Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.
Part 11
Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magnifica, e na vida real eram todos contemplativos, melancolicos e timidos. E tu sabes qual era o grande espirito, hoje longe de nós, que explicava Proudhon com a serena familiaridade dos sabios, e nas aulas, dizia, com voz timida, referindo-se aos jurisconsultos antigos: «... O snr. Pegas... S. S.ᵃ o digno Paiva e Pona... O nobre cavalheiro Cujacio..., etc.» Tremia diante d'aquelles commentadores, como diante de idolos mysteriosos; e imaginava abrandal-os, dando-lhes venerações.
Tal era aquelle concilio. A força severa do espirito precisa d'estas precursoras explosões de vida. Hoje pouco resta d'esses camaradas. Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o braço, reunem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de Henrique IV.
Todos se perderam. Uns estão bem longe, para além do mar. Outros soffrem os tedios da vida official. Outros vivem nas castas serenidades do lar. Outros apodrecem debaixo da herva, e o que nós amavamos n'elles--a alma--dissipou-se, e o que viamos--o corpo--anda em redor de nós, nas metempsichoses, no ar, nas plantas, e nas pedras; mas nós não comprehendemos ainda o seu silencio, como elles já não percebem o nosso ruido!
Ora quem, n'esse tempo, me tivesse fallado dos seculos classicos de Augusto e de Pericles, fazia-me uma injuria pessoal; e hoje em presença d'esta doença desoladora dos espiritos, d'estas chagas luminosas e incuraveis que as almas teem, eu estou quasi prompto a ir declarar, com a vela na mão, como os antigos convertidos, que o pensamento tem tido apenas tres epochas: Pericles, Augusto e Luiz XIV. É o cyclo dos tres tyrannos! E, embora se lastime que as ideias nasçam com os escravos, eu acho magnifico e verdadeiro que aquellas datas gloriosas sejam o jazigo de tudo quanto a alma humana tem creado. _Confiteor._ Salve, Aristoteles!
Mas o mal é que em volta d'aquellas epochas, que são cimos luminosos, em baixo, crepusculos constellados, move-se uma população selvagem, disforme e revolucionaria. Alli ha o crime, a paixão, a lucta, a dôr, o sangue, o amor, o ciume, a morte e a duvida--todas as meias-tintas do mal! Quem desce d'aquelles cimos, que são gloria, luz, e verdade, onde habitam as almas nobres de Horacio, de La Harpe, de Boileau, de Reis Quita, de Garção, de Caminha, e companhia, quem desce áquelles fundos perversos topa com figuras gigantescas e horriveis: Shakspeare, o humano; Dante, o sobrenatural; Rabelais, o escarnecedor; Isaias, o propheta; Juvenal, o vingador; Eschylo, o fatal. Aquellas figuras devastam!
E é um encontro peor que o da Floresta Mysteriosa, no começo da _Divina Comedia_. Adeus, as serenidades idyllicas dos tempos de Pericles e de Augusto! Adeus, as claras aguas da alegria nos olhos! Adeus, as tepidas branduras, e os descanços arcadicos!
Aquelles poetas terriveis arrastam-nos, deslumbram-nos d'ideal, esmagam-nos de paixão: dão-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre a pobre alma: o amor, a melancolia, a paixão, o ciume, o mysticismo, a ironia, o desespero, a duvida. Além d'isso não respeitam a felicidade corporal do egoismo humano: atrevem-se a dar o terrivel espectaculo da dôr. O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos arrancados, e o seu coração caido na lama, pisado pelos filhos, cuspido pelos lacaios, apupado pela populaça!
Aquelles poetas abrem na alma longes surprehendentes. Quem os lê sente entrar em si, bruscamente, o infinito!
Soffre, como os sacerdotes antigos soffriam com a presença de Deus!
E entretanto os que se deixaram ficar na luz branca, em companhia dos espiritos inoffensivos de Racine, de Horacio, de Virgilio, de todos os classicos, vivem contente e socegadamente na sua fé ordinaria, na sua virtude, na sua somnolencia hygienica!
É que esses inoffensivos fazem um ruido que embala, põem um _abat-jour_ ao ideal, trazem a paixão açaimada, e põem _caio_ na face da dôr.
Mas os que desceram ás regiões romanticas ficaram com a alma doente, febril, anciada, nostalgica. Ahi está como se explica toda esta geração moderna, contemplativa e doente! Porque--digamos a verdade--hoje a vida do pensamento é um vasto hospital d'almas. E os gemidos, que sáem dos leitos, são os dramas, os poemas, os romances modernos. Hoje, incontestavelmente, pensar é soffrer. A enfermeira, que se chama Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas classicos, esses, não obrigam a pensar: são a simplicidade, a frieza, a narrativa, a superficie, a affectação, a convenção--tudo menos a alma, com a sua tragi-comedia de dôres e de duvidas!
Nós, meu amigo, somos uma geração desilludida por tres revoluções, amollecida por uma invenção horrivel--a musica, tomada da duvida religiosa, geração que vê esvaecer-se Christo, a quem tanto tempo amou, e não vê chegar a liberdade, por quem ha bastante tempo espera. Quaes podem ser as obras d'esta geração? Creações febris, convulsões cerebraes, idealistas e doentias, todo um pesadello moral. Por isso temos tido toda a serie de figuras melodramaticas, desde Fausto até Mr. de Camors.
Qual vale mais: esta doença magnifica, ou a saude vulgar e inutil, que se goza no clima tepido que vae desde Racine até Scribe? Eu prefiro corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre se chama Julietta e a ultima Margarida!
Os outros, os saudaveis, os doutrinarios da arte, os petrificadores da paixão, os sacerdotes da tradição e do _magister dixit_, não pertencem á arte pura: pertencem aos archivos. São documentos historicos. São momentos sociaes vistos atravez da arte. Racine explica Luiz XIV. E como na historia livre e pura se não póde conceber Luiz XIV, na arte pura e livre não se póde admittir Racine. Toda a nossa Arcadia explica os reinos de D. João V, de D. José I e de D. Maria I. Por essa litteratura se pódem conhecer todos os sentimentos monarchicos do tempo, o espirito cortezão, a influencia clerical, a sujeição d'ante-camara, as subtilezas moraes, a serenidade emphatica, a magestade theatral, toda essa somma de falsos sentimentos e de falsos costumes que era o antigo regimen. E aquella litteratura falsa, ridicula, sendo excellente como documento, é grotesca como arte.
Na arte só têm importancia os que criam almas, e não os que reproduzem costumes.
A arte é a historia da alma. Queremos vêr o homem--não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, collocado na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a representação dos caracteres taes quaes elles seriam, abandonados á sua vontade intelligente e livre, sem as peias sociaes. Ahi está o que dá a Shakspeare a supremacia na arte. Foi o maior creador d'almas. Revelou a natureza espontanea: soltou as paixões em liberdade e mostrou a sua livre acção. É ahi que se póde estudar o homem. É o que faz tambem a grandeza de certos typos capitaes de Balzac, o _Barão Hulot_, _Goriot_, _Graudet_. Realisam o seu destino, longe da associação humana, sob a livre logica das paixões.
No emtanto, ás vezes, os que reflectem o seu tempo--criam: e é quando não só revelam o caracter d'um momento, um estado convencional e passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma d'um povo. É o que faz a grandeza de João de Barros. Historiador, revelou o genio de Portugal, o espirito aventureiro misturado de exaltação religiosa, o heroismo supersticioso. Camões, o filho da Renascença e das imitações latinas, não tem o espirito epico de João de Barros, que ás vezes, n'uma pagina, constroe toda a antiga alma heroica da patria.
Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua phase rhetorica; e os poetas modernos de França, Mallarmé, Dierx, Sully-Prudhomme, Catulle Mendés, Heredia, Ricard, L'Isle-Adam, etc., fabricam maldições ao mundo e á materia, com a mesma sabia reflexão e estudo com que os poetas de 1810 fabricavam madrigaes. Uma certa escola, saída de Charles Baudelaire, affecta amores pelo mal: como os histriões medrosos põem vermelhão na face, para encobrir a pallidez, elles tingem a alma de perversidade negra para encobrir o desfallecimento.
Ha pouco fallei de _Mr. de Camors_. Ainda um livro nostalgico. Ainda Manfredo e D. Juan sob uma fórma remoçada e theatral.
Mr. de Camors é um mystico. Tem todos os desfallecimentos d'alma, todos os desmaios do desejo dos heroes poeticos de 1830.
Traz só de mais um apparato: o materialismo. Mascara-se de impassibilidade: mas quando? Justamente quando, pela posição politica, pelo resplandecimento financeiro, pela força dos habitos e das ligações, elle tem uma vida compassada e material--em que a alma adormece. E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas, quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão, ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo, a pobre alma, chorando afflicta, torturando-se, e pedindo com as mãos postas ás estrellas um refugio sereno!
Aqui, em Portugal, tambem ha uma grande doença. Fallaria n'isso agora, se não estivesse fatigado de escrever.
Mas a peor das doenças é a doença que affecta ares languidos; que compõe, ao morrer, a voluptuosidade do olhar; que, quando já sente o frio da morte, suspira correctamente: Adeus!
O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir, contra os meus habitos impassivelmente silenciosos, a fallar vagamente em litteratura? Nada, senão que, n'um dia de tristeza e de frio, eu quiz fazer uma romaria saudosa áquelles tempos distantes era que nós viviamos n'uma noite de ideias e de desejos, allumiados pelos astros--Shakspeare, Dante, Rabelais, S. João, Gœthe e Cervantes, e tendo sempre na alma aquella ternura luminosa que vinha d'uma aurora serena, clara, immensa, purificadora e consoladora--Jesus Christo!
Teu
_E. de Q._
O LUME
Agora, de inverno, no campo, as noites são asperas e hostis. Toda a natureza está impassivel e entorpecida, esperando a fermentação violenta das seivas. As arvores erguem os braços nús, miseraveis e supplicantes. E as aguas, que no outono estavam quietas e pallidas, e que em maio faziam claras murmurações, tão melodicas como o rythmo d'um idyllio latino, teem agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e lento como um canto catholico d'officios: as chuvas cáem de cima, como escarneos triumphantes e ruidosos.
Ás vezes, vem a lua--não aquella immaculada lua côr d'opala, d'onde se exhala um nevoeiro magnetico que faz a alma docemente doente, mas uma lua metallica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas legendas catholicas.
Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no tedio, silenciosamente, como um navio roto n'uma calmaria, e vae, por instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do fogo. E, emquanto a força vital se dissolve n'uma somnolencia fluida, elle sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que lhe falla como n'um extase profano:
* * * * *
«Sou eu--diz a voz--eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu velho Deus mysterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha em ti de grande e de justo--a familia e o trabalho. A minha historia é triste, luminosa e terrivel, immunda e meiga. Eu fui o teu companheiro das noites da India, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch das religiões da velha Africa, ensanguentado e tragico: e sou agora o escravo a quem tu mandas mover as machinas.
«Sempre escondido e silencioso, occupando a um canto o mais pequeno espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e fico, nas tuas horas negras de dôr e de miseria, calado ao pé de ti, lambendo-te os pés como um cão. Na India, lembras-te? durante as noites primitivas, eu fui o bom _Agni_ que te allumiava, que espantava os chacaes e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus seccos: assim, para onde tu fôsses, ou solitario ou em bando, encontravas-me sempre aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade humana da familia.
«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus barbaros trabalhos, no principio, quando a vasta natureza te combatia. E eu era o amigo unico, o alliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos.
«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza e força, era então a tua sepultura imminente. Quando saías de ao pé de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os sêres implacaveis--o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudarios. Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume que te enxugava, que te allumiava, que te dava o pão, a força ou a fé. Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em casa, esperando os teus cançaços. Ella fiava, limpava o chão da cabana, tirava a agua fresca, e adormecia o filho no seio branco como n'um leito espiritual: eu estava quieto e attento, combatendo a sombra e a noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de luz para o teu somno, dando á cabana a serenidade tepida, e ás tuas fadigas um paraiso de socego, de silencio e de calor.
«Em volta de mim, creou-se a familia. Eu era o purificador da tua natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os braços, e ampara na hora das dôres.
«Eu tenho ainda por ti aquelle amor servil e adulador, que se glorifica quando abdica, que tem um extase quando se dá a uma humilhação. Quando te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta grande alma de chamma, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de negro--justamente como o corpo d'um amor abandonado.
«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um affago, quando me revolves--desperto, revivo, canto psalmos de luz, requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são gritos de fogo, scintillações que são beijos; e como n'uma rapariga, para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos labios, toda a minha dôr e o meu abatimento se vae desfeito em fumo!
«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss, tantos santos, e tantos martyres, e tantos hallucinados de Deus! Fui eu que queimei, nas cidades mysteriosas de Africa, as creanças e as virgens no altar de Moloch.
«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco! Podia ir comtigo, insensivelmente--lareira, se era o teu amor que me assoprava, incendio, se era a tua colera--no tempo em que tu eras uma força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciencia. Comtigo só me alliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te tenho consolado das servidões dolorosas.
«No tempo das cathedraes, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão livre, nem a voz, nem o somno, nem a esperança, eu dei-te o que mais agrada ao escravo--o direito de mandar. Em volta de mim, a familia ajoelhava á tua voz, resava ao teu olhar, erguia a hostia do amor ao teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava. Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho representado a essencia humana. Eu tenho advogado a causa da vida.
«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o mysticismo. Eu sou o bem. A familia, o trabalho, a educação, esta trindade mysteriosa da vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no circulo da minha luz. Tudo para além é sombra--sombra na parede, e sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte; debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os unicos momentos verdadeiros e sãos fôram aquelles em que estiveste ao pé de mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a creança. Então realisaste o ideal, o symbolo--Deus, que as religiões esboçam e as criticas dissipam.
«Lembras-te da India?
«Alli tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos novilhos, e o filho, encarnação mysteriosa do amor das almas, e a minha doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia em ti no estado de presentimento.
«Depois d'isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações, de religiões, de conquistas, de descobertas, d'ideaes.
«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfallecimento, a dôr e o mal.
«Eras puro e são: estás morbido e enfraquecido. Eras forte: estás rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste ironia: o teu largo olhar é uma aspera desconfiança.
«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E tudo o que ella tinha de terrivel e de doloroso, tudo hoje tu tens: a independencia desesperada do mar, o mysterio doentio da floresta, o chôro afflicto das aguas, a inquietação do vento, a barbaridade das feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com surdas irritações, com rebelliões formidaveis. Ahi está. De cada vez que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma chaga.
«Foste crear o mysticismo: vieste com a nostalgia incuravel. Quizeste crear os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que vae sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e da materia exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas obras ahi estão immensas, accumuladas, contraditorias e inuteis. Tens uma complicação infinita de azas que te impede o vôo.
«A mim, abandonaste-me.
«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante, miseravel, sobrecarregado d'infamias, e, para viver, vendendo-me ao carrasco!
«Mas conservei sempre a minha chamma, casta e familiar, para o dia em que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos teus irmãos.
«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiaes, ou lascivos. Eu dou-te o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor, dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que prepara para o trabalho. Eu sou a cura, intelligente e boa, do mal natural. Eu allumio-te nas vigilias dolorosas. Quando estás entorpecido na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres e a tua alma vae partir, eu allumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco Christo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu sou junto das praias o grito de luz que te chama.
«E o que fazes tu em paga d'este amor que se dá, que cria, e que purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor, movimento que é força: os dois termos da tua vida--pureza e putrefacção! Eu que vivia, allumiava, creava em liberdade, estou encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o motor da miseria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas. Sou o collaborador dos martyrios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a infamia. Fazes de mim _explosão_. Obrigas-me a devastar na guerra!
«Eu sou a pureza, o trabalho, a familia, a paixão casta: levas-me a ser o mal, a viuvez, o pranto e a dôr! Tenho um cortejo d'ambulancias e de macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a arvore que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!
«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu allumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a Christo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a familia, a intimidade casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu velho camarada das choupanas da India! não me faças ser explosão, morte e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando estiver allumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços--não sinta entre as minhas chammas bailarem espectros!»
MEPHISTOPHELES
No _Fausto_, de Charles Gounod, a figura dramatica e synthetica é Mephistopheles.
Em volta d'elle, Fausto canta artificialmente como um lyrico histrião d'operas; Margarida sente as primeiras rebelliões nervosas do desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo Cherubim; a alma legendaria do rei de Thule canta na sua torre que molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande figura angulosa, nervosa, elastica, incisiva, atravessa, sinistra, o drama--os seus lyrismos nostalgicos, as suas sensualidades tristes, os seus mysticismos artificiaes--glorificando a força brutal do dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto espiritualista para a violencia lasciva, combatendo a serena inspiração do Christo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação--com o riso tragico do mal!
Aquella opera é uma simples aventura do antigo Diabo.
N'ella, o Fausto não é o sabio que penetrou a medicina, a physica, a logica, a dialectica, a dogmatica, a theologia, a metaphysica, para quem os seis mil annos do passado são apenas o prefacio do saber humano, que procura o X terrivel da equação dos astros, e que ao ruido que faz a sua alma buscando atravez da natureza o Deus fugitivo, o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que se recolhe n'um stoicismo tragico, tendo todavia, sempre, dentro do peito, o côro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das asperas curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vae ao fundo do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem d'ella, que é o ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito moderno.
Não. Na opera, Fausto é simplesmente um d'aquelles ambiciosos grotescos, que contratavam por escripto com o velho Diabo, nos claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo, por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro e que os estofos, uma coisa inutil e esteril, que se lhe atirava desabridamente--e que era simplesmente a alma!
As legendas estão cheias d'estas negociações.
Cornelio Agrippa vende a alma pelos segredos da philosophia; o abbade de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a alma, n'uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Hespanha, e uma perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança! Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando!