Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV)

Part 6

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O cardeal de Castella, D. Pedro de Mendonça, escrevera a Affonso V exhortando-o a fazer a paz, e offerecendo-se para medianeiro. Era facil perceber que esta proposta partia dos reis catholicos, sob a impressão de desanimo que produzira a precipitada retirada de Touro para Medina del Campo. Affonso V annuiu, e perguntou se Isabel e Fernando tinham conhecimento d’essa proposta, e quaes deveriam ser as condições da paz. Respondeu o cardeal que Fernando e Isabel obtemperavam, mas que as condições as formulasse Affonso V. O rei de Portugal pediu com largueza, aproveitando a situação: queria Touro, Samora e a Galliza; exigia uma indemnização de guerra, e a restituição de todas as honras e estados que pertenciam aos fidalgos castelhanos bandeados com o partido da _Beltraneja_. Isabel oppoz-se á alienação de qualquer territorio castelhano, porêm sujeitava-se á indemnização de guerra e á rehabilitação dos fidalgos castelhanos que estavam com Affonso V. Promettia tambem para D. Joanna o dote que se arbitrasse, hypothecando a este encargo as terras que fossem precisas.

Damião de Goes, conclue: «Estes recados andaram por alguns dias de uma e de outra parte, sem se em nada poder tomar conclusão, pelo que a guerra se ateava cada vez mais, fazendo-se de uma e de outra parte grandes damnos, sem se a tamanhos males poder dar algum remedio».[39]

Seria talvez esta proposta de paz que fez com que Luiz XI procurasse intimidar Fernando e Isabel. Diz Lafuente que Affonso V _havia manhosamente entabolado tratos de mediação e de concordia_ com D. João II, de Aragão, para entreter Fernando, emquanto o principe D. João não chegava de Portugal com reforço, e Luiz XI não atacava pela fronteira franceza o reino de Aragão.

O que é certo é que Affonso V conseguira tratar com Luiz XI uma liga offensiva contra o aragonez. Luiz XI aproveitava o ensejo para se collocar n’uma posição que pudesse ser-lhe vantajosa em qualquer dos casos. Assim, em setembro de 1475, ficara concertado que o rei de França ajudaria ao de Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão, com as condições seguintes: «Que todas as cidades, villas, logares, castellos e fortalezas que fossem tomadas ou conquistadas por terra e por mar pelas tropas d’el-rei de França, nos dominios do reino de Aragão e de Valencia, seriam sem difficuldade entregues e restituidas a el-rei de Portugal, e ficariam para sempre pertencendo a esta coroa. E pelo mesmo teor que todas as cidades, villas, logares, castellos e fortalezas do principado da Catalunha e condado do Roussillon e Sardenha, ilhas de Mayorca, Minorca e Iviça, as quaes cahissem em poder dos portuguezes, seriam entregues a el-rei de França, para ficarem para sempre annexas á sua coroa.»[40]

Luiz XI, tendo feito treguas com o duque de Borgonha, por um tratado em que o rei de Portugal fôra incluido como alliado do duque, principiou a dar maior attenção aos negocios da Peninsula, sob o doble ponto de vista da sua exclusiva conveniencia. Foram, pois, renovados os antigos tratados de paz e amizade entre os reinos de Castella e Leão e o de França, figurando Affonso V na qualidade de rei de Castella. No mez de dezembro, Luiz XI promulgara uma carta patente declarando ter resolvido mandar, em auxilio do rei de Portugal, um bom e grande exercito, tanto por mar como por terra, a Guipuzcoa e Byscaia, ou aonde fosse necessario, nomeando para commandante em chefe da expedição a sire d’Albret (Alano Grande, pae do rei de Navarra), com poderes amplissimos.[41]

O que é certo é que Luiz XI, não obstante todas estas suas promessas, se limitara a mandar para a fronteira hespanhola um exercito que parecia manobrar de concerto com a doblez do _bom rei Luiz_, porisso que, fazendo-lhe frente os guipuzcoanos e os byscainhos, retirava para Bayona... á espera dos acontecimentos.

Quando o principe D. João de Portugal, levando comsigo um exercito de oito mil infantes e dois mil cavallos, _gente mal armada e pouco aguerrida_, diz Lafuente, fôra juntar-se com seu pae em Touro, o castello de Burgos, depois de haver sido atacado por D. Affonso de Aragão, irmão de Fernando, rendia-se. E, segundo o testemunho do mesmo historiador, pouco faltou para que a propria praça de Touro se entregasse a D. Fernando, que uma noite se approximara dos muros da cidade com essa esperança. Parece fóra de duvida, como mais adeante veremos, que D. Fernando pensava em apoderar-se da pessoa da _Beltraneja_.

É ainda Lafuente que nos diz, que D. Affonso V se _envalentonara_ tanto com a chegada do filho, que enviou um arrogante manifesto ao papa, ao rei de França e aos seus parciaes de Castella e Portugal, jactando-se de que não tardaria a derrotar Fernando e Isabel. Não encontro, comtudo, nos historiadores portuguezes noticia d’este _manifesto arrogante_.

Deixemos, porêm, Affonso V e seu filho no cêrco que foram pôr á ponte de Samora, na margem do Douro. D. Joanna havia ficado em Touro, sob a guarda do duque de Bragança e do conde de Villa Real. Cruzava-se o fogo dos portuguezes contra a ponte, com o dos castelhanos contra a margem opposta. Procedentes de Burgos, tinham chegado de reforço aos castelhanos D. Affonso de Aragão e o infante D. Henrique, aos quaes se unira o conde de Benavente, livre já. A situação era dolorosa para ambos os exercitos, ao mesmo tempo sitiados e sitiadores.

Ruy de Pina diz que, n’estas circumstancias, houve uma entrevista, n’uma insua do rio Douro, para concertos de paz, entre cavalleiros portuguezes e castelhanos, mas que não foi possivel chegar a resultado satisfactorio. Outra versão diz que a entrevista seria entre os dois reis, estando cada um em sua barca, como acontecera com D. Fernando de Portugal e Henrique III, de Castella, mas que, pela força da corrente, a barca de Affonso V se não pudera approximar da barca que conduzia o marido de Isabel.

O portuguez, conhecendo que a sua posição era insustentavel, porque já os mantimentos iam escaceando, e porque recebeu denuncia de que D. Fernando pensava em fazer uma sortida sobre Touro para apoderar-se de D. Joanna,[42] resolveu levantar o acampamento na madrugada da primeira sexta-feira de março de 1476, em direcção áquella cidade, depois de haver cortado a extremidade da ponte de Samora. Esperava Affonso que o exercito castelhano o seguisse. Assim aconteceu. Diz Pina que o principe D. João ardia em desejos de dar batalha; o mesmo assevera Lafuente a respeito de D. Fernando, apesar dos conselhos que lhe dava seu pae, o rei de Aragão, o qual lhe recommendava o systema que empregou Fabio Maximo, _Cunctator_, fatigando e desalentando os exercitos de Annibal.

Não se enganou Affonso V. Fernando demorara-se apenas tres horas, o tempo preciso para reparar o damno feito á ponte. Ao cahir da tarde, o exercito castelhano avistou o exercito portuguez, a tres leguas de Touro, no momento em que aquelle exercito sahia de um apertado passo entre o rio e a serra. O conde de Loulé acudiu a escaramuçar com os castelhanos, para lhes difficultar a passagem, mas ficou tão gravemente ferido que teve de ser recolhido a Touro.

Affonso V e seu filho prepararam-se então para dar batalha, posto que muita da sua gente, mais avançada na marcha, já tivesse entrado em Touro, e outra houvesse lá ficado de guarda a D. Joanna.

O exercito portuguez dispoz-se d’este modo: na vanguarda, os continuos e familiares da casa do rei, e alguns cavalleiros castelhanos, de que era capitão Ruy Pereira; logo em seguida o conde de Faro D. Affonso com a sua gente e outra que el-rei lhe ordenou; á esquerda da vanguarda o principe D. João com a flor do exercito, seguindo-se a esta ala do principe a do bispo de Evora, D. Garcia de Menezes, com muitos bésteiros e espingardeiros; depois, o rei D. Affonso com a bandeira real, e á mão esquerda o arcebispo de Toledo com a sua gente, logo seguido pela do duque de Guimarães e do conde de Villa Real, commandando a retaguarda D. João de Castro, conde de Monsanto. A peonagem ficara repartida por quatro secções, toda da banda do rei.

Vejamos agora qual a disposição do exercito castelhano.

Na vanguarda, todos os continuos da casa real, e a gente da Galliza, Ulmedo, Medina del Campo, Valhadolid, Salamanca, Ciudad Rodrigo e Samora, sob o commando de D. Henrique, que levava a bandeira real de Castella e Leão. Seguiam-se dez alas, quatro grandes e seis menores.

Notou o principe D. João que uma das seis alas menores do exercito castelhano se destacava como para de refresco acudir ás outras, se fosse necessario. Assim fez tambem, mandando apartar a gente que julgou precisa para o mesmo fim.

Affonso V, depois de ter ordenado as alas do seu exercito, retirou-se, por conselho dos seus, para um oiteiro, d’onde pudesse assistir á batalha, e salvar-se a tempo no caso de desastre.

Veiu então ao acampamento portuguez um rei de armas de D. Fernando desafiar Affonso V. O portuguez respondeu: «Dizei ao principe da Sicilia que é mais tempo de nos encontrarmos do que de mandar desafios.»

A luz do dia principiava a faltar, não só porque o sol tocava o occaso, mas tambem porque o céo se conservava carregado de grossas nuvens. Cahia uma chuva miuda. O scenario d’este drama de odios politicos prestes a desencadearem-se, era lugubre, como se vê.

O principe D. João e D. Pedro de Menezes arremessaram-se impetuosamente contra as alas menores do exercito de Castella. Gonçalo Vaz de Castello-Branco fôra o primeiro portuguez que lograra romper as fileiras castelhanas. O fumo das descargas augmentava a escuridão do ar. Gritos de guerra, como rugidos de leões, atroavam o campo de batalha. Os nossos invocavam S. Jorge e S. Christovão;[43] os castelhanos clamavam por S. Tiago e S. Lazaro. _Traidores, aqui está o cardeal!_ gritava o cardeal de Hespanha, provocando os castelhanos que pelejavam no exercito portuguez. E um d’esses castelhanos era, como elle, um prelado da Egreja, o arcebispo de Toledo.

Rotas pelo esforço dos nossos as fileiras castelhanas, com uma bravura que os proprios chronistas hespanhoes não podem desmentir, os soldados de Fernando e Isabel acolheram-se, fugindo, ao centro do exercito.

D. Affonso V, electrizado pelo enthusiasmo da contenda, lançara-se no combate, seguido pelo conde de Faro. Lafuente diz que D. Fernando investiu com furia contra o sitio onde se ostentava o estandarte real dos portuguezes. Garcia de Rezende diz, porêm que D. Fernando, vendo o desbarato que o principe D. João produzira no exercito castelhano, tratou de acolher-se a Samora. Ruy de Pina faz egual affirmação. Segundo a opinião de Lopes de Mendonça,[44] que de todo o ponto achamos fundada, o consenso dos escriptores portuguezes dá-nos o direito de duvidar da palavra de D. Fernando quando diz em carta dirigida á cidade de Baeza: «E eu com os dictos grandes e cavalleiros que commigo se acharam na batalha, estivemos no campo por espaço de tres ou quatro horas regendo o campo, e assim me volvi com victoria e muita alegria a esta cidade de Samora aonde cheguei á uma depois da meia noite, etc.»

«Mesclaram-se então todas as lanças e todos os corpos, diz Lafuente, pelejando com o encarniçamento de dois povos enfurecidos por uma antiga rivalidade. O pendão das quinas portuguezas foi arrancado pelos esforços do intrepido Pedro Vaz de Sottomayor; valoroso até ao extremo era o alferes Duarte de Almeida que o desfraldava; depois de haver perdido o braço direito, susteve com o esquerdo o pendão, e quando perdeu ambas as mãos apertou-o fortemente entre os dentes até que perdeu a vida, feito este que nos recorda outro só exemplo por nós consignado em nossa historia.»[45]

Pulgar diz que Duarte de Almeida fôra feito prisioneiro e conduzido a Samora. Marianna affirma que a armadura d’este brioso cavalleiro portuguez se via, ainda no seu tempo, na cathedral de Toledo, _como trophéo d’aquella insigne façanha_. D. Fernando, na carta dirigida á cidade de Baeza, diz, referindo-se ao rei de Portugal: «... foi derrubado e tomado o seu pendão das armas reaes e morto o alferes...»

Vejamos, porêm, o que d’esta façanha de Duarte d’Almeida tem podido apurar a critica dos escriptores portuguezes até á hora em que escrevemos.

Arrancado das mãos do alferes-mór, o estandarte portuguez seria o mais completo testemunho da victoria castelhana, e fluctuando desenrolado afugentaria, de vergonha e desalento, os soldados portuguezes. Mas Duarte d’Almeida perfeitamente comprehendia a grande, a enorme responsabilidade do seu posto. Bem sabia elle que preso áquelle estandarte andava desde Santarem e Ourique, abençoado por Deus, o nome portuguez, e portanto resolveu defender até á ultima gotta de sangue, se tanto fôra preciso, esse precioso deposito que lhe confiara a patria.

Aggridem, cercam, embrenham o valente alferes-mór as lanças castelhanas; elle heroicamente resiste sobrepondo-se a essa cerrada floresta de ferro, que lhe braceja contra o peito os seus farpões mortiferos. Todo o empenho castelhano é arrancar-lhe o estandarte; portanto uma cutilada lhe corta a mão direita. Vale-se da esquerda, e n’ella fecha o seu thesoiro. Nova cutilada lhe decepa a mão esquerda. É um duello titanico, de um contra mil, de um só homem contra um exercito. Duarte d’Almeida não fraqueja, não cede, não cai. Toma o estandante portuguez entre os dentes, e espera, defendendo-se, que lhe arranquem finalmente a vida para que possam arrancar-lhe o estandarte. Multiplicam-se da parte dos castelhanos os golpes, o desespero do inimigo attinge o seu maior grau, é indomavel, feroz. Duarte d’Almeida cai, emfim, vencido pelos golpes repetidos e certeiros, mas, como se não pudesse morrer um portuguez d’aquelles ás mãos de castelhanos, Duarte d’Almeida não é ainda cadaver.

Cahem em peso sobre o alferes-mór os inimigos; entre si disputam qual ha de arrancar-lhe dos dentes, raivosamente cerrados, o estandarte portuguez, que finalmente tremula na mão d’um fidalgo castelhano, de appellido Sottomayor. Este improvisado porta-bandeira do rei castelhano, alegremente corria, seguido d’um troço dos seus, para o lado onde suppunha estar o rei Fernando, a fim de lhe entregar o glorioso trophéo, quando o escudeiro portuguez Gonçalo Pires, com alguns poucos portuguezes, acommette os de Castella, e arrebata a Sottomayor o estandarte das quinas, travando-se entre todos combate que entre Gonçalo Pires e Sottomayor foi singular.

Entretanto Duarte d’Almeida era conduzido semimorto para o acampamento inimigo, d’onde recebeu o primeiro curativo, e d’onde foi mandado para um hospital de Castella.

Regressando á patria, ao cabo de longos mezes, andava escripto nas chronicas que elle não achara em Portugal _mais galardão que viver mais pobre do que vivia antes_, como dizem, pouco mais ou menos, Duarte Nunes e Damião de Goes, mas o sr. Camillo Castello Branco escreveu modernamente nas _Noites d’insomnia_ ácerca do _Decepado_, com o proposito de mostrar que elle não acabara tão pobre como se dizia. Conta este erudito escriptor, que Duarte d’Almeida, voltando de Castella, onde fôra muito honrado pelo rei Fernando, se recolhera ao castello de Villarigas, o qual herdara de seu pae Pedro Lourenço d’Almeida, e não era o unico que possuia, pois que tinha outro na quinta chamada de Cavallaria. Chegado a Villarigas, o velho _Decepado_, que já ia adeantado em annos, encontrou sua mulher D. Maria d’Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Affonso Valente e de D. Leonor de Azevedo, que grandes haveres herdara de sua tia D. Ignez Gomes d’Avellar, e á volta da esposa encontrou tambem o _Decepado_ os seus dois filhos, Affonso e Ruy. Até aqui isto serve apenas para mostrar que Duarte d’Almeida não vivia pobre _antes_ da batalha de Touro, tanto mais que Affonso V, estando em Samora no anno anterior a esta batalha, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para elle e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões. Todavia quer-nos parecer que a ingratidão da patria subsiste, porque Duarte d’Almeida ficou com o que tinha e... com ambas as mãos de menos. Affonso V, esse, se estivesse em Portugal, havel-o-ia galardoado largamente, porque era um mãos rotas, e tanto que o principe D. João, prevendo as prodigalidades de seu pae, obteve d’elle um documento que declarava nullas todas as doações que fizesse durante a guerra de Castella, e que excedessem dez mil réis de renda. O galardão concedido em Portugal a Gonçalo Pires foi o appellido de _Bandeira_ e o brazão de armas com bandeira branca, tendo no centro um leão rompente, de oiro. Mas no _Decepado_, que provavelmente pouco sobreviveu ao seu regresso, ou em seus filhos, não se fala. Em Castella é que effectivamente elle foi honrado, porque D. Fernando mandou pendurar na cathedral de Toledo as armas de que havia sido despojado Duarte d’Almeida, e em Samora foi tratado, quando prisioneiro, com grandissima distincção.[46]

O sr. A. X. Rodrigues Cordeiro, que, a proposito de uma visita recente á cathedral de Toledo, escreveu um artigo sobre _Duarte d’Almeida_, dá noticia de existir n’aquelle templo uma armadura completa de cavalleiro, que se presume ser a do _Decepado_, e uma bandeira, que alguns dizem ser a portugueza, mas que se não vê, por estar resguardada n’uma bolsa de tela.

O illustre escriptor, e nosso amigo, não duvida de que a armadura seja a de Duarte d’Almeida, mas refuta que a bandeira seja a portugueza, visto que Gonçalo Pires a arrancou heroicamente das mãos de Sottomayor, como testemunham os nossos chronistas. A bandeira, que se não póde reconhecer por estar encerrada na bolsa, será porventura a que os castelhanos tomaram aos moiros na batalha do Salado.[47]

Havia mais de uma hora que o combate durava, sem que a victoria parecesse pender para qualquer dos dois exercitos, quando a ala esquerda do castelhano correu a reforçar a hoste real. Então a retaguarda do exercito portuguez, em que pelejava o arcebispo de Toledo, correspondendo ao movimento do inimigo, correu a auxiliar Affonso V, engrossando a fileira para aparar o embate. A peleja reaccendeu-se fogosa. Mas o choque da fuzilaria e da cavallaria castelhanas foram de tal ordem, que desconcertaram as fileiras portuguezas.

Affonso V quiz, verdadeiramente allucinado, lançar-se contra o grosso do exercito castelhano, onde certamente haveria encontrado a morte. Não lh’o consentiram, porem, alguns fidalgos.

A noite tinha, entretanto, cahido tenebrosa, como estivera o dia. E, receosos de que alguma força castelhana lhes cortasse a retirada, os fidalgos que acompanhavam o rei, partiram para Castro Nunho.

Muitos cavalleiros portuguezes tentaram atravessar o Douro para acolher-se a Touro. Talvez cerca de mil e duzentos morreram afogados n’essa empresa, em que o desanimo devia quebrantar-lhes as forças.

O principe D. João, reunida toda a gente que poude, deixou-se ficar no campo até ao romper d’alva, tendo mandado accender fogueiras e soar os clarins. O seu desejo era empenhar-se n’uma nova batalha. Mas o exercito castelhano retirara para Samora, juntamente com o rei D. Fernando, ou depois do rei. Assim, por conselho do arcebispo de Toledo, o principe, que desejara demorar-se tres dias no campo, reduziu os tres dias a tres horas, «por comparação que trouxe (o arcebispo) da resurreição de Nosso Senhor, diz Ruy de Pina, que foi depois da morte tres dias não todos inteiros.»

É, porem, certo, que a batalha de Touro não tivera uma importancia militar de tal ordem, que por si só pudesse resolver definitivamente tão grave pendencia internacional. «A batalha de Touro, portanto, escreve Lopes de Mendonça, em que ambos os adversarios se proclamaram vencedores, parecendo á primeira vista ter sido decisiva para a questão, não foi senão um successo de guerra, bastante duvidoso para qualquer dos partidos, e que pouco significaria para o desenlace d’esta grave lucta, se a causa de D. Affonso V não estivesse já perdida pela defecção successiva dos seus partidarios, pelas repugnancias nacionaes contra o dominio portuguez, e pela influencia que Isabel de dia para dia adquiria entre a burguezia, e as classes populares.»

É certo que deserções importantes tinham aggravado a situação de Affonso V. O marquez de Vilhena, como Affonso, recusara o conselho de penetrar com o exercito portuguez até Madrid; tratou, julgando perdida a causa da _Beltraneja_, de bemquistar-se com Fernando e Isabel, mediante a condição de lhe serem restituidas suas terras e rendas. Os duques de Arévalo passaram-se tambem para o partido de Isabel. Só permanecera fiel a Portugal o arcebispo de Toledo que, depois da refrega, se recolhera aos seus estados, que tinham sido invadidos pelos exercitos de Castella.

Lafuente faz sentir que as condições do exercito portuguez na batalha de Touro lhe eram sobremodo favoraveis.

Esta asserção é apenas um echo do que o proprio D. Fernando escrevera na sua carta á cidade de Baeza: «... e como quer que muitos cavalleiros dos que commigo estavam eram de parecer que eu não devia dar batalha pelas muitas vantagens que o dicto meu adversario tinha para ella, assim porque na verdade era _mais gente em numero que a que commigo estava, como porque as minhas gentes iam cansadas e a mór parte da peonage que commigo sahiu fôra deixada no caminho pela grande pressa que levavamos para alcançal-o, e por não levar commigo artilheria alguma, e era quasi sol posto e estava tão proxima a cidade de Touro d’onde elle e os seus se podiam recolher sem muito damno, uma vez que fossem vencidos_...»

É preciso contrapôr, porem, a estas considerações do rei de Castella o que D. João de Portugal escreveu ao concelho de Evora sobre o mesmo assumpto: «... e depois de todos assim de uma parte como da outra serem em campo, _ainda que os contrarios tivessem vantagem, por terem as costas em serra e por terem mais gente de pé, porquanto a sua_ (do rei D. Affonso seu pae) _era já toda em a cidade de Touro, e assim mesmo alguma de cavallo que fôra adeante com a fardage, pelo qual os contrarios tinham de vantagem bem sete ou oito lanças_...»

Assim, pois, acabou a batalha de Touro em que bem podiam ter succumbido o rei e o principe de Portugal. Se tal houvesse acontecido, quem póde calcular as complicações politicas em que se veria lançado o paiz, dadas as represalias de Castella, e a menoridade do neto de Affonso V?

VII

O RATO NAS MÃOS DO GATO

Dom Fernando retirou, como dissemos, para Samora, e avisou do resultado da batalha sua mulher, que estava em Tordesilhas. D. Isabel, recebendo a noticia, ordenou que se fizesse uma procissão, em acção de graças, á egreja de S. Paulo, indo ella propria a pé, e descalça. Mais tarde, Fernando e Isabel fundaram, pelo mesmo motivo, o mosteiro de _San Juan de los Reyes_, obra grandiosa, diz Lafuente, que ainda hoje se admira, apesar das deteriorações que tem soffrido.

É para notar a circumstancia de que ambos os belligerantes se julgassem vencedores, e agradecessem a Deus o triumpho alcançado.

O principe D. João, de Portugal, depois de acclamado rei, ordenou ao concelho de Evora que em cada anno, nos primeiros dias do mez de março, se fizesse uma solenne procissão para commemorar a batalha de Touro. Diz o documento: «... e querendo nós ácerca desto nom menos fazer grato e reconhecer a Nosso Senhor o que em nossos dias e presenças nos fez de mercês com a batalha que houvemos em o reyno de Castella entre Touro e Samora; ordenamos e mandamos que daqui em deante em louvor de Nosso Senhor, e da Bemaventurada Virgem Maria sua Madre, e de S. Jorge e de S. Christovam que o dicto dia traziamos por nosso padroeiro e nome, que em cada um anno nos dois dias de março em que foi a dicta batalha, a Cleresia toda dessa cidade façaaes solenne procissão...» etc.[48]

Frei Francisco Brandão diz que na batalha de Touro pertencera a Portugal a gloria do vencimento, e a Castella o util da herança. É uma engenhosa maneira de conciliar as coisas.