Relatorio de uma viagem ás terras dos Landins
Part 1
Produced by Pedro Saborano
Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1885. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a interpretação do texto, e que por isso não foram assinalados.
No livro há algumas referências a um mapa, que acompanhava a edição original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para acompanhar esta edição digital.
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS
POR
JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA
CAPITÃO DE ARTILHERIA
LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1885
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS
POR
JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA
CAPITÃO DE ARTILHERIA
LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1885
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS
FEITA NOS
MEZES DE DEZEMBRO DE 1884 E JANEIRO E FEVEREIRO DE 1885
Motivos da viagem
Pela portaria expedida pela secretaria d'estado dos negocios da marinha e ultramar, com data de 30 de junho de 1884, incumbindo-me de auxiliar a installação do governo de Manica, e por instrucções communicadas por s. ex.ª o director geral do ultramar, relativas ao cumprimento da mencionada portaria, fui tambem encarregado de visitar os regulos vizinhos e de procurar estreitar com elles relações de commercio e amisade.
Ao chegar ao Zambeze com o pessoal do novo governo constou-me que se achavam nas povoações que o sr. Manuel Antonio de Sousa, capitão mór de Manica e Quiteve, tem formado na serra da Gorongosa, dois grupos de landins; um d'elles com o fim de visitar o mencionado capitão mór e o outro o capitão mór de Senna, o sr. Anselmo Ferrão, unicas pessoas que para os landins representam a auctoridade, e os brancos ou mosungos de Senna.
Logo que o pessoal vindo de Lisboa, com destino ao districto de Manica, chegou commigo a Magagade, povoação ou logar na margem do Zambeze pertencente ao prazo Gorongosa e portanto ao referido districto, parti para o Chire, onde se achava nas operações da guerra do Matacanha o capitão mór de Manica, para combinar com elle na maneira como, com a menor demora possivel, se poderiam fazer seguir das margens do Zambeze para a saluberrima serra da Gorongosa os europeus recemchegados; e, referindo-me aos landins, lhe disse que, apesar do improprio da estação, em que iria encontrar os rios em cheia, e muita palha no mato, me parecia muito conveniente aproveitar a occasião de se acharem na Gorongosa as duas embaixadas, para ir com ellas visitar o Musila e dar cumprimento a uma parte da minha missão, o que, a não se dar esta circumstancia, só mais tarde tencionava realisar.
Concordando Manuel Antonio de Sousa com a provavel importancia da minha viagem n'esta occasião, obtive delle que sustasse a sua partida para Moçambique, onde tencionava ir logo que terminasse a guerra do Chire, e fosse com a sua presença e extraordinaria influencia sobre os indigenas apressar a reunião dos machileiros e carregadores em Magagade, e me acompanhasse até aqui para resolvermos com os landins ácerca da minha desejada viagem. Os landins consentiram logo em voltar para traz e acompanhar-me até junto do Musila. Antes, porém, de eu partir chegou á Gorongosa a noticia de que o Musila, que os landins tinham deixado de boa saude, morrêra quasi de repente. Esta circumstancia difficultava a viagem, por causa das guerras e estado de agitação que quasi sempre seguem á morte de um grande potentado africano; mas pensei tambem que por causa d'ella poderia vir a tornar-se mais util e a proposito a visita, e confirmei-me na primeira resolução. Poucos dias depois de começada a viagem soube que Mudungase, um dos filhos do Musila que os landins na Gorongosa indicavam como provavel successor, tinha effectivamente como tal sido reconhecido, e que elle, receiando que seu irmão Mafumana, o mais guerreiro e mais para temer dos filhos do Musila, não se conformasse com a opinião geral e conspirasse para subir ao poder, o mandára matar, com a mulher e todos os filhos machos, e que, no mais, tudo e todos estavam e tinham estado no mais completo socego.
Paiz percorrido; suas condições geographicas, politicas, economicas e militares
Junto a este relatorio está um esboço do paiz ao sul do Zambeze, desenhado pelo secretario do governo do districto, o sr. tenente Moraes Pinto, e coordenado com o fim de mostrar a area que me parece dever desde já ser destinada á acção do novo governo de Manica. Indica elle a direcção geral dos grandes rios que cortam o paiz, e os pontos a que tenho que me referir n'este relatorio, dando algumas informações que mais se approximam da verdade do que as que se encontram em mappas já publicados. Com mais vagar tenciono coordenar um mappa em maior escala, no qual introduzirei as informações que tenho dos pequenos rios affluentes dos que vão marcados, montanhas, prazos e territorios de differentes regulos e povoações.
Hydrographia
O referido esboço mostra que o Zambeze se acha em communicação fluvial, talvez interrompida n'algum ponto, durante a estiagem, com a costa de Sofalla. O rio Zangue, affluente do Zambeze e limite dos prazos Caia e Inhamunho, vem de uma lagoa, que, por banhar o prazo Absinta, tem este mesmo nome, e que communica por meio da serie de lagoas ou canal chamado Mucua, com uma grande depressão de terreno, mais ou menos cheia de agua, conforme a estação, chamada Tandora Zungue. N'esta grande lagoa desembocam varios rios vindos da serra da Gorongosa, os quaes, durante uma parte do anno, poderão ser empregados como meios de communicação por pequenas embarcações até quasi á base da serra; d'esta lagoa nasce o rio Urema, navegavel todo o anno, e que juntando-se ao rio Pungue, ou antes ao seu novo braço Mudinquidinqui, causado por uma cheia, vae lançar as suas aguas na costa de Sofalla. O rio Urema separa o prazo Gorongosa do prazo Cheringoma, e por isso é hoje limite entre os districtos de Quelimane e de Manica.
No itinerario seguido, a partir da serra Gorongosa para as terras dos landins, o primeiro rio de importancia que se encontra é o Vunduse, affluente do rio Pungue; este affluente, que tem um leito de uns 100 metros de largo, mas não é navegavel, é limite do prazo Gorongosa e do reino do Barue. Depois do rio Vunduse encontra-se o rio Aruangua, que desde aqui até á foz é mais conhecido com o nome de Pungue, representando os dois nomes o mesmo rio.
Na altura em que o atravessei, na minha viagem a Manica em 1882, tem o rio Pungue muita agua, mas corre sobre um leito irregular de grandes rochas, que o torna inteiramente improprio para a navegação; no ponto onde agora o atravessei por duas vezes, com uma vara de 14 pés, ou mais de 4 metros, não encontrei fundo; mas ainda n'essa altura do rio ha grandes rochas, e a agua, dizem-me, baixa na estiagem a ponto de permittir a passagem a vau entre ellas. Um pouco, porém, mais abaixo, logo a jusante da foz do Vunduse, as rochas desapparecem e o rio continua até á foz sobre leito só de areia e com uma altura de agua, que o torna em toda esta extensão navegavel por qualquer vapor fluvial ou por vapores costeiros, como o _Soutiene_ e _Lion_, que ultimamente têem frequentado alguns pontos da provincia. Todas as informações que tenho colhido me fazem suppor que na foz do Pungue, e até em frente do logar chamado Bangue, no prazo Cheringoma, ha um porto capaz de dar abrigo a navios de grande tonelagem.
Passado o Pungue é o Revue o primeiro rio importante que se encontra. É este affluente do rio Busi, o rio que passa junto á antiga villa de Manica, a tiro de pistola da arruinada fortaleza. No ponto em que o atravessei tem o leito do rio uns 100 metros de largura, e, na viagem de ida, com uma vara de 12 pés, ou mais que 3m,5, não encontrei fundo; ouvi, porém, pouco a jusante, o ruido de uma grande quéda de agua em rocha, e sei que o rio não póde ser navegavel até esta altura; mas disseram-me que o era em toda a epocha do anno, pelo menos por pequenas embarcações, como as que se empregam no Zambeze, até junto de umas rochas chamadas _Inharumirua_, que ficam a menos de duas horas de caminho a jusante d'este ponto. Para baixo nem o Revue nem o Busi apresentam embaraço algum á navegação, a partir da costa.
Ao Revue seguem-se, na direcção que eu percorria, successivamente o Mussapa e o Mufomose. Atravessei os dois rios seguidamente na altura da confluencia do primeiro no segundo. O Mussapa tem uns 30 metros de largura de agua e o Mufomose uns 60 metros; quando os passei, na ida, tinha o primeiro 5 pés de agua e o segundo 10 pés. Na viagem da volta a agua tinha baixado, a ponto de poderem alguns dos carregadores atravessar a vau, embora com difficuldade; mas disseram-me que conservam os dois rios normalmente a altura de agua a que tinham chegado, sendo o Mufomose sempre navegavel por almandias até um ponto a montante d'este, onde me disseram se encontra a primeira obstrucção causada por umas rochas chamadas Papuquenchofo.
O Mufomose é affluente do Lusite, rio que em seguida atravessei, com uns 50 metros de largura e 10 pés de profundidade, na viagem de ida, reduzidos a 5 pés, na viagem de volta. Este rio Lusite é navegavel até muito a montante do ponto em que eu o atravessei, e constitue, combinado com o Busi, uma importante via de communicação até uma grande distancia no interior. Infelizmente esta grande via fluvial Busi Lusite, está, como a via Busi (Lusite) Mufomose, interrompida em um ponto. O arco natural sobre o rio, marcado na carta do sr. marquez de Sá sobre o Busi, e que tem o nome de Inhambimbe, está situado exactamente na confluencia do Lusite com o Busi, atravez dos dois rios, cortando a continuidade das communicações. Actualmente, na pouca navegação local entre as povoações que estão a montante e a jusante d'este ponto, procede-se como se faz no Quaqua, na altura de Mopeia, para todo o movimento do Zambeze; cargas e embarcações são passadas por terra até vencer o obstaculo. So o arco fosse isolado, visto como ha effectivamente um arco, debaixo do qual corre a agua, mas que não dá passagem a embarcações, alguma dynamite remediaria logo tudo; mas é provavel que haja mais algumas rochas no proprio leito dos dois rios. Como porém, em todo o caso, é um phenomeno isolado e pouco extenso no centro de uma planicie, sem pedras em que os dois rios por ali correm, muito facil seria abrir um ou dois pequenos canaes lateraes na altura d'esta obstrucção. Não se tratará de certo por algum tempo de resolver esta questão.
O que me parece importante que fique bem sabido é que o primeiro obstaculo á navegação no Busi só se encontra no arco Inhandimbe; que a foz do Revue fica a jusante d'este ponto e que os dois rios são navegaveis até ás rochas ou rapidos de Inharumirue, que se encontram no segundo, e que distam apenas, como direi, um dia de viagem do territorio e minas do Bandire, onde, pela via a que me estou referindo, poderá chegar com facilidade todo o material pesado necessario para a sua lavra.
Passado o Lusite atravessei o proprio Busi, mas n'uma altura em que elle nunca será empregado como via de communicação. Não tenho a mencionar n'este trabalho os mais rios que atravessei, valiosissimos para irrigação, mas inuteis como meios de communicação.
Condições geraes do paiz
Entre o Zambeze e o Aruangua ou Pungue
Esta região contém antigos prazos da corôa e o reino do Barue.
Durante muito tempo os prazos da corôa da margem direita do Zambeze, a jusante da serra da Lupata, todos sujeitos á jurisdicção de Senna, eram invadidos annualmente pelos landins. Estes levantavam pesados tributos, não só nos prazos, mas na propria villa de Senna, onde ao principio, se não havia coragem e meios sufficientes para resistir ao pagamento d'estes tributos, havia a riqueza necessaria para a elles satisfazer. Os landins, com que agora viajei, disseram-me que um antigo modo de os tributar consistia em abrir um furo no alto da cobertura conica de palhotas circulares, e obrigar a deitar por esta abertura fazendas até que a palhota se recusasse a receber mais. Custa a comprehender como tal exagero podia realisar-se. Por estes motivos os prazos invadidos foram successivamente abandonados e a villa de Senna chegou ao miseravel estado de que não mais se levantará.
Cabe ao sr. major Braga, actual governador do districto de Tete, o merecido elogio de, entre muitos serviços que fez como commandante militar de Senna, ter sido levado pelo seu caracter valente e decidido a auxiliar quanto podia os intentos do cidadão Manuel Antonio de Sousa, natural de Goa, negociante sertanejo, sobrinho de um antigo residente no districto, que pretendia repellir pela força as correrias dos landins aos prazos de Senna. Manuel Antonio de Sousa, chamado pelos cafres _Gouveia_, foi nomeado capitão mór de Manica e Quiteve, e veiu assentar a sua casa na serra da Gorongosa, em uma posição naturalmente fortificada por tal modo, que um homem resolvido a defender-se não tinha mais a temer n'esta base de operações os ataques dos landins. A serra da Gorongosa estava absolutamente deserta quando Manuel Antonio aqui chegou com os pretos que reuniu a si; nas mesmas condições quasi se achava todo o prazo d'este nome. Foram duros os primeiros tempos em que toda esta gente tinha que ir buscar, com os meios que Manuel Antonio tinha obtido e ia obtendo com o seu commercio, mantimento aos prazos limitrophes, todos muito afastados d'este ponto, ao reino do Barue e ainda á Maganja, no outro lado do Zambeze, quando houve fome em toda a margem direita do rio. Hoje muitos milhares de pessoas habitam em centenas de povoações a serra e os territorios que a rodeiam, tanto na Gorongosa como no reino do Barue. Desde que Manuel Antonio para aqui veiu como barreira, todos os prazos cobertos pelo da Gorongosa começaram a gosar de não interrompido socego e a verem desenvolver-se n'elles a cultura dos generos de exportação, com proveito dos indigenas, até ao presente os unicos agricultores, bem como dos que com elle negoceiam e em geral do paiz.
Se a villa de Senna se não resentiu da mudança de circumstancias, a não ser pelo descanso dos que n'ella continuam a vegetar, é porque se acha em situação e condições taes, que a obrigam forçosamente a desapparecer. De ha muito que pela variação do leito do rio deixou Senna de ser um bom porto de abordagem para os que navegam no Zambeze, qualidade que antigamente motivára a creação e grandeza d'esta villa, apesar da bem merecida fama de insalubridade que sempre teve.
O actual talweg do rio correrá a mais do 2 kilometros da villa, e na estiagem é necessario atravessar a descoberto um ardente areal d'esta largura para chegar da margem acostavel ás primeiras casas. O areal porém não é plano, e quando não está todo descoberto na estiagem ou coberto pelas grandes cheias, periodo em que as aguas do rio voltam a correr junto ás muralhas da velha praça de S. Marçal, formam-se n'esta zona de 2 kilometros varios _mucurros_, cujas aguas deixam muitas vezes de correr, e que não só augmentam a insalubridade da villa pelas suas emanações, mas tornam na maior parte do anno a villa do Senna um dos pontos da margem do Zambeze de mais difficil accesso.
N'este trabalho só desejo dizer que sou de opinião que a villa de Senna, como tem sido proposto, deve sair da margem direita do rio, passando com todo o commando militar d'este nome para a outra margem; pois não devo demorar-me a mostrar as grandes vantagens que este commando militar, pertencente ao districto de Quelimane, quando tiver a sua séde em ponto escolhido, ou nas alturas em frente de Senna, onde as casas Regís e Hollandeza têem já grandes edificios, ou um pouco mais sobre o Zioé Zioé, ha de ter no desenvolvimento da nossa acção na valiosissima região limitada pela margem direita do Chire, pelo Zioé Zioé e pela margem esquerda do Zambeze até á Lupata no ponto onde vier a terminar o districto de Tete.
Comquanto o prazo Gorongosa siga ao longo do Aruangua até avistar o mar, não chega elle até á costa, porque a confluencia do Urema na bacia que supponho ser um bom porto de mar, traz com a margem esquerda d'este rio uma porção do grande prazo Cheringoma a interpôr-se entre a Gorongosa e o Oceano. É nesta altura que os landins que se desacostumaram de pisar como conquistadores o prazo Gorongosa, passam hoje para os terrenos ao norte do Pungue atravessando o deserto prazo Cheringoma (onde julgo que tambem deixam algum destacamento) para, graças ao terror que inspira o seu nome e o apparecimento de _um só_ de entre elles entre os pontos da foz do Zambeze, irem sugar alguns d'estes pretos e mesmo mosungos que estejam nos prazos marginaes a jusante do Gorongosa, isto é, os prazos Caia, Inhamunho, Chupanga, Luabo e Melambe.
Quando em 1881 vim pela segunda vez á Zambezia e fiz o conhecimento do Manuel Antonio de Sousa, disse-me elle que se o governo do districto de Quelimane lhe desse de arrendamento os prazos de Chupanga e Cheringoma, pelo preço rasoavel que então quizesse marcar, mas com a condição de que os não poria em praça durante nove annos, tempo por que andavam arrendados os prazos do districto de Tete, a fim de evitar que passados tres ou quatro annos de despezas, trabalhos e perigos, outros viessem concorrer em igualdade de condições para o goso dos resultados obtidos, elle, assim como tinha fechado aos landins a villa de Senna e os prazos envolvidos pelo da Gorongosa, se compromettia a pôr no prazo Cheringoma uma barreira que evitasse para sempre a passagem dos landins para os prazos Caia, Inhamunho, Luabo e Melambe: disse-me mais que já tinha proposto ao arrendatario do Cheringoma que se oppozesse aos landins, mas que este apenas se contentava em aproveitar o prazo para mandar caçar alguns elephantes ou apanhar borracha que n'elle abunda, pagando successivamente ao Musila os tributos de fazenda que a este fossem contentando. Não apreciei então devidamente o grande poder que a rara intelligencia ou perspicácia especial, a actividade, a coragem, o amor do trabalho, a generosidade e a acção absoluta que estas qualidades exerciam sobre milhares de indigenas davam a Manuel Antonio, nem o grande valor que para o paiz tinha a sua proposta, e não a communiquei a pessoa alguma.
No meu diario, 20 de dezembro de 1884, encontro umas palavras que escrevi ao chegar á margem do rio Pungue, quando me via em frente de um poderoso obstaculo que exercitos munidos com bons trens de pontes não deixariam de respeitar. Espero fazer bem transcrevendo-os: «O terreno na ultima parte percorrida é _park-like_ como todo o que precede, mas ainda tem melhores pastagens e melhores terras para agricultura,--terras soltas que serviriam para mendobim--grés e muitos filões de quartzo, nas margens granito. Póde-se considerar verdadeiramente sujeita á soberania portugueza, ou a Manuel Antonio, com relação ao Barue, toda a vasta area comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua. Vejo que todos os que me rodeiam assim o reconhecem; assim como consideram como terras de landins as dos regulos da margem direita do rio. É necessario e urgente occupar aqui um ponto na margem esquerda do Aruangua. Estou certo, agora, que as nossas relações com os landins vão ser muito boas, e espero alcançar alguma cousa para o sul do Aruangua; só um acto de hostilidade declarada é que os poderia trazer em massa ao que elles consideram nossas terras, apesar de costumados a fazer com meia duzia de homens o que n'ellas fazem; mas a este acto _nas circumstancias em que estamos_ podiamos bem resistir. Assim, por um modo ou por outro, Cheringoma, Luabo[1], Melambe, Chupanga, Inhamunho e Caia ficarão de futuro abertos com segurança aos nossos pretos e em breve se acharão habitados.»
Esta riquissima região proximo da costa, que por si só, quando aproveitada, póde render bem mais do que toda a actual provincia de Moçambique, acha-se deserta e de todo desaproveitada, só pelo terror que causa o nome dos landins e a chegada annual de uns vinte ou trinta pretos adornados com pelles e pennas, e armados com um escudo e duas pequenas zagaias. Em dias, que é de esperar não estarão longe, custará a acreditar que um tão aviltante estado de cousas se possa ter continuado por tantos annos n'uma tal localidade.
Alem dos prazos da corôa de que tenho fallado, ha mais, entre o rio Zambeze e o Quelimane para leste do Aruenha, uns muito pequenos prazos juntos ao prazo Gorongosa ou mesmo n'elle encravados, arrendados por Manuel Antonio; alguns pequenos prazos nas proximidades de Senna arrendados por diversos, o muito povoado prazo Chemba, arrendado por Manuel Antonio e d'onde elle tirou mais de dois mil cypaes que levou á guerra do Matacanha (pois para esta guerra não teve que tocar na gente da Gorongosa); o prazo Amoesa, o prazo Chiramba marginal, como o Chemba o é, do Zambeze, tambem arrendado por Manuel Antonio, mas parte invadido por gentes do Bonga, o grande prazo Tambára, de ha muito sertão abandonado, e os prazos todos occupados pela gente do Bonga, incluindo o prazo Masangano.
Em toda a valiosa região de que estou fallando, comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua encoutrâmos apenas dois obstaculos ao seguro desenvolvimento dos seus grandes recursos naturaes. O primeiro, pouco importante, é o Bonga; o segundo são os landins. Ha dois unicos homens, dedicados ao paiz, que têem poder sobre os indigenas que habitam a maior parte das terras da antiga capitania dos Rios de Senna. São os dois homens que com toda a probabilidade salvaram ha poucos mezes a soberania portugueza na Zambezia. São Manuel Antonio de Sousa e Anselmo Ferrão. Este, comquanto capitão mór de Senna, habita hoje a margem esquerda do Zambeze e tem d'este lado um vasto campo onde empregar utilmente a sua acção. Fica Manuel Antonio de Sousa _e é só_ contando com o auxilio d'este capitão mór que praticamente se poderão remover, _dentro da area_ de que trato, estes dois obstaculos. O centro de acção, a base de operação de Manuel Antonio de Sousa, é a serra da Gorongosa, e é na serra da Gorongosa que se acha provisoriamente a séde do governo de Manica; por este motivo e pelo mais que fica dito parece natural e conveniente que os territorios desde o ponto de resistencia á passagem dos landins no prazo Cheringoma, até á aringa do Bonga na foz do Aruenha façam parte do districto de Manica.
Assim, parece que o limite norte a recommendar para o districto seria toda a margem esquerda do Zambeze desde a costa até á foz do rio Aruenha.
O conhecimento porém, que hoje temos da importancia do porto do Inhamissengo, os resultados que se prevêem da fundação da villa Mesquita, proposta pelo sr. capitão-tenente Augusto de Castilho, fazem esperar um tal desenvolvimento á importação e exportação directas de todo o commercio da Zambezia, a realisar de futuro por esta via e porto, que dar toda a margem direita do Zambeze, dar a villa Mesquita e o porto do Inhamissengo ao districto de Manica causaria um grande abalo no systema financeiro de Quelimane. Evita-se de todo este inconveniente, conservando no districto de Quelimane os dois prazos Luabo e Melambe, que têem parte dos seus terrenos no delta do rio, passando agora para Manica por inteiro os restantes prazos, ficando para mais tarde a rectificação da fronteira dos dois districtos desde a margem do Zambeze até á costa, se se encontrar uma linha de separação mais natural do que o poderão ser as para nós desconhecidas confrontações dos prazos Luabo e Melambe com os prazos Chupanga e Cheringoma.
D'aqui resulta que o commando militar já creado na Chupanga ficaria pertencendo ao governo de Manica, o que teria a vantagem de fazer abrir caminho da séde de commando, ou forte que se fez ou está fazendo no antigo Luane do Prazo (a mais solida casa da Zambezia) para villa Gouveia, devassando e rasgando um paiz compacto, cheio de recursos, hoje deserto, e que não tardaria a ir sendo habitado ao longo da linha de communicação.