Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.

Part 8

Chapter 83,839 wordsPublic domain

O nosso mundo europeu tambem é uma extranha amontoação de contrastes e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas as efflorescencias fecundas e todas as velhas podridões: politicas superficiaes e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres consciencias e a tyrannia dos velhos ritos: diplomacias pacificas e transigentes, e um espirito de guerra surdo, acceso e flammejante: territorios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e pela philosophia dos conquistadores e dos heroes: restos de influencias monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionario; humanitarismo fundido com o mais aspero egoismo; um chaos horrivel de contradicçoes, e em cima, triumphal e soberba, a industria, entre as musicas dos metaes, as architecturas das Bolsas, reluzente, scintillante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho eterno--que são fortunas, imperios, festas, empresas collossaes.

Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre, move-se em germen um novo mundo, o mundo da justiça social e economica.

Este germen é que a America não tem, creio eu.

Porque toda a America economica se explica por esta formula: feudalismo industrial.

Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas, de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza amontoa-se em proveito da alta finança--com detrimento das pequenas industrias.

Logo que na ordem economica não haja um balanço exacto de forças, de producção, de salarios, de trabalhos, de beneficios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de proletarios que emmagrece, definha, e dissipa-se nas miserias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam estas terriveis desuniformidades.

Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o trabalho pela repugnancia que excita, pela absorpção completa de toda a vitalidade physica, pela aniquilação e quebrantamento da seiva material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção--por isso mesmo, sobreexcita o espirito, estende os ideaes, abre grandes vasios na alma, complica as necessidades, torna insupportavel a pobreza: nas grandes democracias industriaes onde as posições são obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha mil motores--a ambição, a inveja, a esperança, o desejo--o cerebro aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o _querer chegar_ torna-se uma verdadeira doença d'alma: exageram-se os meios: e toda a seiva moral se altera e se deforma.

É o que vae acontecendo na America; debaixo da frieza apparente, move-se todo um inundo terrivel de desejos, de desesperanças, de vontades violentas, de aspirações nevralgicas.

Depois, como no meio das industrias ruidosas e absorvedoras muitas amarguras ficam por adoçar, muitas angustias por serenar, muitas fomes por matar, muitas ignorancias por alumiar, tudo isso se ergue terrivel no meio da febre da vida social, e torna-a mais perigosa. Londres dá hoje o aspecto d'esta lucta.

De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o desejo das riquezas, aferventa o cerebro, sobreexcita a sensibilidade: a população cresce, a concorrencia é aspera, as necessidades descomedidas, infinitas as complicações economicas, e ahi está sempre entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a lucta dos interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades, e por fim as revoluções politicas.

E todavia a liberdade da America parece tão confiada, tão assente, tão satisfeita!

No emtanto ha muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda ha pouco deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos, a sua industria, o seu egoismo, o seu profundo interesse, e arma exercitos, esquadras, dissipa milhões, e vae bater-se por uma ideia, por uma abstracção, por um principio, pela justiça.

O Sul queria manter a escravatura; o escravo que trabalhe, que cultive, que produza, que sue, que morra sob a força metallica, baça e sinistra do clima e do sol. Pois bem. O Norte quer a liberdade, o amor das raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo direito! E dispersa os exercitos da Virginia.

Taes coisas me lembraram ha dias, ao visitar o _Miautonomah_, fundeado no nosso Tejo.

MYSTICISMO HUMORISTICO

Voltei. É agora que as toutinegras emigram.

Andei pelos campos, n'este ar desfallecido do inverno outonal.

Agora o azul está indolentemente bello. Tem quasi uma ironica serenidade. É o azul intenso, frio, triumphante. Tem a luz, a belleza, a força, a ineffabilidade. Agora a luz enternecida dos campos arrasta-se pelas grandes aguas quietas e pallidas, onde o vento revolve e espalha a agonia das folhas.

Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranquiçada, escondida entre as bençãos indolentes das arvores. Tinha a serena quietação de quem tem ouvido segredos extaticos, e era triste e religiosa como a entrada amarellecida de um convento catholico. Havia uma corrente de agua delgada que fazia claras murmurações, e era como o acompanhamento, natural e melodico, de uma ecloga latina. Entre as arvores estava um banco solitario, que o musgo ia cobrindo. Nas plantas, nas clematites, nas trepadeiras que o cercavam, havia um murmurio como de vozes distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e molhada do banco tinha a tristeza das pedras do cemiterio, á luz consoladora, purificadora e branca, que cáe dos ceus outonaes.

Agora, sobre aquelle banco, dorme estirada a grande luz do sol, e á noite o luar, porque já não ha n'aquella casa namorados contemplativos que venham, de noite ou á sésta, despertar, para se poderem sentar alli, aquelles dormentes de luz.

Aquella casa abandonada faz lembrar amores mysticos: e, quando se vê á luz dolente do escurecer, faz subir do coração como um sabor de beijos antigos e esquecidos.

As arvores erguiam, em attitudes violentas e propheticas, os seus braços nús, engelhados, supplicantes para o frio azul, esperando, no entorpecimento, a fermentação violenta das seivas. Os ramos frios e nitidos deixavam passar indifferentes, sem as suspender, sem as acariciar, as molles nudezas das nuvens.

Toda a natureza, no tempo dos frios, está impassivel e somnolenta.

* * * * *

Passei por um cemiterio. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um rosto inerte e animal. A luz dissipava-se, e uma estrella que se chama Venus luzia, metallica, ardente, desejosa, lucilante, n'um fundo sinistro de ramagens.

O coveiro é um semeador. Semeia corpos. Sómente não tem a esperança nem o amor das colheitas. Quem sabe se os corpos, que se atiram á valla, sementes funebres, se abrem, lá em cima, em searas divinas de que nós apenas vemos a ponta das raizes, que são as estrellas? Mas não. A alma morre. O corpo revive e dissipa-se na materia enorme.

É na alma que estão as más vontades, os negros remorsos, as lacerações do mal: o corpo desce livre, novo e são para as uberdades limosas das covas.

Quando chega o ultimo frio, odios, amores, tristezas, invejas, melancholias, desejos, todos cançados das luctas e da vida, dizem á natureza como gladiadores vencidos:--_Os que vão morrer saúdam-te!_--E morrem.

A vida e o seu supplicio é absorvida na insensibilidade da natureza, no silencio perpetuo, na força fatal e céga. E a materia vae pelos ares, pelas planicies, amollece-se nas sombras, vivifica-se nos raios claros, é rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruido, movimento, estremecimento confuso do corpo de Cybéle: e a materia sente a vida universal, a palpitação do átomo debaixo da fórma, sente-se banhada pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impellida para a luz magnetica dos astros e dilacerada nos asperos movimentos da terra. A materia tem a consciencia augusta da sua vitalidade. E assim, sob a tua impassibilidade, ha uma angustia immensa, uma vida ardente, impiedosa, uma alma terrivel, oh formidavel natureza!

A noite descia: caía de cima uma claridade lactea; pesava um austero e lento silencio; a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me dos Elysios olympicos e mythologicos onde na claridade, passam as sombras heroicas, serenas, brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol!

* * * * *

Eu ia escutando os passos da doce noite, que vinha caminhando. Ia-me afundando no tedio, como um navio roto n'uma maré do equinoxio. Enchiam-me a alma crepusculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro. Áquellas horas, os lymphaticos, os innocentes, os mysticos, encontram nos arvoredos languidezas e elevações asceticas. Mas eu tremia entre a ramaria inquieta como um mar, mysteriosa como um firmamento:--tremia como um homem medroso que visse erguer-se um morto. Toda aquella negra decoração de ramos torcidos, de folhagens lividas, de silencios, enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e transfiguradora do occaso dava aos troncos um estranho aspecto de luctadores, vindos do sangue e dos incendios: os sinos distantes eram como vozes indefinidas de miseria e de dôr.

Passava um vento incessante e perseguidor. Os môchos voavam, e as aguas sonoras eram como vozes vingativas e tragicas. A lua, entorpecida, passava por detraz da estacada de ramos. O vento era rouco e lento como um canto catholico de officios. E o grasnar lento e arrastado dos córvos parecia uma ladainha barbara de padres. As arvores doentias rangiam ao vento hybernal, o ar estava diaphano, lacteo e mortuario. As estrellas que appareciam tinham o olhar lancinante.

Cheguei á estalagem. Em baixo, na lareira, um magro fogo lambia as fuligens. A luz do meu quarto tinha a lividez dos cirios, e o espelho tinha reflexos pallidos, como de sombras mythologicas que passassem. Ouviam-se os lobos.

Lembraram-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o ceu derrama somnolencias; então tambem eu ia por entre as arvores, e ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir atravez da bruma, entre o acre cheiro das efflorescencias. Aquellas vozes claras eram doces, santas, saídas de crystaes, como veladas por um luar. Eram como claridades sonoras de estrellas. Era uma multidão de fórmas divinas que assim cantavam, divindades feericas, willis, nixes, peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos. Aquellas nudezas celestes, filhas do fogo, flôres do mal, ondas do ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as scintillações estellares franjavam de pallidezas. No meio dos nevoeiros humanos, ellas faziam resplandecer deante dos olhos as visões paradisiacas, as creaturas sideraes de languidos mysticismos. Ellas iam n'aquelles enlaçamentos, brancas e loiras, cheias de lyrismo, com os pés vermelhos e magoados de terem pisado auroras; iam poisando nos jacinthos, nos myrthos, nas rosas barbaras cheias de sangue radioso: iam rolando sobre a brancura soluçante dos lyrios: e a sua voz triste subia, por entre o azul lacteo, para a lua chorosa.

* * * * *

Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma mumia, pensando n'estas coisas, vi, repentinamente, atravez das vidraças, a lua apparecer-me.

Mas não era aquella pura e immaculada lua côr d'opala--que derrama brancuras, como se atravez do azul caissem lyrios. Era uma lua metallica, fria, hostil, material como uma moeda d'oiro nova.

Ella apparecia-me mortuaria e livida como uma sombra finada, que se ergue ás grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rapido, estava cheio das minhas agonias.

* * * * *

Ora n'essa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha feito saltimbanco.

Fez bem. Cançado dos pedantes, dos burguezes, dos ventres mercantis, dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco, e vive entre os palhaços. Faz forças coberto de farrapos luzentes, engole espadas, dança farto de vinho como um Sileno. Dorme n'uma capa esfarrapada, com a nuca sobre um tambor, á frescura das estrellas e sob a bondade dos luares.

Ás vezes tem frio e fome, e gela n'uns calções feitos de veludilho e de galões d'oiro. Anda errante de villa em villa, e a populaça da lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as materialidades felizes?

Elle tem a multidão extatica e enlevada nos giros dos seus sapatos. E tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão, e annelladas e fortes como negros pennachos de voluptuosidade: e a sua testa tem um reflexo de luar, de marmore e d'espelho: e tem um bello seio de fórmas barbaras.

Elle pula á noite, no circo alumiado, emquanto as toutinegras cantam nos cannaviaes. Elle faz girar vinte punhaes agudos em volta da cabeça, n'um circulo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquelle diadema terrivel e faiscante, e o saltimbanco impassivel, grave, enfarinhado, sob aquella corôa de luz, tomal-o-á por um idolo e fal-o-á igual aos deuses!

Elle, o meu saltimbanco, tem a alma de oiro e o coração de diamante--e ri-se, ri-se, quando o vento sôa como flauta do inverno, e ao concerto das corujas e das ondas as estrellas dançam.

A miseria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem sol. E não soffrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado, applaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes, os tambores!

Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que são as visões? São as attitudes, phantasticas e desmanchadas, que a sombra dá ás verdades. Já pensava assim o poeta Li-Tai-Pè, que escrevia sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e laccas, ao aroma dos nenuphares, vestido de sedas amarellas, perfumado de sandalo--dôce, contemplativo, branco, diante d'um vaso de margaridas!

O MILHAFRE

Um dia um homem entrou n'uma casa arruinada. No portal havia um nicho com um santo de pedra, que lia uma Biblia, tambem de pedra. Em redor, na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia hervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre as suas palpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa dos regimentos, e o santo lia attentamente o seu livro de pedra.

Vinham defronte dançar saltimbancos, passavam as frescas serenatas, vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de pedra sobre as paginas inertes. As devotas, lentas e desfallecidas, beijavam-lhe os pés nús, os homens severos saúdavam-o, as creanças olhavam-o com os seus grandes olhos inanimados, os cães ladravam-lhe á calva: o santo, curvado, seguia o espirito de Deus por entre as lettras do livro.

Passavam os fardos, os mercadores crestados pela industria, os poetas languidos que desfallecem nas cançonetas, os histriões que cantam nos tablados, mulheres mais preciosas que o ambar, os sabios, os mendigos, as virtuosas e as melodramaticas:--e o santo lia o seu livro prophetico.

Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os cyprestes--ais de folhagem--os homens, perguntavam entre si:--«Que lê tão attentamente aquelle santo, que nem sequer nos olha?» E os enxurros, que passam rosnando, diziam:--«Que lê tão devotamente aquelle santo, que nem sequer nos escuta?»

Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras cáem de somno, quando os homens estão cheios de comida e de inercia--a lua, que ao nascer é material e metallica como uma moeda d'oiro nova, depois, na suavidade do azul, é tão pura, tão casta, tão immaculada, tão consoladora, como uma chaga de Christo por onde se lhe visse a alma. A essas horas, uma creança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a grande luz dos seus olhos, aquella creança miseravel, adormecida sobre as lages.

Depois os planetas, a lua, a noite seguiam a sua viagem immensa para o oeste, e a leste começava uma claridade: eram as hesitações da luz do dia, medrosa por ter de descer ás miserias dos homens.

As bandeiras ainda estavam desfallecidas, sonhavam as arvores, a cidade dormia como outr'ora Sodoma. Acordavam então as andorinhas. Esvoaçavam gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, poisar no nicho.

As andorinhas estavam nas intimidades e nas confidencias do santo.

Ora o vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grãos e de sementes: a chuva cáe lúcida e fresca. O santo aparava a chuva nas prégas da capa, e os grãos nas paginas do livro. E as andorinhas, quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a Biblia de Deus. E, em quanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as azas nas barbas do santo, beijavam-se na sua bocca, aninhavam-se-lhe entre os braços, cobriam-n'o todo; e o sol, quando chegava, ficava maravilhado de vêr aquelle pobre santo de pedra, que elle não conhecia do Paraizo, com os pés entre as hervas verdes, rindo, sereno, sob a luz immensa, e todo vestido d'azas!

* * * * *

O homem entrou na casa arruinada e foi, atravez de pedras esverdeadas, de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, do muralhas leprosas de musgo, de escadarias miseraveis, até uma sala enorme, escura e tragica, e tão alta, que involuntariamente o olhar procurava as constellações n'aquella sombra.

No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabeça macerada do Christo, as traves pôdres do tecto abriam uma larga fenda. Por alli vinha a chuva escorrer-lhe nos cabellos como o antigo suor do Jardim das Oliveiras, vinham os granisos magoal-o como as pedras da paixão, vinha o sol alumial-o como a tocha de Judas, e a lua vinha, tambem, tornal-o mais livido, como n'aquella noite em que elle, depois de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalem, sentiu poisar na sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou.

Sobre a cabeça e sobre os braços do Christo havia teias d'aranha; em baixo os ratos roíam-lhe a cruz.

Então o homem sentiu que aquelle seio constellado, e aquella bocca d'onde saíu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Christo, vendo o homem afflicto e miseravel, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito que o homem, encontrando Christo abandonado, profanado e roído, lhe limpasse da cabeça as aranhas! Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as mãos, quiz arredar o milhafre.

E a ave, então, com a antiga voz dos animaes da Biblia, do Apocalypse e dos livros dos prophetas, disse surdamente: «Homem, deixa a cruz socegada!»

Atravez das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as azas, dizia:

«Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem agora estrellas, soes, planetas, scintillações, carbunculos. É o pó dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua farça acabou em desterros.

«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nús.

«Este ficou, solitario, alumiando. Elle perdoou emquanto os outros luctaram, elle amou emquanto os outros choraram: por isso fica emquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silencio dos myrthos dois olhares bem-amados.

«Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o apodrecimento. Elle póde bem dar ás aranhas o seu corpo de madeira, pois que vos deu a vós o seu corpo de carne--a vós, que pregaes com o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janellas e o Christo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os cabellos de madeira depois de lhe ter arrancado os cabellos vivos; a vós, que quereis lavar as nodoas que elle tem no peito, e não vêdes as immundicies que tendes na alma. Tudo o que elle creou, o amor, o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquelle evangelho da vida-nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de bichos, tão immundo como o seio d'esta imagem antiga. A materia, o impudor, o apetite rude, o odio, o aviltamento, o trafico, a miseria e a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam sujando a cabeça d'este Christo! E não reparaes, e não vêdes, sobre os espiritos, sobre os corações, sobre as consciencias, o pó, a caliça, o caruncho, os ratos e os vermes!

«Sim, é verdade: tudo é magnifico, e são, e banhado de sol. As cidades são limpas e caiadas, só as consciencias é que tem nodoas; as praças estão cheias de illuminações, só os corações é que estão escuros; os caes estão arejados, só os espiritos é que suffocam; os corpos estão sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas é que andam núas, miseraveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farça, os paraisos artificiaes, as arcas venaes, e tambem o esfriamento do tumulo! Oh amigos intimos dos vermes, como vós cuidaes do corpo, e o lavaes, e o amaciaes, e o engordaes--para a pastagem escura das cóvas!

«Homem, que fizeste tu da alma? Ao principio não era conhecida, depois foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor matal-a--mas não certamente de cançaço com viagens a Deus! Déstel-a a despedaçar á negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo: para esse uma religião, um asylo forte como o sol, os sete sellos da lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o immaculado, o pontifical, o victorioso. Prohibição a Deus de lhe tocar. Para elle palacios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação dos astros. Para elle a inviolabilidade: _Não matarás!_

«Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes, deixamos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue, e viemos, para viver, acceitar, com os capões, a domesticidade nos parques resplandecentes, ou andamo-nos mostrando aos imbecis, pelas feiras, n'uma gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a natureza immensa, as afflicções do vento, as nupcias do mar, de terem luctado nas tempestades e insultado as estrellas, vêem, modestamente, comer bichinhos no saguão dos burguezes! Eu, que tinha estado entre a força, quiz, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido na noite de Deus, quiz, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, entretanto, a alma morre esmagada e solitaria, e a grande vida moderna, a vida do sol, da musica, dos metaes, vae, entre fulgurações, pisando e cuspindo n'aquella coisa miseravel. E ainda está quente o sangue de Jesus!

«Homem, que fizeste tu do pensamento?

«Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lho no seio as sete dôres. Coube-lhe a dôr e o escarneo. É necessario que, nas cidades, os pensadores e os artistas extaticos soffram e sangrem: os triumphos dos homens da materia são como os dos antigos imperadores--só são completos quando passam entre torturas. E quem havia de soluçar sobre a scena moderna da paixão, senão os que têem alma?

«Amam, suffocam, cáem, agonisam, e entretanto vae passando a cohorte dos victoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se d'aquelles corações, como os botões d'oiro das suas camisas apupam a luz dos astros.