Part 7
-- Então gastar com letras e sciencias é botar fóra? É boa! concluia o outro.
No fim do anno quiz obrigal-o a passar fóra as férias. Gonçalves acabou acceitando, e o prazer que lhe deu com isto foi enorme. Subiram a Petropolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de pintura, Quintanilha advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos dous, e mandou fazel-a. Quando a levou ao amigo, este não poude deixar de lhe dizer que não prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.
-- É uma porcaria, insistiu Gonçalves.
-- Pois o pintor disse-me...
-- Você não entende de pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a occasião para metter a espiga. Pois isto é cara decente? Eu tenho este braço torto?
-- Que ladrão!
-- Não, elle não tem culpa, fez o seu negocio; você é que não tem o sentimento da arte, nem pratica, e espichou-se redondamente. A intenção foi boa, creio...
-- Sim, a intenção foi boa.
-- E aposto que já pagou?
-- Já.
Gonçalves abanou a cabeça, chamou-lhe ignorante e acabou rindo. Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava para a tela, até que saccou de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Com se não bastasse esse gesto de vingança, devolveu a pintura ao artista com um bilhete em que lhe transmittiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A vida tem muitas de taes pagas. Demais, uma letra de Gonçalves que se venceu d'alli a dias e que este não poude pagar, veiu trazer ao espirito de Quintanilha uma diversão. Quasi brigaram; a idéa de Gonçalves era reformar a letra; Quintanilha, que era o endossante, entendia não valer a pena pedir o favor por tão escassa quantia (um conto e quinhentos), elle emprestaria o valor da letra, e o outro que lhe pagasse, quando pudesse. Gonçalves não consentiu e fez-se a reforma. Quando, ao fim d'ella, a situação se repetiu, o mais que este admittiu foi acceitar uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro.
-- Você não vê que me envergonha, Gonçalves? Pois eu hei de receber juro de você...?
-- Ou recebe, ou não fazemos nada.
-- Mas, meu querido...
Teve que concordar. A união dos dous era tal que uma senhora chamava-lhes os «casadinhos de fresco», e um letrado, Pylades e Orestes. Elles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia alguma cousa parecida com lagrimas: era, nos olhos, uma ternura humida. Outra differença é que o sentimento de Quintanilha tinha uma nota de enthusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gonçalves; mas, enthusiasmo não se inventa. É claro que o segundo era mais capaz de inspiral-o ao primeiro do que este a elle. Em verdade, Quintanilha era mui sensivel a qualquer distincção; uma palavra, um olhar bastava a accender-lhe o cerebro. Uma pancadinha no hombro ou no ventre, com o fim de approval-o ou só accentuar a intimidade, era para derretel-o de prazer. Contava o gesto e as circumstancias durante dous e tres dias.
Não era raro vel-o irritar-se, teimar, descompôr os outros. Tambem era commum vel-o rir-se; alguma vez o riso era universal, entornava-se-lhe da bocca, dos olhos, da testa, dos braços, das pernas, todo elle era um riso unico. Sem ter paixões, estava longe de ser apathico.
A letra saccada contra Gonçalves tinha o prazo de seis mezes. No dia do vencimento, não só não pensou em cobral-a, mas resolveu ir jantar a algum arrabalde para não ver o amigo, se fosse convidado á reforma. Gonçalves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi levar-lhe o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recusal-o, dizendo-lhe que o guardasse, podia precisar d'elle; o devedor teimou em pagar e pagou.
Quintanilha acompanhava os actos de Gonçalves; via a constancia do seu trabalho, o zelo que elle punha na defesa das demandas, e vivia cheio de admiração. Realmente, não era grande advogado, mas na medida das suas habilitações, era distincto.
-- Você porque não se casa? perguntou-lhe um dia; um advogado precisa casar.
Gonçalves respondia rindo. Tinha uma tia, unica parenta, a quem elle queria muito, e que lhe morreu, quando elles iam em trinta annos. Dias depois, dizia ao amigo:
-- Agora só me resta você.
Quintanilha sentiu os olhos molhados, e não achou que lhe respondesse. Quando se lembrou de dizer que «iria até á morte» era tarde. Redobrou então de carinhos, e um dia accordou com a idéa de fazer testamento. Sem revelar nada ao outro, nomeou-o testamenteiro e herdeiro universal.
-- Guarde-me este papel, Gonçalves, disse-lhe entregando o testamento. Sinto-me forte, mas a morte é facil, e não quero confiar a qualquer pessoa as minhas ultimas vontades.
Foi por esse tempo que succedeu um caso que vou contar.
Quintanilha tinha uma prima-segunda, Camilla, moça de vinte e dous annos, modesta, educada e bonita. Não era rica; o pae, João Bastos, era guarda-livros de uma casa de café. Haviam brigado por occasião da herança; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de João Bastos, e este acto de piedade novamente os ligou. João Bastos esqueceu facilmente alguns nomes crús que dissera do primo, chamou-lhe outros nomes doces, e pediu-lhe que fosse jantar com elle. Quintanilha foi e tornou a ir. Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; n'uma occasião em que Camilla os deixou sós, João Bastos louvou as raras prendas da filha, que affirmava haver recebido integralmente a herança moral da mãe.
-- Não direi isto nunca á pequena, nem você lhe diga nada. É modesta, e, se começarmos a elogial-a, póde perder-se. Assim, por exemplo, nunca lhe direi que é tão bonita como foi a mãe, quando tinha a edade d'ella; póde ficar vaidosa. Mas a verdade é que é mais, não lhe parece? Tem ainda o talento de tocar piano, que a mãe não possuia.
Quando Camilla voltou á sala de jantar, Quintanilha sentiu vontade de lhe descobrir tudo, conteve-se e piscou o olho ao primo. Quiz ouvil-a ao piano; ella respondeu, cheia de melancolia:
-- Ainda não, ha apenas um mez que mamãe falleceu, deixe passar mais tempo. Demais, eu toco mal.
-- Mal?
-- Muito mal.
Quintanilha tornou a piscar o olho ao primo, e ponderou á moça que a prova de tocar bem ou mal só se dava ao piano. Quanto ao prazo, era certo que apenas passára um mez; todavia era tambem certo que a musica era uma distracção natural e elevada. Além d'isso, bastava tocar um pedaço triste. João Bastos approvou este modo de ver e lembrou uma composição elegiaca. Camilla abanou a cabeça.
-- Não, não, sempre é tocar piano; os vizinhos são capazes de inventar que eu toquei uma polka.
Quintanilha achou graça e riu. Depois concordou e esperou que os tres mezes fossem passados. Até lá, viu a prima algumas vezes, sendo as tres ultimas visitas mais proximas e longas. Emfim, poude ouvil-a tocar piano, e gostou. O pae confessou que, ao principio, não gostava muito d'aquellas musicas allemãs; com o tempo e o costume achou-lhes sabor. Chamava á filha «a minha allemãsinha», appellido que foi adoptado por Quintanilha, apenas modificado para o plural: «a nossa allemãsinha». Pronomes possessivos dão intimidade; dentro em pouco, ella existia entre os tres,--ou quatro, se contarmos Gonçalves, que alli foi apresentado pelo amigo; -- mas fiquemos nos tres.
Que elle é cousa já farejada por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou gostando da moça. Como não, se Camilla tinha uns longos olhos mortaes? Não é que os pousasse muita vez nelle, e, se o fazia, era com tal ou qual constrangimento, a principio, como as creanças que obedecem sem vontade ás ordens do mestre ou do pae; mas pousava-os, e elles eram taes que, ainda sem intenção, feriam de morte. Tambem sorria com frequencia e falava com graça. Ao piano, e por mais aborrecida que tocasse, tocava bem. Em summa, Camilla não faria obra de impulso proprio, sem ser por isso menos feiticeira. Quintanilha descobriu um dia de manhã que sonhára com ella a noite toda, e á noite que pensára nella todo o dia, e concluiu da descoberta que a amava e era amado. Tão tonto ficou que esteve prestes a imprimil-o nas folhas publicas. Quando menos, quiz dizel-o ao amigo Gonçalves e correu ao escriptorio d'este. A affeição de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quasi a abrir a boca, engoliu outra vez o segredo. Não ousou dizel-o nesse dia nem no outro.
Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a revelação por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de muitas hesitações, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.
-- Você approva, Gonçalves?
Gonçalves empallideceu,--ou, pelo menos, ficou serio; nelle a seriedade confundia-se com a pallidez. Mas, não; verdadeiramente ficou pallido.
-- Approva? repetiu Quintanilha.
Após alguns segundos, Gonçalves ia abrir a bocca para responder, mas fechou-a de novo, e fitou os olhos «em hontem», como elle mesmo dizia de si, quando os estendia ao longe. Em vão Quintanilha teimou em saber o que era, o que pensava, se aquelle amor era asneira. Estava tão acostumado a ouvir-lhe este vocabulo que já lhe não doia nem affrontava, ainda em materia tão melindrosa e pessoal. Gonçalves tornou a si d'aquella meditação, sacudiu os hombros, com ar desenganado, e murmurou esta palavra tão surdamente que o outro mal a poude ouvir:
-- Não me pergunte nada; faça o que quizer.
-- Gonçalves, que é isso? perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas mãos, assustado.
Gonçalves soltou um grande suspiro, que, se tinha azas, ainda agora estará voando. Tal foi, sem esta fórma paradoxal, a impressão de Quintanilha. O relogio da sala de jantar bateu oito horas, Gonçalves allegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.
Na rua, Quintanilha parou atordoado. Não acabava de entender aquelles gestos, aquelle suspiro, aquella pallidez, todo o effeito mysterioso da noticia dos seus amores. Entrára e falára, disposto a ouvir do outro um ou mais d'aquelles epithetos costumados e amigos, _idiota, credulo, paspalhão_, e não ouviu nenhum. Ao contrario, havia nos gestos de Gonçalves alguma cousa que pegava com o respeito. Não se lembrava de nada, ao jantar, que pudesse tel-o offendido; foi só depois de lhe confiar o sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo ficou acabrunhado.
-- Mas, não póde ser, pensava elle; o que é que Camilla tem que não possa ser boa esposa?
Nisto gastou, parado, defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu então que Gonçalves não saira. Esperou mais meia hora, nada. Quiz entrar outra vez, abraçal-o, interrogal-o... Não teve forças; enfiou pela rua fóra, desesperado. Chegou á casa de João Bastos, e não viu Camilla; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe tudo, e aqui é preciso explicar que elle ainda não se havia declarado á prima. Os olhares da moça não fugiam dos seus; era tudo, e podia não passar de faceirice. Mas o lance não podia ser melhor para clarear a situação. Contando o que se passára com o amigo, tinha o ensejo de lhe fazer saber que a amava e ia pedil-a ao pae. Era uma consolação no meio d'aquella agonia, o acaso negou-lh'a, e Quintanilha saiu da casa, peior do que entrára. Recolheu-se á sua.
Não dormiu antes das duas horas da manhã, e não foi para repouso, senão para agitação maior e nova. Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho viu surdir debaixo um vulto e fincar os pés defronte d'elle. Era Gonçalves. «Infame, disse este com os olhos accesos, porque me vens tirar a noiva de meu coração, a mulher que eu amo e é minha? Toma, toma logo o meu coração, é mais completo.» E com um gesto rapido abriu o peito, arrancou o coração e metteu-lh'o na bocca. Quintanilha tentou pegar da viscera amiga e repol-a no peito de Gonçalves; foi impossivel. Os queixos acabaram por fechal-a. Quiz cuspil-a, e foi peior; os dentes cravaram-se no coração. Quiz falar, mas vá alguem falar com a bocca cheia d'aquella maneira. Afinal o amigo ergueu os braços e estendeu-lhe as mãos com o gesto de maldição que elle vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo depois, brotaram-lhe dos olhos duas immensas lagrimas, que encheram o valle de agua, atirou-se abaixo e desappareceu. Quintanilha accordou suffocado.
A illusão do pesadelo era tal que elle ainda levou as mãos á bocca, para arrancar de lá o coração do amigo. Achou a lingua sómente, esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte? E o Gonçalves? Voltou a si de todo, comprehendeu e novamente se deitou, para outra insomnia, menor que a primeira, é certo; veiu a dormir ás quatro horas.
De dia, rememorando toda a vespera, realidade e sonho, chegou á conclusão de que o amigo Gonçalves era seu rival, amava a prima d'elle, era talvez amado por ella... Sim, sim, podia ser. Quintanilha passou duas horas crueis. Afinal pegou em si e foi ao escriptorio de Gonçalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se fosse verdade...
Gonçalves redigia umas razões de embargo. Interrompeu-as para fital-o um instante, erguer-se, abrir o armario de ferro, onde guardava os papeis graves, tirar de lá o testamento de Quintanilha, e entregal-o ao testador.
-- Que é isto?
-- Você vae mudar de estado, respondeu Gonçalves, sentando-se á mesa.
Quintanilha sentiu-lhe lagrimas na voz; assim lhe pareceu, ao menos. Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o seu depositario natural. Instou muito; só lhe respondia o som aspero da penna correndo no papel. Não corria bem a penna, a letra era tremida, as emendas mais numerosas que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros era feita com tal melancolia que entristecia o outro. Ás vezes, parava tudo, penna e consulta, para só ficar o olhar fito «em hontem».
-- Entendo, disse Quintanilha subitamente; ella será tua.
-- Ella quem? quiz perguntar Gonçalves, mas já o amigo voava, escada abaixo, como uma flecha, e elle continuou as suas razões de embargo.
Não se adivinha todo o resto; basta saber o final. Nem se adivinha nem se crê; mas a alma humana é capaz de esforços grandes, no bem como no mal. Quintanilha fez outro testamento, legando tudo á prima, com a condição de desposar o amigo. Camilla não acceitou o testamento, mas ficou tão contente, quando o primo lhe falou das lagrimas de Gonçalves, que acceitou Gonçalves e as lagrimas. Então Quintanilha não achou melhor remedio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.
O final da historia foi dito em latim. Quintanilha serviu de testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous primeiros filhos. Um dia em que, levando doces para os afilhados, atravessava a praça Quinze de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quasi instantaneamente. Está enterrado no cemiterio de S. João Baptista; a sepultura é simples, a pedra tem um epitaphio que termina com esta pia phrase: «Orae por elle!» É tambem o fecho da minha historia. Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pylades é agora o personagem mudo de Sophocles. Orae por elle!
Anecdota do cabriolet
--_Cabriolet_ está ahi, sim, senhor, dizia o preto que viera á matriz de S. José chamar o vigario para sacramentar dous moribundos.
A geração de hoje não viu a entrada e a saida do _cabriolet_ no Rio de Janeiro. Tambem não saberá do tempo em que o _cab_ e o _tilbury_ vieram para o rol dos nossos vehiculos de praça ou particulares. O _cab_ durou pouco. O _tilbury_, anterior aos dous, promette ir á destruição da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruinas, achar-se-ha um parado, com o cavallo e o cocheiro em ossos, esperando o freguez do costume. A paciencia será a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntará a propria actual á do espectro dos tempos. O archeologo dirá cousas raras sobre os tres esqueletos. O _cabriolet_ não teve historia; deixou apenas a anecdota que vou dizer.
--Dous! exclamou o sacristão.
--Sim, senhor, dous: nhã Annunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô Pedrinho! E nhã Annunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando de um lado para outro, afflicto, fóra de si.
Alguem que leia isto com a alma turva de duvidas, é natural que pergunte se o preto sentia devéras, ou se queria picar a curiosidade do coadjuctor e do sacristão. Eu estou que tudo se póde combinar neste mundo, como no outro. Creio que elle sentia devéras: não descreio que anciasse por dizer alguma historia terrivel. Em todo caso, nem o coadjuctor nem o sacristão lhe perguntavam nada.
Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a parochia de cór; sabia os nomes ás devotas, a vida dellas, a dos maridos e a dos paes, as prendas e os recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as saudades das viuvas. Pesquizava tudo; nos intervallos ajudava a missa e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e grisalho, magro e meão.
--Que Pedrinho e que Annunciada serão esses? dizia comsigo, acompanhando o coadjuctor.
Embora ardesse por sabel-os, a presença do coadjuctor impediria qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta da egreja, que era força mostrar o mesmo silencio e piedade que elle. Assim foram andando. O _cabriolet_ esperava-os; o cocheiro desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, emquanto o padre e o sacristão entravam e o vehiculo enfiava pela rua da Misericordia. O preto desandou o caminho a passo largo.
Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no ceu, se as ha, e os pensamentos nas cabeças, se os tem. A do sacristão tinha-os varios e confusos. Não era ácerca de _Nosso-Pae_, embora soubesse adoral-o, nem da agua benta e do hyssope que levava; tambem não era ácerca da hora,--oito e quarto da noite,--aliás, o ceu estava claro e a lua ia apparecendo. O proprio _cabriolet_, que era novo na terra, e substituia neste caso a sege, esse mesmo vehiculo não occupava o cerebro todo de João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhâ Annunciada.
--Ha de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspeda em alguma casa, de certo, porque não ha casa vasia na praia, e o numero é da do commendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi...? Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então mandariam _cabriolet_? Este mesmo preto é novo na casa; ha de ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos.
Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo. O _cabriolet_ parou á porta de um sobrado, justamente a casa do commendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas em baixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada, acompanhados do commendador. A esposa deste, no patamar, beijou o annel ao padre. Gente grande, creanças, escravos, um borborinho surdo, meia claridade, e os dous moribundos á espera, cada um no seu quarto, ao fundo.
Tudo se passou, como é de uso e regra, em taes occasiões. Nhô Pedrinho foi absolvido e ungido, nhâ Annunciada tambem, e o coadjuctor despediu-se da casa para tornar á matriz com o sacristão. Este não se despediu do commendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um sobrinho que vivia em Campinas; uma historia terrivel... Os olhos de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto,--talvez naquella mesma noite. Tudo foi rapido, porque o padre descia a escada, era força ir com elle.
Foi tão curta a moda do _cabriolet_ que este provavelmente não levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anecdota, que vou acabar já, tão escassa foi ella, uma anecdota de nada. Não importa. Qualquer que fosse o tamanho ou a importancia, era sempre uma fatia de vida para o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, emfim, a pé, rua acima, praia fóra, até parar á porta do commendador.
Em caminho foi evocando toda a vida daquelle homem, antes e depois da commenda. Compoz o negocio, que era fornecimento de navios, creio eu, a familia, as festas dadas, os cargos parochiaes, commerciaes e eleitoraes, e daqui aos boatos e anecdotas não houve mais que um passo ou dous. A grande memoria de João das Mercês guardava todas as cousas, maximas e minimas, com tal nitidez que pareciam da vespera, e tão completas que nem o proprio objecto delles era capaz de as repetir eguaes. Sabia-as como o Padre-Nosso, isto é, sem pensar nas palavras; elle resava tal qual comia, mastigando a oração, que lhe saía dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar tres duzias de Padre-Nossos seguidamente, João das Mercês os diria sem contar. Tal era com as vidas alheias; amava sabel-as, pesquisava-as, decorava-as, e nunca mais lhe saiam da memoria.
Na parochia todos lhe queriam bem, porque elle não enredava nem maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antonio e Antonio a de José.
O que elle fazia era ratificar ou rectificar um com outro, e os dous com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim é que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, á propria missa, recordava uma anecdota da vespera, e, a principio, pedia perdão a Deus; deixou de lh'o pedir quando reflectiu que não falhava uma só palavra ou gesto do santo sacrificio, tão consubstanciados os trazia em si. A anecdota que então revivia por instantes, era como a andorinha que atravessa uma paizagem. A paizagem fica sendo a mesma, e a agua, se ha agua, murmura o mesmo som. Esta comparação, que era delle, valia mais do que elle pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte da paizagem, e a anecdota fazia nelle parte da pessoa; era um dos seus actos de viver.
Quando chegou á casa do commendador, tinha desfiado o rosario da vida deste, e entrou com o pé direito para não sair mal. Não pensou em sair cedo, por mais afflicta que fosse a occasião, e nisto a fortuna o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher, quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava pelo estado dos moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou pedindo desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrára-se de saber se os enfermos tinham ido para o ceu,--ou se ainda eram deste mundo. Tudo o que dissesse respeito ao commendador seria ouvido por elle com interesse.
--Não morreram, nem sei se escaparão; quando menos, ella creio que morrerá, concluiu Brito.
--Parecem bem mal.
--Ella, principalmente; tambem é a que mais padece da febre. A febre os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, ha dias.
--Já estavam aqui? perguntou o sacristão, pasmado de o não saber.
--Já; chegaram ha quinze dias,--quatorze. Vieram com o meu sobrinho Carlos e aqui apanharam a doença...
Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacristão, que poz no semblante toda a expressão de pessoa que espera o resto. Entretanto, como o outro estivesse a morder os beiços e a olhar para as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados. Brito acabou andando ao longo da sala, emquanto João das Mercês dizia comsigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira idéa que lhe acudiu, foi se os medicos teriam errado na doença ou no remedio; tambem pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o commendador, emquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para não aborrecer mais os que estavam dentro. De lá vinha algum murmurio de conversação, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado; mas o nosso sacristão já agora não tinha mais que saber o que não sabia. Quando menos, a familia dos enfermos, a posição, o actual estado, alguma pagina da vida delles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que fosse da parochia.
--Ah! exclamou Brito estacando o passo.