Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.
Part 9
«E os que quizerem viver e tiverem a alma grande, bella e heroica, têem de se baixar á estatura burgueza e mercantil dos cerebros modernos. Os deuses olympicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de Juno viveria n'um pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os cavalleiros andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o tragico S. Jeronymo seria presidente d'uma junta de parochia. D'este modo tu acceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, musica, tu que creaste a Allemanha, far-me-ás uma contradança; vem, architectura, tu que deste hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, esculptura, tu que fizeste o povo dos deuses, ó bella esculptura! vem fazer-me um gavetão. Oh! tristes domesticidades do ideal!»
Houve um silencio. Havia na sala um ar mystico, como para a concepção d'um Deus.
O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar d'uma flauta. E o olhar do Christo errava, contemplativo e attento, entre as estrellas innumeraveis, emquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a cruz.
«Vae-te, disse o milhafre. Os ratos róem a cruz, eu estou velho: a antiga geração das aves da noite vae-se. Os prégos já se despregam, a cruz apodrece. E quando ella se desfizer, atirarei o seu pó á grande natureza, ao elevar da lua, que vale o elevar da hostia. Irei, oh meu Deus! para além dos soes e dos caminhos lacteos, onde as constellações são gôttas de sombra, certo--eu que sou da vasta terra, o selvagem dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos montes--certo de que, se os homens não derem a cruz aos Christos, não lh'a dará tambem a natureza. E eu, que roí as ossadas verdes, tendo visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado n'uma cruz, irei tambem, entre os soes meio doidos, eu, que devastei, e matei, e escorri do sangue, crucificar-me n'um astro!»
Assim fallou, lentamente, aquelle milhafre philosophico e lettrado, emquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim fallava, de cima d'uma cruz, n'uma sala legendaria, longe das maravilhas dos Cains burguezes, n'estes tempos livres, sensatos, verdadeiros, magnificos, em que, como se não pódem pôr certas verdades na bocca dos homens, tem de se dependurar do bico dos milhafres.
LISBOA
Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apezar dos asphaltos, das fabricas, dos gazometros, dos caes, ainda aqui as primaveras escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados ainda se beijam as pombas: ainda, no silencio, o ar escorre pelas cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um poeta impopular.
Lisboa que faz?
Antigamente a cidade, _urbs_, era o logar que pensava e que fallava, que tinha o verbo e a luz. Roma creou a justiça, Athenas idealisou a carne, Jerusalem crucificou a alma. Por isso Roma caíu, e os porcos enlameiam os restos de Athenas, e os cães uivam no silencio de Jerusalem. Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram: os seus ouvidos escutaram muito o pensamento, e ensurdeceram: as suas mãos esculpiram muito o ideal, e tolheram-se.
Pensar é soffrer, alumiar é luctar. A noite, ao succumbir, lucta com a madrugada, e deixa-lhe a chaga incuravel do sol: d'ella escorre a luz. As superstições, os preconceitos, os erros, os prejuizos, as fatalidades, luctam com a alma, e deixam-lhe a ferida insanavel do ideal: d'ella escorre a verdade. Esta ferida dá a febre, o cansaço, o desespero, a convulsão. Paris tem esta antiga e tragica ferida que teve Athenas, Babylonia e Jerusalem. Soffre, porque pensa. Os pés têm a intimidade da lama, as azas têm a camaradagem da luz. Todo o pé quer ser aza.
D'ahi ambições, desalentos, luctas obscuras, perdições, descrenças, fulgurações do mal, impurezas, traições, invejas, injurias, torturas:--a congestão do espirito! São estas as dôres immensas, as nodoas do pensamento, as manchas do sol.
Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbavel, silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terriveis. Tem a sensatez, a prudencia, a economia, o medo. Não quer alumiar, para não luctar; não quer pensar, para não soffrer. Não quer crear, pensar, apostolar, criticar. Escuta e applaude toda a voz, ou sejam as imprecações de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que solucem, as florestas que se lamentem! Ella tem o riso radioso e sereno.
Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre, caiada e fresca. Não tem de catar as suas miserias, nem de amparar o páo das forcas: por isso commenta Sancho Pansa. Não tem de construir a cathedral das ideias, nem de compôr a symphonia da alma: por isso escuta os melros nas varzeas, e resa as _Ave Marias_. Paris, Londres, New-York, Berlim, suam e trabalham, em espirito. Ella não tem que semear: por isso resona ao sol.
Ás vezes, porém, commette o mal, enterrando ideias. Onde? Na escuridão, no silencio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas!
* * * * *
Como Roma, ella tem as sete collinas; como Athenas, tem um ceu tão transparente que poderia viver n'elle o povo dos deuses; como Tyro, é aventureira do mar; como Jerusalem, crucifica os que lhe querem dar uma alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come.
Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que os astros vêm longe, que as azas sonham com o vento, que os olhos das flôres se fecham de somno. Deus não vê, da sua varanda de sol, que, para esta velha cidade, heroica e legendaria, que nos seus velhos dias tomou o peccado da gula, o abdomen é uma realidade livre! Até alli, durante o dia, os seus cabellos caíam como ramos de salgueiros, as suas faces estavam amarelladas, dos seus olhos chovia dôr; ainda não tinha comido! Depois, á noite, quando sáe do alimento como d'uma victoria, os olhares são gritos de luz, os cabellos plumas gloriosas, o peito arca de ideaes: comeu!
Lisboa nem cria, nem inicia; vae.
Em religião, nem tem a devoção dos monges, nem a impiedade ironica: é simples. Antigamente faz vir um Christo crucificado, erguendo os braços supplicantes, no prestito dos enforcados: hoje choraria pela Mãe Dolorosa, depois de ter erguido uma estatua a Voltaire: penduraria ao pescoço, singelamente, com as contas de um rosario, a sua antiga viola de Alfama.
Em politica, copia Sancho Pansa.
Não tem a coragem que se dedica, nem o medo soluçante: parece ter justamente o heroismo de uma espada embainhada: na campanha da Europa, todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda. Tem a religião sensual do sol, do calor, e do sonino: na Beresina, apupava as neves!
Não tem a febre das especulações e das industrias, nem o amor das contemplações e dos sonhos: tem um trabalho cheio de séstas: em abril suspende a enxada para vêr voltar as andorinhas.
No vicio é timida: copia desgeitosamente as Babylonias distantes: aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés: apara as unhas ao diabo; é o banho tepido dos peccados mortaes.
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Adoradora, em architectura, da linha recta dos palacios de crystal; sectaria, em esculptura, dos _biscuits_ de Sèvres; namorada, em poesia, do visconde d'Arlincourt--no theatro quer a magica: tem sede e fome d'aquelle ideal: quer as montanhas transparentes, os palacios de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, architecturas de luz e sons, papeis collados, vermelhão e ouropeis, mulheres despidas, pedraria, e oiro, oiro, oiro, e ainda oiro, e mulheres despidas, e mais oiro! Lisboa, por sobre uma scena resplandecente, vê as fórmas estranhas que toma o sonho da imbecilidade: quer a magica: em verdade, a magica é o espectro solar do idiotismo!
Vem a noite, e Lisboa toma a impassibilidade das penedias.
As casas, sem luz, têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas. A illuminação é um côro de gaz, bocejando. Das encruzilhadas das ruas solitarias, de todo este deserto de cantarias e de vidraças, exhala-se uma somnolencia fluida, um halito de tedio. Lisboa, de noite, é tão silenciosa que quasi se sente o crescer da herva que a ha-de cobrir no dia das ruinas.
É tão triste, que a noite parece um arrependimento da vida! Nas bellas moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos, em palhas, por toda a parte, ha um vasto somno inerte e vegetal.
Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a familia _Vicio_, a gente crepuscular, os herdeiros terriveis de Lovelace e de D. Juan Tenorio?
Compram, na penumbra domestica, o amor fuliginoso das cosinheiras, comem, melancholicamente, mexilhões nas tavernas; os mais pobres encostam-se ás esquinas, esfarrapados e doentes, cariatides somnolentas do tedio!
E nas casas? Ahi, nos andares resplandecentes, onde as mãos são macias e macios os sentimentos, estão, concentradas e sérias, fórmas vestidas de luto, como os viuvos, ou vestidas de branco, como as monjas. E suaves são as fallas, e o andar cheio de ondulações como o nadar das sereias, e as danças severas como a celebração d'um rito: e suaves são as petalas, e as musicas chorosas, e as luzes, aves de claridade presas, que palpitam e querem o livre azul: mas sobre a alma, e os corpos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos viuvos e a frialdade das monjas. E isto são as festas!
Mais acima, nos andares modestos, resonam aquellas familias, vulgares e asperas, que nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a belleza, a graça, a paixão, como insectos entre os cabellos d'uma santa, e morrem solitarias, invejosas, com os corações cheios de revolta, porque não amaram!
Depois, mais em cima, nos ultimos andares, é a gente do trabalho: operarios severos, doces raparigas com alma de passaro, gargantas onde, como nas veigas de Israel, todo o dia se canta; e, tambem, a gente estupida e metallica que tem a brutalidade do trabalho com a rudeza do coração, indoles asperas, olhos invejosos, mãos avaras, peitos vasios, que a essas horas da noite, com os cabellos caidos, vêem a vida tão núa, tão apertada, tão brutal, tão suja como a sua trapeira!
E depois mais acima, debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados, os miseraveis, a essas horas, com grandes olhos aterrados, catam-se, ou roem as côdeas, ou gemem de dôr, ou morrem entre a caliça e as aranhas, ou se remendam, cantando impuramente!
E por cima (como na jerarchia da dôr, das tristezas do pobre, só estão as chagas do Christo) o grande azul, sereno, transparente, cheio de universos, esconde, por detraz da gradaria dos astros, o Mysterio e a Graça!
A essas horas, ó miseria das cidades! longe dos conservatorios, e das academias, e das magicas, pelos prados e pelas varzeas, representam-se as verdes comedias da natureza: os rouxinoes dão a replica ás folhas melodiosas, as flôres choram pelas desgraças de um melro amoroso, os olmos teem attitudes grotescas de palhaços, e o ceu, como um amante tragico, criva-se de punhaladas de luz!
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Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações d'um peito desmaiado. Não ha ambições explosivas; não ha ruas resplandecentes cheias de tropeis de cavalgadas, de tempestades d'oiro, de velludos lascivos: não ha amores melodramaticos: não ha as luminosas efflorescencias das almas namoradas da arte: não ha as festas feericas, e as convulsões dos cerebros industriaes.
Ha escassez de vida; um frio senso pratico; a preoccupação exclusiva do util; uma seriedade emphatica; e a adoração burgueza e serena da moeda de cinco tostões--da moeda de cinco tostões, branca, perfeita, celeste, pura, immaculada, consoladora, purificadora!
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O luxo dos vestuarios é reflectido, pausado, calculado.
Um outro luxo ha, mais doido: esse, quando é novo, ruge, resplandece, deixa-se balançar em grandes prégas desfallecidas--um pouco baixamente, de camaradagem com a lama. Mais tarde, depois das ostentações e dos amores, envergonha-se e vae-se mascarar ás tinturarias: nos seus velhos dias anda, miseravel, pedindo esmola por casa das adelas!
A Lisboa material tem posições moraes. Ha sitios que dão, aos que os pisam, uma individualidade. O lagedo e a cantaria consagram espiritos. Encontrar-se no _Chiado_--significa ter a fina flôr da graça, a vivacidade conceituosa e costumes dissipados. Estar no _Martinho_--revela inspiração, divindade interior, lyrismo e politica. Oh Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas!
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Lisboa tem compaixões celestes: agrupa-se, em côro de lagrimas, para vêr a morte d'um cão: mas afasta-se logo, assobiando, se começa a agonia d'uma alma. Tem tambem uma curiosidade timida e facil: senta-se nos passeios pelo estio, entre o pó, olympicamente, como os Deuses entre a luz, e fica attenta, concentrada, suspensa, idiota--a vêr caminhar seis mil pernas!
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Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis; outro dia aborreceu-se o acolheu os imperadores. Ás vezes Lisboa aborrece-se--e entra na politica.
Lisboa toma então attitudes, clama, conjura nas esquinas, é bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas tyrannias derrubadas, reler a cartilha!
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Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se!
Nos tempos mythologicos, ás vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa e mãe, fiava na roca d'ebano incrustada de lapis, e dobava as lãs vermelhas de Mileto. Vinha, porém, um dia no anno em que a mulher ia, no Olympo, ser deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes; debalde lhe pediam que não fosse, temendo que ella, mulher e deusa, não se acostumasse, na volta, ás lampadas de gineceu, ella que só ia ser alumiada pelos astros do Olympo. Debalde: chegado o momento, nada impedia a esposa de ser divindade: via-se aquelle corpo casto, argilla ideal, azular-se e, transparencia viva, perder-se na luz.
Lisboa é assim. Vem um dia em que ella quer voltar ao seu elemento primitivo, e ninguem a póde impedir de ser lama: é pelo entrudo.
Suja-se então livremente, faz tempestades nojentas; n'aquelles dias o seu tedio é feito d'immundicie.
Transfigura-se. E como a Deusa deixava, na antiguidade, os filhos e os lares, para ir ser luz, Lisboa esquece as funcções do seu tedio, a religião da moeda d'oiro, o sacerdocio da economia, as attitudes emphaticas do seu pudor, para se dar livremente á lama!
Lisboa é a hospedaria do vento. O antigo Euro paga a hospedagem, atirando a poeira ás ruas, ás praças, ás avenidas, aos caes, á cara de Lisboa! Sublime adulação: suja-a!
Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Collisão! Lisboa, cidade inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo!
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Athenas produziu a esculptura, Roma fez o direito, Paris inventou a revolução, a Allemanha achou o mysticismo. Lisboa que creou?
O _Fado_.
_Fatum_ era um Deus no Olympo; n'estes bairros é uma comedia. Tem uma orchestra de guitarras, e uma illuminação do cigarros. O palco está mobilado com uma enxerga. A scena final é no hospital ou na enxovia.
O panno de fundo é uma mortalha!
* * * * *
Todos os dias, quando o sol se vae lavar, nas aguas, dos olhares dos homens, quando os corpos estão em flôr e passam os olhos pretos, de que Deus é avaro, e a maledicencia se abre como uma tulipa, e os risos são clarões, e a vida se balouça cheia de sonhos, de lustres de olhares, de beijos côr do sol, de camelias e de pomadas, passam na rua umas carruagens lentas, com grandes arabescos doirados: são coches; as suas armas são caveiras; vão alli os mortos.
«Anda, cocheiro: é um freguez que vae para a cova: a passo! Alto de S. João! A eternidade toma-te á hora!»
E emquanto o pobre morto vae, que dizem os que o viram partir, soluçando?
Os filhos dizem: «Tinha de ser...»
A esposa diz: «Vestida de luto!...»
O agiota: «Não foi mau freguez.»
Os medicos: «É um caso interessante...»
Os que o levam para a cova: «Era pesado, o maroto!»
O coveiro canta:
O preto que vem d'Angola Traz a bordo fava rica.
Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquelle homem: vestiste-o com os teus cabellos, alimentaste-o com o teu halito, coroaste-o com o teu olhar, divinisaste-o com o teu desejo: elle era formoso, e são, e forte, e apaixonado: mas se passares por ao pé d'elle agora, oh pobre mulher chorosa, põe bem a mão no nariz!
* * * * *
Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, resona, soluça e cachimba. E se algumas lagrimas em ti cairem, vae-as enxugar depressa ao sol! Fica-te em paz! Os que teem alma não querem a luz dos teus olhos; pódes consumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar, sempre erguido para lá, ninguem terá ciumes do ceu!
Os que teem coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas para elle, ninguem terá ciumes de Deus!
Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua resplandecente, a linha magnifica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce Lisboa, coroada de ceu, resigna-te--a não ter alma!
O SENHOR DIABO
Conhecem o Diabo? Não serei eu quem lhes conte a vida d'elle. E todavia sei de cór a sua legenda tragica, luminosa, celeste, grotesca e suave!
O Diabo é a figura mais dramatica da Historia da Alma. A sua vida é a grande aventura do Mal. Foi elle que inventou os enfeites que enlanguescem a alma, e as armas que ensanguentam o corpo. E todavia, em certos momentos da historia, o Diabo é o representante immenso do direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É então uma especie de Pan sinistro, onde rugem as fundas rebelliões da natureza. Combate o sacerdocio e a virgindade; aconselha a Christo que viva, o aos mysticos que entrem na humanidade.
É incomprehensivel: tortura os santos e defende a egreja. No seculo XVI é o maior zelador da colheita dos dizimos.
É envenenador e estrangulador. É impostor, tyranno, vaidoso e traidor. Todavia conspira contra os imperadores da Allemanha: consulta Aristoteles e Santo Agostinho, e supplicia Judas que vendeu Christo, e Brutus que apunhalou Cesar.
O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza immensa e doce. Tem talvez a nostalgia do ceu!
Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lucifer, _o que leva a luz_, revolta-se contra Jehovah, e commanda uma grande batalha entre as nuvens.
Depois tenta Eva, engana o propheta Daniel, apupa Job, tortura Sara, e em Babylonia é jogador, palhaço, diffamador, libertino e carrasco. Quando os deuses foram exilados, elle acampa com elles nas florestas humidas da Gallia e embarca expedições olympicas nos navios do imperador Constancio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus, vem torturar os monges do Occidente.
Escarnecia S. Macario, cantava psalmos na egreja de Alexandria, offerecia ramos de cravos a Santa Pelagia, roubava as gallinhas do abbade de Cluny, espicaçava os olhos a S. Sulpicio e á noite vinha, cançado e empoeirado, bater á portaria do convento dos dominicanos, em Florença, e ia dormir na cella de Savonarola.
Estudava o hebreu, discutia com Luthero, annotava glosas para Calvino, lia attentamente a Biblia e vinha ao anoitecer para as encrusilhadas da Allemanha jogar com os frades mendicantes, sentado na relva, sobre a sella do seu cavallo.
Intentava processos contra a Virgem: e era o pontifice da missa negra, depois de ter inspirado os juizes de Socrates. Nos seus velhos dias, elle que tinha discutido com Attila planos de batalha, deu-se ao peccado da gula.
E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e somnolento, apupou-o. Então o demonographo Wier escreve contra elle pamphletos sanguinolentos, e Voltaire criva-o d'epigrammas.
O Diabo sorri, olha em roda de si para os calvarios desertos, escreve as suas memorias, e n'um dia ennevoado, depois de ter dito adeus aos seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso.
O Diabo foi celebrado pelos sabios e pelos poetas. Proclus ensinou a sua substancia, Presul as suas aventuras da noite, S. Thomaz revelou o seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a sua inconstancia jovial. João Dique escreveu sobre a sua eloquencia e Jacques I, de Inglaterra, fez a corographia dos seus estados. Milton disse a sua belleza e Dante a sua tragedia. Os monges ergueram-lhe estatuas. O seu sepulchro é a natureza.
O Diabo amou muito.
Foi namorado gentil, marido, pae de gerações sinistras. Foi querido, na antiguidade, da mãe de Cesar, e na meia-edade foi amado da bella Olympia. Casou no Brabante com a filha d'um mercador. Tinha entrevistas languidas com Fredegonda, que assassinou duas gerações. Era o namorado das frescas serenatas dadas ás mulheres dos mercadores de Veneza.
Escrevia melancolicamente ás monjas dos conventos da Allemanha.
_Feminæ in illius amore delectantur_, diz tragicamente o abbade Cesar de Helenbach. No seculo XII tentava com olhares cheios de sol as mães melodramaticas dos Burgraves. Na Escossia havia grande miseria sobre os montes: o Diabo comprava por 15 _schellings_ o amor das mulheres dos _highlanders_, e pagava-lhes com o dinheiro falso que fabricava em companhia de Philippe I, de Luiz VI, de Luiz VII, de Philippe o Bello, do rei João, de Luiz XI, de Henrique II, com o mesmo cobre de que se faziam as caldeiras onde eram cosidos vivos os moedeiros falsos.
* * * * *
Mas eu quero só contar a historia de um amor infeliz do Diabo, nas terras do norte.
Oh mulheres! vós todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura, nem os simples, nem os balsamos, nem os orvalhos, nem as resas, nem o pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir esta historia florida!
Era na Allemanha, onde nasce a flôr do absyntho.
A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepelliz do senhor arcebispo d'Ulm.
Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras, de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Christo de marfim. As plantas limpavam piedosamente, com as suas mãos de folhas, o sangue das chagas; as pombas, com o calor do seu collo, aqueciam os pés doloridos. No fundo da casa, o pae d'ella, o velho, bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos de Italia, e as cidras da Dinamarca. Era vaidoso, gordo, somnolento e mau.
E sempre a rapariga fiava. Preso á roca por um fio branco, sempre o fuso saltava; preso ao seu coração por uma tristeza, sempre pulava um desejo.
E todo o dia fiava.
Ora debaixo da varanda passava um lindo moço, delicado, melodioso e timido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro.
Ella, sentada junto do crucifixo, cobria os pés de Jesus com os seus grandes cabellos louros.
As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra a cabeça da imagem. Parecia que toda a alma de Christo alli estava--consolando, em cima, sob fórma de planta, amando, em baixo, sob fórma de mulher.
Elle, o branco moço, era o peregrino d'aquella santa. E o seu olhar procurava sempre o coração da doce rapariga, e o seu olhar d'ella, séria e branca, ia procurar a alma do caro bem amado.
Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de luz, contar o que tinham visto. Era um encanto!
--Se tu soubesses!--dizia um olhar.--A alma d'ella é immaculada.
--Se tu visses!--dizia o outro.--O coração d'elle é sereno, forte e vermelho.
--É consolador, aquelle peito onde ha estrellas!...
--É purificador, aquelle seio onde ha bençãos!
E olhavam ambos, silenciosos, extaticos, perfeitos. E a cidade vivia, as arvores rosnavam sob o balcão dos eleitores, a trompa de caça soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das egrejas, as amendoeiras tinham flôr, e o Rheno cantigas de ceifeiras.
E elles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Christo aninhava as almas.