Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV)

Part 4

Chapter 43,840 wordsPublic domain

O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia, para socegar aquella provincia. Antes de partir pediu á irmã que não abusasse da sua ausencia. A infanta prometteu, mas por conselho do arcebispo, e a pretexto de fazer trasladar para Avila o cadaver de seu irmão Affonso, sahiu de Ocanha para o Madrigal, onde estava sua mãe, a rainha viuva. Estava, porêm, em Madrigal o bispo de Burgos, sobrinho do marquez de Vilhena, que andava com o rei pela Andaluzia. O bispo informava o tio do que se passava. A espionagem era infatigavel; choviam as ameaças contra as damas da infanta, e contra ella propria, que ia ser presa por ordem do rei, quando o arcebispo de Toledo e o almirante D. Fradique conseguiram arrancal-a á vigilancia dos espiões açulados pelo marquez de Vilhena, e leval-a em triumpho para Valhadolid.

O arcebispo fez partir emissarios de sua inteira confiança para Aragão a chamar o infante D. Fernando. A viagem dos emissarios, que temiam ser descobertos, foi accidentada de peripecias arriscadas. Chegaram a Saragoça, e conferenciaram com o infante. Foi combinado, que este partisse apenas acompanhado por seis cavalleiros, disfarçados de mercadores, e que por outro caminho sahisse uma partida figurando uma embaixada do rei de Aragão a Henrique IV. Sobre a falsa embaixada deviam incidir as attenções do publico, e as vistas dos espiões de Henrique IV.

Os seis cavalleiros jornadeavam de noite. O infante disfarçara-se em criado; nas poisadas tratava dos cavallos, e servia á mesa. Foi assim que os conspiradores conseguiram atravessar por entre os soldados do rei, que cruzavam vigilantes as estradas, e passar incolumes sob a linha de fortificações dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara. Uma noite, porêm, o infante esteve em risco de ser victima. Chegaram ao burgo de Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram á porta do castello do conde de Trevinho, que era partidario de D. Isabel. A sentinella, julgando serem inimigos, arrojou do alto do adarve uma pedra enorme, que passou junto á cabeça do infante. O chronista Palencia, que era da partida, deu então um grito; a sua voz foi reconhecida, e a porta do castello aberta. Restaurada de forças, a cavalgada seguiu viagem, e dois dos cavalleiros anteciparam-se para dar a boa nova á infanta.

Chegaram aos ouvidos do rei os rumores da conspiração. Henrique IV deu-se pressa em regressar da Andaluzia, e em Trujilho recebeu uma carta de D. Isabel participando-lhe a sua resolução de casar com o infante D. Fernando, e fazendo em nome de ambos muitos protestos de obediencia ao rei se elle não contrariasse este casamento, cujas vantagens para a monarchia a infanta ponderava.

Fernando de Aragão completou a viagem com os quatro cavalleiros que lhe restavam. Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde a infanta poisava. O arcebispo de Toledo levou-o á presença de Isabel, e Gutierres de Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo de dezoito annos, elegante e robusto, exclamou: _Ese es, ese es._[14]

O casamento effectuou-se d’ahi a poucos dias, a 19 de outubro de 1469.[15] Estava, pois, dado o primeiro passo para a unidade hespanhola; esse casamento unia duas monarchias.

Celebradas as nupcias, os noivos enviaram uma embaixada a Henrique IV, participando-lhe que o casamento se havia realizado, remettendo-lhe copia das capitulações matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia, no caso do rei approvar o que estava feito.

A colera de Henrique IV foi enorme. Não lhe ficou inferior a do marquez de Vilhena, que havia perdido a partida. Toda a côrte era um vulcão de odios, que explodiam. Esperava-se apenas a hora da vingança, e essa hora pareceu haver soado quando uma embaixada de Luiz XI chegou, a pedir a mão da _Beltraneja_ para o duque de Guyena, seu irmão e porventura herdeiro, que a infanta D. Isabel havia rejeitado.

Esta embaixada fortaleceu momentaneamente a causa da _Beltraneja_.

Foi recebida com grandes festas e pompa. O cardeal de Albi, um dos emissarios de Luiz XI, perguntou solennemente á rainha se a princeza D. Joanna era effectivamente filha do rei Henrique IV. A que baixezas tinham nascido predestinadas a irmã e a sobrinha de Affonso V! A rainha respondeu affirmativamente. Depois repetiu a pergunta o rei, e D. Joanna repetiu a affirmativa. Então todos os prelados e cavalleiros presentes beijaram a mão da _Beltraneja_, outra vez reconhecida herdeira do throno. A infanta D. Isabel, não obstante haver escripto uma nova carta de conciliação ao rei, e appellado para a arbitragem do bom conde de Haro, Fernandes de Velasco, que era tido em Castella como o mais serio caracter d’aquelle tempo, foi desherdada.

Henrique IV publicou contra sua irmã Isabel, já então mãe, um manifesto injurioso; a infanta respondeu com outro, incriminando o procedimento do rei. Entretanto nascera um filho de Luiz XI, o que afastava o conde de Guyena da successão do throno de França. Chegaram, não obstante, a fazer-se as capitulações matrimoniaes, mas o enthusiasmo de Henrique IV, por esse casamento, esfriara desde que a Luiz XI nascera um filho.

Diz o padre Flores que todas as diligencias se mallograram por ter morrido o noivo da _Beltraneja_. Esta asserção carece de reparo. O duque de Guyena só morreu, em Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia manifestado tambem pouca vontade de realizar o casamento contractado, chegando a solicitar a mão da herdeira do ducado de Borgonha. De parte a parte havia frieza. Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos, noticiando varias embaixadas entre as côrtes de Portugal e Castella, em 1470 e 1471,[16] para tratar de casamentos. Mas como D. Isabel houvesse casado com o infante de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D. João, de Portugal, houvesse casado em Setubal, a 22 de Janeiro de 1471, com sua prima D. Leonor, Henrique IV e Affonso V avistaram-se _entre Elvas e Badajoz_ para combinar o casamento da _Beltraneja_ com o rei de Portugal.[17]

D. Joanna e sua filha não assistiram a esta entrevista. Ficaram em Escalona, acompanhadas pelo bispo de Burgos.

Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando enviaram embaixadores á entrevista, a fim de obstarem ao casamento de Affonso V com sua sobrinha. O rei de Portugal reuniu muitas vezes conselho para tratar d’este assumpto, mas sempre, em quanto Henrique IV viveu, sobrevieram duvidas e receios de graves complicações entre os dois paizes.

O padre Flores escreve que, em todas estas negociações, o rei de Portugal tinha grande desconfiança do mestre de S. Tiago. É natural que assim fosse, mas tambem é natural que influisse no animo de Affonso V a importancia que tinha realmente o partido de D. Isabel.

Como quer que seja, a causa da _Beltraneja_ perdia terreno. Quatro novos projectos de casamento se haviam frustrado: com o duque de Guyena, com D. Fradique, filho do rei de Napoles, com D. Henrique Fortuna, primo coirmão do marido de D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal. Mas, alem d’estes, ainda houve um outro projecto mais antigo, como sabemos, relativo ao infante D. Affonso, que morrera. Andava a mão da pobre infanta em almoeda, e ninguem a queria! A familia dos Mendonças afrouxara tambem no seu enthusiasmo pela causa da _Beltraneja_, logo que o rei lhe arrancara a infanta para a confiar á guarda do mestre de S. Tiago.

Ao passo que a má estrella da _Beltraneja_ parecia brilhar cada vez mais sinistra no horizonte do seu triste destino, os partidarios de D. Isabel logravam vantagens. Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór do rei e marido de D. Beatriz de Bobadilha, amiga dedicada de D. Isabel, pensou em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o fazer com fina diplomacia. D. Beatriz foi a Aranda, disfarçada em camponeza, perguntar á infanta se não teria duvida em avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel annuiu. Cabrera venceu, por certo, sem grande difficuldade, as hesitações do fraco rei Henrique.

Os dois irmãos avistaram-se em Segovia. Era isto em dezembro de 1473. O rei não só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a publicamente, levando de redea a mula, em que a infanta montava, atravez das ruas, ao som de musicas festivas. O mestre de S. Tiago, desairado por estas secretas negociações, retirou-se da côrte.

Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual viera juntar-se o infante de Aragão, continuava a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se juntos, e foi n’um d’esses banquetes, dado por André de Cabrera que, no domingo de _Reis_ de 1474, o rei se sentiu indisposto depois de ceia. Fernando e Isabel visitavam na sua doença Henrique IV, mas não conseguiam arrancar-lhe a confirmação dos seus direitos ao throno. Por sua parte, o mestre de S. Tiago procurava desforrar-se do desaire recebido, procurando infundir suspeitas de que os infantes houvessem envenenado o rei.

Voltando á côrte, o grão-mestre induzia o rei a apoderar-se dos infantes, e assim teria acontecido se o plano não fosse denunciado a Fernando e Isabel.

O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se melindrosa. Não obstante, João Pacheco, senhoreando outra vez o espirito de Henrique IV, fez com que o rei o acompanhasse a Trujilho, para que o investisse na posse d’aquella cidade, diz Lafuente; para concertarem d’alli secretamente o casamento de D. Joanna com Affonso V, diz Zurita.

É certo que João Fernandes da Silveira, depois barão de Alvito, chegou a ir a Castella encarregado d’este negocio.[18] Mas a viagem aggravara os padecimentos do rei. Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas leguas da cidade, João Pacheco, acommettido de uma inflammação de garganta, morreu deitando muito sangue pela bocca.

A morte de João Pacheco, marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, impressionou o rei. Aquelle homem fôra o companheiro dos seus deboches quando principe, e o instigador de grande parte dos seus actos como rei; habituara-se a elle. Sentia-lhe agora a falta. Preso a esse cadaver por laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria, fazendo o filho de João Pacheco marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, sem sequer consultar os cavalleiros da ordem.

Levantaram-se reclamações e protestos, que o rei teve de reprimir com varias expedições. Este esforço quebrantou-lhe as ultimas forças. Abandonou a lucta, para voltar a Madrid, cada vez mais doente. Morreu a 11 de dezembro d’esse mesmo anno de 1474.

Assim acabou, n’este rei fraco e nefando, a linha varonil da dynastia Trastamara.

V

POR CAUSA DE UMA COROA

O veneno, propinado ao rei Henrique durante as festas de Segovia em honra de sua irmã D. Isabel,[19] produzira o desejado effeito, como vimos. O rei fallecera em Madrid, onde estava sua filha D. Joanna entregue aos cuidados do novo marquez de Vilhena, Diogo Lopes Pacheco. Mas a rainha achava-se ausente, _apartada da côrte por seu deshonesto viver_.[20]

Como quer que seja, vamos encontral-a, depois da morte do rei, habitando um predio junto á egreja de S. Francisco, de Madrid, que fôra demolida no anno de 1760. Parece que D. Joanna, sentindo o cançaço de uma vida tempestuosa, procurara o refugio de uma especie de cenobio, d’onde, em tribuna privativa, podia assistir aos officios religiosos que se celebravam no templo.

São mais ou menos suspeitos de paixão politica os historiadores castelhanos, que se occupam do procedimento da rainha. Uns, como Henriques de Castilho, pertencem á parcialidade do rei; outros, como Pulgar, militavam na facção de D. Isabel. O padre Flores, querendo mostrar-se imparcial, chama _pelago insondavel_ ao conceito que da infeliz rainha se fazia em Castella.

Um historiador portuguez, o auctor da _Historia genealogica_, escreve que D. Joanna fôra «formosa, viva, e naturalmente alegre; era moça, e mais desenvolta do que convinha á sua real pessoa, o que deu motivo a diversos juizos, que se augmentaram pelo pouco caso que el-rei d’isso fazia; do que nasceu alguns cuidarem, e outros fingirem, e lhe levantarem, que era pouco honesta, e que el-rei lh’o consentia.»

Um d’esses taes é Antonio de Lebrixa, o qual escreveu que era o proprio Henrique IV que alcovitava a rainha a um seu privado (Beltrão de Lacueva).

Damião de Goes censura Lebrixa por affirmar _ex cathedra, sem ser testemunha de vista_, a infamia da rainha; mas acaba por dizer que a fama da impotencia de Henrique IV era falsa, comquanto não houvesse sido _testemunha de vista_, elle proprio...

Nós estamos escrevendo a distancia de tempo a que os acontecimentos avultam em todo o relevo da sua nudez historica. Cahiu já desfeito, pela acçao implacavel dos seculos, o véo que a paixão politica entretece, e que não deixa definir claramente os contornos mais salientes de qualquer epocha, como a neblina envolve a ossada dos montes ao romper da manhã.

Começamos por estudar serenamente a côrte de Henrique IV, devassa, dissoluta, sensual. Esboçamos o perfil do rei, que presidia a esta côrte, rei que se retouçava na podridão de prazeres sodomitas, e parecia talhado de molde para deixar resvalar ao abysmo da deshonra a segunda mulher, visto que não quizera repudial-a pelo mesmo motivo da primeira, a infeliz Branca de Navarra. D. Joanna, de Portugal, era moça, formosa, alegre, _viva_, como diz Antonio Caetano de Sousa. Cahiu no meio d’esta côrte, como uma flor póde cahir em qualquer esterquilinio sotoposto ao jardim, sobretudo quando a haste tem o geito de pender para esse lado, e uma perfida viração a faz oscillar a cada lufada mais forte...

Basta ir seguindo os acontecimentos, para ver descer a rainha pelo plano inclinado do adulterio. Não é preciso ler os chronistas para copiar d’elles a sua apreciação, mais ou menos apaixonada, mas apenas para que nos guiem na successão dos acontecimentos. A critica é facil, resalta luminosa e logica. Aconteceu-nos isto, confrontando os chronistas; o mesmo acontecerá por certo ao leitor que tiver seguido passo a passo esta narrativa.

D. Joanna falleceu a 13 de junho de 1475, tendo apenas 36 annos de edade. Matou-a o veneno ou o arrependimento; morreu ou mataram-n’a. E diz a chronica que os reis catholicos, Isabel e Fernando, lhe mandaram fazer um tumulo de marmore branco, cujo epitaphio dizia:

_Aqui yace la mui excelente, esclarecida y poderosa Reyna de Castilla Doña Juana, muger del muy excelente, esclarecido y poderoso Rey Don Enrique IV. cuyas animas Dios aya: la qual falleció dia de San Antonio de MCCCCLXXV. años._

Mais tarde, a habitação da rainha foi convertida em nave do templo; chamava-se-lhe a capella da Aurora, e ficava do lado do Evangelho. Quando a egreja de S. Francisco foi demolida, acharam-se os ossos da rainha dentro de um cofre de madeira, mas não se sabe hoje o destino que tiveram depois da demolição.[21]

Assim se dispersaram os restos mortaes d’essa formosa dama portugueza, que o berço em que nascera posthuma parecia haver malfadado para as desventuras do thalamo, e do throno.

Fizera Henrique IV testamento?

Ruy de Pina, na _Chronica de D. Affonso V_,[22] diz que sim.

«No fim do anno de mil quatrocentos setenta e quatro, palavras suas, el-rei D. Henrique, de Castella, falleceu na villa de Madrid; foi seu corpo levado ao mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella-mór, á mão direita, jaz em sua real sepultura, como parece, e da outra parte jaz a rainha D. Maria, sua mãe. _Fez el-rei D. Henrique seu solenne e accordado testamento, em que declarou a princeza D. Joanna por sua filha, e por rainha herdeira dos reinos de Castella, e o rei D. Affonso por governador d’elles, pedindo-lhe finalmente que acceitasse a dicta governança, e casasse com ella, o qual testamento foi logo trazido a el-rei D. Affonso, que estava em Extremoz... etc._»

Os chronistas castelhanos corrigem n’este ponto o chronista portuguez.

Zurita diz positivamente nos _Anales_ que D. Henrique não deixou testamento.

O padre Castilho não faz menção de qualquer disposição testamentaria. Affonso de Palencia diz que, perguntado o rei sobre quem lhe devia succeder no throno, respondera que o secretario João Gonçalves revelaria a sua intenção. Fernando de Pulgor refere que apenas indicara os fidalgos a quem seria confiada a guarda de sua filha. Lucio Marineo escreve que Henrique IV, sempre imprevidente, não deixara testamento. Marianna conta que, perguntado o rei pelo seu confessor frei Pedro de Mazuelos, respondera que reconhecia como herdeira a princeza D. Joanna, a qual deixara recommendada a alguns fidalgos, inclusos os marquezes de Santilhana e de Vilhena. A Lafuente parece arriscada esta asserção de Marianna, que aliás vem copiada em Romey.

Diogo Clemencin[23] é de todos os historiadores castelhanos o que mais detida e lucidamente se occupa da questão do testamento de Henrique IV.

Recorda a lenda, publicada por Galindes de Carvajal, de que o rei Henrique fizera, ao morrer, testamento, no qual reconhecia como sua successora D. Joanna, e de que esse documento fôra pelo secretario João de Oviedo entregue a um padre que era cura de Santa Cruz, em Madrid. Não querendo que o desapossassem de tão valioso deposito, o cura metteu-o n’um cofre com outros papeis, e veio escondel-o perto de Almeida, em Portugal. O bacharel Fernam Gomes de Herrera, amigo particular do cura, conhecia o segredo, e revelou-o a D. Isabel a _Catholica_, quando já estava moribunda. A rainha mandou o cura buscar o cofre, que chegou quando ella já tinha morrido. O rei Fernando soube o que se passava, pelo licenciado Zapata, a quem Herrera revelara o segredo. Diziam uns que o testamento fôra queimado por ordem do rei; outros que ficara em poder de Zapata. A Herrera teriam sido feitas varias mercês, em recompensa do serviço que prestara.

Clemencin refuta esta lenda com bons fundamentos, entre elles o não ser citado por D. Joanna o testamento de Henrique IV quando ella allegava todos os seus direitos em manifesto dirigido á cidade de Madrid (1475), e a circumstancia de egual omissão no documento em que a _Beltraneja_ transferiu para D. João III, de Portugal, todos esses direitos.

Como quer que fosse, em torno da _Beltraneja_ agrupou-se um partido defensor da sua legitimidade. Os caudilhos eram grandes e poderosos senhores, posto não fossem numerosos: entre elles, o marquez de Vilhena, menos habil, porêm mais intrepido que seu pae; o opulento duque de Arévalo; o moço marquez de Cadiz, e o grão-mestre de Calatrava e seu irmão.

No partido contrario, militavam em favor de D. Isabel prelados e proceres egualmente poderosos. Citaremos o arcebispo de Toledo, que foi quem se apressou a communicar a Fernando o Catholico, em carta que Zurita reproduz, a noticia do fallecimento de Henrique IV.

Não deixa, comtudo, de ser curioso que este prelado se bandeasse depois com o partido da _Beltraneja_, despeitado pelo ascendente, que no espirito de Fernando e Isabel havia tomado o cardeal de Hespanha.

Não seria, pois, uma copia do testamento, que parece não ter existido, o que os partidarios da _Beltraneja_ enviaram a Affonso V, que estava então em Extremoz; mas foi de certo uma mensagem solicitando o seu apoio a troco do casamento com a infanta, sua sobrinha, e da coroa de Castella.[24]

Não me esquivarei a citar, a respeito d’esta mensagem, as palavras do historiador hespanhol Lafuente, porque raras vezes um escriptor extrangeiro é tão fiel e tão exacto nas suas apreciações.

«A ninguem, tanto como ao monarcha portuguez, diz elle, podia lisonjear uma tal proposta. De genio naturalmente cavalheiroso, desvanecido com a denominação de _Africano_, que os seus triumphos contra os moiros barbarescos lhe haviam valido, e um dos pretendentes anteriormente repellidos pela rainha Isabel, Affonso acolheu com avidez um convite que lhe proporcionava apresentar-se como reparador de um desaire, que recebera da rainha, como vingador de um rival preferido, como o campeão de uma princeza desgraçada, e como conquistador de uma coroa, que, alcançada para sua sobrinha, havia de ver collocada na sua propria cabeça. De modo que a empresa satisfazia simultaneamente o seu espirito cavalheiresco, o seu orgulho offendido, a sua cobiça e ambição de gloria.»

Conforma-se com o testemunho de Ruy de Pina o testemunho de Lafuente, quando affirma que o principe herdeiro de Portugal, D. João, procurara inflammar os brios guerreiros de seu pae, aconselhando-lhe a guerra com Castella. Tambem concorda com o chronista portuguez o historiador castelhano, quando refere que o duque de Bragança e o arcebispo de Lisboa foram de parecer contrario ao do principe. O que é certo é que Affonso V mandou a Castella o seu camareiro-mór, Lopo de Albuquerque (depois conde de Penamacôr), encarregando-o de informar-se pessoalmente sobre a importancia e valor que podiam ter os partidarios da _Beltraneja_. O emissario de Affonso V recolheu com boas informações, depois de praticar com os mais exaltados adversarios de D. Isabel, entre os quaes se contava, como sabemos, o marquez de Vilhena. Não obstante as boas novas com que Lopo de Albuquerque chegou a Evora, onde estava o rei, em Janeiro de 1475, parece que de novo foram ainda ponderados a Affonso V os inconvenientes da empresa; mas a fogosidade do principe venceu a opinião dos que discordavam.

O rei de Portugal mandou deitar pregão de guerra. Em Arronches devia reunir-se o exercito, no mez de maio. N’esse sentido foram expedidas ordens. Comtudo, alguem lembrou a Affonso V a conveniencia de mandar primeiramente uma embaixada a Fernando e Isabel, reivindicando os direitos de D. Joanna. Foi escolhido para esta commissão Ruy de Sousa, que a desempenhou. Lafuente diz que Affonso V tivera a _arrogancia de fazer uma intimação aos reis para que renunciassem a coroa em favor de D. Joanna_.

Nas disposições em que se encontrava Affonso V, é natural que mandasse pôr a questão em termos categoricos. De mais a mais, como ainda teremos occasião de mostrar, os embaixadores portuguezes não costumavam sossobrar perante a altivez castelhana. N’um e n’outro paiz, as situações estavam claramente definidas, porque se Affonso V convocara o exercito para Arronches, em Segovia tinham sido alçados pendões reaes ao som de _Castilla por el rey Don Herñando, y la reina Doña Isabel, su muger, proprietaria destos reynos_.

A resposta de Fernando e Isabel é facil de adivinhar. Responderam mantendo os seus direitos, e requereram a Affonso V que não entrasse em Castella. Diz Lafuente, que a intimação do rei de Portugal fôra nobremente repellida, mas accrescenta que D. Isabel _dirigiu differentes embaixadas a Affonso V, exhortando-o com palavras de moderação_ a que desistisse da empresa. Os emissarios dos reis catholicos foram varios religiosos, segundo Zurita.

No mez de maio, estava o rei em Arronches, apercebido para a marcha. O principe D. João acompanhou-o ao alto Alemtejo, onde concertaram, pae e filho, negocios particulares e do Estado, para o caso do rei perecer em combate. Foi em Portalegre, a 28 de abril, que Affonso V dictou o seu testamento, escripto por frei João de S. Mamede, confessor do rei: «... eu tenho determinado, diz Affonso, d’aqui a poucos dias entrar em os reinos de Castella, com fundamento de casar com a rainha, minha sobrinha, e isto por serviço de Deus e por melhor podermos defender seu direito, segundo é já entre nós capitulado...»

N’este curioso documento refere-se Affonso V aos enormes gastos que foram feitos com o casamento de sua irmã D. Leonor com o imperador da Allemanha, attribuindo-os á pouca edade que então tinha, e á falta de experiencia. Declara ter dois filhos legitimos, a infanta D. Joanna, que falleceu em Aveiro, com reputação de santa, posto a sua vida não fosse inteiramente isenta de culpas,[25] e o principe D. João que, segundo os estylos do reino, proclama herdeiro da coroa.

Tambem em Portalegre, e primeiro que o seu testamento, assignara Affonso V a carta regia pela qual declarava regente do reino seu filho, o infante D. João.[26]