Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.

Part 10

Chapter 103,852 wordsPublic domain

Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria, na varanda, fiava a sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.

Então, no silencio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck, que os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:

Os teus olhos, bem amada, São duas noites cerradas. Mas os labios são de luz. Lá se cantam alvoradas.

Os teus seios, minha graça, São duas portas de cêra. Fôra a minha boca um sol, Como elle as derretêra!

Os teus labios, flôr de carne, São portas do paraizo: E o banquinho de S. Pedro É no teu dente do sizo.

Queria ter uma camisa D'um tecido bem fiado, Feita do todos os ais Que o teu peito já tem dado.

Quando nos fôrmos casar, Canta missa o rouxinol. E o teu vestido de noiva Será tecido de sol!

A benção nos deitará Algum antigo carvalho! E por enfeites de boda Teremos gottas de orvalho!

E, ao cimo da rua, appareceu um homem forte, d'uma pallidez de marmore. Tinha os olhos negros como os dois soes legendarios do paiz do Mal. Negros eram os cabellos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao peito do corpete uma flôr vermelha de cactus.

Atraz vinha um pagem perfeito como uma das antigas estatuas, que fizeram na Grecia a lenda da belleza. Andava convulsivamente como se ferisse os pés no lagedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apollos de marmore. Dos seus vestidos saía um cheiro a ambrozia. A testa era triste e serena como as dos que teem a saudade immortal d'uma patria querida. Trazia na mão uma amphora esculpida em Mileto, onde se sentia a suavidade dos nectares olympicos.

O homem da pallidez de marmore veiu até junto da varanda, e, entre as supplicas gemidas de guitarra, disse sonoramente:

--A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de homem vão como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor, das suas mãos ao seu collo?

E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente, com grandes risadas frias e metallicas:

Quem depenna um rouxinol E rasga uma triste flôr, Mostra que dentro do peito Só tem farrapos d'amor.

E ergueu para a varanda os seus olhos terriveis e desoladores, como blasphemias de luz. Maria tinha levado a sua roca e só havia na varanda as aves, as flôres e Jesus!

--A toutinegra voou--disse jovialmente.

E indo para Jusel:

--É que talvez sentisse a visinhança do abutre. Que diz o Bacharel?

Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.

--No meu tempo, senhor Suspiro,--disse o homem dos olhos negros, cruzando lentamente os braços--já havia aqui duas espadas, a fazer rebentar na sombra flôres de faiscas. Mas os heroes vão-se, e os homens nascem cada vez mais da dôr das mulheres. Vejam isto! É um coração com gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as côres, menos vermelho e solido. Pois bem! Aquella rapariga tem uns cabellos louros que dizem bem com os meus cabellos pretos. As cintas delgadas querem os braços fortes. Os labios, vermelhos de desejo, gostam das armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel!

Jusel tinha descido as suas grandes palpebras elegiacas, e via as petalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados, desprendidos do seu peito.

O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a mão:

--Bacharel Ternura--disse--ha aqui perto um logar onde os goivos nascem expressamente para os innocentes que morrem. Se tens alguns bens a deixar, recommendo-te este excellente Rabil.--Era o pagem.--É necessario proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração á bem amada, á moda dos trovadores, eu me encarrego de lh'o trazer, bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu és formoso, amado, branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil! E uma farça bem feita ao Compadre lá de cima dos soes, dilacerar-lhe esta belleza! Se namoravas alguma estrella, eu lhe mandarei, por bom portador, os teus ultimos adeuses. Em quanto aos sacramentos, são inuteis: eu me encarrego de te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos: annuncia no Inferno o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas em duello secreto, armas honradas!

E batendo heroicamente nos copos da espada:

--Eu tenho aqui esta debilidade: onde está a tua força?

--Alli!--respondeu Jusel, mostrando Christo na varanda das plantas e das pombas, allumiado pelo sol que descia, branco entre a folhagem, agonisante entre as palpitações das azas.

--Ah!--disse cavamente o homem da flôr de cactus.--A mim, Rabil! Lembras-te de Acteon, de Apollo, de Derceto, de Inachus e de Marte?

--Eram os meus irmãos...--disse lentamente o pagem, hirto como uma figura de pedra.

--Pois bem, Rabil, para a frente, atravez da noite! Cheira-me aqui ás terras de Jerusalem!

E sumiram-se debaixo das arcarias e das pilastras, sinistros, soluçando.

Na noite seguinte, havia pela Allemanha um grande luar purificador. Maria estava debruçada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar, suspirava para aquelle corpo feminino e branco, como nos jardins a agua, que sobe em repuxo, suspira murmurosamente para o azul.

Maria disse suspiradamente:

--Vem.

Jusel subiu á varanda, radioso. Sentaram-se ao pé da imagem. O ar estava tão sereno como na patria das almas. Os dois corpos dobravam-se, um para o outro, como se os estivessem approximando os braços d'um Deus.

As folhagens escuras, que envolviam o Christo, estendiam-se sobre as duas cabeças louras com gestos de benção. Havia na molleza das sombras um mysterio nupcial. Jusel tinha as mãos d'ella presas como passaros captivos, e dizia, com a voz humilde dos corações primitivos:

--Queria bem vêr-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era n'um campo. Tu estavas de pé, immovel: ouvia-se um côro que cantava dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espiritos. E diziam uns:--Aquelle côro é de mortos: são os amantes infelizes que choram no coração d'aquella mulher.--Outros diziam:--São as tristezas dos minnesingers errantes que alli soluçam.--Outros diziam:--Sim, aquelle côro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram alli do exilio.--E então eu adiantei-me e disse:--Sim, sim, aquelle côro é de mortos: são os desejos que ella teve por mim, que se lembram e que gemem.--Que sonho tão mau, tão mau!

--Porque estás tu--dizia ella--todos os dias encostado ao pilar, com as mãos quasi postas?

--Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.

Calaram-se. Elles eram, n'aquelle momento, a alma florida da noite.

--Quaes são os meus olhos? quaes são os teus olhos?--dizia Jusel.--Nem eu sei!

E ficaram calados. Ella sentia os desejos, que se desprendiam dos olhos d'elle, virem, como passaros feridos que gemem, cair no fundo da sua alma, sonorosamente.

E inclinando o corpo:

--Conheces meu pae?--disse ella.

--Não. Que importa?

--Ai, se tu soubesses!...

--Que importa? Estou aqui. Se elle te quer bem, ha-de gostar d'este meu amor, sempre aos teus pés como um cão. O que quero eu? Ter a tua alma presa, bem presa, como um passaro captivo. Esta paixão toda deixa-te tão immaculada, que se morresses podias ser enterrada na transparencia do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque? Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quizesses, deixava-me andar esfarrapado. Por eu entrar no teu coração, não tires nada d'elle, não? Tens lá a fé de Jesus, e a saudade de tua mãe: deixa estar: damo-nos todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um ceu constellado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu? Casemo-nos no coração de Jesus! Dá-me essa agulheta, que te prende o cabello. Será a nossa estola.

E com a ponta da agulheta, de pé, junto da imagem, afastando os ramos, transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Christo as iniciaes dos dois nomes enlaçados--J. e M.

--É o nosso noivado!--disse elle.--O ceu atira-nos os astros, confeitos de luz. Christo não se esquecerá d'este amor que chora aos seus pés. As exhalações divinas que saírem do seu peito apparecerão, lá em cima, com a fórma das nossas lettras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu já lh'o tinha dito, a elle, ás estrellas, ás plantas, aos passaros, ás florescencias; porque, vês tu? as flôres, as constellações, as pombas, tudo isto, toda esta effusão do bondade, de innocencia, de graça, era simplesmente, oh adorada! um eterno bilhete de amor que eu te escrevia!

E ajoelhados, extaticos, calados, elles sentiam misturar-se ao seu coração, ás suas confidencias, aos seus desejos, toda a vaga e immensa bondade da religião da Graça.

E as suas almas fallavam, cheias de mysterio:

--Vês tu?--dizia a alma d'ella.--Quando te vejo, parece que Deus diminue, e se contráe, e se vem aninhar todo no teu coração; quando penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange o ceu e os universos, e encerra por toda a parte Deus!

--O meu coração--suspirava a alma d'elle--é uma concha. O teu amor é o mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida n'esse mar. Mas, se tu me expulsares de ti, como n'uma concha abandonada se ouve ainda o rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o susurro do teu amor!

--Olha--dizia a alma d'ella--eu sou como um campo. Tenho arvores e relvas. O que ha em mim de maternidade é arvore para te cobrir, o que ha em mim de paixão é relva para tu pisares!

--Sabes tu?--dizia a alma d'elle.--No ceu ha uma floresta invisivel de que apenas se veem as pontas das raizes, que são as estrellas. Tu eras a toutinegra d'aquelles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, ha muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o sol te allumia, triste, se a chuva te molha. Ha muito que te vejo vir descendo: quando cairás tu nos meus braços?...

E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam deslumbradas, ineffaveis, ternas: confundidas, tinham o ceu por elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua esperança a madrugada, o seu amor a vida, e, sempre mais ternas e mais vastas, envolviam tudo o que do mundo sóbe de justo, de perfeito, de casto, as orações, os prantos, os ideaes, e estendiam-se por todo o ceu, unidas e immensas--para Deus passar por cima!

E então, á porta da varanda, houve uma risada metallica, immensa e sonora. Elles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. Á porta estava o pae de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atraz, o homem de pallidez de marmore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra. O pagem ria, fazendo uma claridade na sombra.

O pae foi lentamente para Jusel e disse, com escarneo:

--Onde queres ser enforcado, villão?

--Pae, pae!--gritou Maria afflicta, com uma convulsão de lagrimas, enlaçando o corpo do velho.--Não. É meu marido, casamos as almas! Olhe, alli está. Veja. Alli, na imagem!...

--O que?...

--Alli, no peito. Veja. Os nossos nomes enlaçados como n'uma escriptura. Veja. É meu marido! Só me quer bem. Mas veja. Sobre o peito de Jesus, no logar do coração. Mesmo sobre o coração! E elle, o doce Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida!

O velho olhava as lettras enlaçadas como uns esponsaes divinos que se tinham refugiado no seio de Christo.

--Raspa, meu velho, que isso é marfim!--gritou o homem dos olhos negros.

O velho foi para a imagem com a faca do cinturão. Tremia. Ia arrancar as raizes d'aquelle amor, até ao peito immaculado de Jesus!

E então a imagem, sob o justo e incorruptivel olhar da luz, despregou uma das suas mãos feridas, e cobriu sobre o peito as lettras desposadas.

--É elle, Rabil!--gritou o homem da flôr de cactus.

O velho soluçava.

E então o homem pallido, que tocava na guitarra d'Inspruck, onde os pastores de Helyberg enroscam heras, veio tristemente junto da imagem, enlaçou os braços dos namorados, como se vê nas velhas estampas allemãs, e disse ao pae:

--Abençôa-os, velho!

E saíu, batendo rijamente nos copos da espada.

--Mas quem é?...--disse o velho apavorado.

--Mais baixo!--disse o pagem da amphora de Mileto.--É o Senhor Diabo!... Mil desejos, meus noivos!

* * * * *

Pelas horas da madrugada, na estrada de Vecker, onde as cerejeiras luzem, o homem dos grandes cabellos negros dizia ao pagem branco como os Apollos do marmore:

--Estou velho. Vae-se-me a vida. Sou o ultimo dos que combateram nas estrellas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro, no peito, um rumor de perdão. Gostava d'aquella rapariga. Lindos cabellos louros, quem vos dera no tempo do ceu! Já não estou para aventuras de amor! A bella Imperia diz que eu me vendi a Deus!

--A bella Imperia!--disse o pagem.--As mulheres! vaidades, vaidades! As mulheres bellas foram-se com os deuses bellos. Hoje os homens são mysticos, frades, santos, namorados, trovadores! As mulheres são feias, avaras, magras, burguezas, vestidas de burel, cingidas de cilicios, com uma pouca d'alma incommoda, e uma carne tão diaphana, que se vê atravez o lodo primitivo! Miserias! Ai Athenas! Corintho! Mileto! Tenedos! Abydos!

--Vou achando risivel a obra dos Seis Dias! As estrellas tremem de medo e de dôr. A lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo mundo e a apparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui prodigo. Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando--para não morrer de tedio! Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento, podre, vil e immundo--e sê todavia um astro no ceu, impostor! E comtudo o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquelle, para amar, feriu com uma agulheta o peito da imagem. Como nos antigos tempos, o homem não começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta a minha ultima aventura. Vou para o meio da natureza, para junto do livre mar, pôr-me socegadamente a morrer.

--Tambem os diabos se vão! Adeus, Satan!

--Adeus, Ganymedes!

E o homem e o pagem separaram-se na noite.

A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra.

--Estás tambem deserto!...--disse, olhando para a cruz.--Os infames pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu! Soffreste calado.

E sentando-se nos degraus do cruzeiro, emquanto vinha a madrugada, afinou a guitarra e cantou, no silencio:

_Quem vos desfolhou, estrellas, Dos arvoredos da luz?_

E com uma grande risada melancolica:

_Chegará o outono ao diabo? Virâ o inverno a Jesus?_

UMA CARTA

(A CARLOS MAYER)

_Meu caro Mayer_:

N'aquelles tempos, segundo a formula do Evangelho, o romantismo estava nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakspeare.

Lembras-te do teu quarto da rua do Forno (creio eu) no ultimo andar, quasi nas confidencias humoristicas das estrellas? O busto de Shakspeare, que era o nosso calvario da arte, estava alli, ao pé d'uma medalha do Dante, e da _Innocencia_ de Greuze! Lembra-me tambem uma gravura do _Juizo Final_ e dois esboços hollandezes. Sobre a estante, por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de Mirabeau e d'alguns volumes da Encyclopedia--n'um quadro, a figura de Napoleão, sobre uns rochedos emphaticos, via os prantos do mar e o vôo das gaivotas. Tinhas tambem uma collecção de mineraes, e duas caveiras polidas e lavadas, que riam serenamente. O meu quarto, no Salvador, era mais austero. Na parede, havia pintada a carvão uma grande cruz. Em redor, estavam escriptos versiculos da Biblia e disticos da _Imitação_. Mas, como eu andasse n'esse tempo constipado, P., um pagão, fez raspar toda aquella decoração ascetica, dizendo que o mysticismo, prohibindo o sol, o calor, os banhos tepidos, as flanellas, todos os cuidados corporaes, me era nocivo, e que o atheismo era para mim uma necessidade hygienica. T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes com pelle humana: um outro achou ostentosa a pelle humana, e disse, beatificamente, que, como mais modesta e mais duradoira, lhe parecia preferivel a pelle _cathedratica_. Outro instou para que se forrasse o quarto com as folhas dos compendios; eu oppuz-me asperamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um preso, se lhe quizessem forrar as paredes da enxovia com um tecido feito dos seus proprios remorsos! Tirou-se á sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes com pelle humana. Dispersamo-nos, lentos e tristes, para ir assassinar gente!

Reunia-se alli um concilio formidavel.

O mais implacavel era A. Que ideias e que camisas!

Foi elle que, um dia, na aula de direito canonico, prophetisou, com gestos tragicos, a destruição de Babylonia! Vinha tambem S., todo armado: entrava ordinariamente pela janella, galhardamente, como Almaviva, estendia sobre os timidos a grande sombra protectora dos seus bigodes, e pela noite alta saía á caça dos lobos. Perseguia debalde um bando de lobos errantes, que, segundo elle, deviam ter acampado na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha tambem M., de sinistras ironias: um dia, no Bussaco, encontra um homem de suissas apostolicas, corre para elle, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem esmaga um insecto.--O que faz?!--bradava o homem.--Estou a catal-o; o senhor, entre esta floresta, faz-me o effeito d'uma pulga entre as barbas de Moysés!

E continuou a esmagal-o.

No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do romantismo coimbrão.

Alli, muitas vezes, sentado sobre a _Mechanica celeste_ de Laplace, tu me mostraste, mysteriosamente, um systema solar que tinhas creado e que tinhas fechado dentro d'um frasco. Os universos, eram globulos d'agua. Um dia um cão entornou aquelle firmamento!

Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e do rio. Liamos: eu declamava _Hamlet_, tu tocavas na tua rebeca a morbida _Lucia_! Muitas vezes, entre um concilio revolucionario, tu lias em pé sobre a mesa, dramaticamente, os _Iambes_ de Barbier--os _Iambes_, de que o classico A. dizia gravemente terem um defeito: serem sublimes! Celebravamos cerimonias d'um culto desconhecido diante do busto de Shakspeare. Davamos grandes batalhas! Combates crueis! Ainda a seriedade estremece! Eram dois bandos. De um lado os pagãos, os classicos, os positivistas; do outro os barbaros, os romanticos, os mysticos.

As balas eram nomes: arremessavamos, de bando a bando, sanguinolentamente, os nomes dos grotescos de cada seita. Um romantico feria um classico, gritando-lhe com gesto terrivel: _Domingos dos Reis-Quita!_ O classico cambaleava, mas respondia vingativo: _Gilbert da Pixérécourt!_ Deves-te lembrar que uma vez um classico traiçoeiro atirou desapiedadamente ao peito de um adversario romantico este nome mortal: _Visconde d'Arlincourt!_ O romantico levou dolorosamente a mão ao coração, e caíu inanimado.

Quando o levantamos não era um cadaver, mas era um convertido. Desertou para as fileiras classicas, por não querer pertencer a um bando que tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de Damocles: o Visconde d'Arlincourt! Lembras-te de certo que nós fômos os Samsões dos Philisteus classicos: não os derrotamos com a mesma queixada, mas apunhalamol-os, um a um, com nomes de classicos portuguezes. Um dia debandaram, atordoados, em quanto que nós do topo da escada gritavamos sem quartel: _Sá de Miranda! Garção! Semedo! Quita! Sepulveda!_

Já cançados, sem armas, atiravamos-lhes estes nomes como pedras.

Lembras-te dos ensaios dos _Amigos Intimos_? Havia uma palavra que eu não conseguia pronunciar bem: era--_solidariedade_. Na noite da representação, tomei o partido de a cantar, separando as syllabas como notas de musica. Era na _casa dos adereços_ do theatro, que nós discutiamos com T. a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina, arredando bastidores, proclamavamos o _Moysés_ e o _Pensieroso_ com grave detrimento da Venus de Milo--a grande Aphrodite. Depois das representações, havia ceias semelhantes ás bodas de Gamacho! Uma noite saimos todos, de mantos, com corôas de loiro, symbolisando a geração dos Petrarcas, e cantando um côro lacrimoso.

Tinha havido na rua de... uma reunião, e as familias, ao saír, dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquella multidão de phantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, offerecido a Deus em nome dos discipulos de Petrarca!

Aquella epocha foi uma pequena _Restauração_, tanta era a vida, a seiva espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adoravamos o theatro. O theatro era a paixão, a lucta, a dôr, o coração arrancado, e gemendo, sangrando, rolando sobre uma scena resplandecente. O nosso theatro--era Shakspeare e Hugo, o os comicos hespanhoes, sombrios e magnificos, do seculo XVI.

Admittiamos tambem a satyra no theatro, mas a satyra sanguinolenta, Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo riso gaulez, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de Tacito--para pintar a cara macia do egoismo humano.

Tinhamos um hemicyclo de poetas. Collocados sob um ponto de vista exclusivo, só era admittido á nossa communhão o que derivasse da força, do rugido da natureza, da palpitação selvagem da vida e da paixão.

Tinhamos, ao mesmo tempo, occultamente, um idealismo doentio e dissolvente. O nosso grande compositor era Beethoven; e todavia eu, desgraçado de mim! adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te, amigo, de teres n'esse tempo condescendido com Novalis e Luiz Tieck.

Para nós (e com grandes pancadas contrictas sobre o peito o digo) Portugal não tinha direito de cidade na região da arte e da alma. Aceitavamol-o como paiz d'acção. Um dos maiores poetas de Portugal, para nós, era Vasco da Gama! Tinhamos um systema de nações-almas e nações-braços. Assim, para nós, a maior epopeia portugueza era a exploração do mar. As suas rimas eram conquistas. As scenas dos seus dramas escorriam de sangue junto ás muralhas de Diu.

Litterariamente, Portugal, na nossa opinião, era simplesmente o pretexto para o _Bosquejo Historico_ do snr. padre Figueiredo. Do passado, apenas acreditavamos em João de Barros e Camões. Garrett tinha-se separado de nós, tomando pelo atalho que leva a Deus, e legando á geração presente a pouca alma que ella ainda tem.

Os contemporaneos, ai! não os conheciamos. Hoje eu, e creio que tu, conhecemos bem os nobres espiritos que se obstinam em pensar no meio d'este deserto d'almas, uns junto da historia, outros junto do verso, alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o romance.

Mas, n'aquella epocha d'espontaneidade, só viamos o que era verdadeiramente e incontestavelmente sol!

Discutiamos largamente a natureza, e eu lembro-me de te ouvir fallar, deante daquella luz que cáe desfeita em tristeza no _Penedo da Saudade_, ácerca da formação das nebuloses, e, partindo d'ahi, descrever o homem e Deus, até á procissão da vespera.

Havia entre nós todas as theorias e todas as seitas: havia republicanos barbaros, e republicanos poeticos; havia mysticos que praticavam as eclogas de Virgilio; havia materialistas sentimentaes e melancolicos que proclamavam a materia com uma meiga languidez nos olhos, e fallavam da força vital, quasi de joelhos, com as mãos amorosamente postas; havia pagãos que lamentavam as suas penas de amor, castamente, sob a nevoa luminosa dos astros. Tudo havia, e tambem a serena amizade incorruptivel, o fecundo amor do dever, e a ingenuidade risonha de tudo o que desperta.