Relatorio de uma viagem ás terras dos Landins

Part 3

Chapter 33,935 wordsPublic domain

N'este valle muito cultivado ha já algumas povoações de landins com o caracteristico _bode_ ou rodella de cêra preta na cabeça. O contraste é bem notavel entre estas povoações landinas, onde cada um se sente seguro em sua casa e gosa tranquillamente do que é seu, onde as mulheres e creanças sabem que não podem ser levadas pelos primeiros que passem, e as infelizes povoações do Quiteve principalmente as que se acham entre o Aruangua e o Revue. As povoações landinas da margem esquerda do Mussapa são muito poucas e só formam, como testas de ponte para as densas povoações da outra margem; o territorio de Bandire é nosso, e o regulo Murinane e outros da margem direita do Revue, apesar de obedecerem hoje aos landins e de deverem marchar contra nós, se a isso forem forçados, muito prefeririam estar sujeitos directamente e só á soberania portuguesa. Não vi se, para jusante da foz do Mussapa, na pouca extensão da margem esquerda do Mufomose e do Lusito que ainda segue até ao Busi, e em toda a margem esquerda d'este rio, desde a foz do Lusite até á costa, ha ou não muitas povoações de landins. Os limites do districto de Manica, se bem que theoricos, não devem ser só fixados com as terras do Gunguneana, mas, proximo da costa, tambem com o districto de Sofalla. Pelo que tenho dito parece-me haver decidida vantagem em considerar a margem esquerda do rio Mussapa e a continuação d'essa margem na altura do Mufomose, Lusite e Busi até ao mar, como limite sul do districto de Manica. O districto de Sofalla confinaria ao norte, de leste a oeste, com o de Manica, e a oeste, de norte a sul, com as terras do rei de Gasa, com limites a determinar e que restituissem a Sofalla todos os seus antigos prasos ao sul do Busi, e mais terras hoje invadidas pelos landins.

Ao sul do districto de Manica e a oeste do de Sofalla haveria um grande potentado, vassallo portuguez, que teria toda a liberdade da dictar a lei no governo das suas terras e do seu povo, afastaria a dominação estrangeira e poderia, sendo bem aconselhado, e recebendo bem os conselhos, desenvolver no seu paiz varias industrias agricolas, como a da creação de gado, a que o terreno se presta admiravelmente, e producção de lã e mohair, que dariam uma grande prosperidade ao porto de Chiloane, ou a outro porto vizinho que parece existir em melhores condições o dever vir a substitui-lo para o serviço dos paquetes.

Disse que o valle do Mussapa é uma planicie bastante larga; pareceu-me, pelo exame que fui fazendo de varios pontos do meu itinerario, que em parte seguindo este valle e ao sul do macisso de montanhas que separa o Mussapa do Revue, ha uma facha de terreno plano que sobe gradualmente para o interior, que passa não muito longe da povoação de Murinane, que passará junto á base das montanhas do Bandire e continua na direcção de Manica, cujas serras eu distinctamente via n'esta direcção.

Assim, haverá, a partir da costa, dois caminhos naturaes para a região de Manica.

O primeiro, é o que indiquei, pelo rio Pungue, e depois da margem d'este rio, seguindo obliquamente para a bacia do Revue. É o unico caminho da costa que por muito tempo nos poderá interessar.

O segundo, que parece proprio para o assentamento de uma linha ferrea, e que só agora indico como nota que possa vir a ser util para algum trabalho futuro, seria o que partisse do fundo do que dizem ser o excellente porto a que ha pouco me referia, formado por traz da ilha Boene, ou da margem esquerda do rio ou braço de mar denominado Mutizane, seguisse pelos terrenos planos do baixo Quiteve, atravessasse o Busi, talvez nas proximidades do arco Inhambimbe, ou foz do Lusite, e seguisse pelos valles e margens esquerdas dos rios Mufomose e Mussapa, passando junto ao Bandire até Manica.

Terrenos ao sul do Mussapa

Pouco me resta a dizer a respeito de terrenos, que nos interessem directamente, pois devemos considerar os territórios ao sul de Mussapa, como pertencendo ao rei de Gasa; isto até que em epochas futuras todas as terras dos landins venham a passar ao dominio directo da nação.

Atravessei, como disse, o Mussapa na sua confluencia com o Mufomose; depois de uma hora de caminho em planicie, e suppondo que estava sempre no valle do Mufomose achei-me nas margens do Lusite, e passado este rio, continuei, sempre em paiz plano, até á base da serra Citatonga contra a qual me levaram, e sobre a qual tive que passar; á esquerda do meu caminho a planicie continua até á costa; á direita as montanhas elevadissimas de onde nascem o Mussapa, o Mufomose, o Lusite, o Busi, e outros affluentes d'estes rios, montanhas que separam o systema hydrographico do rio Busi do da bacia do rio Save. Este ultimo rio vem muito mais do norte, tendo as suas origens proximo da divisoria das aguas para o Zambeze, e origem do affluente do rio Aruenha, affluente do Zambeze em Masangano; corre do norte ao sul recebendo do lado do oeste as aguas de affluentes que vem das terras do Muzilicatze, do lado de leste as que nascem nas vertentes de oeste das serras de que acabo de fallar, e é junto á margem de um d'estes affluentes que está a aringa do rei Mutaça; depois, em maior latitude, volta rapidamente para leste para desaguar no oceano Indico por muitos braços formando um extenso delta a que Chiloane pertence. Os rios Busi o Save junto á costa correm portanto quasi como parallelos entre si. A villa de Sofalla fica approximadamente a meia distancia entre a foz dos dois rios.

Como se vê no esboço junto e como eu vi do alto da serra Citatonga, o rio Busi, depois de passada esta serra, corre para o norte a ir receber não muito longe, e em terreno perfeitamente plano, as aguas do Lusite; o que prova que desviando um pouco o itinerario para leste, poderia ter contornado a serra Citatonga em logar de ter passado duas vezes pela sua cumiada, o que, principalmente pela garganta por que passei na volta, é bastante custoso.

Passada a serra Citatonga, o caminho segue em terreno plano, apenas com ligeiras ondulações em alguns pontos, ficando proximo, á direita, as montanhas onde nascem o Busi e um importante affluente d'este rio, pela agua que leva, por entre rocha, o rio Muzirisi, junto á margem esquerda do qual, na pequena povoação de Cuzova, terras do grande Mugomugomo, terminou a minha viagem. Proximo da margem direita d'este rio, um pouco a montante do logar onde eu estava, e a umas cinco ou seis horas de caminho, é que está a povoação do Gunguneana.

Do valle do Muzirisi, diz o explorador inglez Mr. Erskine o seguinte: «O valle do Muzirizi (que elle chama Umswelisi) está destinado a ser um dia uma das mais productivas regiões d'este lado do continente. Assucar e café dar-se-íam ahi admiravelmente; e por causa da sua elevação supponho que será perfeitamente sadio».

Mais longe diz: «A agua transparente d'este rio é abundante e seria sufficiente para irrigar este extenso e fertil valle, e ainda para mover moinhos, para o que a sua rapida quéda o torna muito proprio».

Do Aruangua, do Revue e de todos os menores rios, affluentes d'estes, se póde em geral dizer outro tanto.

A parte das terras do valle do Muzirisi que não está cultivada com milho, mapira, feijão, etc., é destinada á pastagem das numerosas cabeças de gado que o Muzila tinha, e o Gunguneana conserva e trata de augmentar, e que se acham divididas por manadas entregues aos chefes das differentes povoações. A manada na povoação de Cuzova tinha a especialidade de ser exclusivamente composta de gado muito novo, ou vitellos que iam sendo separados das mães nas manadas vizinhas.

Minha missão, seu resultado

Foi, como disse, a presença das duas embaixadas dos landins na Gorongosa, que me aconselhou a escolher esta occasião para fazer a primeira visita ao rei de Gasa. Tudo o mais nos era contrario: chuvas, cheias dos rios, caminhos fechados com palha de altura de dois homens. Não tinha tambem na Gorongosa quem soubesse portuguez e vatua, nem mesmo pessoa que me podesse acompanhar e servisse de bom interprete; de portuguez para as linguas da Gorongosa ou do Quiteve, muito similhantes, e que muitos dos landins fallam.

Um dos meus moleques era o interprete com que mais poderia contar, mas fui successivamente descobrindo a impossibilidade de lhe fazer comprehender qual era a missão do interprete, e de lhe fazer traduzir cousa que elle não pensasse entender, e sobre a qual elle depois livremente discursasse na lingua para que traduzia.

O que não fosse de accordo com a sua opinião não traduzia, e não foi possivel fazel-o referir a povos de que elle nunca tinha ouvido fallar.

Prevendo isso, logo que cheguei ao Quiteve escrevi ao capitão mór de Sofalla, um mouro chamado Amade Sene Abdalá, filho de um Gricar Abdalá, que vemos figurar como lingua do estado nos termos da reivindicação do territorio do Bandire em 1835, e de uma princeza murinane, irmã da actual rainha Gomoni e do actual regulo Murinane, preta ou princeza com que elle Gricar travou relações, e que levou para Sofalla, onde ella passou o resto da vida. Sabia eu portanto que o capitão mór de Sofalla era sobrinho dos dois mais importantes regulos do Quiteve; sabia mais, que elle, como antigo negociante, era conhecedor dos sertões, que fallava a lingua do Quiteve e a lingua vatua e que era valente; e por isso lhe escrevi, pedindo-lhe que me viesse servir de interpretre.

Da mesma povoação em que escrevi a Amade Sene, partiram rapidamente para a frente tres landins com o fim de annunciarem a Gunguneana da minha viagem. Encontrei-os de volta a uns tres dias da povoação do rei, dizendo-me da parte d'elle que seguisse e que seria bem recebido.

Na manhã de 23 de janeiro, quando suppunha que nesse dia chegaria á povoação do Gunguneana, pararam os meus conductores na povoação de Cuzova, que já tenho citado, para que fossem alguns d'elles dar parte ao rei de que eu me approximava. Só na manhã do dia 1 de fevereiro chegaram quatro grandes, que, acompanhados de muita gente, me vinham comprimentar da parte do Gunguneana, trazendo-me um boi, e pedindo-me que expozesse o motivo da minha visita. Apenas consegui poder dizer-lhes que vinha para confirmar e estreitar as relações de amisade com o novo regulo portuguez, e para lhe dizer que o rei resolvêra mandar reoccupar as suas terras de Manica e avisar d'isso o Gunguneana para que se alguns landins fossem para aquelle lado recebessem do Gunguneana ordem para ter bom trato com os mosungos. Fallei apenas de Manica, e é claro que não podia pedir licença qualquer para irmos para lá, visto que as terras da região da antiga feira de Manica são portuguezas e como taes reconhecidas pelo rei de Manica e por todos os povos que habitam os paizes vizinhos. Como porém os grandes das duas embaixadas me tinham sempre acompanhado, e, depois da sua viagem e ausencia de muitos mezes não tinham ainda estado em relação com os que cercam o Gunguneana começaram em landim discursos que duraram horas, e em que notei que, de certo com as melhores intenções, porque todos os landins com que estive em contacto me deram sempre provas do sympathia, repetidas vezes fallavam em Ferrão, Gouveia, Gorongosa, Manica, Bandire e Inhaoxo, e em que provavelmente disseram que eu vinha para tomar conta de todo o Quiteve, como varias vezes o haviam dito pelo caminho, sem que palavra ou acto algum da minha parte motivasse tal asserção.

Partiram os grandes parecendo muito satisfeitos commigo e dando-o a entender que no dia seguinte ou no dia depois d'este alguem me viria buscar da parte do Gunguneana.

No dia 3 de fevereiro, quando eu já de ha muito suppunha que o capitão mór de Sofalla não podia ou não queria vir até tão longe, appareceu-me elle, motivando a sua demora pela do portador da minha carta, que fiou muitos dias em uma das povoações do caminho, dando as chuvas como pretexto da paragem.

Em outras communicações fallarei de Sofalla e do seu capitão mór, homem que me parece muito util. Elle veiu com bastante gente de Sofalla, e durante os dias que estivemos juntos, apesar da impaciencia da espera, não podia deixar de ter muito prazer, vendo fraternisar e _amossossar_ juntos gente de Senna com a gente de Sofalla, reunião que ha muitas dezenas de annos julgo não tinha tido logar.

Esperavamos de dia para dia o aviso de Gunguneana para marcharmos; quasi todos os dias vinha de lá alguem que por varios motivos ia justificando a demora passada, annunciando que breve seguiriamos.

Indicarei alguns d'esses motivos:

_a_) Entrega dos _Nhunhe muchopes_ (passaros brancos) aos seus commandantes.

Com este nome acaba Gunguneana de crear um novo corpo do exercito, recrutado em todas as suas terras e constituido com rapazes que deverão servir por um determinado numero de annos n'este corpo, e que emquanto não passarem para outro ficam prohibidos, sob pena de morte, de casar ou ter relações com mulheres. O nome é devido a que os escudos são feitos com pelles de bois brancos, e que todo o vestuario dos homens será da mesma côr; pelles ou pennas brancas. Como muitos landins vão trabalhar no Transvaal, na republica de Orange e nos Campos de Diamantes, trazem d'esses paizes quantidades de pelles de carneiros de comprida lã branca, de que cortam estreitas tiras, com que adornam o grosso dos braços e as pernas, logo abaixo dos joelhos.

Quando cheguei á povoação de Cuzova tratava-se effectivamente de reunir na do Rei todos os _Nhunhe muchopes_, e vi passar nos primeiros dias que ali estive, muitos centos de rapazes, que de todos os lados convergiam para o ponto de reunião.

_b_) Reunião de outra gente de guerra, que tambem vi passar em grande quantidade, por causa de um importante acampamento, manifestado por uma extensissima linha de fogos ao longo da margem direita do rio Save, e constituido por gente do Muzilicatze, sem que ainda se soubesse se vinham para cumprimentar o novo rei, se para lhe fazer guerra.

Mais tarde, quando regressava pelo Quiteve, disseram-me que dez brancos a cavallo, vindos do lado do Muzilicatze, tinham com muita gente atravessado o Save, para visitar o Gunguneana. Não sei se estes brancos têem ou não relação com o acampamento a que me acabo de referir.

_c_) Reunião dos grandes, chegados de povoações muito afastadas para que Gunguneana conversasse com elles a respeito da minha visita.

No dia 11 de fevereiro chegaram finalmente á povoação de Cuzova todos os grandes que primeiro me tinham vindo ver, acompanhados de alguns outros; depois de muitos comprimentos e de conversarem sobre assumptos estranhos ao objecto da minha presença ali, o maior de entre elles, um bello e sympathico homem, por nome Magumeana, chamou do grupo de pretos, que estavam sentados atrás dos grandes, um que veiu pôr junto a mim uma pequena ponta de marfim, sobre a qual Magumeana poz duas libras sterlinas[2], dizendo que era a _bôca_ do Gunguneana, para dizer que não podia consentir em que os brancos viessem trabalhar nas minas, nem estabelecer-se nas suas terras, _porque se o fizessem, viriam depois tantos, que em breve lhe tirariam o poder_; que elle Gunguneana era portuguez, que elle, mas elle só, era mulher do rei de Portugal, que assim o dizia a todos os estrangeiros, que desejava amisade com os brancos; que tem dado d'isso muitas provas, e ainda muito recentemente, quando na Chupanga lhe assassinaram traiçoeiramente, quando elles dormiam, todos os landins que lá estavam, não tendo feito guerra por esta causa; que os mosungos podem livremente vir negociar, com segurança, a todas as suas terras, mas que não quer que n'ellas explorem as minas; que os brancos nunca fizeram esse pedido a seu pae, e que notava que se tinham reservado para o fazer quando elle acabava de subir ao poder.

Fiz notar que eu já me achava em caminho quando se soube do fallecimento do Musila, e que o rei de Portugal não tinha que receber licença de pessoa alguma para mandar mosungos para as suas terras do Manica, que todos na localidade reconhecem pertencer-lhe.

Era inutil qualquer discussão com estes homens isolados, visto que a resposta do Gunguneana tinha sido dada em conselho de todos os grandes, que já se achavam espalhados, e que evidentemente eu não podia ter por agora modificação ás resoluções tomadas. Tratei, só, portanto, de aproveitar a presença de um homem intelligente como é o capitão mór de Sofalla, bom conhecedor do portuguez e do landim, para dizer o que desejaria ter dito na minha primeira entrevista com os grandes, embora o mau resultado da minha viagem tornasse impossivel o tratar de muitos pontos, como o da construcção de um telegrapho com excellente directriz, passando pela povoação de Gunguneana, o transporte maritimo por Chiloane dos landis, que com viagens de mezes vão servir no Natal.

N'esse mesmo dia 11 de fevereiro comecei a viagem de volta para a Gorongosa, onde cheguei no dia 1 do corrente. Não indico n'este trabalho, destinado a fornecer infirmações a s. ex.ª o ministro da marinha, os promenores da viagem, que só podem interessar e muito aos que tiverem de percorrer o paiz.

Gunguneana disse aos grandes, quando elles vieram ver-me com a resposta, que não me pedissem fazendas, para que eu não _podesse voltar dizendo que tinha comprado as minas_; caso sem exemplo, com landins em frente de _motores_ de fazendas, e que bem mostra que é receio o que elles todos têem. Dei, porém, aos grandes, tanto na primeira como na segunda visita, e mandei pelas duas occasiões ao Gunguneana alguns presentes; porque achei conveniente deixar boa impressão e separar-me dos grandes com agradaveis relações.

Os grandes nomearam tres landins para nos acompanharem, receiosos de que o estranho facto, de voltarem do lado da casa do seu chefe mosungos com motores de fazenda completos não fosse attribuido a alguma fuga ou desavença, e nos causasse embaraços no caminho.

Junto a este relatorio vae um resumo da conta de todas as despezas da viagem, incluindo as do transporte do capitão mór de Sofalla, e todos os presentes dados ao Gunguneana, seus grandes, regulos do Quiteve, e todos os chefes da povoação onde passámos, na importancia de 624$800 réis, despezas pagas pelo governo do districto de Manica.

Comparações com a colonia ingleza do Natal; algumas apreciações dos nossos vizinhos ácerca do paiz que visitei; da nossa administração e modos de proceder

O cônsul O'Neill em um dos relatorios que, como consul de Sua Magestade Britannica na provincia de Moçambique, é obrigado a fazer annualmente, diz o seguinte: «Situada entre o territorio do sultão de Zanzibar e a colonia do Natal, está a provincia de Moçambique, que em nada é inferior a qualquer d'estes dois paizes e lhes é muito superior pelos seus numerosos portos, pelas vias naturaes de communicação, que permittem attingir facil e economicamente grandes distancias no interior; e comquanto a colonia de Natal muito pequena, de recente creação veja elevar os seus rendimentos a X (não cito cifra por não ter o documento presente), comquanto Zanzibar com todos os contras da civilisação arabe renda Y, a provincia de Moçambique rende apenas Z (uma pequena fracção de Y, já muito inferior a X).

O motivo da differença, tão contraria nos resultados, quando as condições naturaes são todas a favor da provincia de Moçambique, só póde ser devido á differença dos processos empregados.

Os rendimentos da provincia do Natal foram em 1882 de £657:737, e o valor das exportações feitas por cima da barra quasi inaccessivel do porto de Durban foram de £731:309. Dados muitos recentes mostram que o valor das exportações pelo mesmo porto subiu em 1884 á respeitavel somma de £957:918 ou mais de 4.300:000$000 réis; sendo £523:377, ou mais de 2.300:000$000 réis, do valor de lã (a maior parte da qual, devo dizer, vem de fóra da colonia, do Transvaal e da republica de Orange); £185:131, ou 832:000$000 réis, de assucar, e mais de 360:000$000 de réis de pelles de animaes. O seguinte artigo, cortado do jornal que mais aversão nos tem, o _Natal Mercury_ de 18 de novembro de 1884 na geralmente intrigante e invejosa colonia de que estou tratando, mostra quaes foram os rendimentos do porto de Lourenço Marques quando subitamente elevados por uma causa que então foi passageira, e as observações que sobre esta circunstancia fazem.

A construcção do caminho de ferro que com felicidade consta vae finalmente realisar-se por uma empreza portugueza, bem depressa mudará o _présent régime_ n'este porto, e lhe affirmará a superioridade que este mesmo jornal diz que elle terá logo que se verifique a expulsão dos portuguezes pelos allemães em toda a costa oriental de Africa, como elle tão inconsequentemente mostra desejar.

Junto dois pequenos artigos n'este sentido.

«Better far have one small German settlement near us than any number of miserable and wretched Portuguese colonies which never have and never can benefit either settlers or aborigines, but which are simply a curse wherever they have taken root on African soil.»

«We colonists might well hail with delight the proclamation of German rule over the territories stretching from shore to shore north of the Limpopo and its parallel, and south of the Congo. A German empire in those regions would form a magnificent background to an Anglo-African Dominion on this side.»

The trade of Lourenço Marques

«Accustomed as we are to regard Delagoa Bay as a formidable competing port in its relation towards the trade of the Transvaal, we are apt to exaggerate the real proportions of the trade done there. Through the courtesy of Mr. de Costa we are able to give the following summary of the monthly returns of trade at Lourenço Marques for the present year:

Importation Exportation £ £ January 3:211 7 0 705 12 0 February 2:482 3 0 2:826 1 0 March 6:982 7 0 1:727 15 0 April 7:521 8 0 2:147 5 0 May 10:924 0 0 1:651 18 0 June 1:434 2 0 3:759 9 0 July 9:184 7 0 1:846 1 0 August 10:051 1 0 133 11 0 September 5:472 5 0 4:284 11 0

«These figures differ from those of preceding years in this respect--that they cover the period of temporary inflation caused by «Moodie's Rush» and the Lydenburg Gold Fields generally. Yet what are the facts? For the nine months of this year all the imports through Delagoa Bay only reached a value of £56:263, while the exports only reached a total £19:082 being a monthly average of £6:251 in the one case and of £2:120 in the other. Thus, carrying on the average, the entire import trade of the rival port represents, so far, a yearly value £75:014 only. There is not much in these figures to cause dismay. No abnormal diversion of trade has yet taken place, and in the absence of a line of railway we are not likely under existing circumstances to see much improvement in these figures. Were any power other than Portugal to establish itself at Delagoa Bay the case might be different; but so long as the _present regime_ abides at the northern port we can afford to go on our way steadily, seeking to conserve and to retain whatever trade we at present command.»

E outro mais grave publicado em o numero de 20 de janeiro ultimo.

The powers in Africa, January, 16