Part 8
Parecia haver nelle o desejo impaciente de referir um caso,--a «historia terrivel», que annunciára ao sacristão, pouco antes; mas nem este ousava pedil-a, nem aquelle dizel-a, e o commendador pegou a andar outra vez.
João das Mercês sentou-se. Viu bem que em tal situação cumpria despedir-se com boas palavras de esperança ou de conforto, e voltar no dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não viu na cara do outro nenhum signal de reprovação do seu gesto; ao contrario, elle parou defronte e suspirou com grande cançaço.
--Triste, sim, triste, concordou João das Mercês. Boas pessoas, não?
--Iam casar.
--Casar? Noivos um do outro?
Brito confirmou de cabeça. A nota era melancolica, mas não havia signal da historia terrivel annunciada, e o sacristão esperou por ella. Observou comsigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas ha pouco, eram o unico signal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso. Iam casar... Podia ser que a historia terrivel fosse isso mesmo. Em verdade, atacados de um mal na vespera de um bem, o mal devia ser terrivel. Noivos e moribundos...
Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licença ao sacristão, tão depressa que nem deu tempo a que elle se despedisse e saisse. Correu para dentro, e lá ficou cincoenta minutos. Ao cabo, chegou á sala um pranto suffocado; logo após, tornou o commendador.
--Que lhe dizia eu, ha pouco? Quando menos, ella ia morrer; morreu.
Brito disse isto sem lagrimas e quasi sem tristeza. Conhecia a defunta de pouco tempo. As lagrimas, segundo referiu, eram do sobrinho de Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Dahi a suppôr que o sobrinho do commendador gostasse da noiva do moribundo foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéa por muito tempo; não era forçoso, e depois se elle proprio os acompanhára... Talvez fosse padrinho de casamento. Quiz saber, e era natural,--o nome da defunta. O dono da casa,--ou por não querer dar-lh'o,--ou porque outra idéa lhe tomasse agora a cabeça,--não declarou o nome da noiva, nem do noivo. Ambas as causas seriam.
--Iam casar...
--Deus a receberá em sua santa guarda, e a elle tambem, se vier a expirar, disse o sacristão cheio de melancolia.
E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece anciava por sair da boca do fornecedor de navios. Quando João das Mercês lhe viu a expressão dos olhos, o gesto com que o levou á janella, e o pedido que lhe fez de jurar,--jurou por todas as almas dos seus que ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidencias alheias, mórmente as de pessoas gradas e honradas, como era o commendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e então lhe confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos, criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de Mata-porcos, uma noticia abominavel...
--E foi...? precipitou-se em dizer João das Mercês, sentindo alguma hesitação no commendador.
--Que eram irmãos.
--Irmãos como? Irmãos de verdade?
--De verdade; irmãos por parte de mãe. O pae é que não era o mesmo. A parenta não lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e elles ficaram fulminados durante um dia ou mais...
João das Mercês não ficou menos espantado que elles; dispoz-se a não sair dalli sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais da noite, velaria o cadaver de um ou de ambos, uma vez que pudesse juntar mais esta pagina ás outras da parochia, embora não fosse da parochia.
--E vamos, vamos, foi então que a febre os tomou...?
Brito cerrou os dentes para não dizer mais nada. Como, porém, o viessem chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta, com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais franco, posto que mais esperado, não havendo já de quem o esconder, trouxera a noticia ao sacristão.
--Lá se foi o outro, o irmão, o noivo... Que Deus lhes perdôe! Saiba agora tudo, meu amigo. Saiba que elles se queriam tanto que alguns dias depois de conhecido o impedimento natural e canonico do consorcio, pegaram em si e, fiados em serem apenas meios irmãos e não irmãos inteiros, metteram-se em um _cabriolet_ e fugiram de casa. Dado logo o alarme, alcançámos pegar o _cabriolet_ em caminho da Cidade Nova, e elles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre e acabam de morrer.
Não se póde escrever o que sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso. Guardou-o por algum tempo, com difficuldade. Soube os nomes das pessoas pelo obituario dos jornaes, e combinou as circumstancias ouvidas ao commendador com outras. Emfim, sem se ter por indiscreto, espalhou a historia, só com esconder os nomes e contal-a a um amigo, que a passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; metteu-se-lhe em cabeça que o _cabriolet_ da fuga podia ser o mesmo dos ultimos sacramentos; foi á cocheira, conversou familiarmente com um empregado, e descobriu que sim. Donde veiu chamar-se a esta pagina a «anecdota do _cabriolet_.»
Paginas criticas e commemorativas
GONÇALVES DIAS
DISCURSO LIDO NO PASSEIO PUBLICO, AO INAUGURAR-SE O BUSTO DE GONÇALVES DIAS
Sr. Prefeito do Districto Federal,
A commissão que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me, como presidente da Academia Brazileira, de o entregar a V Ex., como representante da cidade. O encargo é não sómente honroso, mas particularmente agradavel á Academia e a mim.
Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funeraes de George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir á beira da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. «Ah! eis o verdadeiro discurso!» disseram elles comsigo. O mesmo seria aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor discurso da occasião. Ella repetiria á alma de todos aquella canção do exilio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-patria uma licção nova da lingua de Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os outros cantos que elle veiu espalhando pela vida e pelo mundo, e o som dos golpes de Itajuba, a piedade de Y-Juca-Pyrama, os suspiros de Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais jovens, e daqui em deante ouvirão outros e outros, emquanto a lingua que falamos fôr a lingua dos nossos destinos.
Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins publicos. Talvez este busto emende o costume; mas, suppondo que não, nem por isso perderão os que só vierem contemplar aquella fronte que meditou paginas tão magnificas. A solidão e o silencio são azas robustas para os surtos do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua, achará o que se encontra nas capellas solitarias, uma voz interior, e dirá pelo rosario da memoria as preces em verso que elle compoz e ensinou aos seus compatricios.
E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra. Nem V. Ex., nem os seus successores consentirão que se destrua este abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte. Se alguem propuzer arrazar um e mudar outro, para trazer utilidade ao terreno, por meio de uma avenida ou cousa equivalente, o Prefeito recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regimen só, universal, commum e perpetuo. Tambem póde declarar que a veneração dos seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os Prefeitos de todos os partidos, sem aggravo do seu proprio, porque o poeta que ora celebramos, fiel á vocação, não teve outro partido que o de cantar maravilhosamente.
Demais, se o caso fôr de utilidade, V. Ex. e os seus successores acharão aqui o mais util remedio ás agruras administrativas. Este busto consolará do trabalho acerbo e ingrato; elle dirá que ha tambem uma prefeitura do espirito, cujo exercicio não pede mais que o mudo bronze e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silencio. E repetirá a todos o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem contemplal-o. Tambem aqui vinha, ha muitos annos, desenfadar-se da vespera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor de _Iracema_. Se já estivesse aqui este busto, elle se consolaria da vida com a memoria, e do tempo com a perennidade. Mas então só existiam as arvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, não povoára ainda as nossas praças com outras obras de artista illustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscripção de senhoras a que se deve esta obra, não afinára ainda pela lyra de Gonçalves Dias a sua lyra deliciosa.
Aqui fica entregue o monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde elle deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a patria inteira no mesmo ponto em que a historia, melhor que leis, poz a cabeça da nação, perto daquelle gigante de pedra que o grande poeta cantou em versos masculos.
UM LIVRO
Aqui está um livro que ha de ser relido com apreço, com interesse, não raro com admiração. O autor que occupa logar eminente na critica brasileira, tambem enveredou um dia pela novella, como Sainte-Beuve, que escreveu _Volupté_, antes de attingir o summo gráo na critica franceza. Tambem ha aqui um narrador e um observador, e ha mais aquillo que não acharemos em _Volupté_, um paizagista e um miniaturista. Já era tempo de dar ás _Scenas da vida amazonica_ outra e melhor edição. Eu, que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outr'ora. Os que as lerem, pela primeira vez, dirão se o meu falar desmente as suas proprias impressões.
Talvez achem commigo que o titulo é exacto, sem dizer tudo. São effectivamente scenas daquella vida e daquelle meio; sente-se que não podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas directamente. Mas não diz tudo o titulo. Tres, ao menos, das quatro novellas em que se divide o livro, são pequenos dramas completos. Taes o _Bôto_, o _Crime do Tapuio_ e a _Sorte de Vicentina_. O proprio _Voluntario da patria_ tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quietação na palhoça até aquelle adeus que ella fica acenando na margem, não já ao filho, que a não póde ver, nem ella a elle, mas ao fumo do vapor que se perde ao longe no rio, como uma sombra.
Em todos elles, os costumes locaes e a natureza grande e rica, quando não é só aspera e dura, servem de quadro a sentimentos ingenuos, simples e alguma vez fortes. O Sr. José Verissimo possue o dom da sympathia e da piedade. As suas principaes figuras são as victimas de um meio rude, como Benedicta, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquelle José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o unico fim de salvar uma menina, ou de «fazê bem p'ra ella», como diz o texto. Não se irritem os amigos da lingua culta com a prosodia e a syntaxe de José Tapuio. Ha dessas phrases no livro, postas com arte e cabimento, a espaços, onde é preciso caracterisar melhor as pessoas. Ha locuções da terra. Ha a technologia dos usos e costumes. Ninguem esquece que está deante da vida amazonica, não toda, mas aquella que o Sr. José Verissimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do contraste entre o meio e o homem.
O contraste é grande. A floresta e a agua envolvem e acabrunham a alma. A magnificencia d'aquellas regiões chega a ser excessiva. Tudo é innumeravel e immensuravel. São milhões, milhares e centenas os seres que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a agua e a terra, ou bramam e cantam na matta, em meio de um concerto de rumores, coleras, delicias e mysterios. O Sr. José Verissimo dá-nos a sensação daquella realidade. A descripção do caminho que leva ao povoado do Ereré, atravez do «coberto», do «lavrado» e de um espaço sem nome, é das mais bellas e acabadas do livro. Assim tambem a do Parú, ou antes a historia do rio nas duas partes do anno, de verão e de inverno, um só lago intermino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desapparecem, com os aspectos varios do tempo e da margem.
Não são descripções trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas vão para alli continuar a acção começada. No Parú, como o tempo é de «salga», a agua é sulcada de canôas, a margem alastrada de barracas, o sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. Ahi assistimos á morte tragica do pelintra de Obidos, regatão de alguns dias, deixando uma triste moça defunta, amarella e magra. Adeante, por meio do «coberto» e do «lavrado», vemos correr Vicentina, com a filha de alguns mezes «escarranchada nos quadris», fugindo á casa do marido, depois ás onças, depois á solidão, que parece maior alli que em nenhuma parte; e ambas as scenas são das mais vivas do livro.
Ao pé do tragico, o mesquinho, o commum, o quotidiano da existencia e dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos quadros succedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade de Obidos, á hora da sésta, ou no fim d'ella, quando «a natureza estira os braços n'um bocejo preguiçoso de quem deixa a rêde». A rêde é o movel principal das casas; ella serve ao somno, ao descanço, á palestra, á indolencia. Se a casa é pobre, pouco mais ha que ella; mas, pouco ou muito, podemos fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de costumes ou possa avivar a côr da realidade. Vimos o regatão; veremos a benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado, do promotor, do presidente de provincia.
Nem falta aqui a observação fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia Zeferina, que a criou, recorre chorando para que faça soltar o filho, preso para voluntario (como diziam aqui no sul), ouve a mãe tapuia, tem sincera pena della, promette que sim, fala do presidente da provincia, que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palacio, a que ella foi: «uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de verde e amarello; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas foi tolice, porque em Manáos arranjava-se um vestido tão bem como no Pará; o della, por exemplo, foi muito gabado...» Já a tia Zeferina ouvira cousa analoga ao major Rabello, seu compadre, quando lhe foi contar a prisão do filho, e elle rompeu furioso contra os adversarios politicos. Todos os negocios pessoaes se vão coçando assim naquella agonia errante. No _Bôto_, é o proprio pae de Rosinha, que não excava muito as razões do abatimento mortal da filha, «por andar atarefado com as eleições».
Que elle tambem ha eleições no Amazonas; é o tempo da salga politica, a quadra das barracas e dos regatões. Não nos dá um capitulo desses o Sr. José Verissimo, naturalmente por lhe não ser necessario, mas a rivalidade da villa e do porto de Monte Alegre é um quadro vivo do que são raivas locaes, os motivos que as accendem, a guerra que fazem e os odios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará no porto, em baixo, ou na villa em cima. E porque não ha victoria sem foguetes, os foguetes vão contar ás nuvens o despacho presidencial. A sessão do jury, no _Crime do Tapuio_, é outro quadro finamente acabado. Tudo sem sombra de caricatura. O embarque dos voluntarios é outro, mas ahi a emoção discreta acompanha os movimentos mal ordenados dos homens. Nós os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tropegos e obedientes, marchando mal, mas emfim marchando seguros para a guerra que já lá vae.
Em tão varias scenas e lances, o estylo do Sr. José Verissimo (salvo nos _Esbocetos_, cuja estructura é differente) é já o estylo correntio e vernaculo dos seus escriptos posteriores. Já então vemos o homem feito de mão assentada, dominando a materia. Ha, a mais uma nota de poesia, a graça e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos nem sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sitio em que Rosinha nasceu: «A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto alvar das creanças que trazem os cabellos cahidos na testa.» No tempo da pesca emigram, não só os homens, mas tambem os cães e os urubús. Os cães são magros e famintos: «Cães magros, com as costellas salientes, como se houvessem engolido arcos de barris...» Os urubús pousam nas arvores, alguma vez baixam ao solo, andando «com o seu passo rythmado de anjos de procissão». A umas arvores que ha na grande charneca do «coberto», bastava mostral-as por uma imagem curta e viva, «em posições retorcidas de entrevados». Mas não se contenta o nosso autor de as dizer assim: em terra tal, tudo ha de vibrar ao calor do sol: «Dir-se-hia que o sol, que abraza aquellas paragens, obriga-as a taes contorções violentas e paralysa-as depois...»
Ha muitas dessas imagens originaes e expressivas; melhor é lel-as ou relel-as intercaladas na narração e na descripção. Chateaubriand, escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a proposito de _Volupté_, que acabava de sahir do prélo, pergunta-lhe admirado como é que elle, René, não achára tantas outras. «Comment n'ai-je pas trouvé _ces deux vieillards et ces deux enfants entre lesquels une révolution a passé_...» etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é de Chateaubriand, e alguma cousa se ha de perdoar ao genio. Mas, em verdade, mais de um de nós outros poderiamos dizer com sinceridade e modestia como é que nos não acudiram taes e taes imagens do nosso autor, pois que ellas trazem a feição de cousas antes saidas do tinteiro que compostas no papel.
Tambem é dado perguntar porque é que o Sr. José Verissimo deixou logo um terreno que soube arrotear com fructo. Elle dirá, em uma nota, falando dos _Esbocetos_, que o fructo era da primeira mocidade. Vá que sim; mas as _Scenas_ trazem outra experiencia, e a boa terra não é esquecida, se se lhe encommenda alguma cousa com amor.
Até lá, fiquem-nos estas _Scenas da vida amazonica_. Mais tarde, algum critico da escola do autor compulsará as suas paginas para restituir costumes extinctos. Muito estará mudado. Onde José Tapuio lutou com a sicurijú até matal-a, outro homem estudará alguma nova força da natureza até reduzil-a ao domestico. Coberto e lavrado darão melhor caminho ás pessoas. Já agora, como disse nhâ Miloca á mãe tapuia, os vestidos fazem-se tão bons em Manáos como em Belém. A politica irá pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhará todas as artes, suas hospedas. Tal critico, se tiver o mesmo dom de analyse do Sr. José Verissimo, achará que um testemunho esclarecido é mais cabal que outro, e regalará os seus leitores dando-lhe este depoimento feito com emoção, com exacção e com estylo.
EDUARDO PRADO
A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da morte em si. Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto, porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas, é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o.
Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e social.
Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria para ella qualidades de primeira ordem, não contando o _humour_, tão diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a historia, não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas as cousas que sabia.
Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um grande talento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo, observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles, sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas, através de regiões remotas...
Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria. Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal e Byron, passeando no solitario _foyer_ do theatro Scala. Quando Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo. Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse o talento, o amor das cousas finas e bellas, e, emfim, a grande sympathia que um inspirava ao outro.
Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen, e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra. Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza; bastaria dizer--indifferente.
ANTONIO JOSÉ
Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio José não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não cogitou jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière caminhou do _Medico Volante_ e dos _Zelos de Barbouillé_ á _Escola das Mulheres_ e ao _Tartufo_; Antonio José não passou das _Guerras do Alecrim e Mangerona_, e, dado que tentasse fazel-o, é certo que não poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado, nem largas vistas; faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente, levantando sobre os alicerces lançados por esse operario do seculo XVI as paredes de um theatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguem, não se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a condição das obras vivas.