Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.
Part 7
Ella é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos--o do homem luminoso e o do homem escuro--andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas auroras e nas mesmas corollas.
Ella acolhe, indifferente, todos os ritos, todas as religiões: as mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas dos ritos de Baccho, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois, agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constellações, o pobre Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue, bradando afflicto na noite das Agonias.
Ás horas em que acabo estas linhas, vae o dia a declinar: agora, lá ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e parece-me vêl-o d'aqui, entre as transparencias morbidas do anoitecer, distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que elle assim espalha pelos sulcos fecundantes: são elles que se tornaram seáras e que lhe hão de encher o celleiro; são elles que lhe dão a comer a sua carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações!
Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na natureza que se deve procurar a religião: não é nas hostias mysticas que anda o corpo de Jesus--é nas flôres das larangeiras.
A PENINSULA
Ainda hontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre tinhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendencias, somnolenta, chata, fria, burgueza, cheia de espantos e de servilidades: e que este velho canto da terra, cheio de arvores e de sol, tinha sido patria forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, epica!
Ah! foi ha muito tempo...
Era n'aquelle tempo em que a Italia rodeava os papas severos; e olhavam para o ceu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa, uma profunda transformação social. Na Allemanha, Luthero entrava em Worms, com um canto batalhador, em nome do espirito e da alma. O Papado ia morrer. Era necessario que todo o Sul se alliasse na cruzada catholica.
Toda a revolta de Luthero foi tomada, ao principio, por um d'aquelles lentos suspiros allemães, que se perdiam no côro profano, luminoso, embalador e forte do Sul.
Viu-se, depois, que era a voz immensa da alma do Norte, toda uma humanidade austera e vital, que se movia, que vinha fallar, pensar, examinar, revelar, sob o peso da theocracia romana, dos papas, dos imperadores, das tyrannias, dos sacerdocios.
Todo o Sul catholico estremeceu: aquella revolta vinha imprevista e rapida: um dia, a imperceptivel e vasta humanidade, quando fosse, uma madrugada, para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma deserta, e, ao longe, o catholicismo dissipando-se com um som hieratico de psalmos, e um colorido vermelho de fogueiras.
Era necessario salvar o Sul.
A Italia tinha-se familiarisado com o christianismo: tinha-se acostumado ás santas macerações de Jesus, á transparencia ascetica das virgens: os renunciamentos e os medos catholicos já a não vergavam para o pó. Ella, cheia de sol, e de sons, e de forças, começava a olhar a natureza, as grandes fecundidades, as vitalidades poderosas, as melodias moventes da carne.
Os velhos Deuses da Grecia tinham-se refugiado na alma italiana: ao principio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela dôr, encolhidos, soluçantes, miseraveis: depois, lentamente, foram apparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrosia e um som d'idyllio; e os seus corpos, sãos como astros, occuparam, por fim, toda a alma italiana com choreias, derramações de nectares, palpitações de luz, divinos resplandecimentos de vida.
A Italia tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do infinito: e os poucos que se curvavam sobre a _Divina Comedia_, não era para vêr os castigos e os paraizos, mas para sentir as palpitações, que lá tinham ficado, da alma de Florença.
A Italia seguia Petrarcha: mas em Petrarcha havia ainda uma religião e um mysticismo--o amor: e a Laura dos _Sonetos_, como a Virgem mystica, prendia nas humilhações religiosas todos os cavalleiros do Sul. A Italia então deixou Petrarcha e rodeou Ariosto, o aventureiro, o jovial, o descrente, cavalleiro e escarnecedor.
Foi então que se ouviu aquella voz do Norte.
Todas as cohortes catholicas andavam dispersas, galhofeiras e namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta Pulci, guiadas por Lorenzo do Medicis e pelo cardeal Bembo, cantando ás estrellas, adorando as Violantes, rindo de Fra-Angelico, acclamando Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do sol, da musica e das noites profanas.
Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Luthero. Todos os catholicos correram instinctivamente, rodearam os papas severos, Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os psalmos e as missas de Marcello, cheias dos renascimentos asceticos, e foram seguindo o Tasso, que voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus.
E o papa continuou caminhando, sereno e terrivel, deixando as sombras das masmorras de Galileo e de Campanella, e mais longe o fumo das fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno.
Tal era a lucta do Norte e do Sul.
Ora, durante essa lucta das religiões e das patrias, a Peninsula, encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistro cavalleiro de Deus, armava as caravellas e os galeões para as bandas desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós outros, os peninsulares, appareciamos ás demais nações como velhos lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terriveis.
De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiaes e núas, sob a benção dos padres: alli mesmo, sobre a areia, ao rumor das maresias, escrevia a historia tragica da sua viagem, e uma madrugada, tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a banda das Indias.
Era assim. Todos os annos, aquella multidão immensa de aventureiros embarcava nos galeões, entre os psalmos o os chóros, e elles iam, silenciosos e flammejantes, por entre as sonoras illimitações, os ventos afflictos e os tremores da agua--para os nevoeiros inexplorados.
Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as constellações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Christo, cantando os psalmos ao côro dos furacões, todos reluzentes de armaduras e de divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e de doçuras de apostolos.
Iam como n'uma gloria e em nome de Deus! E quando encontravam as hostilidades e os encrespamentos irados dos elementos, as oppressões infinitas dos ventos e das aguas, erguiam as mãos como para uma excommunhão, e bradavam, soberbos, áquelles sôpros e áquellas maresias, os versiculos do Evangelho segundo S. João.
Ora aquelles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e poetas. Escreviam os seus feitos.
Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convez das caravellas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da India, sob as immobilidades crúas da luz: escreviam cobertos das espumas, ennegrecidos pelos fumos, trémulos das iras das batalhas. Por isso enchiam as suas chronicas e os seus poemas d'uma estranha prodigalidade de força e de vida. E os seus diarios de bordo tinham, muitas vezes, a simplicidade epica de Homero.
Mas elles tambem tinham amores, ciumes, paternidades, paixões, lyrismos interiores, e as saudades da patria nasciam n'aquellas almas como grandes assucenas que se abrem dentro d'um vaso, e que o enchem.
De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, emquanto os pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens immensas das estrellas, e todo o mar enorme se amollecia como um seio cansado, elles contavam em voz baixa, com as cabeças juntas, as historias de amores, os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da patria.
E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farças, comedias e elegias.
E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar, tomavam a fórma popular.
Estavam longe da Europa, das plasticas da Italia, dos renascimentos gregos e romanos, das antigas fórmas rituaes, das educações classicas.
Não conheciam isto.
Mas lembravam-se sempre das cantigas da patria, das lendas heroicas, dos romances populares, que elles tinham ouvido pelos campos, com que os velhos embalavam os netos, que se cantam do noite ás estrellas por Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos godos e dos arabes. Porque o povo, na Peninsula, tinha uma poesia, sua exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, em que escarnecia os alcaides e celebrava os heroes.
Fazia d'aquella poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande leito mysterioso onde adormecia as tristezas: era alli que procurava confortos, recompensas, e as ideias da patria.
No Norte, a poesia popular foi a Invisivel que levou, pela mão, os trovadores, filhos das glebas, até ás lareiras dos senhorios feudaes: foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça, mysticos e sensuaes, soltaram para as brancas castellãs que entreviam nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, ás estrellas, pelos altos terraços; ou entre as arvores, ao entardecer, quando as ogivas, cheias do sol obliquo, estão flammejantes como mitras.
E as castellãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e cheios do paraizo. Admiravel influencia da poesia, que produziu, pelo amor, um renascimento social!
Mas a poesia da Peninsula era unicamente do povo: era a epopeia austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo del Carpio, exterminador de barbaros. Na Peninsula, o povo estava sob uma condição especial; tinha uma importancia no estado forte, fecunda e soberba: a Peninsula tinha passado os primeiros annos da sua constituição nas luctas terriveis do forte Mahomet e do Christo mystico; ora o popular da Peninsula não era um servo, era um christão: consagrado pelos baptismos, era uma força individual, que impellia e dissolvia o elemento mourisco, sensual e poderoso.
Ora foi sob a fórma popular que aquelles batalhadores e poetas, que vão hoje tomando a vaga attitude da legenda, escreveram os seus poemas, as suas cantatas, as suas comedias e os seus sonetos.
Então toda a litteratura peninsular tem uma originalidade profunda, independente de fórmas e ritos: a arte, o drama, a poesia, sáem das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades meridionaes: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades esqueciam as suas tradições, a sua historia, a sua velha alma, para se envolverem nas fórmas antigas. Era a Renascença. Então apparece o theatro hespanhol, original, cavalheiresco, energico, apaixonado, cheio de selvagens palpitações, de lances, de religião: theatro onde a cruz é um personagem; onde fallam lacaios, heroes, santos, ventos, galeões; onde todas as fórmas da vida se confundem--o riso, o chôro, a ironia, a satyra, o madrigal...
Depois uma pintura mystica e sensual: não é a espiritualisação da alma, é antes a immortalisação da carne, inspirada d'aquelle mysticismo hespanhol, que sob a influencia da natureza, do clima, da politica, da raça, parece mais cheio das tragicas iras de Jehovah, do que das doçuras de Jesus.
Depois uma musica, como a do _Dies irae_, obra dos terriveis dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: musica ascetica e flammejante, onde a natureza apparece, tragica e desgrenhada.
Uma arte onde se torcem todas as chammas do inferno, e todas as pedrarias dos paraizos catholicos, que parece uma lucta tragica e comica da vida e da morte; uma egreja cheia de renunciamentos mysticos, mas onde o mysticismo parece mais um desespero de não poder saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a alma nas contemplações divinas: uma defeza do catholicismo, tragica e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdocios: confusão dos imperadores com os santos e das corôas de metal com as corôas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o sentimento mais apparente é o rancor.
Ao mesmo tempo uma austeridade monastica em tempo de guerra: caravellas que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações das estrellas: quasi, por vezes, uma reconciliação apparente do Mahometanismo e do Christianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o elemento da intriga que quer entrar na politica, vindo substituir o elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa visinha. Depois um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a America e as Indias como um paraizo de oiros, de metaes e de soberanias.
Tal é o aspecto mais geral da Hespanha nas vesperas da Renascença.
É dramatica aquella vida.
Não admira, por isso, que a fórma suprema da sua arte--fosse o drama.
Em Portugal, não é este rigorosamente o fundo do genio: ha mais serenidade na força: o caracter portuguez é mais parecido com o caracter italiano: os nossos sabios, os nossos viajantes, os nossos descobridores, tinham mais a lucidez do tempo de Galileo do que a fé do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso Portugal não resistiu nada á influencia italiana. O renascimento da antiguidade, a serenidade plastica, a frieza classica, acclimatam-se na Hespanha, mas com dôr e com lucta: foi necessario que a Hespanha já não acreditasse na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar, pelos caminhos, o magro D. Quixote.
Em Portugal não: o genio antigo acclimatou-se: transformou-se mesmo: perdeu o elemento vital e fecundo--e ficou-lhe o elemento rhetorico.
Oh Arcadia! Oh moços pastoris e burguezes! Oh classicos!
O «MIAUTONOMAH»
Ha duzentos annos, uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco na Hollanda humida e ubere, e, sob o equinoxio e os grandes ventos, miseraveis, austeros, levando uma Biblia, partiram para as bandas da America.
Duzentos annos depois, estes homens que tinham ido, solitarios, n'um barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra epica pelo Mediterraneo, pelo Pacifico, pelo mar das Indias, pelo Atlantico, pelos mares do Norte.
Aquella colonia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados, rotos, que dormiam ás humidades do ar n'uma capa esfarrapada, é hoje a America do Norte--os Estados-Unidos.
America do Norte significa trabalho, fé, heroismo, industria, capital, força e materia.
Ultimamente via eu o _Miautonomah_, sinistro e negro caçador de esquadras: é toda a imagem da America--frio, sereno, contente, material, e cheio de fogos, de estrondos, de machinismos, de forças e de fulminações.
É o que amedronta n'aquelle navio:--a frieza na força.
Elle representa a consciencia soberba da força e da industria, e os grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos elementos: elle tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o Mediterraneo, os grandes desvairamentos da agua, os ventos immensos, os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente apparecidos, os nevoeiros perfidos, os magnetismos, as electricidades, toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se preparam:--cordagens, velames, mastreações, complicações e resistencias de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que transforma as hostilidades em auxilios; elle, o _Miautonomah_, contenta-se com uma taboa rasa.
Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o arsenal reluzente das abordagens; a elle basta-lhe uma muralha de ferro.
O vento é temido: nas vastas solidões azues, elle é o lobo sinistro que anda rodando e uivando, á caça dos navios; elle acalenta o mar, massa inerte e salgada: elle faz com a agua estranhas nupcias ferozes; extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens, persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares do Norte, quando elle sopra, as estrellas têm maior tremor: mas o grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violencia, com a força, e defende-se com o esvaecimento.
O _Miautonomah_ é assim: ataca serenamente, com violencias enormes, com fulminações tragicas, e defende-se com a impassibilidade e quasi com o esvaecimento.
Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas flammejantes, entre os terriveis fulgores do fogo, e os phantasmas do fumo, e as effervescencias da agua--elle passa, solta a sua fulminação enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio, impassivel, mudo, tenebroso, coberto de ferro.
Elle não receia o mar: os outros navios erguem amuradas immensas para conter o encrespamento da onda: forram-n'as de cobre, erriçam-n'as de pregaria. O _Miautonomah_ não: elle julga a demencia do mar um prejuizo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da agua: satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericordia dá-lhe hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a triturar, a roer--dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado, mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas, agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:--Lá anda o mar a varrer e a lavar o tombadilho.--E com effeito, o velho oceano dos diluvios faz, humildemente, o serviço dos ultimos grumetes.
Em cima, na superficie da agua, ha o vento, as espumas, os nevoeiros, as chuvas, as trombas; elle, aborrecido, afasta-se d'este bando miseravel e vae investigar o fundo das aguas, as vegetações phantasticas, a região dos coraes, as cavernas enceladicas as purezas infinitas da transparencia, todo esse mundo submarino de que os velhos mareantes fallavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de ferro, enorme, elle brutalisa aquellas virgindades do mar: em baixo, a tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem, cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a Biblia--serenos.
Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a amontoação confusa de calabres e de lonas--o tombadilho aberto é cheio de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das conchas, das espumas, das aves do mar.
Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitarios, com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da materia. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flammejantes que dão a vida aos machinismos--vermelhas como corações sobrenaturaes: o ar é descido por machinas de respiração, pulmões terriveis: e um vento geral, fecundo, benefico, escorre constantemente por todo o negro bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo, aquelle navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas.
Ora sobre aquelle negro navio, sobre os machinismos frios, aquellas forças pavorosas, aquellas fogueiras terriveis, no convez, entre as negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, esvoaçando na sua gaiola--canta um canario.
Tal é o _Miautonomah_, navio de guerra da America do Norte.
Nós entrevemos a America como uma officina sombria, sonora e resplandecente, perdida ao longe nos mares.
Entrevemol-a assim: movimentos immensos de capital; adoração exclusiva e unica do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico; atmosphera pesada de positivismos estereis; uma febre quasi dolorosa do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças: extremo despreso pelos territorios; preoccupação exclusiva do util e do economico; doutrinas de uma philosophia e uma moral egoista e mercantil: todo o pensamento repassado d'essa influencia: uma fria liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação terrivel da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas, colonisações, exportações collossaes, forças extremas; accumulação immensa de industrias, esquadras terriveis, uma estranha derramação de jornaes, de pamphletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e por fim um profundo tedio pelo vasio que deixa na alma a adoração do deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma bella costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos, com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa, fecunda, eleita, desapparecendo entre as industrias, os fumos das fabricas, as construcções, os machinismos,--como a herva d'uma campina fertil que desapparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões.
A vida da America do Norte é quasi um paroxismo.
Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme, superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro?
Todos os dias dizem á Europa:--Olhae para os Estados Unidos, lá está o ideal liberal, democratico, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal economico.
Mas a America consagra a doutrina egoista de Monroe, pela qual uma nacionalidade se encolhe na sua geographia e na sua vitalidade, longe das outras patrias; esquece as suas antigas tradicções democraticas e as ideias geraes para se perder no movimento das industrias e das mercancias; allia-se com a Russia. A raça saxonia vae desconhecendo os grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoismos politicos e nas preoccupações mercantis, scisma conquistas e extensões de territorios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento positivo e egoista, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas, que fumegam negramente.
Uma das inferioridades da America é a falta de sciencias philosophicas, de sciencias historicas e de sciencias sociaes.
A nação que não tem sabios, grandes criticos, analysadores, philosophos, reconstruidores, asperos buscadores do ideal, não póde pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral.
Emquanto a superioridade foi d'aquelles que batalhavam, que lançavam grandes massas de cavallarias, que appareciam reluzentes entre as metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a superioridade foi d'aquelles que pensavam, que descobriam systemas, civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a geologia, a astronomia, a philosophia, o Oriente caíu, miseravel e rasteiro.
Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas sciencias historicas. Inferioridade! As sciencias historicas são a base fecunda das sciencias sociaes.
É a superioridade da Europa: sob a mesma apparencia de febre industrial ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça.