Romanceiro geral

Part 10

Chapter 103,235 wordsPublic domain

=24,25 e 26--Romances do Conde Prêso=--Um facto notavel se dá n’estes romances: como tres provincias, Trás-os-Montes, Beira-Baixa e Beira-Alta se apoderaram de uma mesma tradição, e dos diversos modos como a bordaram. A versão de Trás-os-Montes é simples, não admitte a intervenção do maravilhoso, que repugna ao genio dos romances carolinos; a versão da Beira-Alta foi tomando uma côr religiosa, traz o milagre do romeiro, que era Sanctiago vindo proteger a sua devota. Sem duvida esta é a mais moderna, por isso que o sentido do romance antigo, e o instincto da independencia, cavalheiresca, já não é comprehendido, nem basta para sustentar o romance. Garrett confundiu as duas versões (Rom. t. II, 289). «Poucas cousas mais bonitas, diz elle, tem o romanceiro popular da nossa peninsula. Onde nasceu não sei; mas as collecções castelhanas não o trazem.» A versão da Beira-Baixa mostra-nos a sua origem hespanhola; chama-lhe _Dom Garfos_, corrupção do nome _Conde Grifos_ do Romanceiro hespanhol (Duran n.º 324). Não ha aqui maravilhoso, mas sim uma audacia cavalleirosa, a independencia altiva que distingue os romances carolinos da França dos romances carolinos da Allemanha. Sente-se nesta versão a herança do crime do primitivo direito symbolico, e um tanto da _irmandade heroica_ na presteza com que Dom Garfos acode a seu tio, indo falar ao rei, desafiando-o, vingando-se a final na filha d’elle, que é sua propria mulher. Vejamos a lição hespanhola:

=El Conde Grifos Lombardo=

En aquellas peñas pardas, En las sierras de Moncayo Fue do el Rey mandó prender Al conde Grifos Lombardo, Porque forzó uma doncella Camino de Santiago, La cual era hija de un duque, Sobrina del Padre Santo. Quejábase ella del fuerzo; Quejase el Conde del grado: Allá van á tener pleito Delante de Carlo Magno, Y mientras qu’el pleito dura Al conde han encarcelado Con grillones á los piés, Sus esposas en las manos, Una gran cadena al cuello Con eslabones doblados: La cadena era muy larga, Rodea todo el palacio; Allá se abre y se sierra En la sala del rey Carlos. Siete Condes le guardaban, Todos han juramentado Que si el conde se revuelve Todos seran á matalo. Ellos estando en aquesto, Cartas habiam llegado Para que cazen la Infanta Con el Conde encarcelado.

Muito se aproxima da versão da Beira-Baixa; ha aqui tambem os sete condes que o sobrinho mata. A versão portugueza, descubrindo uma continuação da peripecia, leva-nos a crer que fosse talvez da origem portugueza, se é que todos os romances cavalheirescos do nosso povo nos não vieram da Hespanha.

=27 e 28--Romances do Conde Alberto=--Qual será a rasão por que este romance é o mais vulgar na tradição portugueza? Será porque tem alguma similhança com o assassinato de Dona Maria Telles pelo Infante Dom João, para casar com a filha da rainha Dona Leonor? Duran, (Romanc. General, t. II, pag. 219) quando apresenta o romance do Duque de Bragança compara-o com o do _Conde Alarcos_, e crê que o da tradição oral se refere á historia. O romance do _Conde Alarcos_ (Duran, n.º 365), foi tirado dos Romanceiros hespanhoes por Balthazar Dias, e por elle glosado, como se vê pelo _Index Expurgatorio_ de 1624, que prohibe: «a sua Glosa, com o Romance, que começa: _Retrahida eatá a Infante_.» (Pag. 98). Na collecção hespanhola é elle mais extenso, d’onde se vê que a versão popular foi d’ali abreviada. É um dos retratos mais completos dos costumes feudaes, e o facto do _emprasamento_, fez suppor a Duran, que será da epoca de Fernando IV, o _Emprasado_. Garrett queria á força dar-lhe origem portugueza: «eu me inclino a que o trovador castelhano alargasse a lyra do menestrel portuguez, do que vice-versa.» (Rom. t. II, p. 41). Hypothese inadmissivel á vista dos factos apontados e diante da rasão, porque em todas as versões portuguezas se encontram somente os traços geraes da lição hespanhola, resultado das abreviações que vão soffrendo na tradição. O Conde Alberto tem varios nomes nas diversas provincias: no Minho chamam-lhe Conde Albano, no Porto Conde Alberto, na Beira-Baixa Conde Anardos, Dom Duarte, Conde Yano, como colligiu Garrett, e _Conde Alves_, como o obtivemos d’aquella mesma provincia. Na poesia popular da Catalunha é conhecido pelo nome de _Conde Floris_. (Milà y Fontanals, Observationes sobre la Poesia popular, p. 20). Ticknor (Hist. da litteratura hesp. t. I, p. 131, not. 32) considera esta composição jogralesca de Pedro de Riano, «como a composição mais pathetica e bella que se tem escripto.» Guillen de Castro, Mira de Amescua, José Milanes, e Lope de Vega na _Fuerza lastimosa_, aproveitaram-se dos lances profundamente dramaticos d’esta creação.

Na versão de Garrett ha o _maravilhoso_ de uma criança que fala ao peito da mãe; na versão da Beira-Baixa ha uma quasi similhança do emprazamento da lição hespanhola, o que a torna mais antiga e mais proxima da sua origem.

Suppõe-se, e Duran no _Romanceiro hespanhol_ o aventa, que este romance allude á morte dada pelo Infante Dom João a sua esposa Dona Maria Telles, por intrigas da Rainha Leonor Telles, para casar com a Infanta Dona Beatriz.

=29 e 30--Romances do Conde da Allemanha=--Estas duas variantes são egualmente bellas e genuinas da tradição oral; são n’este ponto superiores á lição de Garrett (Rom. t. II, p. 79) refundida e apurada no _que lhe pareceu mais legitimo e verosimil_, segundo as lições castelhanas de Depping e Duran.

Os romances que apresentamos, colhidos immediatamente da tradição oral, e cheios de repetições que destroem a eurythmia do quadro, são o que ha de mais pittoresco na inspiração popular. O povo tem em cada romance uma parte dythirambica, que borda a capricho, em que se liberta da _assonancia_ forçada; facto já lucidamente determinado por Garrett. É a parte movel por onde a _variante_ vae de geração em geração modernisando o romance.

Do Conde de Allemanha diz Garrett: «Facto conhecido da historia de Portugal ou de outra parte de Hespanha, não sei que o memore este romance;» Duran, falando da versão hespanhola (n.º 305 do Romancero general) diz: «Tiene este romance antiquissimo alguma analogia con el historico del conde Garci Fernandez; pero, un y otro mas parecen tomados de una fabula caballeresca, que no de un hecho verdadero.»

Derivado do _Cancionero de Romances_ de 1581, impresso em Lisboa, podemos sem errar, assignar-lhe uma origem litteraria.

=31,32 e 33--Romances de Dom Carlos de Montealbar=--Eis um d’aquelles romances de que o povo tanto se apossou, que o inverte e borda, a capricho, tomando a acção como typo de novas situações. Ha aqui visivelmente a confusão da _Claralinda_ da versão do Porto e Beira Alta. No _Romanceiro hespanhol_ encontram-se as versões d’onde os nossos troveiros abreviaram a lição portugueza. O romance _del Conde Claros_ (n.º 364) é a que parece mais ter contribuido para a versão portugueza. Depping julga pertencer aquelle romance ás aventuras de Eginart e da filha de Carlos Magno. A variante de _Dona Lisarda_ (Duran, romance de Dona Aliarda, n.º 329) parece-se muito com a _Albaninha_ da lição de Garrett, (t. III, p. l5) principalmente nos gabos do cavalleiro. A variante de _Dona Areria_ é uma confusão do romance de _Dona Ausenda_. (Vid. _Hist. da Poesia popular portugueza_, p. 152 e 162).

=34--Romance do Passo de Roncesval=--Depois da Beira-Baixa é provincia de Trás-os-Montes a mais rica de tradições populares. Veio de lá este romance; é como um ecco da energia da velha _Chanson de Roland_. O cavallo levanta-se do meio do destroço para defender-se de que não faltou á irmandade heroica do cavalleiro.

São assim os cavallos do cyclo carolino, como o cavallo Bayard, que ao escarvar em terra parecia que tocava lyra! Como veio esta strophe do poema de Roncesvalles fluctuar na tradição portuguesa? Como se conservou no romance a memoria local, sendo a que primeiro se oblitera na tradição? Viria directamente da Hespanha no principio do seculo XVI, ou já cá existiria, desde que os Cruzados ao passarem pelo Mediterraneo espalharam entre nós as grandes legendas dos cyclos cavalheirescos da Europa? Questões estas que se devem propôr, mas não resolver, sem risco de temeridade. Sabemos que este romance era conhecido em Portugal no principio do seculo XVI, por isso que o encontramos citado em Gil Vicente na Comedia de _Rubena_; vem lá o conhecidissimo verso dos romances de Roncesvalles: _Em Paris esta Dona Alda_, que, podemos asseveral-o com certeza se derivou para a tradição pelo celebre _Cancionero de Romances_ de Anvers, reimpresso em Lisboa em 1581. Foi Garrett o primeiro que recolheu este romance, e por felicidade o não aformoseou, porque não pode alcançar variante alguma (Rom. t. II, p. 234). Encontram-se versões mais extensas no _Romancero General_ de Duran, (nᵒˢ 395, 396 e 397) d’onde com certeza foi abreviada a nossa.

=35--Fragmento de um romance do Cid=--Muitos romances populares portuguezes se encontram citados na obras de Gil Vicente. (Vid. a Historia da Poesia popular, p. 23, e 138). Este fragmento do Romanceiro do Cid encontra-se no Auto da Luzitania, (t. III, pag. 270,) e lê-se por extenso no _Tesoro de los Romanceros_ de Ochoa, p. 185, que o aponta como um dos mais antigos e mais populares:

Helo, helo por do viene El moro por la calzada, Caballero à la gineta Encima una yegua baya, Borceguies marroquies Y espuela de oro calzada, Una adarga ante los pechos Y en su mano una azagaya, Mira y dice á essa Valencia: --De mal fuego seas quemada, Primero fuiste de moros Que de christianos ganada, Si la lanza no me miente A moros serás tornada, etc.

Pode confrontar-se a variante portuguesa; é no pequeno fragmento mais bonita, por causa da segunda elaboração que lhe deram cá. Este mesmo romance foi imitado em Hespanha, como se vê na _Primavera y flor de Romances_, t. II, p. 36.

=36 e 37--Romances de Dom Gayfeiros=--Pertencem estes dois romances ao cyclo carolino, caracterisado pela altivez do cavalleiro, e por brilhantes feitos de armas. O gosto mourisco do seculo XVI vae modificando os heroes da tradição carlingiana, até os substituir completamente pelos contos de cativos. A lição de Garrett (Rom. t. II, p. 250) traz as duas variantes em uma só versão formada pelas differentes copias que obteve de Trás-os-Montes, e pelo manuscripto do Cavalleiro de Oliveira, traduzindo nas situações duvidosas a lição castelhana de Duran (Rom. general n.ᵒˢ 374 a 381). Na tradição oral nunca os romances são tão extensos; nem o povo sabe o nome dos Doze Pares, nem do Arcebispo Turpin, para os nomear no sequito que veio receber os dois amantes. Os romances populares são sempre dramaticos, raras vezes narrativos, e nunca descriptivos. A lição de Garrett abunda em descripções, justamente nos pontos em que elle segue a versão hespanhola, a qual por ser antiquissima, isto é, mais proxima da sua composição jogralesca, devia de ser assim descriptiva. Duran julga ser o romance de Dom Gayfeiros o que mais quadra com a memoria que d’elle deixou Cervantes no Don Quijote (Part. 2, cap. 26). As versões portuguezas _todas mais curtas do que as lições castelhanas dos romanceiros_, como Garrett o confessa, denunciam a sua origem, e o processo da abreviação, que a antiguidade lhes vae dando, reduzindo-as aos traços mais profundos. Veio-nos o romance, directamente da Hespanha para a tradição portugueza, e no seculo XVI correu elle na sua linguagem nativa, por isso que Gil Vicente, na _Comedia de Rubena_ o cita no dialogo da Ama (Tom. II, scena II, p. 27): _Vámonos, dijo mi tio_, que é o primeiro verso do segundo romance de Gayfeiros que traz Ochoa no _Tesoro de los Romanceros_, p. 44. Veio do _Cancionero de Romances_ de Anvers, reimpresso em Lisboa em 1581; collecção celeberrima, por ser a primeira em que se recolheram os romances directamente da tradição oral, até então desprezada. Quasi todos os romances de origem hespanhola, communs aos povos do Meio Dia da Europa, d’ali se derivaram para a tradição portuguesa. Tambem o romance do _Mouro Calainos_, aonde se fala de uma cativa que está em Sansueña, a qual muitas vezes requerida de amores, só os escuta com a condição de lhe trazerem de Paris tres cabeças dos melhores Pares, pertence ás aventuras de _Gayfeiros_. É certo que esse mesmo andou na tradição portugueza, porque no _Index Expurgatorio_ de 1624 se prohibe: «O Romance do Moro Calaynos y de la Infanta Sybilla.» (Index, Lisboa, 1624, por Pedro Craesbeck, pag. 174).

Uma tradição quasi similhante é a de Mira-Gaia, que se lê no _Nobiliario_, e que foi romanceada por João Vaz, no seculo XVI.

=38--Romance de Flor e Brancaflor--=Outra vez a peripecia de reconhecimento, como na _Dona Infanta_, e _Infanta de França_, tão usada em quasi todos os romances populares da Europa. Corre esta versão pela Beira Baixa, Minho, Extremadura, Ribatejo, Beira-Alta e Trás-os-Montes. Publicou-a Garrett, (Romanceiro, t. 2, pag. 183) dizendo: «Nem os romanceiros castelhanos, nem escriptor algum faz menção do bello romance da _Rainha e Cativa_.» É porem certo que se encontra com o titulo _Las dos Hermanas_ na _Primavera y flor de Romances_, t. II, pag. 38, d’onde é manifesta a origem do romance portuguez cujas pequenas circumstancias segue. E verdadeira a opinião de Garrett, quando o faz pertencer ao seculo XII. M. Milá y Fontanals recolheu um romance similhante _Las dos Germanas_ da poesia popular da Catalunha, no qual predomina uma completa originalidade; podo ler-se nas suas _Observationes sobre la Poesia popular_, pag. 117. O romance portuguez é superior ás lições castelhanas. Du Puymaigre tira a este proposito uma judiciosa conclusão: «Que os portuguezes muitas vezes romanceam com mais talento assumptos que se acham nas collecções dos dois povos; porem esta perfeição denota a sua pouca antiguidade. De ordinario os romances portuguezes são mais claros, mais bem desenvolvidos, para que se tomem por primitivos.» (Vieux auteurs Castilhans. t. II, p. 370). Será este romance um vestigio remoto e já completamente alterado pela tradição do romance de _Flor e Blanchefleur_? Os nomes dos personagens são o _Conde Flores_ e _Brancaflor_ a quem os mouros cativaram:

Dia de Paschoa florida, Andando apanhando rosas N’um rosal que meu pae tinha.

O nome de Blanchefleur, nas versões francezas é explicado pelo dia do nascimento do heroe:

Li doi enfant, quant furent né, De la feate fure nomé: La crestiène, por l’honor De la feste, et nom Blancefleur

v.--169--172.

Na versão italiana de Brancaflor as duas mães têm os seus filhos no mesmo dia:

Partorirno in una medesma sera Di maggio, ch’era la rosa in su la spina... Lo fresco giorno di _Pasqua rosata_.

É mui frequente esta data nos poemas da edade media, principalmente nos de origem oriental. Podemos com certeza asseverar que a versão portugueza, recolhida da tradição oral, se encontra exactamente quanto á essencia no romance de _Blancefleur_, desde o verso 55 até ao verso 190 (Ediç. Elzeviriana.) As alterações podem-se explicar do mesmo modo que Du-Méril descubriu pela analyse das versões hespanholas: «l’esprit espagnol ne paraît pas l’avoir jamais comprise.» (Introd, pag. LXXIX). Desde quando andará na tradição portugueza este fragmento do romance de _Blancefleur_? Que elle era conhecido na Hespanha sabemol-o por Affonso o Sabio, pelo Arcipreste de Hita e por Francisco Imperial; em Portugal encontramol-o citado no _Cancioneiro_ de Dom Diniz:

Qual mayor poss’ e o mays encuberto Que eu poss’ e sey de _brancaflor_ Que lhe non ouv’ eu _flores_ tal amor Qual vos eu ey; etc.» Pag. 52.

O romance de _Banchefleur_ encontra-se na tradição de todos os povos da Europa; andou por certo na tradição jogralesca, como se vê por este verso:

Mais a un clerc dire l’oït Qui l’avoit léu en escrit.

V. 51--52.

E assim veio até Portugal pelo tempo dos Cruzados; apoia-se esta conjectura no facto de se encontrar tambem na tradição da Grecia moderna em um poema (publicado por Bekher nas _Memorias da Academia das sciencias de Berlim_ em 1845) o qual fala da antiguidade da tradição.

=39--Romance da Moira Encantada=--Esta lenda foi recolhida no Algarve pelo sr. Stacio da Veiga e publicada no nº 12 da _Estrella de Alva_. O maravilhoso feérico das mouras encantadas é do genio popular d’aquella provincia; tambem ali o romance da _Nau Catherineta_ acaba phantasticamente; segundo o citado collector, este romance é dos mais populares do Algarve, e exprime a crença commum e antiga de que na cidadella mourisca de Tavira, á meia noite, na vespera de Sam João, apparecia a formosa encantada pedindo que algum cavalleiro viesse romper-lhe o encanto. Colloca tambem a sua formação nos fins do seculo XVI, principios do seculo XVII, quando o gosto mourisco foi imitado entre nós por Dom Francisco Manuel do Mello nas _Tres Musas de Melodino_, e por Francisco Rodrigues Lobo no seu pequeno Romanceiro. O final parece imitado do romance da _Moriana_ e do mouro Galvan, que jogava no jardim com a sua amante, e de cada vez que perdia, ia-se-lhe uma villa ou cidade. No romance do Algarve Dom Ramiro ganha um castello, mas sem moira para amar. Isto revela um tanto a sua origem artistica.

=40--Romance de Nossa Senhora dos Martyres=--O sentimento do maravilhoso e a inspiração piedosa tornam este romance de aventuras mais do genio celtico, do que do gosto mourisco. Nos Açores são vulgares as tradições dos piratas da costa; e na legislação portuguesa se encontram varias multas applicadas para a _Arca da Piedade_, d’onde sahia o dinheiro para a redempção dos cativos pelos trinitarios. Foi colligido este romance no Algarve, pelo sr. Stacio da Veiga; repete-o o povo na romaria de Castro-Marim no meado de Agosto. A tradição é antiquissima, a sua forma poetica é porem mais moderna. Frei Luiz de Sousa no livro IV da _Historia de Sam Domingos_, refere o milagre do seguinte modo:

«Reinando em Portugal el-rei Dom Afonso III, que foi Conde de Bolonha, succedeu cair em poder de mouros um homem natural de Penamacor. Escureceu o tempo as particularidades do nome e calidades da pessoa, e da occasião e logar do cativeiro. Era o tratamento do amo mais de inimigo e tyranno, que de amo e senhor. Porque sendo o pobre cativo seu e fazenda sua, assim se deleitava em lhe fazer cruezas, como se fora christão livre, ou cuidara que com os tormentos lhe acrescentára a vida. Não tinha o atribulado outra consolação no meio dos trabalhos, senão era soccorrer-se ao Santo da sua terra, Sam Domingos da Sovereira. E quando a força d’elles lhe arrancava algum gemido (que até o suspirar era culpa diante do barbaro), sempre saia envolto com o nome de Sam Domingos. Era isto tão ordinario que o mouro (devia ser algemiado, e d’aqui collijo que o cativeiro seria em Granada, ou em outra terra de Hespanha, das muitas que então e muitos annos depois senhoreavam os mouros nella) veio a notar-lhe a linguagem. E porque não ficasse cousa em que deixasse de o martyrisar, perguntou-lhe um dia que arenga era aquella que trazia na bocca, contínua, quando devia chamar por Alá, nomear Domingos, Domingos (é Alá o nome por que os mouros conhecem a Deos.) Alegremente confessou elle que trazia na bocca, e tinha na alma tendo por obra de fé e animo catholico pronunciar claramente e com a lingua o que sentia o coração: e foi proseguindo que era um santo subido, pouco tempo havia, da terra ao céo, e conhecido na sua por grandes maravilhas que obrava, e em quem elle tinha esperança que o havia de livrar das suas mãos. Caro lhe custou ao pobre a alegria e liberdade da confissão, pagou-a com rigoroso castigo presente e com outro mais duro que não tardou. O primeiro não estranhou tanto, como era seu pão quotidiano, offerecendo-o a Deos por honra da fé. Mas com o segundo se viu reduzido a termos de desesperação. Julgou o bárbaro que as esperanças do cativo se deviam fundar em alguma determinação e traça de fugida: quiz acautelar-se; Vindo uma noite cansado de servir e trabalhar o dia inteiro, encerrou-o sobre má cêa em um novo genero de masmorra, que era um arcaz grande e forte, que depois de fechado com mais do uma chave, lhe ficou para inteira segurança servindo do leito. Mas parecendo-lhe, que ainda assim o não tinha bastantemente arrecadado, ia cada dia accrescentando novas cautellas a sua desconfiança. Já lhe lançava algemas nas mãos, já adobes nos pés, depois de encarcerado na arca. E tendo-o assim, perguntava-lhe de cima com escarneo, se esperava ainda no santo da sua terra................................. ............................................................