janella, Onde vi ’star trez donzillas. Aquella de azul claro É linda em demasia, Tenho de a ir buscar Inda que me custe a vida.

As dez horas eram dadas E elle á porta batia.

«Quem bate á minha porta Deshoras á porta minha? --É um grande cavalleiro Que vem buscar sua filha, «Minha filha não ’stá em casa, Foi para a de sua tia, Que a mandou cá buscar Para uma função que havia.

Deitou os hombros á porta, Não uzou mais cortezia; Entrou pela casa dentro Com toda a sua ousadia, E foi direito a um quarto Aonde a filha dormia.

«Oh filha faz, pela honra Antes que te custe a vida; Honra as barbas a teu pae, Que brancas na cara as tinha.

Pegou-lhe pelos cabellos Foi-a arrastar pela villa, E depois de a ver morta A sua mãi a trazia.

--Aqui tendes oh D. Anna, Oh Dona Anna vossa filha, Honrada e virtuosa, Mas porem custou-lhe a vida. «Antes a quero ver morta Que a sua honra perdida, Justiça venha do céo Que na terra não a havia, E caia sobre um Alferes, Matador da minha filha.

9

Romance da Romeirinha

(_Versão de Traz-os-Montes_)

Por aquelles montes verdes Uma romeira descia; Tão honesta e formosinha Não vae outra á romaria. Sua saia leva baixa, Que nas hervas lhe prendia; Seu chapellinho cahido Que os lindos olhos cobria. Cavalleiro vae traz d’ella, Alcançal-a não podia; Alcançou-a descançando Debaixo da verde oliva, Á sombra da arvore benta. Que está no adro da ermida:

«Eu te rogo, cavalleiro, Por Deos e Santa Maria, Que me deixes ir honrada Para a santa romaria.

Cavalleiro de malvado De amores a accomettia; Pegaram de braço a braço, Qual de baixo, qual de cima. A romeira por mais fraca Logo debaixo cahia. No cahir lhe viu á cinta Um punhal que elle trazia, Com toda a força o arranca, No coração lh’o mettia.

--Da vingança que tomaste Eu te peço romeirinha, Que o não digas em tua terra, Nem te vás gabar á minha. «Heide dizel-o em tua terra, Heide-me ir gabar á minha Da vingança que tomei Da affronta que me fazias; Que matei um vil cobarde Com as armas que elle trazia.

Tocou a campa da ermida A campa que retinia:

«Eu te peço, ermitão, Por Deos e Santa Maria, Que enterres esse traidor Lá na tua santa ermida.

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Romances da Infanta de França

(_Versão da Covilhã_)

Dom João foi para caça, Foi á caça á porfia, Anoiteceu-lhe n’um bosque, Era o que elle mais temia; Seus cavallos por ferrar, Era o que elle mais sentia! Lá pela noite adiante Um lindo cantar ouvia, Deitem os olhos ao largo Viu lá estar uma donzilla, Penteando o seu cabello Em um tanque de agua fria.

--Que fazeis aqui, senhora, Que fazeis aqui donzilla? «Sete fadas me fadaram No collo de madre minha, Fadaram-me por sete annos, Por sete annos e um dia. Hoje se acabam os annos, Á manhã por noute o dia; Bem podera o cavalleiro Levar-me na companhia. --Desde, já minha senhora, Eu tudo isso lhe faria; Dizei-me, oh minha senhora, Se ides de anca ou de silha? «Eu vou de anca, oh cavalleiro Que isso é da honra minha.

Lá pelo caminho adiante Ella se pôz a sorrir.

--Do que vos rides, senhora, Do que rides vós donzilla? «Eu rio-me do cavalleiro E da sua cobardia, Achar donzilla no campo E guardar-lhe cortezia. --Tornemos atraz senhora, Tornemos a traz donzilla, Que deixei a minha espora No tanque da agua fria. «Adiante, oh cavalleiro, Eu atraz não tornaria, Se a espóra era de prata Meu pai de ouro lh’a daria. --Dizei-me, oh minha senhora, De quem é que vós sois filha? «Sou filha do rei de França, Neta do rei de Castilla. --Pelos signaes que me daes Vós sois uma mana minha! Mal hajam todos os homens, E quem em mulheres se fia; Cuidando que levo esposa Levo a uma irmã minha! Abram-se esses palacios, Venha toda a fidalguia, Trago aqui uma mana Ha sete annos que a não viram. Venha cá, senhora mãi, Ande vêr a sua filha, Cuidei trazer nóra sua E trago uma mana minha.

Levantou-se a sua mãi Da cadeira aonde estava:

--«Se tu és a minha filha Anda cá para os meus braços, Se tu és a minha nóra Ai tens os teus palacios.

11

A Encantada

(_Variante da Foz_)

Indo um cavalleiro á caça Á caça de altanaria, Lá chegando ao alvoredo Viu estar uma donzilla.

--Que fazeis ahi senhora? Que fazeis aqui donzilla? «Sete fadas me fadaram No ventre d’uma mãi minha: De eu aqui estar sete annos, Sete annos e mais um dia. Sete annos são acabados Hoje se acaba o dia; Se quereis oh cavalleiro Levai-me por companhia, Não me leveis por senhora, Não me leveis por donzilla; Levai-me por estrangeira Que achaes na terra perdida. --Montai-vos aqui, senhora, Montai-vos aqui, donzilla, Ou nas ancas ou na sella, Onde fôr mais honra minha. Montou-se logo a donzella Foi seguindo o seu caminho, Lá chegando á estrada De risos o accommettia:

--De que se ri oh menina? De que se ri oh donzilla? «Rio-me do cavalleiro E da sua cobardia, De achar menina na serra E lhe guardar cortezia.

--Deixai-me agora chorar Olhae a minha mofina! Oh quem perdeu o que eu perco Grande pena merecia.

II--ROMANCES DE SUPOSTA ORIGEM PORTUGUEZA

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Romance da Sylvana

(_Versão de Lisboa_)

Passeava-se Sylvana Pelo corredor acima; Viola de ouro levava, Oh que bem que a tangia! E se ella bem a tangia, Melhor romance fazia. A cada passo que dava, Seu padre a accommettia:

--Atreves-te tu, Sylvana, Uma noite a seres minha? «Fôra uma, fôra duas, Fôra, meu pae, cada dia; Ma’las penas do inferno Quem por mim las penaria? --Penal-as-hei eu, Sylvana, Que las peno cada dia. Foi-se d’ali a Sylvana, Mui agastada que ia; Foi-se encontrar com sua madre Lá no adro da ermida:

--«Que tens tu, minha Sylvana, Que tens tu, oh filha minha? «Oh, quem tal pae não tivera, Quem não fôra sua filha! Que me accommette de amores Oh minha mãi, cada dia. --«Vae, filha, vae para casa, Veste uma alva camisa, Que o cabeção seja de ouro, As mangas de prata fina: Deitar-te-has no meu leito, Eu no teu me deitaria... E hade valer-nos a Virgem, A Virgem Santa Maria.

Lá junto da meia-noite Seu padre que a accomettia:

--Se eu soubera, Sylvana, Que estavas tão corrompida, Oh! las penas do inferno Por ti las não penaria... --«Esta não é a Sylvana, É a mãe que a paria; Tambem pariu Dom Alardos, Senhor da cavalleria, Tambem pariu a Dom Pedro, Principe da infanteria, Tambem pariu a Sylvana Que seu pae a accomettia. --Oh mal haja, que haja a filha. Que seu padre descobria! --«Oh mal haja, que haja o padre Que sua filha commettia.

Manda-a metter n’uma torre Que nem sol, nem lua via; Dão-lhe a comida por onça, E a agua por medida. Ao cabo de sete annos Eis a torre que se abria... Assomou-se a Sylvana A uma ventana mui alta, Foi-se encontrar com su madre Lavrando n’uma almofada:

«Estejaes emb’ora, madre, Oh madre da minha alma; Peco-vos por Deos do céo, Que me deis um jarro d’agua; Que se me aparta a vida, Que se me arranca a alma! --«Dera-t’a eu, filha minha, Se a tivera salgada, Que ha sette para outo annos Que por ti sou malcasada. Se teu padre tem jurado Pela cruz da sua espada, Quem primeiro te desse agua Tinha a cabeça cortada.

Assomou-se a Sylvana A outra ventana mais alta; Foi-se encontrar com os irmãos, Que estavam jogando as cannas:

«Estejaes emb’ora irmãos, Meus irmãos já da minha alma, Peço-vos por Deos do céo Que me deis um jarro d’agua, Que se me aparta a vida, Que se me arranca a alma. --Dera-t’a eu, irmã minha, Se a tivera empeçonhada: Que nosso pae tem jurado Pela cruz da sua espada, Quem primeiro te desse agua Tinha a cabeça cortada.

Assomou-se a Sylvana A outra ventana mais alta, Foi-se encontrar com seu pae A jogar a embocada:

«Estejaes emb’ora, padre, Padre meu já da minha alma: Peço-vos por Deos do céo Que me deis um jarro d’agua, Que se me aparta a vida, Que se me arranca a alma... E de hoje por diante Serei vossa namorada.

--Alevantem-se, meus pagens, Criados da minha casa, Uns venham com jarros de ouro, Outros com jarros de prata: O primeiro que chegar Tem a commenda ganhada, O segundo que chegar Tem a cabeça cortada.

Os criados que chegavam Sylvaninha que finava, Nos braços da Virgem santa Dos anjos amortalhada.

--Vai-te emb’ora, Sylvaninha, Sylvaninha da minha alma, Tua alma vae para o céo, A minha fica culpada.

13

Romance de Bernal-Francez

(_Versão da Foz_)

«Oh quem bate á minha porta, Quem bate, oh quem está ahi? --São cravos minha senhora, Flores lhe trago aqui! «Eu não abro a minha porta A taes horas de dormir. --Se me não abres a porta Morto me acharás aqui. «Ai se é Bernal-Francez A porta lhe vou abrir..... Ao abrir a minha porta Se apagou o meu candil! Ao subir a minha escada Me cahiu o meu chapim. Peguei n’elle nos meus braços Levei-o pelo jardim, Mandei lavar pés e mãos Em aguinha de alecrim; Vestir camiza lavada, Deital-o ao par de mim.

Era meia noite dada:

«Não te viras para mim? Se tu temes a meu pae Elle longe está de ti; Se temes os meus criados Elles estão a dormir; Se temes o meu marido Más novas venham aqui. --Eu não temo a teu pae Que elle sogro é de mim; Não me temo dos criados Que mais me querem que a ti; Não me temo da justiça Que a justiça é por mim. A teu marido não temo E d’elle nunca temi... Teme tu falsa traidora Pois o tens ao par de ti. Deixa tu vir a manhã Que eu te darei de vestir, Te darei saia de gala, Roupinha de cramesi; Gargantilha colorada, Pois que tu o queres assi.

--«Deixa-me ir por’qui abaixo Com minha capa cahida, Quero ver a minha amada Se é morta ou se inda viva.

--Que fazeis oh cavalleiro A taes horas por aqui? --«Venho vêr a minha amada Que ha dias que a não vi. --A tua amada, senhor, É morta que eu bem n’a vi! Os sinaes que ella levava Eu te los direi aqui: Levava saia de gala, Roupinha de cramesi, Gargantilha colorada, Pois o ella o quiz assim.

--«Monta, monta meu cavallo, Quanto poderes montar, Só n’aquella sepultura É que eu posso descançar: Abre-te oh penha constante Que me quero lá meter, Já que fui o causador Da minha amada morrer. Abre-te oh penha sagrada Esconde-me ao par de ti! Do fundo da sepultura Uma triste voz ouvi:

«A mulher com quem casares Seja Anna como a mim; E as filhas que tu tiveres Tem-as sempre ao pé de ti, Para que não aconteça O que aconteceu a mim.

14

Romance do Conde Niño

(_Versão de Traz-os-Montes_)

Vae o conde, conde Niño Seu cavallo vae banhar; Em quanto o cavallo bebe Cantou um lindo cantar:

--Bebe, bebe, meu cavallo, Que Deos te hade livrar Dos trabalhos d’este mundo, E das areias do mar. --«Esperta, oh bella princeza, Ouvide um lindo cantar; Ou são os anjos no céo, Ou as sereias no mar! «Não são os anjos no céo, Nem as sereias no mar, É o conde, conde Niño Que commigo quer casar. --«Se elle quer casar comtigo Eu o mandarei matar. «Quando lhe deres a morte Mandai-me a mim degollar; Que a mim me enterrem á porta, A elle ao pé do altar.

Morreu um, e morreu outro, Já lá vão a enterrar; D’um nascêra um pinheirinho, Do outro um lindo pinheiral; Cresceu um e cresceu outro, As pontas foram junctar, Que quando el-rei ia á missa Não o deixavam passar. Pelo que o rei maldito Logo as mandava cortar; D’um correra leite puro, E do outro sangue real! Fugira d’um uma pomba E do outro um pombo trocal, Sentava-se el-rei á meza, No hombro lhe iam poisar:

--«Mal haja tanto querer, E mal haja tanto amar; Nem na vida, nem na morte Nunca os pude separar.

15

Romance da Promessa de noivado

(_Versão da Covilhã_)

--Oh menina da mantilha Guarde-me esse lindo rosto, Que eu vou para a minha terra, Em vindo caso comvosco. Lá dos quatro para os cinco, E dos cinco para os seis, Menina se eu não vier, Menina casar-vos-heis. --«Filha eu quero-te casar Que é o teu tempo venido. «Senhor pae estou casada Não tenha duvida n’isso.

Agarrou no seu fatinho Abalou por ai alem, E ia de terra em terra, E de logar em logar. Já levava a bocca secca De por elle procurar; Os seus olhos como punhos De por elle ir a chorar.

«Móra aqui um cavalleiro Da minha terra natural? --Aqui móra, sim senhora, Anda na caça a caçar; Se elle é de muita pressa Eu o mando lá chamar. «Elle a pressa não é muita Que por elle heide esperar.

Elle á noite quando veio Começou-se a admirar:

--Quem vos trouxe aqui, senhora, Á minha terra natal? «Foram as suas saudades Que fizeram cá chegar. --Tenho os meus filhos pequenos, Que Deos m’os deixe criar, Tenho a minha mulher moça Que Deos m’a deixe gosar. A menina que isto ouviu Cahiu morta para traz.

--Que farei aqui, senhora, Que farei a tanto mal? --Pegue-lhe pelos cabellos E mande-a deitar ao mar! --Não farei isso, senhora, Na mi terra natural; Mando fazer um caixão Com a tampa de crystal, E na pia da agua benta A mandarei sepultar

16

Romance de Dom Aleixo

(_Versão da Foz_)

Na cidade de Madrid, Na melhor que el-rei tenia, Havia um cavalleiro Dom Aleixo se dizia, O cujo tal cavalleiro Namorava uma donzilla; Ella lhe pediu tres cousas Que ao seu corpo convenia: Uma, que fosse sósinho Sem mais outra companhia, Outra pela meia noite Quando a gente dormia. Inda as dez não eram dadas Dom Aleixo se vestia, Seu capacete de grana, Seu chapeu á bizarria. Pegando na sua espada Foi para vêr sua amiga; Chegando a um alvoredo Penhascos o cobririam:

--Não me atireis com pedras Que pedras é cobardia; Pucha pela tua espada Que eu tambem trago a minha. Se algum d’aí não a tem Eu lhe emprestarei a minha. Cessae, cessae oh villões, Não useis de mais porfia, Quero fazer testamento Da fazenda que tenia: A minha alma dou a Deos, E á Virgem Santa Maria; O meu corpo tão valente Já o dou á terra fria, Coração á minha dama Discreta Dona Maria.

Rescordou Dona Maria Do somno em que jazia:

«Quem te matou Dom Aleixo? Quem te matou vida minha? --Os ladrões de teus irmãos Já me tiraram a vida. Perde quem anda de noite Ganha quem anda de dia; Perde quem tem seus amores Que d’elles se não retira. Puchou por um faquim de ouro Que á sua cinta trazia:

«Quero sacar a minha alma, Quero levar companhia.

17

Romance de Dom Pedro

(_Versão da Beira-Baixa_)

«Oh minha mãi quem me dera Vêr-me em Castilha do mar; Tenho desejos de ir ver A minha mãi natural... --«Se tens desejos de ver A tua mãi natural; Mas Dom Pedro foi á caça Em vindo lhe irei contar. Da caça que elle trouxer Te mandará um casal: De duas perdizes uma, De tres coelhos um par.

Ella a sahir pela porta Dom Pedro a entrar o quintal.

--Que é da minha rosa branca Que me não vem abraçar? --«Tua rosa branca, Dom Pedro, Está em Castilha do mar? Olha o que ella ia dízendo, Que se não pode contar: «Que em sua caza não tinha Cama para se deitar! Olha o que ella ia dizendo, Que se não pode dizer: «Que em sua casa não tinha Um pão para se comer! Bem puderas tu meu filho Minha benção alcançar; Como vieste da caça Ir-m’a já lá arrastar.

--Ála, ála meus criados, Meus cavallos vão ferrar, Com ferraduras de bronze Para melhor caminhar.

Dou sete voltas á cerca, Sem n’ella poder entrar; Viu lá entrar uma preta Que se estava a pentear.

--Abri-me as portas oh preta, Põe-m’as já de par em par! Menina que lá está dentro Já a lá vou arrastar.

«--Dae-me alviçaras Dom Pedro Dae-m’as, bem m’as podeis dar; Que vos nasceu um infante Lindo como um crystal.

«--Novas vos trago, senhora, Novas de muito pezar; Que Dom Pedro está á porta Jura de vos vir matar. «Dê-me a mão, oh minha mãe, Ajude-me a levantar, Que Dom Pedro está á porta Jura de me vir matar.

--Deixa-te estar oh filha Que eu o vou assocegar! Que Dom Pedro é attencioso Logo me ha de querer falar.

Pegou-lhe pelos cabellos E elle a foi arrastar; Andára mais de tres leguas E sem lhe querer falar.

«Olha para traz Dom Pedro, Olha se queres olhar, O teu cavallo é branco Veio já do meu signal. Leva-me áquella ermida Que me quero confessar, Se não, confesso-me a ti Por eu já não ter logar.

--Mal o haja a tua mãe Que te deixou levantar. «Mal haja a tua, Dom Pedro, Que taes conselhos quiz dar. Cá te fica um infante Cá o darás a criar, Não o dês a tua mãe Que jura de m’o matar; Da-o cá antes á minha Que ella o dará a criar. --Fica-te aqui rosa branca N’este campo de alegria!

Com a ponta da espada A cova ali lhe fazia; Com as lagrimas dos olhos A terra lhe amollecia.

18

Romances da Filha do Imperador de Roma

(_Versão de Traz-os-Montes_)

O imperador de Roma Tem uma filha bastarda, A quem tanto quer e tanto Que a traz mui mal criada, Pedem-lh’a Duques e Condes Homens de capa e de espada; Ella isenta e desdenhosa A todos lhe punha taxa: A uns que não eram homens, Outros que não tinham barbas; Aquelle que não tem pulso Para puchar pela espada, Dizia-lhe o pae sorrindo: --Inda hasde ser castigada! De algum villão de porqueiro Te espero ver namorada.

Por manhã do Sam João, Manhã de doce alvorada, Subiram a uma ventana Uma ventana mui alta. Viu andar trez cegadores Fazendo sua cegada; O mais pequeno dos tres Era o que mais trabalhava; De seu garbo e gentileza A infanta se namorava. Ali estava a aia discreta Em que toda se fiava:

«Vês, aia, aquelle ceifeiro Que anda n’aquella cegada? Condes, Duques, Cavalleiros, Nenhum que o ceifeiro valha. Vai-m’o chamar em segredo, Que ninguem não saiba nada.

--«Bom cegador vem commigo, Que te quer falar minha ama. --Eu não conheço a senhora, Nem tam pouco a criada. --«Cegador de boa estreia Trazes a vista mui baixa; Alça os olhos e verás A estrella da madrugada. --Vejo o sol que vem nascendo, Não vejo a estrella d’alva. --«Estrella ou sol, vens commigo? --Irei pois, quem pode manda.

Entraram por um postigo Que a porta ainda era cerrada; No camarim da princeza O bom do ceifeiro estava. --Senhora, que me quereis, Pois venho á vossa chamada? «Quero saber se te atreves A fazer minha cegada. --Atrever, me atrevo a tudo, Trabalho não me acobarda! Dizei vós, senhora minha, Onde é a vossa cegada. «Não é no monte ou no vale, No baldio ou na coutada; Cegador, é nos meus braços Que de ti estou namorada.

Lá junto da meia-noite Ao cegador perguntava:

«Dizei-me bom cegador De quem eu fico pejada? --Eu sou filho de um porqueiro, E meu pae porcos guardava. «Oh triste de mim, oh triste, Oh triste de mim coitada! Bem me dizia meu pai: Tu hasde ser castigada. Pediram-me Condes, Duques, Homens de capa e d’espada, E agora eis-me aqui De um porqueiro deshonrada.

19

O hortelão das flores

(_Variante da Beira Baixa_)

--Não venho por te vêr, nem por te dar valor, Venho por erguer olhos e a vista no sol pôr. Falar quero á princeza, o amor me traz rendido, A ti peço conselho, velha do tempo antigo.

«Vista traje mudado, cante em seu bandolim, Boquinha de crystal, faces de seraphim.

--Um bom conselho velha me deste para mim; Não farão de mim caso, se me virem assim. Com Deos te fica velha mais a tua porfia, Mas se eu a render, velha, tens tensa cada dia. Eu vou bater o mato, caçar altanaria, Mas se ella me escapar em ti me vingaria.

--Abri lá essas portas, oh hortelão das flores, Venho em traje mudado falar aos meus amores.

--«Senhor podeis entrar, que tendes sempre acerto; Senhor, sois Dom Duarte, que bem vos reconheço.

--Oh que varandas altas, com cem palmos de alteza, Diz velho de bom tempo se ali vem a princeza?

«Para as varandas altas, para tomar a fresca Costuma vir sósinha quasi sempre a princeza.

--Se ella te perguntar quem é o estrangeiro, Dize que é um teu filho vindo lá d’outro reino. Que varandas tão altas, que jardim bem plantado; Soubera o que hoje sei, que o tinha passeado.

«Oh regador dos cravos venha para mais perto Conversar a princeza com prazer discreto. Oh regador dos cravos venha para o mirante Olhar para a princeza com olhos de diamante.

--Mandaram-me cá vir, não sei se é verdade. --«Tão verdade não fôra, espelho bello e claro.