Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV)
Part 5
Estavam já em Arronches pae e filho, quando chegou noticia de que D. Leonor, mulher do principe herdeiro, havia dado á luz o infante D. Affonso, que tão pouco vivera e tão desastrosamente acabara. «E por seu nascimento, diz Ruy de Pina, declarou logo el-rei, sendo caso que o principe D. João, seu filho, em sua vida fallecesse, a tempo que elle rei tivesse outro filho lidimo _da rainha D. Joanna, sua esposa, com quem havia de casar_, que ao dicto infante D. Affonso sempre pertencesse e viesse a successão dos reinos de Portugal, e que para isso fosse logo jurado e obedecido...»
Tratou-se, pois, de entrar em Castella ao som de guerra.
A fim de melhor garantir o successo da empresa, Affonso V tratou de entender-se diplomaticamente com o rei de França, Luiz XI, como vamos ver.
Em 1471, o marquez de Vilhena representou a Luiz XI pedindo-lhe que auxiliasse o rei de Portugal. Expunha quaes eram as forças de que Affonso V podia dispor: elle marquez, tres mil cavallos; o arcebispo de Toledo, dois mil; o mestre de Calatrava, dois mil; o bispo de Calatrava, dois mil; o bispo de Burgos, trezentos; o conde de Horoianna, trezentos; D. Affonso, senhor de Montalvão, duzentos; D. Affonso e D. João, filhos bastardos do mestre de S. Tiago, quatrocentos; D. Pedro de Porto Carreiro, irmão do marquez, quatrocentos; a condessa, mãe da mulher do marquez, trezentos; o duque de Arévalo, dois mil; o marquez de Cadiz, genro do mestre de S. Tiago, mil e quinhentos; o duque de Sevilha, dois mil; D. Affonso de Aguillar, seiscentos; o conde de Feria, quatrocentos.
Toda esta gente de armas, com a que o rei de Portugal poria em movimento, dava um exercito de trinta e dois mil homens. Accrescentava o emissario do marquez de Vilhena que se o rei de França continuasse a fazer guerra ao de Aragão, na Catalunha, elles o poriam em tal aperto que seria obrigado a desistir das suas pretensões ao reino de Castella.[27]
Vê-se, pois, que, contando com todos estes recursos, Affonso V não procedeu tão levianamente como pretendem alguns chronistas castelhanos.
Por sua parte, o rei de Portugal escreveu a Luiz XI, revelando-lhe as intenções em que estava de desposar sua sobrinha D. Joanna, e declarar guerra a Castella, promettendo que, se lograsse alcançar victoria, ficariam cada vez mais estreitadas as relações de antiga amizade entre as duas coroas de Castella e França. Passava-se isto a 8 de janeiro de 1475, e logo no fim d’esse mesmo mez tornava Affonso V a escrever a Luiz XI, dizendo-lhe que receando qualquer demora na entrega da primeira carta, escrevia de novo allegando os direitos de D. Joanna ao throno de Castella, e pedindo-lhe favorecesse a causa d’esta princeza, cujo triumpho seria mais conveniente á politica franceza do que a victoria do ambicioso rei de Aragão. Participava haver pedido o auxilio do papa, e rogava a Luiz XI que no mesmo sentido escrevesse ao pontifice.
Em abril respondia Luiz XI accusando a recepção da primeira carta, de 8 de janeiro, e dizendo que encarregara Olivier le Roux de vir a Portugal responder aos artigos d’ella; que estando já Olivier a caminho, recebera a segunda carta; que se dera pressa em escrever ao papa no sentido desejado, despachando como portador um emissario para Roma.
Effectivamente, chegara a Portugal mestre Olivier, o qual, em nome do seu soberano, dissera a Affonso V que a respeito da alliança, que propunha a Luiz XI, importava lembrar-se de que, tendo Portugal alliança com os inglezes, antigos inimigos da França, era mister declarasse como e em que fórma entendia a alliança proposta; que essa alliança, segundo os precedentes estabelecidos entre Castella e França, não devia admittir excepção de pessoas; que, attenta a visinhança dos dois paizes, convinha á França auxiliar as pretensões de um principe que ficasse sendo seu amigo e alliado; que o rei de Aragão, pae de D. Fernando, enviara a França um embaixador com a proposta de paz e alliança, e de casamento da filha do dicto rei de Aragão com o delfim; que o rei de França nada decidira, e mandara um embaixador a Aragão para mais explicitamente inteirar-se da substancia da proposta; que el-rei de Portugal bem sabia como o de França o estimava e amava, de preferencia a qualquer outro; que o reino de Portugal ficaria de futuro comprehendido na alliança que houvesse de fazer-se entre a França e Castella; que no caso da alliança se não realizar no sentido indicado, seria sempre util manter entre a França e Portugal relações de paz, grande amor e amizade.
O fecho das instrucções, copiadas pelo visconde de Santarem da bibliotheca real de Pariz, diz o seguinte: «E tratando d’estas coisas, o dicto mestre Olivier fará por saber _quem tem mais parcialidade e poder, se el-rei de Portugal em razão da filha d’el-rei de Castella, ou el-rei de Castella em razão da irmã, e de tudo quanto souber dará parte a el-rei_.»
Como se viu, Luiz XI entrincheirava-se detraz das mais astutas reservas diplomaticas. Nada de categorico e consistente. Apenas a manifesta intenção de querer aproveitar-se da ambição de Affonso V para romper a alliança de Portugal com a Inglaterra.
Estavam as coisas n’este pé, quando Affonso V sahiu de Portugal com um exercito de cinco mil e seiscentos homens de cavallo, e quatorze mil infantes. Lafuente diz que a cavallaria ia na força de cinco mil e _setecentos_ homens. A differença é pequenissima. O principe D. João acompanhou seu pae até á fronteira, e retirou depois, sabe Deus com que profunda magua de o não poder seguir!
Ruy de Pina, descrevendo a ordenança do exercito portuguez, diz que ia na frente o adail-mór Diogo de Barros, com _certos ginetes por descobridores_. Seguia-se o marechal D. Fernando Coutinho, como _aposentador e assentador do arraial_. Depois, Vasco Chichorro, capitão dos ginetes d’el-rei, logo seguido pelo conde de Penamacôr, capitão da vanguarda real. Após, ia a carriagem e, depois d’ella, o rei, com poucas pessoas da sua guarda, diz Goes, e um pagem que levava o guião com a divisa real, um rodizio de moinho com gottas d’agua ao redor e esta legenda _Jámais_, divisa que tomara pela sua primeira mulher, D. Isabel. Na rectaguarda ia o duque de Guimarães, servindo de condestavel do reino.
Tem razão Lafuente, quando diz que no exercito de Affonso V ia a fina flor dos cavalleiros portuguezes. Assim era, com effeito. Alem dos já citados, apontam os chronistas os condes de Faro, Loulé, Penella, Monsanto, etc.
Damião de Goes e Ruy de Pina referem que Affonso V chegara a Plasencia sem que alguem pretendesse tomar-lhe o passo. Zurita diz, porêm, nos _Annaes_, que se oppozeram ao exercito portuguez cêrca de mil cavalleiros castelhanos, e que, «á entrada, em diversos recontros, derrubaram mais de duzentos de cavallo, dos inimigos (os portuguezes)», chegando os capitães a carregar até aos flancos do nosso exercito.
Em Plasencia era esperado Affonso V pelo duque e duqueza de Arévalo e pelo marquez de Vilhena, que lhe apresentou D. Joanna, a qual, por ordem do marquez, tinha estado confiada á guarda de Pedro de Baeça. Dizia este Baeça que os reis catholicos lhe tinham mandado offerecer, por um irmão e pelo proprio pae do depositario, quatro contos de renda, quatro mil vassallos com a villa de Torquemada, e o titulo de conde, com promessas de casamento rico para o filho, se consentisse em entregar-lhes a _Beltraneja_. Accrescentava que voltara com egual commissão o doutor Rodrigo Maldonado, mas com maiores promessas, e que elle tudo recusara.
VI
A BATALHA
Aposentou-se Affonso V com D. Joanna na fortaleza de Plasencia. Ahi deslizaram alguns dias perdidos em _festas e prazeres_, diz Pina. Affonso V iniciou a campanha de Castella por dois graves erros, reconhecidos pelos proprios chronistas castelhanos. Zurita diz que se Affonso V, em vez de entrar por Plasencia, tivesse entrado pela Andaluzia, Sevilha não poderia resistir por muito tempo a um cêrco, e que, tendo elle por si Sevilha, se renderiam logo outras cidades, favoraveis a D. Joanna, ficando-lhe livre o caminho até aos confins do reino de Aragão; e que se houvesse querido dirigir-se para Toledo, onde o arcebispo e o marquez tinham poderio, haveria logrado chegar até Segovia. Accrescenta que Affonso V se demorara nas festas de Plasencia mais do que lhe convinha.[28] Lafuente escreve no mesmo sentido, dizendo que o rei de Portugal, demorando-se em Plasencia e Arévalo, dera tempo a que Fernando e Isabel supprissem á força de actividade a falta de dinheiro e de apercebimentos de guerra.[29]
Mas o que é certo é que Affonso V se demorou em Plasencia, onde celebrou publicamente desposorios com sua sobrinha,[30] e ambos foram proclamados reis de Castella, Leão e Portugal. Ruy de Pina observa «... e chamou á rainha esposa, com a qual então nem depois nunca consumou o matrimonio, por defeito de dispensação, que não tinha nem houve nunca.» Mais tarde trataremos este ponto. Por agora, para não interromper a narrativa com longas divagações, diremos que D. Affonso V tratou de fazer publicar o _Manifesto_ dos direitos de D. Joanna ao throno de Castella. Sousa[31] copiou-o de Zurita; tem a data de 30 de maio e é dirigido á _villa_ de Madrid. N’esse documento, que é extenso e que está bem escripto, D. Joanna historía todos os acontecimentos politicos do reinado de Henrique IV, que o leitor já conhece. Accusa Fernando e Isabel de terem envenenado ou mandado envenenar o rei. Insiste em que elle a reconhecera publicamente como filha e herdeira, no leito da morte, porêm não fala em testamento. Allude, com a desenvoltura que o assumpto requeria, á supposta impotencia de seu pae, affirmando ás claras que elle _era hombre poderoso para engendrar_. Referindo-se a seu tio e noivo, diz: «O que tudo visto pelos dictos duque de Arévalo e marquez de Vilhena, como meus tutores, guardadores, usando da lealdade e fidelidade que me devem, e acatando, como o mais alto e mui poderoso principe D. Affonso, por a graça de Deus rei de Portugal, e rei de Castella e de Leão, que agora é meu senhor, e principe mui catholico, e de grande fama, exemplo e de grã virtude e prudencia, para manter e governar estes dictos meus reinos, em justiça e verdade, como cumpre ao serviço de Deus, e meu, e ao regimento, e reparo, e restauração d’elles para o futuro, e conformando-se com a vontade do dicto rei meu senhor, que em sua vida, com accordo de muitos prelados e grandes, diversas vezes o negociou e procurou, accordaram e assentaram com elle, que casasse, e celebrasse desposorio commigo: e para isso viesse e entrasse n’estes dictos meus reinos como rei, e senhor d’elles, como meu legitimo esposo, e marido. E estando eu na cidade de Turgilho, sob a salvaguarda do dicto marquez de Vilhena, o dicto rei meu senhor enviou seu embaixador e procurador com seu poder bastante, para se desposar, e desposou commigo, em legitima e devida fórma: e depois, estando n’esta cidade de Plasencia, ... dias do mez de maio d’este anno, da data d’esta minha carta, o dicto rei meu senhor chegou á dicta cidade por sua pessoa, e desposou-se e _dio las manos comigo_: e solennemente jurou, e fez voto solenne, de nunca me sacar fóra d’estes dictos meus reinos, nem sua senhoria sahir fóra d’elles, até, mediante a graça de Deus, os acalmar e pacificar.» Noticía depois como se celebrara o acto da acclamação, e ordena que, logo que aquella carta regia recebam, _se ajuntem todos por pregão e alcem pendões pelo dicto rei D. Affonso_. Diz constar-lhe que os _reis da Sicilia_ têem feito espalhar o boato de que os portuguezes são por indole hostis aos castelhanos. Desmente este boato, recorda o parentesco e amizade de Affonso V com a casa real de Castella, e accentua que os portuguezes são christãos catholicos, e obedientes á vontade do seu rei.
Um dos pontos que melhor estão tratados no _Manifesto_, é o que se refere á desobediencia de D. Isabel, tendo fugido da côrte para casar com o rei da Sicilia, que era extrangeiro, não confederado, nem alliado com Henrique IV, quando ella o não podia nem devia fazer, não só por ser contra vontade do rei, mas tambem porque as leis do reino dispunham que as donzellas, menores de vinte e cinco annos, não casassem sem consentimento de seus paes e irmãos mais velhos. De mais a mais, Fernando e Isabel eram parentes em grau prohibido, e não tinham obtido dispensação apostolica.
Lembra finalmente D. Joanna quanto Fernando e Isabel fizeram para se apoderar do thesoiro real de Segovia, como se apoderaram de todo o oiro e prata, joias, brocados e pannos, que deixara Henrique IV, não dando, nem consentindo que se désse para o seu enterro e sepultura _o que para qualquer pobre cavalleiro de seu reino se dera_, e tentando havel-a á mão para a fazerem encarcerar perpetuamente ou porventura matar.
Como se vê, o _Manifesto_ está habilmente redigido; procura ferir todas as notas, tanto a da legalidade, como a da sentimentalidade.
D. Affonso V tambem escrevera á cidade de Salamanca, sobre o direito de D. Joanna á coroa de Castella,[32] e procurara apoiar-se na diplomacia para corroborar o effeito que esperava colher da publicação dos manifestos.
De Plasencia enviou a França, como embaixadores, D. Alvaro de Athayde e o licenciado João d’Elvas, com plenos poderes para negociarem a desejada alliança. Philippe de Comines, que assistiu á audiencia dos embaixadores portuguezes na côrte de França, accusa-os de não terem conhecido as astucias de Luiz XI, de não terem ao menos suspeitado de que faltaria ás suas promessas. Passa-lhes diploma de incapacidade, e o caso é que os factos posteriores deram razão a Comines.
Affonso V queria que Luiz XI, a quem D. João de Aragão tinha tomado o condado de Roussillon, fizesse guerra a D. Fernando, pela fronteira franceza, envolvendo assim Castella em duas invasões simultaneas.
Tambem Affonso V enviou embaixadores a Roma, a fim de solicitarem do papa a dispensação matrimonial de que carecia, para realizar o casamento com sua sobrinha.
Com estas armas julgava o rei portuguez ir ferindo o adversario. Enganava-se. Fernando levantava em Valhadolid um exercito de quatro mil homens de armas, oito mil ginetes e trinta mil peões, verdade seja que pela maior parte mercenarios. Fôra D. Isabel quem obtivera as sommas indispensaveis para equipamento do exercito, conseguindo que André Cabrera lhe entregasse o thesoiro de Segovia;[33] Fernandes de Oviedo não duvída affirmar, nas _Quincuagenas_, que estava na mão de Cabrera fazer rainha a princeza Isabel ou a princeza Joanna, segundo elle se decidisse a entregar o thesoiro, que continha cêrca de 10:000 marcos de prata, a uma ou a outra princeza. Diz Zurita que o marquez de Vilhena fizera grandes promessas a Cabrera por parte do rei de Portugal, chegando a offerecer-lhe a renda annual e vitalicia de dez contos de maravedis, e que elle os recusara, porque já em vida de Henrique IV era affecto á causa de D. Isabel.
O que é certo é que Cabrera entregara a D. Isabel o thesoiro de Segovia, cohonestando este valioso auxilio com o pretexto de lhe dar a rainha sua filha em refens.
D. Isabel, apesar de se achar gravida a esse tempo, não descansava um só momento; a fadiga fez com que tivesse um aborto no caminho de Toledo para Tordesilhas. Tentou D. Isabel, em Alcalá de Henares, congraçar o arcebispo de Toledo, mas o prelado mandou-lhe dizer que se ella entrasse no paço por uma porta, elle sahiria por outra.
Affonso V, depois de se refocillar nas festas de Plasencia, passava a Arévalo, um pouco por lisonjear os duques, que lhe queriam dar hospedagem, um pouco por em Plasencia não sobejarem os mantimentos. O que é certo é que Affonso V resolvera aguardar em Arévalo os reforços que deviam enviar-lhe os fidalgos castelhanos do seu partido, commettendo assim a imprudencia de dar tempo a que Fernando pudesse organizar em Valhadolid um exercito de _condottieri_, mais valioso pelo numero do que pela disciplina.
De Arévalo, seguiu Affonso V para Touro, seguro de que o alcaide João de Ulhôa lhe abriria as portas da cidade. Assim aconteceu, mas a mulher de um irmão d’este Ulhôa não quiz entregar o castello, pelo que Affonso V lhe poz um apertado cerco. Entretanto Samora rendera-se aos portuguezes, e Fernando, que com o seu exercito se tinha approximado de Touro, reconhecendo que não podia luctar com vantagem, porque lhe faltavam artilheria, posições e meios de communicação, deu ordem para retirar. A retirada foi desordenada e desastrosa, dil-o Lafuente, e a derrota haveria sido completa, se a cavallaria portugueza carregasse sobre o inimigo.[34] Uma companhia de byscainhos chegou a suspeitar de traição por parte dos generaes castelhanos, e violentamente foi arrancar o rei de entre elles, quando todos estavam conferenciando n’uma egreja. Ainda assim, Fernando soffrera, em sua gente e carriagem, muito damno e perda.[35]
O castello de Touro rendera-se, finalmente, ao apertado cerco que lhe puzera Affonso V. Em varios pontos, aqui e alli, rompiam-se as hostilidades; e os povos da Estremadura hespanhola e da Andaluzia faziam varias incursões sobre Portugal, como represalia de guerra. Em Burgos, a cidade estava por D. Isabel, mas o castello estava por D. Joanna. Fernando, a fim de attenuar a má impressão de Touro, foi cercar o castello, que se julgava uma posição importante, no presupposto de que Luiz XI acommettesse por Guipuzcoa. Affonso V, a instancias da duqueza de Arévalo e do arcebispo de Toledo, deixou D. Joanna em Samora, e dirigiu-se a Burgos para soccorrer o castello. Encontrou, porêm, a tomarem-lhe o passo reforços isabelistas em Baltanás, aos quaes Affonso V deu combate, pondo cerco á villa. A peleja foi renhida. Os portuguezes combatiam a pé, só o rei de Portugal estava a cavallo. Morreu ahi D. Alvaro Coutinho, filho do marechal, mas em compensação ficou prisioneiro o conde de Benavente, cunhado do marquez de Vilhena, que, por segurar a vida, diz Pina, constrangidamente a veio em pessoa pedir a Affonso V, de cima do muro, e o portuguez de viva voz lh’a outorgou.
A condessa de Benavente, ao saber do captiveiro do marido, exaltou-se a tal ponto que escreveu a Fernando o Catholico, pondo á sua disposição e obediencia todas as villas e fortalezas dos seus estados, que eram grandes. Assim, a paixão politica, como quasi sempre acontece nas guerras civis, abria barreiras profundas no seio de uma mesma familia! A condessa de Benavente era irmã do marquez de Vilhena.
As finanças de Portugal e Castella estavam seriamente compromettidas, em ambos os paizes, por causa da guerra. Isabel reunira côrtes em Medina del Campo, no mez de agosto e, não podendo já impor aos povos novas contribuições, appellou para o clero, propondo-lhe que entregasse ao thesoiro a prata de todas as egrejas de Castella, promettendo remil-as em tres annos por amortização de trinta contos de maravedis. O clero annuiu promptamente. Por sua parte, Affonso V, depois de haver tomado a villa de Cantalapiedra, e de se ter recolhido a Samora para hibernar, tendo gasto já todos os recursos com que sahira de Portugal, teve de «soccorrer-se aos dinheiros dos orfãos dos seus reinos, e a outros muitos d’emprestimos particulares», que por seus officiaes foram logo levados a Castella.[36] Accrescenta Ruy de Pina que o principe D. João, depois que foi rei, pagou, como piedoso filho, todos estes encargos _quanto poude_. Mas tambem D. João, quando resolveu ir soccorrer seu pae, teve de tomar de emprestimo a prata das egrejas, a exemplo do que fizera em Castella D. Isabel.[37] Esta desastrosa guerra parecia destinada a arruinar as finanças de Portugal. Em treze mezes, o exercito mobilizado contra Castella havia de custar ao paiz duzentas setenta e cinco mil dobras.[38]
O principe D. João, ao mesmo passo que tinha de reger os negocios internos do reino e de levantar recursos para acudir a seu pae, via-se a braços com as incursões armadas que alguns cavalleiros castelhanos faziam pela fronteira. Uma d’essas incursões dirigiu-se contra a villa de Ouguella, morrendo na refrega o brioso fidalgo João da Silva, camareiro-mór do principe.
Em Castella, D. Isabel entabolava negociações com o alcaide das torres e portas da ponte de Samora, para que se entregasse, procurando assim arrancar a Affonso V uma das mais importantes fortificações que tinham voz por elle. Fernando estava no cerco de Burgos, e, sabendo dos planos de sua mulher, fingia-se doente para lhe dar tempo a negociar a compra do alcaide da ponte de Samora.
Affonso V havia mandado recado a seu filho para em Samora conferenciarem sobre negocios de Estado.
D. João deu-se pressa em partir, e já tinha chegádo a Miranda do Douro, quando por Vasco Chichorro, o qual de noite atravessou o Tejo a nado, seu pae lhe mandou dizer que retrocedesse, porque seria victima de traição na passagem da ponte de Samora. Esta ponte tinha nos extremos duas torres que estavam combinadas para apertar o principe real entre ambas, quando elle passasse com a sua gente. Eis no que consistia a traição preparada por Isabel. Affonso V indignou-se, e atacou os castelhanos, mas por este facto teve occasião de reconhecer que não podia contar com a lealdade dos habitantes de Samora, pelo que resolveu mudar-se, com a _Beltraneja_, para Touro, onde o alcaide os recebeu amavelmente.
O principe real ficou vivamente contrariado com o caso da ponte de Samora, e pensou logo em tirar desforra d’esse projecto de attentado contra a sua vida. Retirando sobre a cidade da Guarda, ahi reuniu conselho, resolvendo-se enviar novos auxilios a D. Affonso V, para o que foi preciso tomar, como dissemos, toda a prata das egrejas e mosteiros, com excepção d’aquella que era indispensavel á dignidade do culto; bem como se tomou dinheiro de emprestimo a particulares. E não sem grandes dores e gemidos do povo, que o muito sentiam, diz Ruy de Pina. Feitos estes preparativos, o principe D. João, deixando sua mulher como regente do reino, partiu no mez de janeiro de 1476 para Castella, a encontrar-se com o rei, ao qual ia reforçar, tomando na passagem a villa de S. Felizes, que saqueou.
Entretanto, el-rei D. Fernando e a rainha D. Isabel entraram em Samora, e puzeram cerco ao castello, que tinha voz pelo rei de Portugal. O desejo de Affonso V era ir em soccorro da fortaleza, que D. Fernando parecia disposto a disputar-lhe palmo a palmo.
D. Affonso estava em Touro, como sabemos, e logo que o principe D. João ahi chegou pensou-se em ir effectivamente defender o castello de Samora, mas, depois de ponderados os prós e os contras, achou-se que o melhor era pôr cerco á ponte da outra banda do rio, causando assim grande damno a D. Fernando e aos da cidade.
Uma vez assenhorado de Samora, tratou Fernando de combater o castello, que se conservava fiel a Affonso V, e d’ahi escreveu a seu pae, João II, de Aragão, pedindo-lhe que mandasse auxilios para Burgos, cujo castello não se tinha ainda rendido.
Diz Lafuente, que Affonso V se não mostrara adverso a uma reconciliação, sob condição de que lhe seriam entregues as praças de Touro e Samora, e aggregada a Galliza a Portugal, mas que D. Isabel se recusara a alienar um só palmo que fosse de territorio castelhano.
Lafuente trata este assumpto muito por alto, mas Damião de Goes dá interessantes pormenores que convem recordar.