Relatorio de uma viagem ás terras dos Landins

Part 2

Chapter 23,779 wordsPublic domain

O commandante militar de Chupanga, dependendo do governo de Manica, havia de vir á séde do seu governo e atravessar a area do seu commando; dependendo de Quelimane, fará geralmente, como geralmente fazem os commandantes militares de Senna, que chegam ao seu commando vindo de Quelimane, navegando pelo Zambeze acima, desembarcando proximo de casa, e não saíndo mais da villa de Senna senão para voltar a Quelimane.

A adopção dos limites, que proponho, imporia a realisação previa ou simultanea da, tantas vezes proposta, mudança do commando militar de Senna, e da villa d'este nome para a margem fronteira; pois seria absolutamente impossivel, a querer trabalhar-se para resultados praticos, o introduzir desde já no nascente districto de Manica, a aperfeiçoada legislação, mais perfeita que a de qualquer colonia de qualquer outro paiz, que vigora nos restantes districtos da provincia, e portanto na actual villa de Senna.

Provisoriamente a praça, e só a praça de S. Marçal, deveria ficar sob as ordens do commandante militar de Senna, que n'ella poria um fiel e os homens necessarios para a arrecadação do material que n'ella se quizesse guardar.

Não é possivel, porém, conservar como occupadas enormes areas com um numero de auctoridades como o que até ao presente temos tido na provincia de Moçambique; e por isso o commando militar de Senna, passando para a margem esquerda do rio para ficar no districto de Quelimane, não deve deixar de ser substituido por um outro, com a séde não longe da actual villa de Senna, mas em logar mais recommendavel pela sua salubridade e facil acostamento. Parece-me que facilmente satisfará a estas condições algum ponto escolhido no muito povoado prazo Chemba, pouco a montante da foz do rio Musingase.

O terreno, que eu bem conheço, é elevado e saudavel. Ha n'elle formosissimas arvores de grande sombra, nas quaes se deveria pensar ao escolher o logar para as habitações e limitar os jardins que as rodeiem.

O novo commando militar poderia receber o nome de commando militar de Chemba.

Chemba seria uma excellente testa de estrada para o centro do Barue e para os importantissimos campos de oiro do Alto Aruenha e dos seus affluentes, estrada que podia ser para nós muito util, quer nós mesmos vamos occupar estes campos, quer deixemos tranquillamente os estrangeiros d'elles se apoderarem, pois uma das soluções em breve terá logar.

Os campos de oiro a que me refiro, e que ficam ao sul de Tete, estão mais proximos desta villa que de Senna, mas o caminho para elles partindo de Tete passa por serras muito cansosas de atravessar, parte das quaes eu conheço desde que fui ao Rio Mazoe; e por isso quando os _Campos de Oiro do Imperador Guilherme_ e outras minas vizinhas eram trabalhadas pelos nossos antepassados, era de Senna que elles partiam para ellas.

O caminho de Chemba torneará a serra da Lupata e todas as que rodeiam Tete, seguindo como o de Senna por terrenos planos até ás origens dos rios, e tem sobre este decidida vantagem por causa das condições relativas em que se acham as duas testas de estrada, e que eu indiquei.

Reino do Barue

Com os prasos da corôa da antiga capitania de Rios de Senna, e ainda nos terrenos ao norte do Aruangua, de que me estou occupando, confinam os extensissimos territorios do reino do Barue, seguindo-se-lhes para sudoeste e oeste, e ao sul do districto de Tete, territorios de outros regulos, que se consideravam vassallos do Macombe, o fallecido rei do Barue; territorios valiosissimos pelas incontestaveis riquezas em minas de oiro, que em si contêem.

Não me é possivel indicar os contornos do reino do Barue; só direi que a villa Gouveia está na margem direita do rio Inhandue, e que as colinas fronteiras na margem esquerda pertencem ao Barue; que para vir de Senna ou de Chemba pelo caminho mais curto para este ponto se atravessa o Inhandue quasi em frente da villa, e portanto se passa pelo Barue; e que nos dois itinerarios, que tenho seguido para ir ha tres annos a Manica e agora ao Gunguneana, passei o rio Vunduse, que sei ser, até á sua confluencia no Aruangua, limite do praso Gorongosa e do reino do Barue.

Os reis do Barue eram antigamente coroados por uma auctoridade portugueza, mas nunca auctoridade portugueza exerceu jurisdicção sobre este reino. Mesmo durante a grande prosperidade da nossa feira e villa de Manica, os negociantes que transitavam entre esta villa e a de Senna, e eram obrigados a atravessar o reino do Barue, soffriam vexames dos baruistas, aos quaes tinham sempre que pagar algum tributo.

Nos tempos do fallecido Macombe, Senna recebeu muitas embaixadas insolentes, foi muitas vezes obrigada vergonhosamente a responder a ellas, mandando grandes tributos em fazenda, e, satisfazendo favoravelmente á exigencia de que mandasse um certo numero de pretos, com suas familias, para escravos do Macombe.

Manuel Antonio do Sousa, a quem a villa de Senna deve o ter cessado de pagar tributo aos landins, depois de ter antigamente negociado no Barue e trazido de lá uma das filhas do rei, com quem teve relações, das quaes resultaram os dois rapazes, que por conta do governo estão sendo educados em Lisboa na escola academica, tendo sido victima de varios roubos e vexames, que a elle e a outros negociantes faziam os baruistas, começou, como particular, só por si e com despeza unicamente sua, uma lucta com o Macombe, que durou muitos annos, e terminou ha pouco mais de um anno com o tomar elle posse do reino do Barue e ser reconhecido como seu chefe ou rei, e seu filho, neto do Macombe, como seu successor.

* * * * *

A região entre o Zambeze e o Aruangua, comprehendendo os antigos prasos e o reino do Barue, constitue só por si uma importantissima colonia, com todos os elementos necessarios para ter um rapido desenvolvimento.

Os prazos Cheringoma e Chupanga são riquissimos em madeira e borracha, e tanto estes prasos como as terras marginaes do Zambeze se prestam a toda a cultura tropical.

A serra da Gorongosa, onde a vinha brava rebenta por toda a parte, pede o immediato ensaio da cultura da vinha. Se os resultados forem, como parece deverem ser, ter-se-ha introduzido, só por este ramo, uma grande fonte de conforto, de commercio e de riqueza na provincia.

No Barue e na Gorongosa, onde ha uma quantidade prodigiosa de excellente agua, facilmente se encontram terrenos, onde o milho cresce e produz por modo que na Europa não poderá facilmente acreditar-se, onde a cultura de todos os cereaes deveria ser ensaiada e a do trigo provavelmente poderia ser emprehendida em larga escala.

Finalmente é nas terras de um pequeno regulo, que sempre se considerou vassallo do Barue, terras que, occupado este reino, viriam a constituir novos commandos militares do oeste do districto de Manica, que se encontram visiveis provas dos extensos trabalhos mineiros feitos pelos antigos portuguezes nos campos de oiro, que Mauch visitou e achou tão importantes, que os designou com o nome de Campos de Oiro do Imperador Guilherme, chamando Bismarck e Moltke ás duas serras entre as quaes elles se acham situados. Dahi para o norte e para o oeste até ao Zambeze continua a extensa região aurifera, a que o proprio Mauch se refere, e que os nossos trabalharam em varios pontos nas minas de Tete e do Zumbo.

Para sueste, diz Mauch, _a serra Moltke commanda o jazigo aurifero de Manica, conhecido já de ha seculos, e certo é que os tres jazigos auriferos_ (do Mogoe, dos Campos do Imperador Guilherme e da Manica) _vão rivalisar_.

Os Campos de Oiro do Imperador Guilherme estão comprehendidos na area da concessão, que me foi feita em 1878. Nunca os poude visitar.

Portugal está ainda hoje em condições de se apoderar de grandes centros de riqueza, de prosperidade, de força, de prestigio, empregando limitadissimos esforços; d'estes centros poderá depois expandir-se do que é seu para o que não é seu, sem que estrangeiros tenham a intervir.

Deixar porém attingir esses centros de vida e pretender depois fechar-lhe as communicações é cousa que hoje se tornou absolutamente impossivel.

Direi ainda que n'esta admiravel provincia, comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua, onde milhões de homens poderiam empregar-se em trabalhos de agricultura, trabalhos de minas e em todos os ramos da actividade humana, onde ha regiões tão sadias e proprias para o desenvolvimento da raça branca, como as mais sadias da Europa, onde temos a assegurar e desenvolver a nossa occupação, não haverá alem dos empregados do governo umas seis pessoas brancas!

Tudo convida a colonisar, com portuguezes e portuguezas misturados com hespanhoes, este paiz. Em parte alguma das nossas possessões poderão colonos encontrar mais auxilio para a sua installação, maior numero de braços indigenas promptos a empregar em seu serviço por uma modestissima remuneração. Com segurança poder-se-ia mandar já da Europa uns dez ou vinte colonos nas condições em que até ao presente o governo tem mandado colonos para a Africa, porque com os poucos recursos disponiveis do governo do districto e outros recursos locaes, estes homens poderão receber o necessario amparo até que o producto do seu trabalho os possa sustentar e lhe dê a independencia. Com não menos segurança de resultado favoravel poderia o governo mandar em viagens successivas, e com sufficiente aviso previo, alguns centenares de colonos, se, por meio de uma combinação qualquer, lhes assegurasse, ou por intervenção de uma empreza particular, por adiantamentos a serem mais tarde reembolsados pelos colonos, meios efficazes de trabalho, em terrenos, ferramentas e braços dos indigenas e sustentação durante pelo menos o espaço de dois annos.

Não é porém nas margens do Zambeze que convem colonisar com gente branca, e o trazer colonos de Quelimane até á serra da Gorongosa, pelo Zambeze, emquanto não houver estradas e meios de transportes convenientes tanto fluviaes como terrestres, é despendioso e não póde deixar de offerecer perigo. Assim, se não houver a possibilidade, ou empregando o pequeno vapor que a empreza de navegação é obrigada a ter sempre em serviço na provincia, ou por qualquer outro meio, de fazer desembarcar os colonos na margem do Aruangua ou do Urema, para onde desde já o governo do districto trata de abrir bons caminhos, a partir da villa Gouveia, será preferivel não mandar colono algum.

Entre o Aruangua e o Revue

Passando o Aruangua ou Pungue para a margem direita entra-se no Quiteve ou Utévé, como se diz ahi. O paiz que do Aruangua ao Revue percorri é encantador; não é plano, nem muito montanhoso; geralmente com arvores nem muito grandes, nem muitos densas, tem de espaço a espaço pequenos bosques muito fechados ao lado dos quaes se passa. Por toda a parte campinas admiraveis para a creação de gado, e excellentes terrenos para agricultura.

Está o Quiteve dividido por differentes regulos todos sujeitos aos landins. Estes não habitam parmanentemente o paiz, não têem ahi povoações suas, mas por um ou outro motivo percorrem-o constantemente, sustentando-se á custa das povoações indigenas. Qualquer que seja o numero de landins que chegue a uma povoação ou grupo de povoações, por mais miseraveis e pequenas que ellas sejam, é necessario que appareça farinha para fazer massa e cabritos ou gallinhas para _quissâo_ para todos. Isto sempre e sempre. Mais ainda, se os landins têem cargas, ao chegar ao Quiteve nunca mais pegam n'ellas, e são os habitantes que as levam de uma para outra povoação.

Qualquer preto landim, por mais baixa que seja a sua categoria entre os seus, procede assim com os povos de Quiteve. Se o indigena por troca ou por presente possue um panno ou um lenço, o landim que passa junto a elle não deixa de lh'o levar. Todas as raparigas de regular apparencia são obrigadas a viajar para o sul para serem lá mães de landins nas suas terras.

Comprehende-se assim como a degeneração da raça dos quitevistas progride rapidamente e o estado de infelicidade e de miseria de todas as povoações, apesar dos verdejantes campos e das extraordinariamente bellas varzeas de milho e outros cereaes de que as vi rodeadas.

Alem d'estas rapinas individuaes feitas pelos landins que acontece passarem, ha-as feitas por outros que vem, como os dos destacamentos que tributam os nossos prazos da margem do Zambeze, encarregados de receber dos regulos tributos de fazenda, que apesar de pequenos não sei como ainda possam continuar a ser pagos.

Os regulos não se distinguem facilmente dos seus subditos. Em certas terras é praxe antiga que o regulo seja mulher, que se diz não ser casada. Muitos d'estes regulos só conservam o nome por tradição; não penso que tenham a menor acção sobre as povoações que se acham espalhadas nas vastas areas que dizem pertencer-lhes.

Assim o regulo mulher Mahongo, cujo nome se vê nas antigas cartas, e deve ter tido grande prestigio, possue ainda nominalmente extensas terras. Passei por muitas povoações relativamente consideraveis, de grandes de Mahongo. A povoação da propria Mahongo ficava-me no caminho; naturalmente suppunha encontrar centro mais importante do que as povoações que tinha visto, e foi com grande estranheza que um dia, chegando a uma meia duzia de miseraveis palhotas espalhadas n'um vasto campo soube que a palhota isolada junto á qual, por acaso, eu me achava era a do regulo, e que a velhinha quasi nua que estava sentada á porta era a propria Mahongo.

O regulo mais importante do Quiteve, entre o Pungue e o Revue é a rainha Gomani. Comquanto passasse por muitas povoações dos seus grandes e não longe da sua propria povoação e lhe mandasse alguns presentes, não me desviei do caminho que seguia para a ir ver, e não a posso comparar com a Mahongo.

Os regulos do Quiteve que limitam com o Aruangua a partir da foz do rio, são: o regulo Pica, nas terras do qual estão as minas de oiro que dizem muito ricas, de Inhaoxo.

A região das minas está hoje abandonada e é de muito facil accesso, podendo-se chegar ás minas com pequena marcha por terra, se se aproveita o rio Pungue e o seu affluente rio Muda.

Todo o baixo Quiteve, ou região do Quiteve junto á costa é uma perfeita planicie á excepção do logar onde se levanta a serra isolada da Chiruvo, onde estão as minas de Inhaoxo e de onde sáe o rio Muda, que dizem navegavel até quasi á base da serra.

Por informações mais recentes parece que Inhaoxo é uma pequena serra contigua á de Chiruvo, mas d'ella separada justamente pelo rio Muda que vem de mais longe no Quiteve.

N'estas condições comprehende-se quanto nos seria facil a occupação da serra Chirua e o dar absoluta segurança a um sitio que dizem conter riquezas importantes, que é elevado e deve ser sadio, e onde se estaria tão proximo da costa, e com ella em tão facil communicação. A occupação de Inhaoxo teria ainda uma grande importancia para a execução de qualquer projecto tendente á reoccupação de algumas terras, ou antigos prazos para o districto de Sofalla.

A montante do regulo Pica, seguo-se o regulo Guenjere, a montante de Guenjere o regulo Chaurumba, a montante do Chaurumba o regulo Ganda. As terras d'este confinam, junto ao Aruangua, com as do do reino de Manica.

Foi com grande surpreza que fui vendo que o extraordinario poder de Manuel Antonio se estende ao Quiteve. O regulo Pica propõe-lhe fazer entrega de todas as suas terras que vão do Aruangua até ao Busi, e, por pouco que o governo podesse fazer, a occupação da Chiruvo e terras vizinhas em breve estaria realisada.

O regulo Guenjere abandonou ha pouco as suas terras, e passou com a sua gente para a Gorongosa.

O regulo Chaurumba, rapaz forte e de aspecto valente, parece ser um homem inteiramente dedicado a Manuel Antonio, e ás escondidas dos landins tem muitas armas por este fornecidas. O regulo Ganda actual é que não está bem com Manuel Antonio. Ha não sei bem que desavenças de familias n'estas terras; o que sei é que Manuel Antonio já o bateu e que Ganda, cujas terras muito extensas se estendem até ao Revue, abandonou as proximidades do Aruangua e acha-se no alto das grandes montanhas que n'essa longitude já existem entre os dois rios. Dois filhos ou sobrinhos de Ganda estão em Gorongosa, talvez sendo preparados para mais tarde substituir o pae ou o tio.

Os landins servem-se da gente do Quiteve como de cousa sua, e é claro que no caso, pouco provavel, de um ataque feito por elles ás terras da margem esquerda do Aruangua, elles mandariam na sua frente com a zagaia nos rins, como primeiras tropas landinas toda a gente que encontrassem no Quiteve e não tivesse tido tempo de fugir como amiga para este lado.

Todas estas circumstancias, e as relações que em substituição de Manuel Antonio, convem que as auctoridades do governo de Manica tenham com os regulos do Quiteve, mostram a necessidade de fazer comprehender legal, embora theoricamente, no districto de Manica todo o territorio comprehendido entre o Pungue e o Revue.

Disse que o reino de Manica limita com as terras do regulo Ganda, junto ás margens do Aruangua. Junto ao Aruangua o reino de Manica póde considerar-se como deserto, e facil será chegar com o rei a um accordo para nos ceder esta porção do seu territorio que elle não occupa.

O reino de Manica estende-se muito para o sul e é para o sul do Revue e já na margem de um afluente do rio Save que está a aringa do Mutaça, rei de Manica.

O antigo territorio portuguez de Manica está no valle do Revue, e a velha villa, junto á margem esquerda d'este rio, e portanto comprehendido entre elle e o Aruangua.

Na viagem que ha tres annos fiz a esta villa segui o itinerario marcado no esboço junto, atravessando da bacia do Aruangua para a do Revue, n'uma longitude onde o terreno é muito accidentado e a divisoria das duas bacias hydrographicas de cota muito elevada.

Desde então a occupação da serra Humbe por Manuel Antonio fez d'este ponto do Barue, ponto forçado do caminho entre a Gorongosa e Manica; e comquanto menos directo, poderá ser preferivel ao que eu segui, se alem do Aruangua houver a subir e a descer serras menos altas e menos asperas.

Não é porém pela Gorongosa o caminho natural entre Manica e a costa. A viagem que acabo de fazer permittiu-me tomar conhecimento de um caminho direito, que convenientemente limpo e rectificado permittirá chegar, vindo da costa a Manica com uns quatro dias de facil viagem a pé. Com melhor estrada, havendo cavallos, poderia vir a ser vencido em menos de dois dias. O ponto de partida para a viagem de terra seria a margem direita do rio Pungue na altura das terras de Guenjere, em ponto onde sempre poderá chegar o vapor que fizer o serviço do rio.

Não inscrevo aqui o itinerario detalhado. No terceiro dia de viagem por este caminho é cortado o que eu segui indo ás terras dos landins. No quinto dia ficam os pretos na margem do rio Musa, affluente do rio Chimesa, que é affluente do rio Revue.

N'este ponto da margem do Musa disseram-me, que havia ainda hoje ruinas de um antigo forte, muralhas de altura de homem e vestigios de importantes trabalhos de minas. A antiga villa e feira de Manica fica a poucas horas de caminho do rio Musa.

Entre o Revue e o rio Mussapa

Terreno muito elevado e accidentado, coberto de um a outro rio por continua e densa floresta. Passei a garganta da divisoria, que fica muito mais proxima do Mussapa que do Revue, n'uma altitude de 2:230 pés, mas no seguimento do caminho, subindo e descendo sempre, attingi varias vezes altitudes não muito inferiores a este maximo.

Em parte da floresta encontra-se uma grande quantidade das trepadeiras de que tiram a borracha e que dão um fructo que, embora bastante acido; é muito agradavel ao paladar. Cultivar n'uma grande area da floresta esta trepadeira constituiria sem duvida uma industria consideravelmente remuneradora. Cruzando o caminho, e sem necessidade de menor pesquiza vêem-se duzias de grandes filões de quartzo, havendo probabilidades de que muitos d'elles sejam auriferos. Toda esta região entre o Revue e o Mussapa fazia parte do alto Quiteve. O paiz que fica junto á margem do Revue no ponto onde atravessei este rio é o Zauve, e é n'elle, um pouco a oeste do meu itinerario, que está encravado o antigo territorio portuguez do Bandire, hoje abandonado, e que contém as valiosas minas d'este nome.

O chefe do Zauve é o regulo Murinane, que foi antigamente de grande importancia; apesar de se vestir como os outros pretos, de como elles se sentar no chão, ainda se apresenta com uma certa grandeza comparado com todos os mais chefes que eu vi. D'este regulo recebi muitas informações ácerca das minas, que estão situadas nas montanhas do Bandire, tanto na vertente do Revue como na do Mussapa.

Não me parece haver ahi um placer aurifero como incontestavelmente o ha em Manica; o trabalho das minas é todo em rocha, e é por isso que penso que dos numerosos filões que encontrei entre o Revue e o Mussapa alguns pelo menos têem probabilidade de ser auriferos. Comquanto Murinane, que é um preto de cincoenta annos, de bello aspecto, me dissesse tanto como todos os outros regulos do Quiteve com quem primeiro estive, que muito desejaria ver-se livre dos vexames dos landins, e escondesse d'aquelles que me acompanhavam os presentes que lhe dei, notei grande differença entre o que vi na grande povoação d'este regulo e a miseria das gentes de áquem Revue.

Na povoação do Murinane nota-se maior independencia; já ahi todos têem as orelhas rachadas, quasi caracteristicas dos landins; todos, a começar pelo regulo, fallam bem o vatua, ou a outra lingua dos landins.

As rochas Inharumirua, que offerecem o primeiro obstaculo á navegação no Revue, desde a costa pelo Busi, ficam a menos de duas horas a jusante da povoação de Murinane; conversando pela manhã, pelas oito horas com o regulo a respeito d'esta obstrucção e da distancia ao ponto onde estavamos, mostrou elle entre os homens que estavam sentados no chão ao redor do nós, um que me disse ser o chefe de uma povoação mesmo junto a estas rochas e que n'aquella mesma manhã de lá tinha partido. Para irem da povoação de Murinane ás minas do Bandire dormem um dia no caminho, chegando no seguinte de manhã; vê-se portanto a que curta distancia estas minas estão de uma via fluvial; quando mesmo ella não seja bem navegavel em todo o tempo, para transporte de pesos muito consideraveis, e que não ha a remover constantemente, póde-se bem escolher a estação propria.

O elevado macisso de montanhas que ha entre o Revue e o Mussapa desce rapidamente do lado d'este ultimo rio, cujo valle é uma larga planicie verdejante, sem quasi arvore alguma, na qual serpenteia de um e outro lado o leito do rio.