Part 11
«Uma noite, depois que o mouro o meteu na triste masmorra, na forma que temos dito, sobre algemas nas mãos e outros ferros nos pés, lançou-lhe no pescoço um grosso collar, das argollas do qual sahia uma forte cadeia de trinta palmos, com que lhe foi dando voltas, e enrolando o corpo todo. E para dormir mais a somno solto, lançou sobre o alquifer que vestia um alfange a tiracollo, e prendeu um lebreo que tinha ás argolas da arca. Feita esta diligencia estendeu-se sobre ella, e contente com o que tinha de novo acrescentado, bateu-lhe de cima dizendo que se não esquecesse de fazer oração ao seu Domingos da Sovereira, que o viesse livrar de suas mãos...... Assim se lançaram a dormir á noite ambos em terra de mouros: assim amanheceram amo e escravo em terra de christãos com grande distancia de leguas, em meio, e á porta de Sam Domingos da Sovereira em Penamacor..... Abriu o mouro os olhos, viu-se entre montes e cercado de gente, que pelo trajo e espanto que fazia de sua vista conhecia ser christã. Espantava-se o enterrado na arca ouvindo linguagem da sua terra e muitas vozes juntas. Mas nem amo, nem cativo se atreviam a dar credito um aos olhos, outro aos ouvidos: ambos haviam que era tudo sonho. Em fim, como não é facil de enganar o sentido da vista, e o mouro viu que tudo o desenganava, e que estava entre christãos, não por sonhos, senão com effeito, que via a egreja, e ouvia som de sinos que a infidelidade sobre tudo aborrece, acabou de caír que não eram palavras mal fundadas as do seu cativo quando tanta confiança fazia do seu santo. Lembrava-se de tudo com estranha confusão, e só desejava saber por ultimo desengano se estava em Portugal. Como tinha conhecimento das linguagens de Hespanha, perguntou a um de muitos que o rodeavam espantados de tal invenção de romeiro e tal alfaias de romaria, como chamavam a terra, e o sitio em que estavam. Quando soube que tinha diante dos olhos Sam Domingos da Sovereira ficou como fóra de si de pasmado e attonito; e, conformando-se com o tempo, quiz começar a grangear com cedo quem por boa conta trocadas as sortes havia de ser seu senhor.... Foi o mouro logo revolvendo um molho do chaves que lhe pendiam da cinta, e abrindo cadeados e fechaduras da sua arca. Chegaram os circunstantes a ver que peças trazia para offerecer em tam grande arca o romeiro estranho: senão quando dão com os olhos em um Lazaro sepultado, e em rosto e cores defunto; mas vivo na voz, e envolto em novo genero de mortalhas, mortalhas de ferro: e tão carregado d’ellas, que de nenhum membro era senhor, senão só da lingua, com a qual, voz em grita chamava por Sam Domingos, como quem tinha já sentido onde estava..... Solto em fim sem outra palavra na bocca mais que Sam Domingos, deixa-se cahir em terra, abraça-se com ella, beija-a, e vae-se prostrar diante do altar do Santo...... O cativo cumpriu sua promessa, viveu e morreu ermitão do Santo. O mouro penetrado da grandeza do milagre pediu o santo baptismo (divina força da predestinação) e ficou em cativeiro livre e ditoso servindo a ermida e acompanhando o seu cativo. E por morte foram enterrados juntos á porta d’ella, onde os cobre ambos uma só campa com um letreiro que o declara.» Hist. de S. Domingos, Liv. IV, C. V, f. 211, v. Resumimos o facto deixando de parte os consectarios moraes e piedosos do chronista. Todas as lendas da edade media tendiam a _localisar-se_; eis porque apparecem reproduzidas. As tradições dos cativeiros, e as esmolas na Arca da piedade iam formando estas creações da mente popular. O milagre é tambem uma das formas do maravilhoso do povo.
=41 e 42--Romances do Cativo de Argel=--Este romance foi-me offerecido no Porto, escripto um uma letra que denuncia o seculo XVII. Guardo este documento, que prova mais uma vez a grande intuição artistica de Garrett, quando disse: «O romance anda por Lisboa, Ribatejo e Extremadura fóra;--não deve de ser mais antigo que o meado do seculo XVII, se a copla em que allude a Ceuta e Mazagão não é _rifacimento_ moderno, como tambem pode ser e me inclino a crer que é, porque no resto o sabor e o estylo é mais velho.» A lição de Garrett, (Romanceiro, t. III, p. 77) é mais extensa, mais dramatica, mas não tem o mimo, a rudeza primitiva, desta versão meio portugueza, meio hespanhola do dialecto popular usado n’este genero de composições. Diz mais Garrett, que se não acha nas collecções hespanholas. Eis como ella anda n’aquelles romances tradicionaes de cativos, de um modo que parece d’onde sahiram as versões portuguezas:
El Cativo
Preguntando esta Flerida A su esposo placentera En un vergel asentada Junto á uma verde ribera: --Digasme tu, esposo amado, De dónde eres? de que tierra? Y a dónde te captivaron? Y liberdade quien te diera? «Yo os lo diré, dulce esposa, Estando atenta síquiera: Mi padre era de Ronda,[14] Y mi madre de Antequera; Captiváronme los moros Entre la paz y la guerra, Y llevaroume á vender A Velez de la Gomera. Siete dias com sus noches Anduve en el almoneda: No hubo moro ni mora Que por mi una blanca dera, Si no fuera um perro moro Que cien doblas offreciera, Y llevárame á su casa, Echárame una cadena; Dábame la vida mala, Dábame la vida negra; De dia majaba esparto, De noche molia cibera, Echóme un freno á la boca, Por que no comiese d’ella. Pero plugo á Dios del cielo Que tenia el ama buena: Cuando el moro se iba á caza Quitabame la cadena; Echabame en el regazo, Mil regalos me hiciera, Espulgabame y limpiaba Mejor que yo mereciera; Por un placer que le hice Otro mayor me ofreciera, Dierame casi cien doblas, En libertad me pusiera, Por temor que el moro perro Quiza la muerte nos diera. Asi plugo a Dios del cielo De quien mercedes se espera, Que me ha vuelta á vuestros brazos Como de primero era.
Timoneda na _Rosa de Amores_, Fernando Wolf na _Rosa de Romances_, e Duran no _Romancero General_, n.º 258, trazem este romance typo de todos os romances de cativos. Agora pode-se confrontar a nossa lição manuscripta, aonde falta o principio e fim que justifiquem as narrações do cativo. Do _Cancionero de Romances_, de 1581, creio ter-se elle derivado para a tradição portugueza.
Os piratas do mar, os cativeiros de Argel, a tomada de Constantinopla pelos turcos, absorvem o sentimento e a imaginação da alma popular no seculo XVI. Ha o terror e a incerteza da aventura, quer no espirito da empreza maritima, quer nas descubertas scientificas; os sabios, os artistas e o povo andam na inquietação de uma genese prodigiosa--a Renascença. Espalham-se grandes lendas dos trabalhos e dos amores dos prizioneiros. Cervantes foi heroe; Lope de Vega, em uma das scenas mais lindas das suas comedias, appresenta a anciedade e a grandeza da abnegação na hora do resgate. Os trinitarios levam as esmolas, obtidas por meio de contos dolorosos, e pela recordação dos amigos e parentes que gemem nos ferros.
Como é possivel tanta delicadeza de sentir na alma popular? Sobretudo este final:
Ó mi padre, oh mi padre, Deixe ir el Christiano, Que el no me debe nada, Debe-me a flor de mi bocca, Dou-lh’a por bem empregada
é de um mimo capaz de fazer desesperar o mais gracioso artista. Que mysterios de amor apenas esboçados, deixados adivinhar n’estas palavras--Debe-me a flor de mi bocca? E que saudade e resignação da princeza na despedida do cativo, em que dá por bem empregada essa flor, por ser elle que a leva!
=43--Jesus Mendigo=--É uma daquellas verdades moraes revestida das formas de uma parabola, e tão simples como Christo as ideava, quando queria fazer-se entender pelo povo. Pertence propriamente aos povos do Meio Dia da Europa, quer se busque a sua origem na _Legenda Aurea_, ou nos Cancioneiros. Falámos especialmente d’ella na _Historia da Poesia popular_, pag. 123 a 128. Corre no Minho e na Beira-Baixa, d’onde nos veio mais completa. Vejâmos os paradigmas:
=La ballade de Jésus Christ=
Jesus Christ s’habille en pauvre } «Faites moi la charité, } _bis_ Des miettes de votre table Je ferai bien mon diner.»
--Les miettes de notre table, } Les chiens les mangeront bien; } _bis_ Ils nous rapportent des lièvres, Et toi ne rapporte rien.
«Madame, qu’et’s en fenêtre, } Faites-moi la charité, } _bis_ --Ah! montez, montez, bon pauvre, Un bon souper trouverez.
Après qu’ils eurent soupé, } Il demande à se coucher. } _bis_ --Ah! montez, montez bon pauvre, Un bon lit frais trouverez.
Comme ils montaient les degrés } Trois beaux anges les éclairaiant. } _bis_ «Ah! ne craignez rien, Madame, C’est la lune qui parait.
Dans trois jours vous mourerez, } En paradis vous i ez; } _bis_ Et votre mari, Madame, En enfer irá brûler.»
Esta ballada é popular na Picardia, e Champfleury a recolheu nas _Chansons populaires des Provinces de France_, p. 5. A nossa lenda piedosa é mais primitiva, não tem o sêlo ecclesiastico da maldição: o marido e a mulher, como Philemon e Baucis da antiguidade classica, gosam ambos a bem-aventurança.
=44--Romance de Santo Antonio e a Princeza=--Esta lenda de Santo Antonio e a Princeza devemol-a ao cuidado do sr. S. P. M. Estacio da Veiga, que a recolheu no Algarve, e appareceu no n.º 11 da _Estrella d’Alva_, Lisboa 1861.
A lenda piedosa, recolhida da tradição oral, é um dos muitos milagres do santo mais popular de Portugal. Eis como ella se encontra na _Chronica dos Frades Menores_ de Frei Marcos de Lisboa: «Uma Rainha de Leão de Hespanha, a qual era natural de Portugal, e devotissima de Santo Antonio, teve uma filha de onze annos morta tres dias, contra vontade de el-rei seu marido, e dos principes do seu reino, e fazia oração ao Santo, dizendo--Bemaventurado Santo Antonio, eu sou vossa natural, e vim de vossa patria, dai-me minha filha viva.» A cujos devotos clamores resurgiu a filha e reprehendeu a mãe, dizendo: «Oh, senhora mãe, nosso Senhor vos perdoe, porque eu estando êntre as virgens na gloria, o bemaventurado Santo Antonio, com tanta instancia, por amor de vós rogou a Deos, que me restituiu a vida, e me mandou que viesse a vós; mas senhora mãe, sabereis que o Senhor me não deu licença para estar comvosco mais que quinze dias.» Os quaes quinze dias acabados, a Infante se tornou á gloria.--Chr. Tom. I, Liv. V, c. 33, fl. 157, etc.
=45, 46 e 47--Romances de Santa Iria=--A lenda, appareceu pela primeira vez colligida o publicada por Garrett no tomo II, pag. 35 das _Viagens na minha terra_. Com aquelle grande senso artistico, discute elle as origens monasticas da tradição da padroeira de Santarem; a differença que ha na versão popular não é um resultado do duas formações diversas; o povo quando recebe uma tradição simplifica-a, redul-a aos traços mais geraes, e é justamente a parte mais bella e inmorredoura da creação individual que elle perpetúa. Tambem se encontra no Porto esta lenda piedosa, aonde ouvimos alguns fragmentos com o titulo de _Iria a Fidalga_; o sentimento popular não podia deixar do perdoar: é, sobre tudo, isto o que torna a variante da Beira-Baixa superior á lição de Garrett.
A variante do Minho, ainda que appresentada por um auctor que fez de lavra sua varias composições-rifacimentos do gosto popular, pertence ao genio anonymo, e por isso a incluimos. Lê-se na _Revista Universal Lisbonense_, t. III, p. 329. Esta versão distingue-se das precedentes por que é narrada impessoalmente. O nome de Helena é uma confusão de Irene ou Iria. O final estava assim truncado, mas o leitor pode completal-o por qualquer das versões da Beira Baixa ou Santarem.
=48--Romance da Devota da Ermida=--Foi aqui pela primeira vez recolhido da tradição oral. O cantar da criança que nasce na sepultura faz lembrar aquella ballada bretã dos _Tres monges vermelhos_, feita pelo povo contra os Templarios.
=49--Oração do Dia de Juizo=--A poesia do christianismo é inteiramente popular, como se vê pelas palavras de Sam Jeronymo: «Ecclesia non de Academia, sed de viti plebecula orta est.» Que são os Evangelhos apocryphos senão os cantos dos primeiros neophytos? O Livro dos pecados, que hade apparecer no dia do juizo, é uma tradição rabbinica e mussulmana tornada popular nos primeiros seculos da egreja, como se vê pelo _Evangelho de José o Carpinteiro_. Os rabbinos admittiam que era S. Miguel quem appresentava as almas a Deos. No _Ensaio sobre as lendas piedosas da Edade Media_, por Alfred Maury, vem um eruditissimo estudo sobre a psychostasia e o uso das balanças no Juizo final (pag. 17 a 84), que trataremos de resumir, para mostrar como a lenda portugueza é formada de tradições primitivas. Nos monumentos egypcios e etruscos se encontra este symbolismo da alma pezada em uma balança, a que alludem tambem Homero e Virgilio. Dherma na religião dos Indous, pesa as boas e más acções. Na Biblia e nos Santos Padres encontra-se esta mesma allusão metaphorica, bem como nos hymnos de Prudencio e Fortunato. Principalmente nas obras de arte da edade media, baixos relevos, pinturas e miniaturas dos manuscriptos, se encontram differentes representações de Sam Miguel pesando as almas.
Quando o diabo fazia pender a balança para o lado das más acções, era a Virgem quem fazia prevalecer o pequeno numero das acções boas, como se vê em Herm. Com. Chr. apud Eccard. Cf. Michelet, _Hist. de França_, p. 310. D’este mesmo sentimento se inspira o drama de Bartolo: L’Homme par devant Jesus, le diable demandeur et la Vierge defendeur. (Vid. Maury, loc. cit.)
=50--Romance do Terremoto de Villa Franca do Campo=--Foi este romance extraído do celebre manuscripto intitulado _Saudades da terra_ por Gaspar Fructuoso, primeiro historiador insulano. Do cap. V, o copiou Jorge Cardoso para o _Agiologio Lusitano_, t. 3, p. 415.
=51--Xacara da linda Pastorinha=--Com titulo quasi identico publicou Garrett (_Romanceiro_, t. III, p. 187) uma variante dos arredores de Lisboa, em que o guapo galanteador não é irmão, nem vem preoccupado por alguma aposta. É ali incompleta, e está mal classificada; muitas outras cantilenas d’este genero temos encontrado na tradição oral, em forma de descante ou desafio. O povo só conhece na sua poesia a redondilha maior e menor; e de todas as lições que recebemos do Porto, Trás-os-Montes e Beira Baixa nenhuma trazia os versos dispostos em forma alexandrina. De todas as variantes a mais verdadeira é aquela que vem precedida de um preambulo em prosa, contando como um irmão chegado do Brazil á sua terra, antes de se dar a conhecer a sua irmã, começou a falar-lhe de amores, por aposta contra os que lhe diziam ser ella a mais esquiva de todas as raparigas do logar.
=52, 53--Xacaras dos Conversados=--Aqui está um quadro dos amores do povo, entre dois conversados, como é estylo de campo; a scena é bíblica; a Samaritana do poço percebe todas as allusões e responde com não menos frescura. Na versão de Penafiel, o moço pede de beber por um pucarinho novo, e _tocadinho de amor_. É uma expressão pittoresca, tirada do usual da vida, por que é _tocando_ que se vê se a louça está sã. As fórmas, que o apaixonado furtivamente observa, a rosa com que symbolisa o seu desejo, e que a cantareira guarda para deixar apanhar a quem for do seu gosto, dão a este idyllio um colorido tão delicado, que a mesma naturalidade quasi que faz passar desappercebido.
=54--Os Estudos de Coimbra=--Este canto foi recolhido em Penafiel; pertence a genero de despique de conversados. Nas aldeas os rapazes e raparigas namoram-se por cantigas. As quadras improvisadas, lançadas ao vento, e que os viandantes escutam, são as que ficam na tradição oral, formando assim naturalmente um pequeno conto de amor.
=55--Xacara do Cego andante=--Garrett determina os paradigmas da presente xacara em duas balladas escossezas de el-rei James V, intituladas _The Gaberlunzieman_, e _The Jolly Beggar_ (Percy’s, _Reliques of ancient english poetry_, Series II, book I, 10).
=56--Xacara da Moreninha=--Esta xacara, anda na tradição popular da Extremadura e Beira; de Castello Branco foi a versão publicada por Garrett (Rom. t. III, p. 54) «mas aproveitou-se de outras lições provinciaes o que foi necessario para lhe dar complemento.» A _Moreninha_ tem a vantagem do ser recolhida da genuina tradição oral do Porto. O tal Frei João é tão antigo na lenda portugueza, como o Frei Jean des Entommeures do _Gargantua_ de Rabalais, se não proveiu d’esta creação comica, foi por certo tirado das aventuras da vida claustral, que em ocio santo e beatifica estupidez era consummida. O retrato do frade da versão popular é similhante ao esboçado em Rabelais; «En l’abbaye estoit pour lors un moine claustrier nommé frère Jean des Entommeures, jeune, galant, frisque, debait, bien à dextre, hardi, adventureux, delibéré, hault, maigre, bien fendu de gueule, bien advantagé en nez, beau despecheur d’heures, beau debrideur de messes, beau descreteur de vigiles: pour tout dire sommairement, vrai moine si ouques en fut depuis que le monde moinant moina de moinerie; au reste, elere jusque ès dents en matière de breviaire.» (_Gargantua_, C. 27). Em algumas versões do romance portuguez descreve-se como: Frei João se levantou ’numa fresca madrugada; Rabelais diz: «Mais le moine, ne faillit onqués à s’esveiller avant la minuit, _tant il estoit habitué à l’heure des matines claustrales_. (Id. cap. 41.) Na versão colhida por Garrett o _manteo de cochonilha_, e a circumstancia dos pretos que vão buscar agua fazem a tradição portugueza do seculo XVI, e por isso contemporanea do romance de Rabelais. Nos _Ineditos de Alcobaça_, publicados por Frei Fortunato de Sam Boaventura, encontra-se frequentes vezes empregada a palavra _gargantuice_ nos monumentos em prosa do seculo XIV e XV; o que prova existirem entre nós vislumbres da tradição a que Rabelais deu desenvolvimento. Na versão de Garrett não vem o milagre do calix.
=57--Xacara do Soldado=--Foi pela primeira vez recolhida por Almeida Garrett da tradição oral de Trás-os-Montes, aonde achou tres copias, sendo uma mais completa do que as outras. Não se encontra nas collecções castelhanas. Garrett assigna-lhe a data «pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por meado do seculo XVII.» (Rom. t. III, p. 167). Nos modernos contos de Don Antonio de Trueba respira-se este mesmo sentimento popular.
=58--Xacara do Toureiro namorado=--Foi pela primeira vez aqui recolhida da tradição oral; tem o merecimento de ser um resultado dos costumes dos dois povos da Peninsula, que se fazem notar pela paixão dos divertimentos tauromachicos. Não se encontra nada similhante nos Romanceiros hespanhoes.
=59--Xacara da Tecedeira=--Tem toda a desenvoltura e licença de um _fabliaux_ francez. A influencia dos troveiros do norte da França não chegou até nós sómente pelo Arcipreste de Hita, guardado na Livraria de Dom Duarte, ou traduzido em portuguez; na alma popular apparecem de longe em longe estas reminiscencias tambem. A xacara é da Beira-Alta; Garrett porem fundiu-a dentro do romance de _Dom Claros d’alem-mar_ (Rom. t. II, p. 192) por mera diversão artistica, porque nas lições castelhanas, d’onde as versões portuguezas se derivaram, não apparece tal situação.
=60--Despedida de Lisboa=--Com dois tostões venci a repugnancia de um rhapsodo popular para me dictar estas coplas. Assim ficou salva do esquecimento uma reliquia pura do sentimento das aventuras maritimas da alma portugueza. A primeira parte faz lembrar as velhas narrações dos mareantes, como se lêem na _Historia Tragico-marítima_. Será talvez a abertura de algum romance maritimo já obliterado na tradição? A despedida do marinheiro não é de saudade, é de sêde do goso de que se sente privado pela viagem demorada e tormentosa. Esta xacara é como um truncado florão de architectura manuelina.
=61--A Freira arrependida=--Estas coplas foram recebidas da Beira-baixa em duas lições fragmentadas, que mal deixavam perceber o sentimento profundo que encerram. No Manuscripto n.º 338 da Biblioteca da Universidade existe uma outra lição em letra do seculo XVII, intitulada _Queixas de uma Freira_, pela qual podémos coordenar as lições da Beira-Baixa. Eis um grito doloroso do povo contra a direcção monachal, que a egreja queria dar á sociedade; é um grito inspirado pelo sentimento da natureza que a Renascença veiu acordar na alma humana. Sempre uma verdade immensa na poesia do povo.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Epist. 105 Labbe, Coll. dos Concil., t. VI, col. 1559.
[2] Relação do naufragio da nau _S. Bento_, pag. 55.
[3] Idem, pag. 73.
[4] Idem, pag. 109.
[5] Relação da viagem e sucesso das naus _Aguia_ e _Garça_, pag. 222.
[6] Obras de Gil Vicente, t. II, pag. 414.
[7] Codic. da B. Real publicado pelo senhor A. H, no vol. III do _Panorama_, pag, 277.
[8] Tomo III do Romanceiro, pag. 87.
[9] Creio que esta passagem se refere á seguinte: «Estes cafres não deram novas como os quatro homens que mandaramos adiante com recado a Lourenço Marques, eram mortos ou mataram d’alli perto, porque elles constrangidos pela fome tomaram um cafre que toparam ao largo do mar, e metendo-se com elle em um mato, o espostejaram e assaram para fornecer os alforges; mas como os visinhos d’este o achassem menos, e a terra seja de areia, vieram pelo trilho a dar com o negocio; e então levando os nossos á praia, e não se havendo por bem o que d’elles não tomasse vingança, fizeramnos coitados como crua carniceria.»--Idem, pag. 123
[10] Idem, pag. 135.
[11] Idem, pag. 419.
[12] Plutarch. _De Io et Osir._ 356.
[13] Alfred Maury, _Legendes pieuses_, p. 144.
[14] D’aqui em diante, com pequenas variantes, é similhante ao romance _Mi padre era de Ronda_, do Cancioneiro de Romances.
FIM.
INDEX
ROMANCEIRO GERAL
FLOR DOS ROMANCES ANONYMOS DO CYCLO CARLINGIANO E DA TAVOLA REDONDA
=I--Romances communs aos povos do Meio Dia da Europa=
N.º de ord. Pag.
1 Romances da Dona Infanta _Beira-Baixa_ 1 2 Dona Catherina _Beira-Baixa_ 4 3 Romances de D. Martinho d’Avisado _Beira-Baixa_ 8 4 Dom Martinho _Beira-Baixa_ 11 5 Dom Barão _Douro_ 15 6 Romance do Gerinaldo _Trás-os-Montes_ 18 7 Romance da Noiva roubada _Almeida_ 20 8 Romance do Alferes matador _Beira-Baixa_ 22 9 Romance da Romeirinha _Trás-os-Montes_ 24 10 Romances da Infanta de França _Beira-Baixa_ 26 11 A Encantada _Foz_ 28
=II--Romances de supposta origem portugueza=
12 Romances da Sylvana _Lisboa_ 30 Faustina (Víd. notas) _Coimbra_ 181
13 Romance de Bernal-Francez _Foz_ 34 14 Romance do Conde Niño _Trás-os-Montes_ 37 15 Romance da Promessa do Noivado _Beira-Baixa_ 38 16 Romance de Dom Aleixo _Foz_ 40 17 Romance de Dom Pedro _Beira-Baixa_ 42 18 Romance da Filha do Imper. de Roma _Trás-os-Montes_ 45 19 O Hortelão das flores _Beira-Baixa_ 48 20 O Duque da Lombardia _Beira-Alta_ 50 21 Romance de Dona Agueda de Mexia _Alemtejo_ 53 22 Romance do casamento e mortalha _Minho_ 55 23 Romance da Nau Catherineta _Lisboa_ 58
=III--Romances que se encontram nas Collecções hesp.=