Reliquias de Casa Velha

Part 3

Chapter 34,092 wordsPublic domain

Não me arrancou então mais nada, mas eu não pude deixar de lhe confiar os meus projectos, ainda que sem os seus motivos. Quando elle soube que aquelles eram alistar-me entre os voluntarios que combatiam a revolução, não poude crer em mim, e talvez desconfiasse que effectivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca da minha parte ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo. Entretanto, não perdeu tempo em despersuadir-me; pessoalmente era legalista e falava dos adversarios com odio e furor. Passado o espanto, acceitou o meu acto, tanto mais nobre quanto não era inspirado por sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bella e heroica, propria a levantar o animo de quem já tivesse tendencia para a luta. Eu não tinha nenhuma, fóra das razões particulares; estas, porém, eram agora maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de Maria Cora, dando-me noticias dellas, e recommendações da sobrinha, tudo com alguma generalidade e certa sympathia verdadeira.

Fui a Porto Alegre, alistei-me e marchei para a campanha. Não disse a meu respeito nada que pudesse despertar a curiosidade de ninguem, mas era difficil encobrir a minha condição, a minha origem, a minha viagem com o plano de ir combater a revolução. Fez-se logo uma lenda a meu respeito. Eu era um republicano antigo, riquissimo, enthusiasta, disposto a dar pela Republica mil vidas, se as tivesse, e resoluto a não poupar a unica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu indagasse das forças revolucionarias com que estaria João da Fonseca, alguem quiz ver nisto uma razão de odio pessoal; tambem não faltou quem me suppozesse espião dos rebeldes, que ia pôr-me em communicação secreta com aquelle. Pessoas que sabiam das relações delle com a Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que se queria vingar dos amores delle. Todas aquellas supposições morreram, para só ficar a do meu enthusiasmo politico; a da minha espionagem ia-me prejudicando; felizmente, não passou de duas cabeças e de uma noite.

Levava commigo um retrato de Maria Cora; alcançára-o della mesma, uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma pequena dedicatoria cerimoniosa. Já disse que estava em pleno romantismo; dado o primeiro passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntae a isto o amor proprio, e comprehendereis que de simples cidadão indifferente da capital saisse um guerreiro aspero da campanha rio-grandense.

Nem por isso conto combates, nem escrevo para falar da revolução, que não teve nada commigo, por si mesma, senão pela occasião que me dava, e por algum golpe que lhe desfechei na estreita área da minha acção. João da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte no combate de Sarandy e Coxilla Negra, ouvi que o marido de Maria Cora fôra morto, não sei em que recontro; mais tarde deram-me a noticia de estar com as forças de Gumercindo, e tambem que fôra feito prisioneiro e seguira, para Porto Alegre; mas ainda isto não era verdade. Disperso, com dois camaradas, encontrei um dia um regimento legal que ia em defeza da Encruzilhada, investida ultimamente por uma força dos federalistas; apresentei-me ao commandante e segui. Ahi soube que João da Fonseca estava entre essa força; deram-me todos os signaes delle, contaram-me a historia dos amores e a separação da mulher.

A idéa de matal-o no turbilhão de um combate tinha algo phantastico; nem eu sabia se taes duellos eram possiveis em semelhantes occasiões, quando a força de cada homem tem de sommar com a de toda uma força unica e obediente a uma só direcção. Tambem me pareceu, mais de uma vez, que ia commetter um crime pessoal, e a sensação que isto me dava, podeis crer que não era leve nem doce; mas a figura de Maria Cora abraçava-me e absolvia com uma benção de felicidades. Atirei-me de vez. Não conhecia João da Fonseca; além dos signaes que me haviam dado, tinha de memoria um retrato delle que vira no Engenho Velho; se as feições não estivessem mudadas, era provavel que eu o reconhecesse entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro possivel? Os combates em que eu entrára, já me faziam desconfiar que não era facil, ao menos.

Não foi facil nem breve. No combate da Encruzilhada creio que me houve com a necessaria intrepidez e disciplina, e devo aqui notar que eu me ia acostumando á vida da guerra civil. Os odios que ouvia, eram forças reaes. De um lado e outro batiam-se com ardor, e a paixão que eu sentia nos meus ia-se pegando em mim. Já lêra o meu nome em uma ordem do dia, e de viva voz recebêra louvores, que commigo não pude deixar de achar justos, e ainda agora taes os declaro. Mas vamos ao principal, que é acabar com isto.

Naquelle combate achei-me um tanto como o heróe de Stendhal na batalha de Waterloo; a differença é que o espaço foi menor. Por isso, e tambem porque não me quero deter em cousas de recordação facil, direi sómente que tive occasião de matar em pessoa a João da Fonseca. Verdade é que escapei de ser morto por elle. Ainda agora trago na testa a cicatriz que elle me deixou. O combate entre nós foi curto. Se não parecesse romanesco de mais, eu diria que João da Fonseca adivinhára o motivo e previra o resultado da acção.

Poucos minutos depois da luta pessoal, a um canto da villa, João da Fonseca caiu prostrado. Quiz ainda lutar, e certamente lutou um pouco; eu é que não consenti na desforra, que podia ser a minha derrota, se é que raciocinei; creio que não. Tudo o que fiz foi cego pelo sangue em que o deixára banhado, e surdo pelo clamor e tumulto de combate. Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficámos senhores do campo.

Quando vi que João da Fonseca morrêra devéras, voltei ao combate por instantes; a minha ebriedade cessára um pouco, e os motivos primarios tornaram a dominar-me, como se fossem unicos. A figura de Maria Cora appareceu-me como um sorriso de approvação e perdão; tudo foi rapido.

Haveis de ter lido que alli se apprehenderam tres ou quatro mulheres. Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado tudo, a Prazeres viu o cadaver do amante, fez uma scena que me encheu de odio e de inveja. Pegou em si e deitou-se a abraçal-o; as lagrimas que verteu, as palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se não enterneceram, deram algum sentimento de admiração. Eu, como digo, achei-me tomado de inveja e odio, mas tambem esse duplo sentimento desappareceu para não ficar nem admiração; acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dôr a morte do amante, ficou sendo a federalista que já era; não vestia farda, como dissera ao desafiar João da Fonseca, quiz ser prisioneira com os rebeldes e seguir com elles.

É claro que não deixei logo as forças, bati-me ainda algumas vezes, mas a razão principal dominou, e abri mão das armas. Durante o tempo em que estive alistado, só escrevi duas cartas a Maria Cora, uma pouco depois de encetar aquella vida nova,--outra depois do combate da Encruzilhada; nesta não lhe contei nada do marido, nem da morte, nem sequer que o vira. Unicamente annunciei que era provavel acabasse brevemente a guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor allusão aos meus sentimentos nem ao motivo do meu acto; entretanto, para quem soubesse delles, a carta era significativa. Maria Cora só respondeu á primeira das cartas, com serenidade, mas não com isenção. Percebia-se,--ou percebia-o eu,--que, não promettendo nada, tudo agradecia, e, quando menos, admirava. Gratidão e admiração podiam encaminhal-a ao amor.

Ainda não disse,--e não sei como diga este ponto,--que na Encruzilhada, depois da morte de João da Fonseca, tentei degolal-o; mas nem queria fazel-o nem realmente o fiz. O meu objecto era ainda outro e romanesco. Perdoa-me tu, realista sincero, ha nisto tambem um pouco de realidade, e foi o que pratiquei, de accôrdo com o estado da minha alma: o que fiz foi cortar-lhe um molho de cabellos. Era o recibo da morte que eu levaria á viuva.

VI

Quando voltei ao Rio de Janeiro, tinham já passado muitos mezes do combate da Encruzilhada. O meu nome figurou não só em partes officiaes como em telegrammas e correspondencias, por mais que eu buscasse esquivar-me ao ruido e desapparecer na sombra. Recebi cartas de felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro, note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um dia, sem ser esperado, metti-me na estrada de ferro e entrei na cidade. Fui para a casa de pensão do Cattete.

Não procurei logo Maria Cora. Pareceu-me até mais acertado que a noticia da minha vinda lhe chegasse pelos jornaes. Não tinha pessoa que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma redacção contar o meu regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo nome viesse em lista nas folhas publicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se alli que viera de S. Paulo e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com adjectivos de louvor; emfim, que voltava á mesma pensão do Cattete. Como eu só contára alguma cousa ao dono da casa, podia ser elle o autor das notas; disse-me que não. Entrei a receber visitas pessoaes. Todas queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada.

Entre os cartões, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras de boas vindas. Não era preciso mais; restava-me ir agradecer-lhes, e dispuz-me a isso; mas, no proprio dia em que resolvi ir ao Engenho Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se podem, o acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto ás minhas mãos. A sensação que ia ter diante della tolheu-me inteiramente. Sabendo-se qual foi o movel principal da minha acção militar, mal se comprehende aquella hesitação; mas, se considerardes que, por mais que me defendesse do marido e o matasse para não morrer, elle era sempre o marido, terás entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal, peguei em mim e fui á casa della.

Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a tia, as felicitações escriptas. Falámos da guerra civil, dos costumes do Rio Grande, um pouco de politica, e mais nada. Não se disse de João da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria disposta a casar conmigo.

--Não me parece que recuse, embora não lhe ache maneiras especiaes. Creio até que está menos affavel que d'antes... Terá mudado?

Pensei assim, vagamente. Attribui a alteração ao estado moral da viuvez; era natural. E continuei a frequental-a, disposto a deixar passar a primeira phase do luto para lhe pedir formalmente a mão. Não tinha que fazer declarações novas; ella sabia tudo. Continuou a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia tambem não, e da propria revolução não se falou mais. Pela minha parte, tornando á situação anterior, busquei não perder tempo, fiz-me pretendente com todas as maneiras do officio. Um dia, perguntei-lhe se pensava em tornar ao Rio Grande.

--Por ora, não.

--Mas irá?

--É possivel; não tenho plano nem prazo marcado; é possivel.

Eu, depois de algum silencio, durante o qual olhava interrogativamente para ella, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, não alteraria nada em sua vida.

--A minha vida está tão alterada...

Não me entendera; foi o que suppuz. Tratei de me explicar melhor, e escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a carta, dous dias depois, com estas palavras:

--Desta vez não recusará ler-me.

Não recusou, acceitou a carta. Foi á saida, á porta da sala. Creio até que lhe vi certa commoção de bom agouro. Não me respondeu por escripto, como esperei. Passados tres dias, estava tão ancioso que resolvi ir ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo: que me recusasse, que me acceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a ultima hypothese, se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido passar alguns dias na Tijuca. Sai de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria absolutamente casar; mas então era mais simples dizel-o ou escrevel-o. Esta consideração trouxe-me esperanças novas.

Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu a primeira carta, e eu lhe falei da minha paixão: «Supponha que eu o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.» Era claro que então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão decisiva para crer o contrario, embora a apparencia fosse um tanto fria. Ultimamente, entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por sympathia, e não sei se por gratidão tambem; tive alguns vestigios disso. Não obstante, não me deu resposta á segunda carta. Ao voltar da Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe falar na materia; a resposta foi que, por ora, estava disposta a não casar.

--Mas um dia...? perguntei depois de algum silencio.

--Estarei velha.

--Mas então... será muito tarde?

--Meu marido póde não estar morto.

Espantou-me esta objecção.

--Mas a senhora está de luto.

--Tal foi a noticia que li e me deram; póde não ser exacta. Tenho visto desmentir outras que se reputavam certas.

--Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso dal-a.

Maria Cora empallideceu. Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe contasse tudo, mas tudo. A situação era tão penosa para mim que não hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era intenção minha não lhe contar nada, como não contára a ninguem, ia fazel-o, unicamente para obedecer á intimação. E referi o combate, as suas phases todas, os riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ancia com que me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim, dominou-se, e perguntou-me:

--Jura que me não está enganando?

--Para que a enganar? O que tenho feito é bastante para provar que sou sincero. Amanhã, trago-lhe outra prova, se é preciso mais alguma.

Levei-lhe os cabellos que cortára ao cadaver. Contei-lhe,--e confesso que o meu fim foi irrital-a contra a memoria do defunto,--contei-lhe o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas lagrimas. Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com ciumes. Quando lhe mostrei os cabellos do marido, atirou-se a elles, recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta á minha carta; recusava casar.

Na resposta havia uma palavra que é a unica razão de escrever esta narrativa: «Comprehende que eu não podia aceitar a mão do homem que, embora lealmente, matou meu marido.» Comparei-a áquella outra que me dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matal-o e voltar: «Não creio que ninguem me ame com tal força.» E foi essa palavra que me levou á guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda dizer uma missa por alma do marido, no anniversario do combate da Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difficil, nunca mais esqueci dar corda ao relogio.

Marcha funebre

O deputado Cordovil não podia pregar olho uma noite de Agosto de 186... Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do imperador, e durante o baile não tivera o minimo incommodo moral nem physico. Ao contrario, a noite foi excellente; tão excellente que um inimigo seu, que padecia do coração, falleceu antes das dez horas, e a noticia chegou ao Cassino pouco depois das onze.

Naturalmente conclues que elle ficou alegre com a morte do homem, especie de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta de outra. Digo-te que conclues mal; não foi alegria, foi desabafo. A morte vinha de mezes, era daquellas que não acabam mais, e moem, mordem, comem, trituram a pobre creatura humana. Cordovil sabia dos padecimentos do adversario. Alguns amigos, para o consolar de antigas injurias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil pagava-lhes com alguma palavra de compaixão, que o alviçareiro adoptava, e repetia, e era mais sincera naquelle que neste. Emfim acabára de padecer; dahi o desabafo.

Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em politica, não gostava do mal alheio. Quando resava, ao levantar da cama: «Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa as nossas dividas, como nós perdoamos aos nossos devedores...» não imitava um de seus amigos que resava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de lingua; esse chegava a cobrar além do que elles lhe deviam, isto é, se ouvia maldizer de alguem, decorava tudo e mais alguma cousa, e ia repetil-o a outra parte. No dia seguinte, porém, a bella oração de Jesus tornava a sair dos labios da vespera com a mesma caridade de officio.

Cordovil não ia nas aguas d'esse amigo; perdoava devéras. Que entrasse no perdão um tantinho de preguiça, é possivel, sem aliás ser evidente. Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa mingoar força á acção do mal. Não esqueça que o deputado só gostava do mal alheio em politica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto á causa da inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.

--Coitado! descançou, disse Cordovil.

Conversaram da longa doença do finado. Tambem falaram das varias mortes d'este mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de Cesar, não por motivo do ferro, mas por inesperada e rapida.

--_Tu quoque?_ perguntou-lhe um collega rindo.

Ao que elle, apanhando a allusão, replicou:

--Eu, se tivesse um filho, quizera morrer ás mãos delle. O parricidio, estando fóra do commum, faria a tragedia mais tragica.

Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com somno, e foi cochilando no carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa, sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto, que duas praças de policia estavam levantando do chão.

--Assassinado? perguntou elle ao lacaio, que descêra da almofada para saber o que era.

--Não sei, não, senhor.

--Pergunta o que é.

--Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido, que falava a outros.

O moço approximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse ouvil-o. Referiu-lhe então em poucas palavras o accidente a que assistira.

--Vinhamos andando, elle adeante, eu atraz. Parece que assobiava uma polka. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o passo, a modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e disse que «morreu de repente». Foi-se juntando gente, a patrulha levou muito tempo a chegar. Agora pegou delle. Quer ver o defunto?

--Não, obrigado. Já se póde passar?

--Póde.

--Obrigado. Vamos, Domingos.

Domingos trepou á almofada, o cocheiro tocou os animaes, e o carro seguiu até á rua de S. Christovão, onde morava Cordovil.

Antes de chegar á casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. Em si mesma, era boa; comparada á do inimigo pessoal, excellente. Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delicia passada ou em que esperança futura; revivia o que vivêra, ou antevia o que podia viver, senão quando, a morte pegou da delicia ou da esperança, e lá se foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dôr, ou, se alguma teve, foi acaso brevissima, como um relampago que deixa a escuridão mais escura.

Então poz o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta annos não dançavam. Podia até dizer que elle só dançou até aos vinte. Não era dado a moças, tivera uma affeição unica na vida,--aos vinte e cinco annos, casou e enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe faltassem noivas,--mórmente depois de perder o avô, que lhe deixou duas fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver comsigo, fez duas viagens á Europa, continuou a politica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão dellas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da marinha, não passou de sete mezes. Nem a pasta lhe deu gloria, nem a demissão desgosto. Não era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.

Mas se lhe tivesse succedido morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil compoz de imaginação a scena, elle caido de bruços ou de costas, o prazer turbado, a dança interrompida... e d'ahi podia ser que não; um pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a orchestra continuando por instantes a opposição do compasso e da confusão. Não faltariam braços que o levasse para um gabinete, já morto, totalmente morto.

--Tal qual a morte de Cesar, ia dizendo comsigo.

E logo emendou:

--Não, melhor que ella; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples queda e o fim. Não sentiria nada.

Cordovil deu comsigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte assim que após longos dias ou longos mezes e annos, como o adversario que perdêra algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de chapéo, que se perdia no ar com a propria mão e a alma que lhe déra movimento. Um cochilo e o somno eterno. Achava-lhe um só defeito,--o apparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do imperador, ao som de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas publicas, essa morte pareceria de encommenda. Paciencia, uma vez que fosse repentina.

Tambem pensou que podia ser na Camara, no dia seguinte, ao começar o debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e citações. Não quiz imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou e appareceu de si mesmo. O salão da Camara, em vez do Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silencio. Cordovil em pé começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o ministro e fitar o presidente: «Releve-me a Camara que lhe tome algum tempo, serei breve, buscarei ser justo...» Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a lingua pararia, o coração tambem, e elle cairia de golpe no chão. Camara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a erguel-o; um, que era medico, verificaria a morte; não diria que fôra de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por outro estylo mais technico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da commissão que acompanharia o finado ao cemiterio...

Cordovil quiz rir da circumstancia de imaginar além da morte, o movimento e o sahimento, as proprias noticias dos jornaes, que elle leu de cór e depressa. Quiz rir, mas preferia cochilar; os olhos é que, estando já perto de casa e da cama, não quizeram desperdiçar o somno, e ficaram arregalados.

Então a morte, que elle imaginára pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou no dia seguinte em plena sessão da Camara, appareceu alli mesmo no carro. Suppoz elle que, ao abrirem-lhe a portinhola, déssem com o seu cadaver. Sairia assim de uma noite ruidosa para outra pacifica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem especie alguma de luta ou resistencia. O estremeção que teve fez-lhe ver que não era verdade. Effectivamente, o carro entrou na chacara, estacou, e Domingos saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava com um castiçal e vela accesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e os pés sentiam que os degraus eram d'este mundo; se fossem do outro, desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a cama; era a mesma dos somnos quietos e demorados.

--Veiu alguem?

--Não, senhor, respondeu o escravo distrahido, mas corrigiu logo: Veiu, sim, senhor; veiu aquelle doutor que almoçou com meu senhor domingo passado.

--Queria alguma cousa?

--Disse que vinha dar a meu senhor uma boa noticia, e deixou este bilhete--que eu botei ao pé da cama.