Part 4
O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam contar-lhe a marcha da molestia. Quiz ser o primeiro a annunciar o desenlace, um alegrão, com um abraço apertado. Emfim, morrêra o patife. Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou vinham a dar nelles, accrescendo que não attribuiu esse unico objecto á visita. Vinha passar a noite; só alli soube que Cordovil fôra ao Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e exclamou a meia voz:
--Coitado! Vivam as mortes subitas!
Florindo, se referisse o gesto e a phrase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse arrepender da cançeira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor a preparar-se para dormir, ouviu as ultimas ordens e despediu-se. Cordovil deitou-se.
--Ah! suspirou elle estirando o corpo cançado.
Teve então uma idéa, a de amanhecer morto. Esta hypothese, a melhor de todas, porque o apanharia meio morto, trouxe comsigo mil phantasias que lhe arredaram o somno dos olhos. Em parte, era a repetição das outras, a participação á Camara, as palavras do presidente, commissão para o sahimento, e o resto. Ouviu lastimas de amigos e de famulos, viu noticias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, á cama, a si mesmo: estava accordado.
A lamparina deu melhor corpo á realidade. Cordovil espancou as idéas funebres e esperou que as alegres tomassem conta delle e dançassem até cançal-o. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memoria de todos elles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente extinctos. Gestos, scenas de sociedade e de familia, panoramas, repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixára de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastigal-os. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, cantos joviaes e tristes, e palavras de todos os feitios. O tacto, o olfacto, todos fizeram o seu officio, durante um prazo que elle não calculou.
Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não poude, nem do lado direito, nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relogio; eram tres horas. Insensivelmente levou-o á orelha a ver se estava parado; estava andando, déra-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um bom somno; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz.
Ah! foi então que o somno tentou entrar, calado e surdo, todo cautellas, como seria a morte, se quizesse leval-o de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a força accentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e fez bem. O somno, que ia a recuar, tornou atraz, e veiu estirar-se ao lado delle, passando-lhe aquelles braços leves e pesados, a um tempo, que tiram á pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quiz conchegal-os ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra á mão nem tempo de ir buscal-a. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o somno de si, tão aborrecido ficou este reformador de cançados.
--Que terá elle hoje contra mim? perguntaria o somno, se falasse.
Tu sabes que elle é mudo por essencia. Quando parece que fala é o sonho que abre a boca á pessoa; elle não, elle é a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha rua. Cada pancada accorda na pedra um som, e a regularidade do gesto torna aquelle som tão pontual que parece a alma de um relogio. Vozes de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janella batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua e a noite de Cordovil. Tudo era propicio ao somno.
Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéa de amanhecer morto appareceu outra vez. O somno recuou e fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o somno ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança da morte os abria, até que elle sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu uma janella e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janella. Parece que era frio, porque não sentia mais nada.
A gente continuava a passar, o céu a clarear, e um assobio da estrada de ferro deu signal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do descanço; o céu fazia economia de estrellas, apagando-as, á medida que o sol ia chegando para o seu officio. Tudo dava idéa de vida. Naturalmente a idéa da morte foi recuando e desappareceu de todo, emquanto o nosso homem, que suspirou por ella no Cassino, que a desejou para o dia seguinte na Camara dos deputados, que a encarou no carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o somno, seu irmão mais velho,--ou mais moço, não sei.
Quando veiu a fallecer, muitos annos depois, pediu e teve a morte, não subita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sae impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o cemiterio. Agora é que lhe via a philosophia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a segunda. Morte subita não acabava de entender o que era.
Um capitão de voluntarios
Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclamação da Republica, Simão de Castro fez inventario das cartas e apontamentos; rasgou tudo. Só lhe ficou a narração que ides ler; entregou-a a um amigo para imprimil-a quando elle estivesse barra fóra. O amigo não cumpriu a recommendação por achar na historia alguma cousa que podia ser penosa, e assim lh'o disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que quizesse; não tendo vaidades literarias, pouco se lhe dava de vir ou não a publico. Agora que os dous falleceram, e não ha egual escrupulo, dá-se o manuscripto ao prelo.
* * * * *
Eramos dous, ellas duas. Os dous iamos alli por visita, costume, desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, elle meu amigo. Às tardes, sobre o jantar,--jantava-se cedo em 1866,--ia alli fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janella, donde se via um morro com casas em cima. A janella opposta dava para o mar. Não digo a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro. Occultarei o nome do meu amigo; ponhamos uma letra, X... Ella, uma dellas, chamava-se Maria.
Quando eu entrava, já elle estava na cadeira de balanço. Os moveis da sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X... estendia-me a mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da janella, olho na sala, olho na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro. Eramos nada um para o outro; ligava-nos unicamente a affeição de X... Conversavamos; eu saía para casa ou ia passear, elles ficavam e iam dormir. Algumas vezes jogavamos cartas, ás noites, e, para o fim do tempo, era alli que eu passava a maior parte destas.
Tudo em X... me dominava. A figura primeiro. Elle robusto, eu franzino; a minha graça feminina, debil, desapparecia ao pé do garbo varonil delle, dos seus hombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o pé solido que, andando, batia rijo no chão. Dae-me um bigode escasso e fino; vêde nelle as suissas longas, espessas e encaracoladas, e um dos seus gestos habituaes, pensando ou escutando, era passar os dedos por ellas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só por serem grandes e bellos, mas por que riam mais e melhor que a boca. Depois da figura, a edade; X... era homem de quarenta annos, eu não passava dos vinte e quatro. Depois da edade, a vida; elle vivêra muito, em outro meio, donde saíra a encafuar-se naquella casa, com aquella senhora; eu não vivêra nada nem com pessoa alguma. Emfim,--e este rasgo é capital,--havia nelle uma fibra castelhana, uma gotta do sangue que circula nas paginas de Calderon, uma attitude moral que posso comparar, sem depressão nem riso, á do heróe de Cervantes.
Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava já vinte e sete annos, e parecia haver recebido alguma educação. Ouvi que o primeiro encontro fôra em um baile de mascaras, no antigo Theatro Provisorio. Ella trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro. Tinha os pés admiraveis, e foram elles ou o seu destino a causa do amor de X... Nunca lhe perguntei a origem da alliança; sei só que ella tinha uma filha, que estava no collegio e não vinha á casa; a mãe é que ia vê-la. Verdadeiramente as nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao ponto de acceitar a situação sem a examinar.
Quando comecei a ir alli, não tinha ainda o emprego no banco. Só dous ou tres mezes depois é que entrei para este, e não interrompi as relações. Maria tocava piano; ás vezes, ella e a amiga Raymunda conseguiam arrastar X... ao theatro; eu ia com elles. No fim, tomavamos chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabavamos a noite indo de carro a Botafogo.
A estas festas não ia Barreto, que só mais tarde começou a frequentar a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite, como saissemos de lá, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e convidou-me a namoral-as.
--Tu escolhes uma, Simão, eu outra.
Estremecei e parei.
--Ou antes, eu já escolhi, continuou elle; escolhi a Raymunda. Gosto muito da Raymunda. Tu, escolhe a outra.
--A Maria?
--Pois que outra ha de ser.
O alvoroço que me deu este tentador foi tal que não achei palavra de recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necessario. Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tres annos, mas tinha a edade conveniente para ensinar-me a amar. Está dito, Maria. Deitámo-nos ás duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto não tinha que vencer muito; a eleita delle não trazia amores, mas até pouco antes padecêra de uns que rompêra contra a vontade, indo o amante casar com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia, estando eu a almoçar, veiu annunciar-me que recebêra uma carta della, e mostrou-m'a.
--Estão entendidos?
--Estamos. E vocês?
--Eu não.
--Então quando?
--Deixa ver; eu te digo.
Naquelle dia fiquei meio vexado. Com effeito, apezar da melhor vontade deste mundo, não me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. Não supponhas que era nenhuma paixão. Não tinha paixão, mas curiosidade. Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de uma força nova e mysteriosa; mas, por um lado, não amára nunca, e, por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para explicar escrupulos, mas unicamente para fazer comprehender o meu acanhamento. Viviam juntos desde alguns annos, um para o outro. X... tinha confiança em mim, confiança absoluta, communicava-me os seus negocios, contava-me cousas da vida passada. Apezar da desproporção da edade, eramos como estudantes do mesmo anno.
Como entrasse a pensar mais constantemente em Maria, é provavel que por algum gesto lhe houvesse descoberto o meu recente estado; certo é que, um dia, ao apertar-lhe a mão, senti que os dedos della se demoravam mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio, encontrei-a sellando uma carta para a Bahia. Ainda não disse que era bahiana? Era bahiana. Ella é que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pôr o sello e despedimo-nos. Á porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante nós, parada, a figura de X...
--Vim trazer a carta para mamãe, apressou-se ella em dizer.
Despediu-se de nós e foi para casa; elle e eu tomámos outro rumo. X... aproveitou a occasião para fazer muitos elogios de Maria. Sem entrar em minudencias ácerca da origem das relações, assegurou-me que fôra uma grande paixão egual em ambos, e concluiu que tinha a vida feita.
--Já agora não me caso; vivo maritalmente com ella, morrerei com ella. Tenho só uma pena; é ser obrigado a viver separado de minha mãe. Minha mãe sabe, disse-me elle parando. E continuou andando: sabe, e até já me fez uma allusão muito vaga e remota, mas que eu percebi. Consta-me que não desapprova; sabe que Maria é séria e boa, e uma vez que eu seja feliz, não exige mais nada. O casamento não me daria mais que isto....
Disse muitas outras cousas, que eu fui ouvindo sem saber de mim; o coração batia-me rijo, e as pernas andavam frouxas. Não atinava com resposta idonea; alguma palavra que soltava, saia-me engasgada. Ao cabo de algum tempo, elle notou o meu estado e interpretou-o erradamente; suppoz que as suas confidencias me aborreciam, e disse-m'o rindo. Contestei serio;
--Ao contrario, ouço com interesse, e trata-se de pessoa de toda a consideração e respeito.
Penso agora que cedia inconscientemente a uma necessidade de hypocrisia. A edade das paixões é confusa, e naquella situação não posso discernir bem os sentimentos e suas causas. Entretanto, não é fóra de proposito que buscasse dissipar no animo de X... qualquer possivel desconfiança. A verdade é que elle me ouviu agradecido. Os seus grandes olhos de creança envolveram-me todo, e quando nos despedimos, apertou-me a mão com energia. Creio até que lhe ouvi dizer: «Obrigado!»
Não me separei delle atterrado, nem ferido de remorsos previos. A primeira impressão da confidencia esvaiu-se, ficou só a confidencia, e senti crescer-me o alvoroço da curiosidade. X... falára-me de Maria como de pessoa casta e conjugal; nenhuma allusão ás suas prendas physicas, mas a minha edade dispensava qualquer referencia directa. Agora, na rua, via de cór a figura da moça, os seus gestos egualmente languidos e robustos, e cada vez me sentia mais fóra de mim. Em casa escrevi-lhe uma carta longa e diffusa, que rasguei meia hora depois, e fui jantar. Sobre o jantar fui á casa de X...
Eram ave-marias. Elle estava na cadeira de balanço, eu sentei-me no logar do costume, olho na sala, olho no morro. Maria appareceu tarde, depois das horas, e tão anojada que não tomou parte na conversação. Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e saiu da sala.
--Maria accordou hoje com a mania de colher donativos para a guerra, disse-me elle. Já lhe fiz notar que nem todos quererão parecer que... Você sabe... A posição della... Felizmente, a idéa ha de passar; tem dessas phantasias...
--E porque não?
--Ora, porque não! E depois, a guerra do Paraguay, não digo que não seja como todas as guerras, mas palavra, não me enthusiasma. A principio, sim, quando o Lopez tomou o _Marquez de Olinda_, fiquei indignado; logo depois perdi a impressão, e agora, francamente, acho que tinhamos feito muito melhor se nos alliassemos ao Lopez contra os argentinos.
--Eu não. Prefiro os argentinos.
--Tambem gosto delles, mas, no interesse da nossa gente, era melhor ficar com o Lopez.
--Não; olhe, eu estive quasi a alistar-me como voluntario da patria.
--Eu, nem que me fizessem coronel, não me alistava.
Elle disse não sei que mais. Eu, como tinha a orelha afiada, á escuta dos pés de Maria, não respondi logo, nem claro, nem seguido; fui engrolando alguma palavra e sempre á escuta. Mas o diabo da moça não vinha; imaginei que estariam arrufados. Emfim, propuz cartas, podiamos jogar uma partida de voltarete.
--Podemos, disse elle.
Passámos ao gabinete. X... poz as cartas na mesa e foi chamar a amiga. Dalli ouvi algumas phrases sussurradas, mas só estas me chegaram claras:
--Vem! é só meia hora.
--Que massada! Estou doente.
Maria appareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era só meia hora; tinha dormido mal, doia-lhe a cabeça e contava deitar-se cedo. Sentou-se enfastiada, e começámos a partida. Eu arrependia-me de haver rasgado a carta; lembravam-me alguns trechos della, que diriam bem o meu estado, com o calor necessario a persuadil-a. Se a tenho conservado, entregava-lh'a agora; ella ia muita vez ao patamar da escada despedir-se de mim e fechar a cancella. Nessa occasião podia dar-lh'a; era uma solução da minha crise.
Ao cabo de alguns minutos, X... levantou-se para ir buscar tabaco de uma caixa de folha de Flandres, posta sobre a secretaria. Maria fez então um gesto que não sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas á altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava á esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e attracção, que não sei como não entrei por elles. Tudo foi rapido. Quando elle voltou fazendo um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque, fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tremulo; não obstante, calculava tambem, com a differença de não poder falar. Ella disse então com placidez uma das palavras do jogo, _passo_ ou _licença_.
Jogámos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente, e foi o proprio X... que lhe disse que era melhor ir descançar. Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapéo e a bengala. Maria, á porta da sala, esperava que eu saisse e acompanhou-me até á cancella, para fechal-a. Antes que eu descesse, lançou-me um dos braços ao pescoço, chegou-me a si, collou-me os labios nos labios, onde elles me depositaram um beijo grande, rapido e surdo. Na mão senti alguma cousa.
--Boa noite, disse Maria fechando a cancella.
Não sei como não caí. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos nos della, e a mão apertando instinctivamente um objecto. Cuidei de me pôr longe. Na primeira rua, corri a um lampião, para ver o que trazia. Era um cartão de loja de fazendas, um annuncio, com isto escripto nas costas, a lapis: «Espere-me amanhã, na ponte das barcas de Nietheroy, a uma hora da tarde.»
O meu alvoroço foi tamanho que durante os primeiros minutos não soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emoções eram demasiado grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu mal podia saber de mim. Andei até ao largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava perto, talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a despeito da commoção, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Principes. Não dormi antes da madrugada; ás seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei á ponte; já lá achei Maria, envolvida n'uma capa, e com um veu azul no rosto. Ia sair uma barca, entrámos nella.
O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia movimento de lanchas, de aves, e o ceu luminoso parecia cantar a nossa primeira entrevista. O que dissemos foi tão de atropello e confusão que não me ficou mais de meia duzia de palavras, e dellas nenhuma foi o nome de X... ou qualquer referencia a elle. Sentiamos ambos que trahiamos, eu o meu amigo, ella o seu amigo e protector. Mas, ainda que o não sentissemos, não é provavel que falassemos delle, tão pouco era o tempo para o nosso infinito. Maria appareceu-me então como nunca a vi nem suspeitára, falando de mim e de si, com a ternura possivel naquelle logar publico, mas toda a possivel, não menos. As nossas mãos collavam-se, os nossos olhos comiam-se, e os corações batiam provavelmente ao mesmo compasso rapido e rapido. Pelo menos foi a sensação com que me separei della, após a viagem redonda a Nictheroy e S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou; na volta, lembrei-lhe que nos mettessemos n'uma caleça fechada: «Que idéa faria de mim?» perguntou-me com um gesto de pudor que a transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu não deixaria de ir vel-os, á noite, como de costume.
Como eu não tomei da penna para narrar a minha felicidade, deixo a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e palavras, e mais os sonhos e esperanças, as infinitas saudades e os renascentes desejos. Taes aventuras são como os almanaks, que, com todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e mezes, com os seus eternos nomes e santos. O nosso almanak apenas durou um trimestre, sem quartos minguantes nem occasos de sol. Maria era um modelo de graças finas, toda vida, todo movimento. Era bahiana, como disse, fôra educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando lhe falei do seu primeiro encontro com X... no Theatro Provisorio, dançando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fôra alli vestida á castelhana e de mascara; e, como eu lhe pedisse a mesma cousa, menos a mascara, ou um simples lundú nosso, respondeu-me como quem recusa um perigo:
--Você poderia ficar doudo.
--Mas X... não ficou doudo.
--Ainda hoje não está em seu juizo, replicou Maria rindo. Imagina que eu fazia isto só...
E em pé, n'um meneio rapido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver o sangue.
O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquella casta. Maria faltou um dia á entrevista. Era tão pontual que fiquei tonto quando vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de um lado para outro, na sala, no corredor, á espreita e á escuta, até que de todo passou a possibilidade de vir. Poupo a noticia do meu desespero, o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando cancei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tambem, explicando a falta. Não mandei a carta, e á noite fui á casa delles.
Maria poude explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada por alguem que a perseguia desde algum tempo. Com effeito, havia-me já falado em não sei que vizinho que a cortejava com instancia; uma vez disse-me que elle a seguira até á porta da minha casa. Acreditei na razão, e propuz-lhe outro logar de encontro, mas não lhe pareceu conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas, até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não comprehendi então que a principal verdade era ter cessado nella o ardor dos primeiros dias. Maria era outra, principalmente outra. E não pódes imaginar o que vinha a ser essa bella creatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era mais quente e mais fria que ninguem.
Quando me entrou a convicção de que tudo estava acabado, resolvi não voltar lá, mas nem por isso perdia a esperança; era para mim questão de esforço. A imaginação, que torna presentes os dias passados, fazia-me crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao cabo de cinco dias, voltei: não podia viver sem ella.
X... recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a mão forte e sincera; perguntou a razão da minha ausencia. Alleguei uma febresinha, e, para explicar o enfadamento que eu não podia vencer, disse que ainda me doia a cabeça. Maria comprehendeu tudo; nem por isso se mostrou meiga ou compassiva, e, á minha saida, não foi até ao corredor, como de costume.
Tudo isto dobrou a minha angustia. A idéa de morrer entrou a passar-me pela cabeça; e, por uma symetria romantica, pensei em metter-me na barca de Nictheroy, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio da bahia, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem outro. Tendo encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacillei em lhe dizer tudo; precisava de alguem para falar commigo mesmo. No fim pedi-lhe segredo; devia pedir-lhe que especialmente não contasse nada a Raymunda. Nessa mesma noite ella soube tudo. Raymunda era um espirito aventureiro, amigo de entreprezas e novidades. Não se lhe dava, talvez, de mim nem da outra, mas viu naquillo um lance, uma occupação, e cuidou em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e é o que dá logar a este papel.
Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quiz negar a principio, acabou confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabeçada que déra. Usaria provavelmente de circumloquios e synonymos, phrases vagas e truncadas, alguma vez empregaria só gestos. O texto que ahi fica é o da propria Raymunda, que me mandou chamar á casa della e me referiu todos os seus esforços, contente de si mesma.
--Mas não perca as esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era capaz de matar-se.
--E sou.