Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.
Part 14
Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais (dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um propheta irritado?
--O Mestre é a propria doçura--dizia-me João.
D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador?
--Desde quando é elle assim?--perguntava eu a João.
--Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.
IV
Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades ou desdens.
O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.
Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um velho camarada do templo, Josué, que andava ha muito pelas villas de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal. Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero, attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado João, a essencia do Rabbi da Galilea.
Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica, sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas; que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções, nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem auctoridade entre os doutos e entre os ricos.
Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio d'Hannan.
Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea, e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo?
Encontrei João, conversando no atrio lageado com um homem da milicia sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente estrellada de lampadas.
--João--disse eu--dize o que vem fazer a Jerusalem o sabio de Nazareth?
João olhou-me:
--Vem á festa da Paschoa--disse elle, lento.
--João--insisti--pelo Messias, e pela liberdade do Baptista, prisioneiro d'Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo?
--Prégar--disse João.
Comprehendi, rapidamente, todos os resultados d'aquella lucta original.
--Vae!--lhe disse eu exaltado--dize-lhe que parta, que volte para o lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com os que o amam, socegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como propheta á columna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os prophetas!
João tinha o espanto nos olhos, na voz.
--Eliziel! Eliziel!
--Que volte, que volte para a Galilea!
E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos interiores d'Hannan.
O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre largas pelles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava syria, de Damasco, cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices.
V
No outro dia, casualmente, tive ordem de Caiphaz para ir á Galilea, em serviço das synagogas: a concentração dos sacerdotes rituaes em Jerusalem obriga assim os officiaes do templo a successivas peregrinações; porque as synagogas estão dominadas pelos escribas e pelos sophorins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas.
Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a todo o paiz que fôra até ahi o centro amado de Jesus.
Em toda a região do lago achei muitos espiritos, ou mais simples, ou mais lucidos, ou mais amantes, singularmente occupados na sympathia e na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazareth.
Fallavam-me longamente da sua doutrina nas synagogas, das suas palavras nas collinas: e a figura moral de Jesus accentuava-se, definia-se progressivamente no meu espirito.
Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da rede: fallava devagar; entre silencios, as altas verdades, as palavras profundas appareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante, tocado de uma luz inesperada. Contava parabolas, historias; repetia com paciencia, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, attentos, outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam pasmados a agua. Elle fallava, socegado, ou afagava uma creança, ou, contando as parabolas, concertava a sua rede.
Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida. Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores.
--Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuario--dizia elle.--Olhae as aves do ceu: não semeiam, nem ceifam, e o pae dos ceus é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos campos.
--Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lyrios: não trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua gloria, não estava vestido como nenhum d'elles na sua simples candura. E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, ámanhã seccam, não o fará por vós, homens de pouca fé?!
Por isso os discipulos seguiam-o assim, enlevados n'aquellas ambições ideaes, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. N'aquelle pensamento, o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade.
--Vendei o que possuís--dizia elle--dae o dinheiro em esmolas!
Realmente de que servem na Galilea as riquezas?
Alli só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul, mais repouso á agua: o pobre, o mendigo, é o rei mysterioso d'aquella gloria da folhagem e da luz: para elle se vestem as açucenas de branco, para elle resplandecem os regatos.
Jesus glorificava o pobre: n'aquelle evangelho da Galilea, o rico é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: elle tem os largos vestidos faceis, macios; elle come sobre leitos cobertos de pelles; elle enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a sua tunica; traz apertada á cintura, tendo sobre ella uma pedra, a moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuario do pobre, e da brancura do lyrio; elle velará para que ao homem não falte o pão e á rola o grão: elle fará no ceu, ao pobre, um sacco, um thesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões.
O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o emmagreceu na vida, uma chamma o consumirá na existencia extra-humana. O pobre estará junto de Deus, e a sua face será immortal e altiva.
--Porque, em verdade, vos digo--ensinava o Mestre--que é mais facil passar um camelo pelo fundo d'uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.
Assim fallava elle á beira do lago, e, desprendendo os homens dos fataes cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da vida. Os tedios da existencia ordinaria, a discordia dos interesses, as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da miseria, a apathia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as desconsolações da doença, todos estes antigos demonios desappareciam e a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir, esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da terra tem alimentado.
A alma tinha emfim um logar, o _seu_ logar, o seu espaço, que era o _reino de Deus_. O reino de Deus era o reino das creanças, dos simples, dos desherdados da vida, dos que soffrem, e até do samaritano, e até do pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós não quereis esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os phariseus, os saducceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os principes! vinde vós, pois, os humildes, os repellidos, os lapidados, os enfermos, os culpados, todos os que elles repellem, todos os que elles amaldiçoam! Desgraçados de vós, oh ricos, que estaes saciados, porque tereis fome! Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis em lagrimas!
Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existencias sacerdotaes! Os nossos prophetas já tinham, contra o rico impio e duro, coleras terriveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora o Rabbi feria assim violentamente todo o judaismo sacerdotal do templo, porque fazia, dos que elle despreza e domina, os preferidos, os bem amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o phariseu não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto? Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se á entrada dado santuario tocaram n'um mendigo ou n'um publicano?
Mas Jesus, na immortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal divino, já não sómente chamava a si o desherdado, mas chamava o culpado.
--O culpado é infeliz--dizia:--merece por isso mais que o justo o calor do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso, porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas.
--Havia uma mulher aqui--dizia-me o homem bom de Chorasin, que me explicava estas coisas immortaes--que era repellida, mal vista, amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da synagoga se approximavam d'ella, mas de noite, sob as figueiras do cemiterio, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a tunica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquella palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se sente amante, mais se sente perdoada.
Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada palavra, julgavam-se já no paraizo immortal. Elle ia seguido dos seus, confundido com todas as alegrias, apparecendo nas bodas e nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou montado n'um pequeno burro, que os discipulos cobriam com as tunicas; ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, fallava ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casaes, nos hortos; as creanças vinham, vinham as mulheres:--«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa nova: és tu o Messias?»--Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: elle ria, agasalhava-os; quando elle passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho. Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viuvas limpavam as suas lagrimas; elle fallava de Deus, e endireitava as cannas de milho caidas no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:
--Mestre, tu és bom.
--Bom só é Deus--dizia elle, sorrindo.
--Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraizo?
--Amae os outros, dae aos pobres, segui-me!
E seguiam-o todos, enlevados n'aquelle sonho ideal, o mais bello, o mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.
Então o ceu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez o estreito sorriso do velho conteve a esperança!
VI
Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz d'aquellas palavras.
Voltei a Jerusalem: passei sobre o Thabor, d'onde se vê a larga planicie d'Esdrelon, amada dos heroes, o branco Hermon, Endor, e as montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, patria da forte Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades d'Israel, hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah: Siloeh, onde se fez a partilha do territorio entre as tribus, e onde pousou pela primeira vez o tabernaculo, depois da conquista de Canaan.
Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de seivas e de rosas: junto ao Jordão andavam ainda alguns discipulos de João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lugubres collinas de Judá, asylo de prophetas, tumulo dos heroes: uma madrugada entrei, só, em Jerusalem.
N'esse dia logo, subi ao templo. Junto dos porticos exteriores, onde trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi, entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazareth. Estavam parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante d'um cambiador de moeda, trocava drachmas, attento. Parei, commovido, a olhar profundamente o Rabbi. Elle estava triste: os braços caidos, sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas, delicadas, pessoaes, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os olhos cheios d'infinito, que pareciam olhar d'um logar inaccessivel, a testa larga, expressiva como a immobilidade d'um ceu, assemelhavam-se, superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra--aos olhos, á testa d'Hillel, de Jesus de Sirach e d'um outro, que era como elles dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A bocca tinha uma fórma tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia que d'ella só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno dos labios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma gravidade, uma belleza austera, que denunciavam a origem das palavras elevadas, e faziam sentir o propheta. Parecia-me vêr-lhe, na parte inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão d'energia, que o tornavam um pouco semelhante a Judas Galannite, o poderoso agitador, em quem a acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.
Elle olhava os trabalhos dos porticos, com um desdem sereno. Nos galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento.
Entrei no santuario: nas camaras dos serviços dois escribas argumentavam junto da arca do thesoiro, com exclamações abundantes. Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias da piscina probatica; que argumentára com os escribas, e que em casa de Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi:
--Elle é bom e justo: mas não diz coisas novas.
Argumentava-se muito sobre aquella palavra contida o desdenhosa do sabio Gamaliel, entre os privados d'Hannan.
--Mas Gamaliel--dizia soberbamente o escriba--é um homem alheio a nós; entretem relações com essa gente da escola d'Alexandria; viaja demoradamente em Sichem onde estão os hereticos, e em Cesarea onde estão os romanos, e dá-se á cultura hellenica, desprezando a lei.
--Homem--disse eu--em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo as lettras gregas?
O escriba riu finamente, como em triumpho:
--Pois não diz o texto:--e a sua voz era compassada e emphatica--«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres desagradarás ao Eterno?» Ora--e traçava amplamente a capa, tossindo, victorioso--ora Gamaliel só não desagradará ao Eterno se estudar a sabedoria grega n'um tempo, que não seja nem a noite nem o dia.
O outro escriba, que era Eliel, d'Ephraim, approvou ruidosamente, batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se, risonhos.
Saí das camaras leviticas, á hora setima, quando ha nos terraços do templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as folhas de metal diante de si, em movimentos rythmicos; outros vinham comprar offertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que annunciam a hora dos sacrificios: os doentes cantavam os psalmos; as mulheres leviticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores, espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das primeiras columnas, batendo em discos de metal.
Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosanna, ao filho de David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que elle era entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns phariseus, tomados d'exaltacão, queriam a convocação do sanhedrin. Um velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadencia da escola prophetica d'Israel.
--É um ignorante--diziam, com desprezo, vastos doutores.
Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido d'um arvoredo, fallava do Mestre: alguns velhos diziam:--Sim, sim, irmãos, este é um propheta!
--É o Christo! É o Messias!--clamavam grandes vozes.
Muitos iam, correndo, prostrar-se deante da porta da Arca bradando:
--Graças, Senhor, o Messias chegou!
Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo templo, gritando:
--É o Messias, é o propheta da Galilea!
Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo:
--Que dizeis? Vós não conheceis a lei!
--A lei diz que o Messias virá, e que Elias resuscitará!
--Calae-vos!--bradavam os escribas--Sois tambem galileos? Não sabeis que a escriptura diz que o Messias ha-de ser da geração de David? E não sabeis vós que este é o filho do carpinteiro Joseph, e d'uma mulher da aldeia de Caná? Não vol-o tem dito todos os que veem de Nazareth?
--É verdade, é verdade--diziam alguns.
--E não sabeis--continuavam--que os textos dizem que o Messias nascerá em Bethleem, e onde nasceu este? Em Nazareth, bem o sabeis.
Uma voz, receiosa mas irritada, disse:
--Pois elle nasceu em Bethleem!
--Em Nazareth!--bradaram alguns escribas.
--Sim, sim, em Nazareth--disse a gente.
--É, pois, o Christo?! Ide, homens amaldiçoados que andaes afastados da escriptura!...
Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no Tyrepeon.
VII
Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a porta dos Rebanhos, atravessado o Cedron, subido a Bethania.
Quando eu voltava para Bezetha, veio a mim um homem muito conhecido em Jerusalem, que era Jesus Bar'Abbas. Era uma figura descarnada, torta, arqueada, cheia de cicatrizes, immunda, rindo sempre, em farrapos. Era uma especie de truão de Jerusalem. Tinha gracejos, farças, deslocações: espancavam-o, elle ria, estendia uma ponta da tunica para aparar os drachmas. Encontrava-se com a sua lampada em todos os noivados, gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições, em todos os supplicios com uma cantara de _posca_, para vender aos soldados. Tinha todos os desastres da miseria, do vicio, e era servil. Os soldados expedicionarios espancavam-o, ás vezes prendiam-n'o, mas o povo cobria-o com uma protecção avara. Era casado. Tinha uma voz vibrante, forte para cantar os psalmos e imitava os prophetas, prégando. Cheirava miseravelmente a alho.
Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que n'essa noite Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os officiaes do templo e sacerdotes, fóra das muralhas, em Betphagé.
Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com orgulho que fôra amigo do gladiador Esterius.
Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus atrios.
N'essa noite fui a casa do Hannan. Nos pateos, João aquecia-se ao lume, junto da velha de Capharnaum.
Caiphaz e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos: Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caiphaz aquilino, duro, aspero, tinha uma attitude desdenhosa. Dois escribas, encrusados no chão, comiam.
Quando o serão ia remoto, repentinamente Caiphaz mandou-me a casa de Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava: tinha havido exigencias do legado imperial sobre os vasos do templo.
Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era negra, quente, molle: ouviam-se apenas uivar os cães.
Em Betphagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a ceia, sob um grande velario feito á moda grega, suspenso ás ramagens dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas lampadas resplandeciam. Flôres de Damasco, rosas de Jerichó, jasmins de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da molle vitalidade que dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cantharos envoltos em palha, jarros cinzelados. Os escravos phrygios, com os longos cabellos relusentes de oleo, giravam apressados.
Havia alli membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos, sadduceus, phariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em sacrificios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram gordos, fortes, vermelhos. Quasi todos tinham a physionomia aspera, adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas.
O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma ampla respiração aos peitos, uma feliz scintillação aos agudos olhos negros. Havia largas risadas. Phariseus austeros, que se ferem nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos d'aço brunido, devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns, decrepitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras.
Alguns, estendidos sobre leitos como animaes que ruminam, tinham as tunicas soltas, os braços nús. Cabeças energicas, duras, mostravam uma expressão irritada, fixa, vasia; os velhos tinham largos risos cynicos. Uns dormiam, outros cantavam. Um velho curvado, frouxo, rouco, lembrava as mulheres e os phariseus. Entre esta multidão sacerdotal havia um romano. Era Publius Sextus, logar tenente do legado imperial; fallava com palavras abundantes, largos gestos. Era pallido, com uma pequena cabeça energica e voluntaria; era devasso, servil, falso, luxuoso, e vinha de Caprea. Era alli escutado como um propheta na antiga Israel; fallava da via Appia, das festas de Roma.
Eu escutava, encostado a uma arvore, na escuridão, concentrado o triste: