Part 6
A casa ficava na rua proxima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta, vimos os portaes da casa forrados de preto,--o que nos encheu de espanto. Instinctivamente parámos e voltámos a cabeça para tio Zéca. Este veiu a nós, deu a mão a cada um e ia a dizer alguma palavra que lhe ficou na garganta; andou, levando-nos comsigo. Quando chegámos, as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um armarinho. Na rua, curiosos. Nas janellas fronteiras e lateraes, cabeças agglomeradas. Houve certo reboliço quando chegámos. É natural que eu tivesse a boca aberta, como Felicia. Tio Zéca empurrou uma das meias portas, entrámos os tres, elle tornou a cerral-a, metteu-se pelo corredor e fomos á sala de jantar e á alcova.
Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veiu abraçar-nos entre lagrimas, bradando:
--Meus filhos, vosso pae morreu!
A commoção foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem a consciencia da noticia. Não tive forças para andar, e teria medo de o fazer. Morto como? morto porque? Estas duas perguntas, se as metto aqui, é para dar seguimento á acção; naquelle momento não perguntei nada a mim nem a ninguem. Ouvia as palavras de minha mãe, que se repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ella pegou em nós e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadaver do marido; e fez-nos beijar-lhe a mão. Tão longe estava eu daquillo que, apezar de tudo, não entendêra nada a principio; a tristeza e o silencio das pessoas que rodeavam a cama, ajudaram a explicar que meu pae morrêra devéras. Não se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, não era festa, não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa, arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito fizesse crescer a minha dôr de filho não é cousa que possa affirmar ou negar; melhor é calar. O pae alli estava defunto, sem pulos, nem danças, nem risadas, nem bandas de musica, cousas todas tambem defuntas. Se me houvessem dito á saida da escola porque é que me iam lá buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, donde era agora expellida a punhadas.
O enterro foi no dia seguinte ás nove horas da manhã, e provavelmente lá estava aquelle amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a promessa de ir ás nove horas. Não vi as cerimonias; alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um trapiche, lá estava, e a mulher tambem, que me levou a uma alcova dos fundos para me mostrar gravuras. Na occasião da saida, ouvi os gritos de minha mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas que pegavam nas alças do caixão, creio eu: «--vire de lado,--mais á esquerda,--assim,--segure bem...» Depois, ao longe, o coche andando e as seges atraz delle...
Lá iam meu pae e as férias! Um dia de folga sem folguedo! Não, não foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quaes alguma vez me lembrei do collegio. Minha mãe chorava, cosendo o luto, entre duas visitas de pesames. Eu tambem chorava; não via meu pae ás horas do costume, não lhe ouvia as palavras á mesa ou ao balcão, nem as caricias que dizia aos passaros. Que elle era muito amigo de passaros, e tinha tres ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quasi que só falava ás pessoas de fóra. Foi assim que eu soube que meu pae morrêra de apoplexia. Ouvi esta noticia muitas vezes; as visitas perguntavam pela causa da morte, e ella referia tudo, a hora, o gesto, a occasião: tinha ido beber agua, e enchia um copo, á janella da área. Tudo decorei, á força de ouvil-o contar.
Nem por isso os meninos do collegio deixavam de vir espiar para dentro da minha memoria. Um delles chegou a perguntar-me quando é que eu voltaria.
--Sabbado, meu filho, disse minha mãe, quando lhe repeti a pergunta imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez seja melhor voltar na segunda.
--Antes sabbado, emendei.
--Pois sim, concordou.
Não sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar mais cedo á escola. Mas, sabendo que eu não gostava de aprender, como entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum sentido superior, conselho do ceu ou do marido. Em verdade, eu não folgava, se lerdes isto com o sentido de rir. Com o de descançar tambem não cabe, porque minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a attitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou á mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que recommendo aos preguiçosos: deixava os olhos na pagina e abria a porta á imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como fôr mais claro.
Uma vez, como désse por mim a andar na sala sem ler, minha mãe reprehendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu pae. A explicação fel-a chorar, e, para dizer tudo, não era totalmente mentira; tinha-me lembrado o ultimo presentinho que elle me déra, e entrei a vel-o com o mimo na mão.
Felicia vivia tão triste como eu, mas confesso a minha verdade, a causa principal não era a mesma. Gostava de brincar, mas não sentia a ausencia do brinco, não se lhe dava de acompanhar a mãe, coser com ella, e uma vez fui achal-a a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei em imital-a, e metti a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou sem ternura, e, não achando lenço, saiu sem pesar. Creio que ao gesto não faltava só originalidade, mas sinceridade tambem.
Não me censurem. Sincero fui longos dias calados e reclusos. Quiz uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro, onde o caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria á venda de linhas e agulhas, á medição de fitas, iria á porta, á calçada, á esquina da rua... Minha mãe suffocou este sonho pouco depois delle nascer. Mal chegára ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui para o interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos á guiza de quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva.
O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me. Já então lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras dos meninos, os nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos á saida. Senti cair-me na cara uma daquellas bolinhas de papel com que nos espertavamos uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu supposto espertador. A bolinha, como acontecia ás vezes, foi cair na cabeça de terceiro, que se desforrou depressa. Alguns, mais timidos, limitavam-se a fazer caretas. Não era folguedo franco, mas já me valia por elle. Aquelle degredo que eu deixei tão alegremente com tio Zeca, parecia-me agora um céo remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu desenhei a lapis maior numero de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos. Não alegrava, mas distrahia.
A missa do setimo dia restituiu-me á rua; no sabbado não fui á escola, fui á casa de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo estive á porta da loja. Não era alegria completa. A total alegria foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado com curiosidade, mas tão outro ao pé dos meus condiscipulos, que me esqueceram as férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias.
Evolução
Chamo-me Ignacio; elle, Benedicto. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Ignacio basta. Contentem-se com Benedicto. Não é muito, mas é alguma cousa, e está com a philosophia de Julieta: «Que valem nomes? perguntava ella ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro.» Vamos ao cheiro do Benedicto.
E desde logo assentemos que elle era o menos Romeo d'este mundo. Tinha quarenta e cinco annos, quando o conheci; não declaro em que tempo, porque tudo n'este conto ha de ser mysterioso e truncado. Quarenta e cinco annos, e muitos cabellos pretos; para os que o não eram, usava um processo chimico, tão efficaz que não se lhe distinguiam os pretos dos outros--salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não apparecia a ninguem. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente do relogio e bengala. O proprio alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos que tenho visto, era natural e legitimo; custou-lhe bom dinheiro; eu mesmo o vi comprar na casa do... lá me ia escapando o nome do joalheiro;--fiquemos na rua do Ouvidor.
Moralmente, era elle mesmo. Ninguem muda de caracter, e o do Benedicto era bom,--ou para melhor dizer, pacato. Mas, intellectualmente, é que elle era menos original. Podemos comparal-o a uma hospedaria bem afreguezada, aonde iam ter idéas de toda parte e de toda sorte, que se sentavam á mesa com a familia da casa. Ás vezes, acontecia acharem-se alli duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipathicas; ninguem brigava, o dono da casa impunha aos hospedes a indulgencia reciproca. Era assim que elle conseguia ajustar uma especie de atheismo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gavea, na Tijuca ou no Engenho-Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas elle não tinha segredos para os amigos.
Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tinhamos deixado o trem e entrado na diligencia que nos ia levar da estação á cidade. Trocámos algumas palavras, e não tardou conversarmos francamente, ao sabor das circumstancias que nos impunham a convivencia, antes mesmo de saber quem eramos.
Naturalmente, o primeiro objecto foi o progresso que nos traziam as estradas de ferro. Benedicto lembrava-se do tempo em que toda a jornada era feita ás costas de burro. Contámos então algumas anecdotas, falámos de alguns nomes, e ficámos de accordo em que as estradas de ferro eram uma condição de progresso do paiz. Quem nunca viajou não sabe o valor que tem uma d'essas banalidades graves e solidas para dissipar os tedios do caminho. O espirito areja-se, os proprios musculos recebem uma communicação agradavel, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus e os homens.
--Não serão os nossos filhos que verão todo este paiz cortado de estradas, disse elle.
--Não, de certo. O senhor tem filhos?
--Nenhum.
--Nem eu. Não será ainda em cincoenta annos; e, entretanto, é a nossa primeira necessidade. Eu comparo o Brazil a uma creança que está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.
--Bonita idéa! exclamou Benedicto faiscando-lhe os olhos.
--Importa-me pouco que seja bonita, comtanto que seja justa.
--Bonita e justa, redarguiu elle com amabilidade. Sim, senhor, tem razão:--o Brazil está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.
Chegámos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada antigo; elle demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sósinho. Uma semana mais tarde, voltou elle; encontrámo-nos no theatro, conversámos muito e trocámos noticias; Benedicto acabou convidando-me a ir almoçar com elle no dia seguinte. Fui; deu-me um almoço de principe, bons charutos e palestra animada. Notei que a conversa d'elle fazia mais effeito no meio da viagem--arejando o espirito e deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o almoço póde ter prejudicado o resto. Realmente era magnifico; e seria impertinencia historica pôr a mesa de Lucullo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me elle, apoiando o cotovello na borda da mesa, e olhando para o charuto que ardia:
--Na minha viagem agora, achei occasião de ver como o senhor tem razão com aquella idéa do Brazil engatinhando.
--Ah?
--Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligencia de Vassouras. Só começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de ferro. Não imagina como isso é verdade.
E referiu muita cousa, observações relativas aos costumes do interior, difficuldades da vida, atrazo, concordando, porém, nos bons sentimentos da população e nas aspirações de progresso. Infelizmente, o governo não correspondia ás necessidades da patria; parecia até interessado em mantel-a atraz das outras nações americanas. Mas era indispensavel que nos persuadissemos de que os principios são tudo e os homens nada. Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; e _abyssus abyssum invocat_. Depois foi mostrar-me outras salas. Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as collecções de quadros, de moedas, de livros antigos, de sellos, de armas; tinha espadas e floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era. Benedicto sorriu.
--Não irei adeante, disse eu sorrindo tambem.
--Não, não ha que negar, acudiu elle; foi uma moça de quem gostei muito. Bonita, não? Não imagina a belleza que era. Os labios eram mesmo de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, côr da noite. E que dentes! verdadeiras perolas. Um mimo da natureza.
Em seguida, passámos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de livros muito bem encadernados, um mappa-mundi, dous mappas do Brazil. A secretaria era de ebano, obra fina; sobre ella, casualmente aberto, um almanak de Laemmert. O tinteiro era de crystal,--«crystal de rocha», disse-me elle, explicando o tinteiro, como explicava as outras cousas. Na sala contigua havia um orgão. Tocava orgão, e gostava muito de musica, falou d'ella com enthusiasmo, citando as operas, os trechos melhores, e noticiou-me que, em pequeno, começára a aprender flauta; abandonou-a logo,--o que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao jardim, que era esplendido, tanto ajudava a arte á natureza, e tanto a natureza coroava a arte. Em rosas, por exemplo, (não ha negar, disse-me elle, que é a rainha das flôres) em rosas, tinha-as de toda casta e de todas as regiões.
Saí encantado. Encontrámo-nos algumas vezes, na rua, no theatro, em casa de amigos communs, tive occasião de aprecial-o. Quatro mezes depois fui á Europa, negocio que me obrigava á ausencia de um anno; elle ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu mesmo que o induzi a isso, sem a menor intenção politica, mas com o unico fim de lhe ser agradavel; mal comparando, era como se lhe elogiasse o córte do collete. Elle pegou da idéa, e apresentou-se. Um dia, atravessando uma rua de Pariz, dei subitamente com o Benedicto. --Que é isto? exclamei.
--Perdi a eleição, disse elle, e vim passear á Europa.
Não me deixou mais; viajámos juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da eleição não lhe tirára a idéa de entrar no parlamento. Ao contrario, incitára-o mais. Falou-me de um grande plano.
--Quero vel-o ministro, disse-lhe.
Benedicto não contava com esta palavra, o rosto illuminou-se-lhe; mas disfarçou depressa.
--Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que serei tão sómente ministro industrial. Estamos fartos de partidos; precisamos desenvolver as forças vivas do paiz, os seus grandes recursos. Lembra-se do que _nós diziamos_ na diligencia de Vassouras? O Brazil está engatinhando; só andará com estradas de ferro.
--Tem razão, concordei um pouco espantado. E porque é que eu mesmo vim á Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as cousas arranjadas em Londres.
--Sim?
--Perfeitamente.
Mostrei-lhe os papeis; elle viu-os deslumbrado. Como eu tivesse então recolhido alguns apontamentos, dados estatisticos, folhetos, relatorios, copias de contractos, tudo referente a materias industriaes, e lh'os mostrasse, Benedicto declarou-me que ia tambem colligir algumas cousas d'aquellas. E, na verdade, vi-o andar por ministerios, bancos, associações, pedindo muitas notas e opusculos, que amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi curto; era de emprestimo. Benedicto recolheu com muito mais gosto os anexins politicos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal d'elles. Nas conversas commigo repetia-os muita vez, á laia de experiencia; achava n'elles grande prestigio e valor inestimavel. Muitos eram de tradição ingleza, e elle os preferia aos outros, como trazendo em si um pouco da Camara dos Communs. Saboreava-os tanto que eu não sei se elle acceitaria jámais a liberdade real sem aquelle apparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas fórmas curtas, tão commodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomaticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vasios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.
Regressámos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde a Londres, d'onde vim ao Rio de Janeiro, um anno depois. Já então Benedicto era deputado. Fui visital-o; achei-o preparando o discurso de estréa. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatorios, livros de economia politica, alguns com paginas marcadas, por meio de tiras de papel rubricadas assim:--_Cambio_, _Taxa das terras_, _Questão dos cereaes em Inglaterra_, _Opinião de Stuart Mill_, _Erro de Thiers sobre caminhos de ferro_, etc. Era sincero, minucioso e callido. Falava-me d'aquellas cousas, como se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha a peito mostrar aos homens praticos da Camara que tambem elle era pratico. Em seguida, perguntou-me pela empreza; disse-lhe o que havia.
--Dentro de dous annos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.
--E os capitalistas inglezes?
--Que têm?
--Estão contentes, esperançados?
--Muito; não imagina.
Contei-lhe algumas particularidades technicas, que elle ouviu distrahidamente,--ou porque a minha narração fosse em extremo complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava ver-me entregue ao movimento industrial; era d'elle que precisavamos, e a este proposito fez-me o favor de ler o exordio do discurso que devia proferir d'alli a dias.
--Está ainda em borrão, explicou-me; mas as idéas capitaes ficam. E começou: «No meio da agitação crescente dos espiritos, do alarido partidario que encobre as vozes dos legitimos interesses, permitti que alguem faça ouvir uma supplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar, exclusivamente,--notae que digo exclusivamente,--dos melhoramentos materiaes do paiz. Não desconheço o que se me póde replicar; dir-me-heis que uma nação não se compõe só de estomago para digerir, mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que tudo isso não valerá nada ou pouco, se ella não tiver pernas para caminhar; e aqui repetirei o que, ha alguns annos, _dizia eu_ a um amigo, em viagem pelo interior: o Brazil é uma creança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro...»
Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei assombrado, desvairado deante do abysmo que a psychologia rasgava aos meus pés. Este homem é sincero, pensei commigo, está persuadido do que escreveu. E fui por ahi abaixo até ver se achava a explicação dos tramites por que passou aquella recordação da diligencia de Vassouras. Achei (perdôem-me se ha n'isto infatuação), achei alli mais um effeito da lei da evolução, tal como a definiu Spencer,--Spencer ou Benedicto, um d'elles.
Pylades e Orestes
Quintanilha engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os dous juntos, não que se parecessem. Ao contrario, Quintanilha tinha o rosto redondo, Gonçalves comprido, o primeiro era baixo e moreno, o segundo alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente. Accresce que eram quasi da mesma edade. A idéa da paternidade nascia das maneiras com que o primeiro tratava o segundo; um pae não se desfaria mais em carinhos, cautellas e pensamentos.
Tinham estudado juntos, morado juntos, e eram bachareis do mesmo anno. Quintanilha não seguiu advocacia nem magistratura, metteu-se na politica; mas, eleito deputado provincial em 187... cumpriu o prazo da legislatura e abandonou a carreira. Herdára os bens de um tio, que lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis. Veiu para o seu Gonçalves, que advogava no Rio de Janeiro.
Posto que abastado, moço, amigo do seu unico amigo, não se póde dizer que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vaes ver. Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a herança com o odio dos parentes; tal odio foi que elle esteve prestes a abrir mão d'ella, e não o fez porque o amigo Gonçalves, que lhe dava idéas e conselhos, o convenceu de que similhante acto seria rematada loucura.
--Que culpa tem você que merecesse mais a seu tio que os outros parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o defunto, como os outros. Se elle deixou tudo a você, é que o achou melhor que elles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do morto, e não seja tolo.
Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram reconciliar-se com elle, mas o amigo mostrou-lhe a intenção recondita dos taes, e Quintanilha não lhes abriu a porta. Um d'esses, ao vê-lo ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:
-- Ahi está, deixa os parentes para se metter com extranhos; ha de ver o fim que leva.
Ao saber d'isto, Quintanilha correu a contal-o a Gonçalves, indignado. Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o animo; não valia a pena irritar-se por ditinhos.
-- Uma só cousa desejo, continuou, é que nos separemos, para que se não diga...
--Que se não diga o quê? É boa! Tinha que vêr, se eu passava a escolher as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem vergonha!
-- Não fale assim, Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes.
-- Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas que me fôrem designadas por meia duzia de velhacos que o que querem é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo o que você quizer, menos isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é o meu coração. Ou você está... está aborrecido de mim?
-- Eu? Tinha graça.
-- Pois então?
-- Mas é...
-- Não é tal!
A vida que viviam os dous, era a mais unida d'este mundo. Quintanilha accordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com elle. Jantavam juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no theatro. Se Gonçalves tinha algum trabalho que fazer á noite, Quintanilha ia ajudal-o como obrigação; dava busca aos textos de lei, marcava-os, copiava-os, carregava os livros. Gonçalves esquecia com facilidade, ora um recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papeis. Quintanilha suppria-lhe a memoria. Ás vezes, na rua do Ouvidor, vendo passar as moças, Gonçalves lembrava-se de uns autos que deixára no escriptorio. Quintanilha voava a buscal-os e tornava com elles, tão contente que não se podia saber se eram autos, se a sorte grande; procurava-o anciosamente com os olhos, corria, sorria, morria de fadiga.
-- São estes?
-- São; deixa ver, são estes mesmos. Dá cá.
-- Deixa, eu levo.
A principio, Gonçalves suspirava:
--Que massada que dei a você!
Quintanilha ria do suspiro com tão bom humor que o outro, para não o molestar, não se accusou de mais nada; concordou em receber os obsequios. Com o tempo, os obsequios ficaram sendo puro officio. Gonçalves dizia ao outro: «Você hoje ha de lembrar-me isto e aquillo.» E o outro decorava as recommendações, ou escrevia-as, se eram muitas. Algumas dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha suspirava afflicto, á espera que chegasse tal ou tal hora para ter o gosto de lembrar os negocios ao amigo. E levava-lhe as cartas e papeis, ia buscar as respostas, procurar as pessoas, esperal-as na estrada de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo descobria-lhe bons charutos, bons jantares, bons espectaculos. Gonçalves já não tinha liberdade de falar de um livro novo, ou sómente caro, que não achasse um exemplar em casa.
-- Você é um perdulario, dizia-lhe em tom reprehensivo.