Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.
Part 6
Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem; escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas, aos montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e inerte.
A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela belleza sagrada e espiritual da morte.
* * * * *
Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna, e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos pobres.
ENTRE A NEVE
(A ANSELMO D'ANDRADE)
O lenhador, pela madrugada, ergueu-se da enxerga e accendeu a candeia.
Junto da lareira, engelhado de frio, cavado de magresa, dormia um rapaz enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfallecia de febre: até ao anoitecer da vespera andára pelo negro matto, e depois nem teve um magro caldo junto das somnolencias da lareira.
Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos, que á noite, quando resavam, todos arripiados e magros, em redor da mãe, suffocavam no chôro da fome: por isso, áquellas horas, por entre os nevoeiros molles, elle ia pelos montes, pelas collinas, pelos pinheiraes, rachar, cortar e desramar, a asperos ventos, na grande neve silenciosa.
O rapaz dormia com os pés inteiriçados e todos brancos da lama secca: tinha os grandes cabellos espalhados, e branco tinha o peito. A um canto, sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da mãe, as duas creanças dormiam com os cotovellos arroxeados--dissolvidas no somno do frio e da fome. O lenhador tirou a jaleca que levava para os montes, embrulhou-lhes os pés regelados, e com a candeia foi debruçar-se sobre a enxerga onde dormia a mulher: ella tinha o corpo collado ao fraco calor da enxerga como a um seio amado, os braços caidos e frouxos como os de uma mulher esteril: os seus cabellos negros espalhavam-se tristemente pela enxerga como um luto: e a manta esburacada modelava a fórma casta e fecunda dos seus peitos.
Então o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas, cobriu-se com o capuz de saragoça e foi-se lento, esfomeado e esqueletico, pelos grandes caminhos, duros, lividos e cobertos de nevoas.
O seu casebre ficava perdido ao pé dos montes, longe dos povoados, entre umas poucas de arvores que erguiam para o ar os seus braços negros, descarnados, nús e supplicantes.
Alli vivia aquella familia transida dos frios, emagrecida das fomes, diante da neve e dos invernos, com os peitos cheios da religião do sol, das searas e das fecundidades sonoras e alumiadas--como cousas flammejantes e divinas, que estão tão longe como Deus, inaccessiveis, na poeira da luz, entre os paraizos. O pae ia todos os dias para os grandes montes lidar entre a ramaria: a mulher, em casa, cosia os farrapos ao pé da lareira sem lume, e ao anoitecer ia para junto da porta desconjuntada dos ventos, gretada dos frios, vêr se, pelos atalhos enevoados, via chegar o marido, lento, curvado sob os grandes feixes de lenha.
O lenhador caminhava para as bandas dos montes.
A neve caia, levemente. A alma aconchegava-se dentro do corpo--como n'um vestido santo, amedrontada pela dureza sobrenatural das cousas. Porque toda aquella natureza tinha estranhas barbaridades.
A manhã vinha escura, lenta e lacrimosa, como uma viuva á hora dos enterros: e á pouca luz tenue, os pedaços de gelo pendurados dos cardos e das urzes tinham o aspecto de farrapos de mortalhas: sobre as arvores immoveis, os passaros, quietos e mudos, eriçavam as plumagens aos ventos cortantes.
O lenhador caminhava sempre, rasgando-se nas silvas, orvalhado dos pingos das arvores, pallido e sereno.
Ia lento. Pensava nos lavradores, que áquellas horas, nas terras quentes, saem, assobiando sob a noite religiosa e alumiada, entre as hervas altas, ao resplandecimento fecundo dos orvalhos, guiando pelos sulcos, emquanto as andorinhas gritam alegres e gloriosas, os bois fortes, lentos e bons. Elle tinha a mulher e os filhos esfomeados no casebre; desfazia-se em suores e em cansaços, e nem sempre aquellas faces amadas se enchiam das côres da vida. Era o frio, era a fome; nem uma manta nova, nem uma pouca de lã! O bom Deus, lá em cima, parece que está tão bem agasalhado ao calor dos seus paraizos e das suas estrellas, que se não lembra da pobre gente dos campos e dos montes que se arrepia de frio. E havia gente que via sempre os filhos bem quentes e bem córados!
Assim pensava o triste, caminhando, pesado, molhado e todo cheio de cousas dolorosas e morbidas. A neve vinha descendo como um immenso desprendimento de lãs.
E elle pensava que podia ser um abastado dos campos, e vêr á noite, em volta da sua lareira flamejante e serena, toda a multidão dura dos ceifadores e dos semeadores, entre os bons risos, em redor da grande tijela de caldo, ao estalido das castanhas, na attitude dos bons e dos simples.
A neve ia caindo direita e vaga: e ouvia-se o rumor--indefinido como de um mar, laborioso como de uma colmeia--das multidões doentias dos pinheiros.
O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enovelladas nas pedras, esfarrapadas pelos cardos: e ás vezes um corvo, passando silencioso e nocturno, vinha bater o ar em redor d'elle com uma selvagem palpitação de azas.
Começava a espalhar-se o dia. Elle sentia-se só entre aquella natureza inimiga e barbara; e por vezes o braço, enfraquecido da febre, vergava sob o machado e as cordas humidas.
Elle ia entrando pelo pinheiral, indolente. O pinheiral era cerrado, e a noite continuava ainda no encruzamento das ramagens lividas. A neve, que caía sobre os ramos, desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva.
As arvores estavam como tomadas de um susto religioso.
Quando saíu do pinheiral, em caminho para os montes, lembrou-lhe quando ia para as escamisadas n'uma aldeia do sul, e sob a luz apaixonada e melodica das constellações cantava á viola junto d'uma dôce rapariga de testa santa e de cabellos côr de amora; e elle, o perdido, amollecia o olhar a passeal-o, pela abertura do lenço, sobre a brancura do collo d'ella!
Hoje, áquellas horas, pensava elle, aquella pobre mulher gemia na sua alma, vendo os filhos, sem um bocado de pão, andarem pelo casebre humido, rotos, dependurando-se-lhe das saias, gemendo: _mãe! mãe!_ E os olhos do desgraçado tremiam-lhe nas aguas do chôro.
O lenhador apertou o machado e entrou na floresta.
Os velhos carvalhos violentos e propheticos, os choupos desfallecidos, os castanheiros ruidosos, os olmos gigantescos, as ramagens e os silvados eriçados onde o vento brada afflicto, todas aquellas verduras vivas e sãs que cantam ao sol, no empoeiramento da luz crúa--toda aquella sombria Diana esguedelhada, que se chama a floresta, dormia sob as oppressões da neve, triste, silenciosa, estoica e soberba.
O lenhador, com o machado erguido, ia por entre a floresta; elle conhecia aquellas estranhas attitudes, aquelles escarpamentos de neve, as faces pensadoras dos rochedos, todo o emmaranhamento de ramos, de folhas, d'onde cáem gottas como um echo de chuvas passadas: e todavia, ao endireitar-se contra um velho carvalho, empallideceu, como diante de uma profanação.
O seu coração simples e bom não comprehendia, mas sentia aquellas vidas immoveis, silenciosas e sonoras, que são arvores, ramagens, arbustos, florescencias; elle tinha compaixão dos gemidos dos troncos, das cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que sacrificava alli, á fome dos filhos, vidas infinitas de arvores.
O lenhador atirou o machado contra o tronco do carvalho--e toda a arvore immensa ficou tomada de vibrações dolorosas: e as suas ramagens estenderam-se caidas, sem vida e sem força, pelo tronco, como para se vêrem morrer sem gemidos, n'um silencio soberbo e selvagem.
O sol veiu livido, molle, desfallecido, sem força, sem vitalidade, sem ascenção flammejante e sagrada, entre nevoas arrastadas, entre esvaecimentos lugubres de nuvens. Começavam a esvoaçar os passaros, piando tristemente.
E o lenhador, com o peito arqueado, os cabellos desmanchados, vermelho, feroz, com o machado erguido nas mãos, com tragicos encarniçamentos, luctava contra os troncos, contra os ramos, contra as raizes, contra as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens negras, de braços mortos de arvores, caidos e inertes como armaduras vencidas.
Aquellas arvores que tanto tempo levaram a formar-se, e a enrijar, e a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da chuva, e a enlaçar as molles nudezas das nevoas e dos vapores, aquellas arvores cheias das mordeduras de novembro, cheias de legenda e do cheiro das tormentas, encolhiam os ramos n'um estremecimento medroso quando o machado reluzia lugubremente no ar.
Elle tinha a camisa solta e esfarrapada: os sóccos faziam covas na neve: e, esfomeado, terrivel, ia a grandes passos pela floresta, rasgando os silvados, esmigalhando as raizes, envolto em estilhas, em fibras partidas, com gestos tragicos, afastando com o machado o vôo dos córvos; e, todo cheio do amor dos filhos, torturava as arvores, com golpes flammejantes, gritando-lhes: _covardes!_
Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e as nevoas, e a febre, e a dôr, até ao anoitecer.
Tinha já um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas, duras como os seus braços: encravou no meio o machado: o feixe enorme estava encostado a um monte de neve: as duas pontas da corda por onde elle o havia de erguer, pendiam negras e humidas: então curvou-se todo para tomar o feixe sobre as costas largas: mas quando o ia a erguer, lento e cansado, sentiu os musculos afrouxarem, as mãos esfriarem, subiu-lhe um desfallecimento, e caiu, com os cabellos suados e collados á testa; e os seus dedos inteiriçados esburacaram a neve.
Assim esteve perdido na mollesa do esvaecimento, até que abriu os olhos vagarosos, e ficou-se encostado ao feixe, silencioso e cheio de tremuras.
Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava tomado de uma pallidez opaca e severa: caía uma chuva vaporisada: todo o chão estava pesado de neve.
Ao pé do lenhador estava estendido um grande tronco engelhado, morto, sem raizes, sem ramagem, sem seiva: por um lado começava a desfazel-o a podridão.
Em redor erguiam-se as multidões de arvores cobertas de neve, adelgaçadas entre as transparencias do nevoeiro, tristes e nocturnas como monges brancos.
Ao fundo abria-se uma clareira, que deixava vêr ao longe a grande luz, que se ia, serena e timida.
O lenhador, com o pescoço nú, o peito dolorido e ensopado, agarrou as cordas do feixe e, enrijando os musculos, com a face congestionada, as fontes inchadas, as grandes veias saídas como cordagens, e as pernas hirtas, violentou o corpo para se erguer. Mas caíu sobre a neve, amollecido, suffocado, e coberto das friezas humidas da febre.
Então ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nú, coberto de neve, e a pensar que o seu corpo ia alli finar-se e dissipar-se entre as podridões dos troncos.
E toda a sua carne foi tomada por uma vibração terrivel. Tinham-lhe lembrado os filhos e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia, quando elle entrava, a neve dos cabellos e as silvas da jaleca.
A neve caía triste. Áquellas horas ella esperava, junto da porta, a vêr se o via ao longe chegar, curvado debaixo dos seus feixes, pelos caminhos brancos de neve.
Ella estaria com uma mão apoiada á hombreira, e com a outra agazalhando as creanças nas dobras da saia, contra os frios da noite.
E elle estava alli só, esmagado, sob a neve implacavel!
E quando o não vissem vir?! E elle procurava na memoria se já alguma vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca.
Se o não vissem chegar, iriam todos, chorando e bradando, com a candeia acobertada do vento, procural-o pelas urzes sinistras.
Ás vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra subirem pelos troncos como um fumo terrivel; e sempre aquelle enovellamento de similhanças humanas subia até se perder nas transparencias lividas do ar.
A neve caía como escorrida das nuvens.
E elle pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte na neve, sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras da ventania, silencioso e solitario como um lobo!
Então aquelle corpo, pisado, rôxo, tiritando entre as roupas molhadas, dissolvido nas mollesas da nevoa, inteiriçou-se; com os olhos flammejantes, os dentes irados, tomado de risos, esfarrapado dos cardos, endireitou-se e, suffocado, esguedelhado, hirto, livido, deu um grito na noite.
Houve um levantamento assustado de passaros por toda a ramagem escura. E veiu um vento e levou, nas suas espiraes violentas, um enovellamento de folhas. E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Não havia ninguem pelo monte. Estava só. Só! Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros perdidos. Só! E iam-se os passaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Elle ficava só.
Então, vendo em redor a floresta solitaria e negra, a amontoação crescente das sombras, o esvaecimento livido dos ultimos ramos, as attitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das raizes, sentindo ao longe o uivo dos lobos e por cima da cabeça o esvoaçar dos córvos, estirou-se de bruços e bradou, na noite, sob a neve e o ruido dos ramos:--Jesus!
E toda a floresta ficou silenciosa, indifferente, soberba; os córvos voaram gritando; elle caíu, fraco, desalentado, roto, agonisante, macerado; e de cima o grande ceu, o ceu justo, o ceu sereno, o ceu sagrado, o ceu consolador cuspia neve sobre aquella carne miseravel.
E ficou inerte. A neve caía desfeita e branca. Estava estirado. Via por cima a grande immobilidade da floresta, os nevoeiros, que deixavam caír farrapos que lhe vinham roçar o rosto, e a sombra espectral do feixe de lenha.
Elle sentia o corpo entorpecido pelo frio, e na testa e nos olhos abrazamentos mordentes: e parecia-lhe que lhe mordia as costas uma chaga immensa, que tivesse terriveis ardores ao contacto da neve, sob o peso do corpo.
Ás vezes soluçava. E, quando assim estava, viu grandes sombras que lhe esvoaçavam sobre a cabeça e fugiam bradando afflictas, com um terrivel ruido d'azas, esbranquiçadas da neve, apavoradas e ferozes.
Eram os córvos. Tremeu todo. Elle entrevia-os já quando elles viessem pousar-lhe sobre o peito, e curvados, batendo as azas, meio suspensos, enterrar-lhe os bicos negros na pobre carne.
Então moveu dolorosamente o braço entorpecido e apalpou em redor: encontrou um ramo solto, negro, espinhoso: lançou-o contra as sombras negras dos córvos; mas elle tinha a mão quasi inanimada pelo frio, e o ramo, debilmente arremessado, veio-lhe caír sobre a face, e rasgou-lhe a carne com os espinhos. Já, porém, as mãos inertes não tiveram força para o tirar.
E poz-se a chorar. Os córvos voavam terriveis: elle enterrava o pé na neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os córvos desciam.
A neve caía e já lhe cobria as pernas hirtas. Elle então, vendo a floresta que o ensopava de agua, o chão que lhe coalhava a vida, o vento que o transia, a neve que o enterrava, os córvos que vinham comêl-o, todas as hostilidades selvagens das cousas, encheu-se de cóleras, e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou rijamente a cabeça sobre o feixe--e poz-se a morrer.
Então veiu repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre lenhador sentir, n'aquelle vento, o som de um chôro e uma voz bradando afflicta.
O vento redobrou de furia: dispersou os córvos: elles balançavam-se nas azas entre os redemoinhos do sopro feroz.
A neve caía: e os braços do lenhador já estavam cobertos, e todo o peito estava coberto. Os córvos fugiam: e todo o bando apparecia como uma sombra indecisa e pesada.
A neve caía. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a bocca.
Os córvos iam-se sumindo nas transparencias da noite...
A neve caía, contínua, silenciosa. A testa do pobre estava coberta, e apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes cabellos escuros.
A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.
E a neve descia. As sombras dos córvos sumiram-se para além das ramas negras.
Os cabellos desappareceram. Só ficou a neve!
OS MORTOS
Hontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Emquanto nas dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, deante do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus queridos mortos, elles andam dispersos pela grande natureza, pelas florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras d'acre cheiro.
A sua carne soffreu, empallideceu com os medos, emmagreceu com as febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do sol, nos átomos da noite constellada e suave.
Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corollas, de ramagens ondulosas.
Os que morreram sobre as aguas do mar, desfazem-se entre as verdes profundidades, entre as areias, os coraes, as conchas, os rochedos, e vêm depois, sob a fórma d'ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite estirar-se ao peso da mollesa que escorre dos astros, ou de madrugada, cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o povo dos pescadores, silencioso e trigueiro.
Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos, são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hieratica das estrellas, pelos vapores molles das nuvens, pelas auroras; são os átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.
Assim os mortos são felizes.
Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empallidecidos, esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses, riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no meio d'esta forte vitalidade--como um lavrador que suspende a enxada e se fica, todo amarello, a pensar na velhice sem pão e sem lume--estamos sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos, aterrados, nos esfriamentos lugubres do tumulo.
E entretanto os mortos, que são os paes, as irmãs, as bem-amadas, as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas aguas, pelos astros--serenos e immaculados. E porque tememos a morte? Que instincto tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta fórma humana, estes cabellos, estes olhos, estes braços enrodilhados de musculos? As arvores, as florescencias, as hervas, as folhas, são tambem fórmas da vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas familias das constellações, pelos planetas, pelas arvores, pelos lividos interiores da terra, pelas aguas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha attracções, amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações, pollens, alma, movimento--vida. Porque ha de então ser esta fórma, que tem braços e cabellos, e não aquella, que tem ramos e folhagens?
A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados, luminosos, bestiaes, divinos.
Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana, onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza, na serenidade, na fecundidade, na força.
Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma transfiguração sagrada. Mal cáem sobre elles as ultimas pazadas de terra e o canto dos padres, barbaro e dolente, se perde com o fumo dos cirios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a grande vegetação esfomeada; elle vae dar-se alli como pasto ás boccas sinistras das raizes: elle amollece entre as humidades da terra e desfaz-se em podridões: então as raizes começam a sugar e a comer: a podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se pelos ramos, palpita dentro da arvore, engrossa, fecunda, arredonda-se nas exhuberancias dos gomos, e abre-se depois em folhagens, em florescencias e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos pastores, e vive sereno, repousado, na floresta immensa.
E no emtanto, junto d'aquelle corpo, que soffreu a metempsycose do bem, foi enterrado outro, n'um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e embalsamado. Entre a enorme palpitação diffusa, emquanto em redor se vae operando a lenta transformação da semente, onde já estão em germen as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde o vento atormentará, entre as raizes fortes e retorcidas dos arbustos, entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades creadoras da terra fecunda, o cadaver embalsamado alli está, inteiro, hirto, rijo, feio, livido. Elle inveja os átomos livres e soltos, que sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e escorrem, como grãos d'um sacco, desde as constellações e os cometas, até ás espumas castas das fontes: alli, sequestrado á natureza, não se póde dissolver na eterna materia forte: não tornará a vêr o sol, as noites amollecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que estranha fatalidade pesava sobre elle, que nem a morte o libertou?
Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da belleza e da harmonia; movermo-nos na atmosphera serena do bem e da liberdade; ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tyrannos; sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada--e depois, ó santa Natureza! toma os nossos corpos para fazer d'elles arvores cheias de sombra e ramos resplandecentes!
E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos n'uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e fecunda, nos enche todo o interior, despertando alli, como faz nas madrugadas de maio, os córos de passaros: e depois ha um responso sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma hostia mysteriosa.
Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as arvores estão graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva flammejante e serena que a floresta veste: e ella murmura um canto dolente e sacro, acompanhado pelos passaros religiosos, e d'entre as ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga hostia: e, ao fim da missa, as arvores, balançando os ramos, parecem lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua benção soberba.
Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes, purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de confidencias.
São os nossos queridos mortos que nos fallam; e então toda a materia tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar, com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios amados...
E depois a natureza tem immensos perdões e reconciliações formidaveis; todos os odios tragicos, todos os corações ferozes se fundem divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ella não escolhe; tudo lhe é bom; as raizes das rosas pastam a podridão dos tyrannos; e dos homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz carvalhos austeros e cedros religiosos.