Part 5
--Pois não se mate por ora; espere.
No dia seguinte vi nos jornaes uma lista de cidadãos que, na vespera, tinham ido ao quartel-general apresentar-se como voluntarios da patria, e nella o nome de X..., com o posto de capitão. Não acreditei logo; mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia referencias á familia de X..., ao pae, que fôra official de marinha, e á figura esbelta e varonil do novo capitão; era elle mesmo.
A minha primeira impressão foi de prazer; iamos ficar sós. Ella não iria de vivandeira para o Sul. Depois, lembrou-me o que elle me disse ácerca da guerra, e achei extranho o seu alistamento de voluntario, ainda que o amor dos actos generosos e a nota cavalheiresca do espirito de X... pudessem explical-o. Nem de coronel iria, disse-me, e agora acceitava o posto de capitão. Emfim, Maria; como é que elle, que tanto lhe queria, ia separar-se della repentinamente, sem paixão forte que o levasse á guerra?
Havia tres semanas que eu não ia á casa delles. A noticia do alistamento justificava a minha visita immediata e dispensava-me de explicações. Almocei e fui. Compuz um rosto ajustado á situação e entrei. X... veiu á sala, depois de alguns minutos de espera. A cara desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquella era fechada e torva, além de pallida. Estendeu-me a mão, dizendo:
--Então, vem ver o capitão de voluntarios?
--Venho ouvir o desmentido.
--Que desmentido? É pura verdade. Não sei como isto foi, creio que as ultimas noticias... Você porque não vem commigo?
--Mas então é verdade?
--É
Após alguns instantes de silencio, meio sincero, por não saber realmente que dissesse, meio calculado, para persuadil-o da minha consternação, murmurei que era melhor não ir, e falei-lhe na mãe. X... respondeu-me que a mãe approvava; era viuva de militar. Fazia esforços para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam desviar-se, e geralmente não fitavam bem nem longo. Não conversámos muito; elle ergueu-se, allegando que ia liquidar um negocio, e pediu-me que voltasse a vel-o. Á porta, disse-me com algum esforço:
--Venha jantar um dia destes, antes da minha partida.
--Sim.
--Olhe, venha jantar amanhã.
--Amanhã?
--Ou hoje, se quizer.
--Amanhã.
Quiz deixar lembranças a Maria; era natural e necessario, mas faltou-me o animo. Embaixo arrependi-me de o não ter feito. Recapitulei a conversação, achei-me atado e incerto; elle pareceu-me, além de frio, sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O seu aperto de mão tanto á entrada, como á saida, não me déra a sensação do costume.
Na noite desse dia, Barreto veiu ter commigo, atordoado com a noticia da manhã, e perguntando-me o que sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe a minha visita da manhã, a nossa conversação, sem as minhas suspeitas.
--Póde ser engano, disse elle, depois de um instante.
--Engano?
--Raymunda contou-me hoje que falára a Maria, que esta negára tudo a principio, depois confessára, e recusára reatar as relações com você.
--Já sei.
--Sim, mas parece que da terceira vez foram presentidas e ouvidas por elle, que estava na saleta ao pé. Maria correu a contar a Raymunda que elle mudára inteiramente; esta dispoz-se a sondal-o, eu oppuz-me, até que li a noticia nos jornaes. Vi-o na rua, andando: não tinha aquelle gesto sereno de costume, mas o passo era forte.
Fiquei aturdido com a noticia, que confirmava a minha impressão. Nem por isso deixei de ir lá jantar no dia seguinte. Barreto quiz ir tambem; percebi que era com o fim unico de estar commigo, e recusei.
X... não dissera nada a Maria; achei-os na sala, e não me lembro de outra situação na vida em que me sentisse mais extranho a mim mesmo. Apertei-lhes a mão, sem olhar para ella. Creio que ella tambem desviou os olhos. Elle é que, com certeza, não nos observou; riscava um phosphoro e accendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente que poude, ainda que frio. O rosto exprimia maior esforço que na vespera. Para explicar a possivel alteração, disse-me que embarcaria no fim da semana, e que, á proporção que a hora ia chegando, sentia difficuldade em sair.
--Mas é só até fóra da barra; lá fóra torno a ser o que sou, e, na campanha, serei o que devo ser.
Usava dessas palavras rigidas, alguma vez emphaticas. Notei que Maria trazia os olhos pisados; soube depois que chorára muito e tivera grande luta com elle, na vespera, para que não embarcasse. Só conhecêra a resolução pelos jornaes, prova de alguma cousa mais particular que o patriotismo. Não falou á mesa, e a dôr podia explicar o silencio, sem nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrario, X... procurava falar muito, contava os batalhões, os officiaes novos, as probabilidades de victoria, e referia anecdotas e boatos, sem curar de ligação. Ás vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente voltaria general, mas ficou tão carrancudo depois deste gracejo, que não tentou outro. O jantar acabou frio; fumámos, elle ainda quiz falar da guerra, mas o assumpto estava exhausto. Antes de sair, convidei-o a ir jantar commigo.
--Não posso; todos os meus dias estão tomados.
--Venha almoçar.
--Tambem não posso. Faço uma cousa; na volta do Paraguay, o terceiro dia é seu.
Creio ainda hoje que o fim desta ultima phrase era indicar que os dous primeiros dias seriam da mãe e de Maria; assim, qualquer suspeita que eu tivesse dos motivos secretos da resolução, devia dissipar-se. Nem bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembrança, um livro, por exemplo. Preferi o seu ultimo retrato, photographado a pedido da mãe, com a farda de capitão de voluntarios. Por dissimulação, quiz que assignasse; elle promptamente escreveu: «Ao seu leal amigo Simão de Castro offerece o capitão de voluntarios da patria X...» O marmore do rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode, com um gesto convulso, e despedimo-nos.
No sabbado embarcou. Deixou a Maria os recursos necessarios para viver aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ella preferiu o Rio Grande, e partiu para lá, trez semanas depois, a esperar que elle voltasse da guerra. Não a pude ver antes; fechára-me a porta, como já me havia fechado o rosto e o coração.
Antes de um anno, soube-se que elle morrêra em combate, no qual se houve com mais denodo que pericia. Ouvi contar que primeiro perdêra um braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta versão podia ser exacta, porque elle tinha desvanecimento das bellas fórmas; mas a causa foi complexa. Tambem me contaram que Maria, voltando do Rio Grande, morreu em Curytiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéo. A filha não passou dos quinze annos.
Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos; agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o que elle praticou. Nem effectivamente conheci ninguem que se parecesse com X... E porque teimar nesta letra? Chamemol-o pelo nome que lhe deram na pia, Emilio, o meigo, o forte, o simples Emilio.
Suje-se gordo!
Uma noite, ha muitos annos, passeava eu com um amigo no terraço do theatro de S. Pedro de Alcantara. Era entre o segundo e o terceiro acto da peça _A sentença ou o tribunal do jury_. Só me ficou o titulo, e foi justamente o titulo que nos levou a falar da instituição e de um facto que nunca mais me esqueceu.
Fui sempre contrario ao jury,--disse-me aquelle amigo,--não pela instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condemnar alguem, e por aquelle preceito do Evangelho: «Não queiraes julgar para que não sejais julgados.» Não obstante, servi duas vezes. O tribunal era então no antigo Aljube, fim da rua dos Ourives, principio da ladeira da Conceição.
Tal era o meu escrupulo que, salvo dous, absolvi todos os réos. Com effeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos eram muito mal feitos. O primeiro réo que condemnei, era um moço limpo, accusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes pequena, com falsificação de um papel. Não negou o facto, nem podia fazel-o, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do crime. Alguem, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem emphase, triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal pallidez que mettia pena; o promotor publico achou nessa mesma côr do gesto a confissão do crime. Ao contrario, o defensor mostrou que o abatimento e a pallidez significavam a lastima da innocencia calumniada.
Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia odio, e não era. A defeza, além do talento do advogado, tinha a circumstancia de ser a estréa delle na tribuna. Parentes, collegas e amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi admiravel, e teria salvo o réo, se elle pudesse ser salvo, mas o crime mettia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous annos depois, em 1865. Quem sabe o que se perdeu nelle! Eu, acredite, quando vejo morrer um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do conselho, que era eu.
Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse tambem calado, confesso. Contarei depressa; o terceiro acto não tarda.
Um dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ninguem convencido do delicto e do delinquente. O processo foi examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas (onze votos contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os votos assegurassem a condemnação, ficou satisfeito, disse que seria um acto de fraqueza, ou cousa peior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos jurados, certamente o que votára pela negativa,--proferiu algumas palavras de defeza do moço. O ruivo,--chamava-se Lopes,--replicou com aborrecimento:
--Como, senhor? Mas o crime do réo está mais que provado.
--Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram commigo.
--Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réo nega, mas o certo é que elle commetteu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma miseria, duzentos mil reis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!
«Suje-se gordo!» Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que entendesse a phrase, ao contrario; nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati á porta, abriram-nos, fui á mesa do juiz, dei as respostas do conselho e o réu saiu condemnado. O advogado appellou; se a sentença foi confirmada ou a appellação acceita, não sei; perdi o negocio de vista.
Quando sai do tribunal, vim pensando na phrase do Lopes, e pareceu-me entendel-a. «Suje-se gordo!» era como se dissesse que o condemnado era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei esta explicação na esquina da rua de S. Pedro; vinha ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornaes os nossos nomes, dei com o nome todo delle; não valia a pena procural-o, nem me ficou de cór. Assim são as paginas da vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e accrescentava que as paginas vão passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas não me lembra a fórma dos versos.
Em prosa disse-me elle, muito tempo depois, que eu não devia faltar ao jury, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não compareceria, e citei o preceito evangelico; elle teimou, dizendo ser um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguem que se prezasse podia negar ao seu paiz. Fui e julguei tres processos.
Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, accusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornaes deram sem grande minucia, e aliás eu lia pouco as noticias de crimes. O accusado appareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réos. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu collega daquelle julgamento de annos antes. Não poderia reconhecel-o logo por estar agora magro, mas era a mesma côr dos cabellos e das barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.
--Como se chama? perguntou o presidente.
--Antonio do Carmo Ribeiro Lopes.
Já me não lembravam os tres primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros signaes vieram confirmando as reminiscencias; não me tardou reconhecer a pessoa exacta daquelle dia remoto. Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circumstancias me impediram de acompanhar attentamente o interrogatorio, e muitas cousas me escaparam. Quando me dispuz a ouvil-o bem, estava quasi no fim. Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem anciedade; não sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.
Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de reis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por já ser tarde; a orchestra está afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou muito, o inquerito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e uma serie de circumstancias aggravantes; por fim o depoimento das testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tambem elle ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o tecto e as pessoas que o iam julgar; entre ellas eu. Quando olhou para mim, não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.
Todos esses gestos do homem serviram á accusação e á defeza, tal como serviram, tempos antes, os gestos contrarios do outro accusado. O promotor achou nelles a revelação clara do cynismo, o advogado mostrou que só a innocencia e a certeza da absolvição podiam trazer aquella paz de espirito.
Emquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar alli, no mesmo banco do outro, este homem que votára a condemnação delle, e naturalmente repeti commigo o texto evangelico: «Não queiraes julgar, para que não sejaes julgados.» Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a commetter algum desvio de dinheiro, mas podia, em occasião de raiva, matar alguem ou ser calumniado de desfalque. Aquelle que julgava outr'ora, era agora julgado tambem.
Ao pé da palavra biblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: «Suje-se gordo!» Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança. Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, até áquellas palavras: «Suje-se gordo!» Vi que não era um ladrão réles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a acção: «Suje-se gordo!» Queria dizer que o homem não se devia levar a um acto daquella especie sem a grossura da somma. A ninguem cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!
Idéas e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos á sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em particular que votei affirmativamente, tão certo me pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram commigo dous jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida, e o accusado saiu para a rua. A differença da votação era tamanha que cheguei a duvidar commigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora mesmo sinto uns repellões de consciencia. Felizmente, se o Lopes não commetteu devéras o crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta consideração acaba por me consolar do erro, mas os repellões voltam. O melhor de tudo é não julgar ninguem para não vir a ser julgado. Suje-se gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não julgar ninguem... Acabou a musica, vamos para as nossas cadeiras.
Umas férias
Vieram dizer ao mestre-escola que alguem lhe queria falar.
--Quem é?
--Diz que meu senhor não o conhece, respondeu o preto.
--Que entre.
Houve um movimento geral de cabeças na direcção da porta do corredor, por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Eramos não sei quantos meninos na escola. Não tardou que apparecesse uma figura rude, tez queimada, cabellos compridos, sem signal de pente, a roupa amarrotada, não me lembra bem a côr nem a fazenda, mas provavelmente era brim pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais que ninguem, porque elle era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba. Chamava-se tio Zéca.
Tio Zéca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre fêl-o sentar, olhou para mim, e creio que lhe perguntou alguma cousa, porque tio Zéca entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, elle respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:
--Sr. José Martins, póde sair.
A minha sensação de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez annos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Um chamado de casa, o proprio tio, irmão de meu pae, que chegára na vespera de Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer cousa. Corri a buscar o chapéo, metti o livro de leitura no bolso e desci as escadas da escola, um sobradinho da rua do Senado. No corredor beijei a mão a tio Zéca. Na rua fui andando ao pé delle, amiudando os passos, e levantando a cara. Elle não me dizia nada, eu não me atrevia a nenhuma pergunta. Pouco depois chegavamos ao collegio de minha irmã Felicia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os tres caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia festa em casa, pois que iamos os dous, ella e eu; iamos na frente, trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez annos de tio Zéca. Voltei a cara para elle; vinha com os olhos no chão, provavelmente para não cair.
Fomos andando. Felicia era mais velha que eu um anno. Calçava sapato raso, atado ao peito do pé por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima do tornozello com laço. Eu, botins de cordavão, já gastos. As calcinhas della pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra vez paravamos, ella para admirar as bonecas á porta dos armarinhos, eu para ver, á porta das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não cança em tal edade. Tio Zéca é que nos tirava do espectaculo industrial ou natural. Andem, dizia elle em voz sumida. E nós andavamos, até que outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era a festa que nos esperava em casa.
--Não creio que sejam annos de tio Zéca, disse-me Felicia.
--Porqué?
--Parece meio triste.
--Triste, não, parece carrancudo.
--Ou carrancudo. Quem faz annos tem a cara alegre.
--Então serão annos de meu padrinho...
--Ou de minha madrinha...
--Mas porque é que mamãe nos mandou para a escola?
--Talvez não soubesse.
--Ha de haver jantar grande...
--Com doce...
--Talvez dancemos.
Fizemos um accordo: podia ser festa, sem anniversario de ninguem. A sorte grande, por exemplo. Occorreu-me tambem que podiam ser eleições. Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu não soubesse bem o que era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em victoria proxima que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o dia era sexta-feira. Imaginei bandas de musica, vivas e palmas, e nós, meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espectaculo á noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao theatro, e voltei dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente que morria por lá tornar, posto não houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita cousa, isso sim, cadeiras ricas, thronos, lanças compridas, scenas que mudavam á vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma rua. Depois, os personagens, todos principes. Era assim que chamavamos aos que vestiam calção de seda, sapato de fivella ou botas, espada, capa de velludo, gorra com pluma. Tambem houve bailado. As bailarinas e os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um sorriso constante na boca. Depois os gritos do publico e as palmas...
Já duas vezes escrevi palmas; é que as conhecia bem. Felicia, a quem communiquei a possibilidade do espectaculo, não me pareceu gostar muito, mas tambem não recusou nada. Iria ao theatro. E quem sabe se não seria em casa, theatrinho de bonecos? Iamos nessas conjecturas, quando tio Zéca nos disse que esperassemos; tinha parado a conversar com um sujeito.
Parámos, á espera. A idéa da festa, qualquer que fosse, continuou a agitar-nos, mais a mim que a ella. Imaginei trinta mil cousas, sem acabar nenhuma, tão precipitadas vinham, e tão confusas que não as distinguia; póde ser até que se repetissem. Felicia chamou a minha attenção para dous moleques de carapuça encarnada, que passavam carregando cannas,--o que nos lembrou as noites de Santo Antonio e S. João, já lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso quintal, das bichas que queimámos, das rodinhas, das pistolas e das danças com outros meninos. Se houvesse agora a mesma cousa... Ah! lembrou-me que era occasião de deitar á fogueira o livro da escola, e o della tambem, com os pontos de costura que estava aprendendo.
--Isso não, acudiu Felicia.
--Eu queimava o meu livro.
--Papae comprava outro.
--Emquanto comprasse, eu ficava brincando em casa; aprender é muito aborrecido.
Nisto estavamos, quando vimos tio Zéca e o desconhecido ao pé de nós. O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos a cara para elle, fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se.
--Nove horas? Lá estarei, disse elle.
--Vamos, disse-nos tio Zéca.
Quiz perguntar-lhe quem era aquelle homem, e até me pareceu conhecel-o vagamente. Felicia tambem. Nenhum de nós acertava com a pessoa; mas a promessa de lá estar ás nove horas dominou o resto. Era festa, algum baile, comquanto ás nove horas costumassemos ir para a cama. Naturalmente, por excepção, estariamos accordados. Como chegassemos a um rego de lama, peguei da mão de Felicia, e transpuzemol-o de um salto, tão violento que quasi me caiu o livro. Olhei para tio Zéca, a ver o effeito do gesto; viu-o abanar a cabeça com reprovação. Ri, ella sorriu, e fomos pela calçada adeante.
Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dous era mulher. Vinham da roça. Tio Zéca foi ter com elles ao meio da rua, depois de dizer que esperassemos. Os animaes pararam, creio que de si mesmos, por tambem conhecerem a tio Zéca, idéa que Felicia reprovou com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convicção; tudo era folgar. Fosse como fosse, esperámos os dous, examinando o casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e tambem mais moça; elle tinha os cabellos grisalhos. Não ouvimos o que disseram, elle e tio Zéca; vimol-o, sim, o marido olhar para nós com ar de curiosidade, e falar á mulher, que tambem nos deitou os olhos, agora com pena ou cousa parecida. Emfim apartaram-se, tio Zéca veiu ter comnosco e enfiámos para casa.