Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.

Part 15

Chapter 153,717 wordsPublic domain

--Só em Roma se vive--dizia elle.--Isto é peor que o bairro das Esquilias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem aqui como Evandro recebeu Hercules, com farinha cosida e uma esteira espartana!

--Mas vós outros, os romanos, sois glutões e amigos do vinho!--disse Nathaul, um escriba, homem invejoso, com labios carnaes.

Mas Publius fallava d'uma ceia em casa de Atticus, antes de vir a Ostia embarcar com o legado da Syria.

--Quereis saber?--perguntava.

--Dizei, dizei--gritavam curiosamente pela meza.

--O chão era de mosaicos gregos. Entre as columnas havia largos pannos tecidos d'aço, pesados, á moda de Carthago. Um vapor d'agua tepida penetrava os musculos, enlanguescia. Tinhamos esfregado os braços, o peito, com pedaços de pelle de tigre humedecida d'oleo. Os membros estavam ageis, faceis para as danças, para as escravas! Do tecto caíam folhas de rosas humidas!

Todos tinham olhos scintillantes; estendiam-se para escutar; alguns estavam de pé, junto de Publius.

--O trinchador--dizia elle--o trinchador, meus amigos, era o proprio Tripherius! Tinhamos lebre, gazella, faisão de Lichtia, cabras da Getulia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido herva, e tartarugas delicadamente preparadas em môlhos da Campania, na propria concha, polida, transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas nadando no azeite de Venafre! As taças eram d'ambar. Que dizeis vós?

Os austeros doutores, os graves herodianos, os phariseus, cevados, oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a bocca riscada de vinho, tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius.

Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo. Todos admiravam.

O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em tecidos diaphanos, correndo em choreias, em volta dos triclinios, e aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!--E fallava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz branda, curvando-se:

--Que estas mulheres syrias--dizia--teem uns olhos escuros, que valem centenares de sestercios!

Os outros riam. Fallavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam, desejavam.

--Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas são devassas, e tudo alli terminará, como em Sodoma e Ninive!

Quem assim fallava era um phariseu, Essen, homem magro, livido, cavado de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para lembrar a morte e o terror de Jehovah!

--Devassas, dignas do fogo--para vós, devotos e zelozos! Mas bellezas impeccaveis, immortaes, para quem póde desapertar a rêde d'oiro, em que ellas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que as fazem mais appetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que ellas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.

Publius fallava, inflammado, descomposto: tinha gestos lascivos; bradava os nomes das damas romanas:

--Vêde Laupella, uma patricia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que em plenos jogos megalesios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu na estatua do Pudor!

Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam:

--Contae, contae!

Enchiam as amphoras; arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa, com a cabeça appoiada nos braços, esperavam voltados para Publius, com olhos perturbados. Os velhos abriam largamente uma bocca escura, sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos. Um escriba da arca do thesoiro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz aspera, arrastada. O circulo de cabeças avidas, duras, curiosas, destacava violentamente no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a tunica clara manchada de vinho; tinha os braços nús, brancos, femininos: e com largos gestos:

--E Tucia! e Tucia!--gritava--Eu vi-a um dia no theatro, quando o actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascivias o papel de Leda, torcer-se no seu logar, arrancar a rêde dos seus seios, e com os olhos mortalmente languidos chamar a altas vozes:--Bactylo, Bactylo, vem!

Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:--Bactylo, Bactylo!

Os velhos torciam-se nos seus triclinios, tomados de riso, de escandalo. Alguns escribas gritavam:--_Viva Roma!_ Os phariseus tinham olhos terriveis, e uma attenção avida. Um cortava violentamente o pau do estrado, mordendo os labios!

Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolencia dos escravos, queria lançar fogo ao velarium, e dizia:

--Quem conhece Cessenia? Ninguem conhece Cessenia? Cessenia tinha de dote seis milhões de sestercios. Casou com Sertorius, o pobre, com a condição de poder escrever deante do marido os bilhetes aos amantes, o poder ir deitar-se uma vez cada mez, para quem entrar, no leito alugado de um lupanar do Suburra!

Os escribas riam, esvasiavam as taças, desafogavam o pescoço das tunicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas á cintura, onde está escripta a lei. Um, ebrio, com os olhos riscados do sangue, pedia o culto de Baal.

Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclinios, curvados, enroscados, immoveis. Os phariseus torciam os braços, fallavam de Tyro.

Publius clamava:

--Pois que ha de melhor que vêr uma patricia, de longo penteado e saia curta, depois de estar cheia d'ostras e lagostas irritantes, beber de um trago n'uma enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre o mosaico humido de vinho, caír sobre o nosso peito, gritando em grego: _minha alma, minha vida, ai!_

E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a garganta tumida de suspiros, arquejando!

Os escribas, os phariseus estavam cheios de delirio e de vinho. Riam animalmente. Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão: mordiam as almofadas dos triclinios. Derramavam o vinho sobre os vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças exaltados. Um jogava a lucta com uma arvore, depois envolvia-a, beijava-a. Cantavam em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões lascivas. Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados. Corriam, inflammados, como n'um mysterio sagrado. Alguns gabavam-se de devassidões occultas. Fallavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres, de prostituições sagradas no fundo dos bosques!

Publius gritava:

--Não sabeis, phariseus, não sabeis a aventura de Lentullus?

--Não, não!--bradavam alguns penetrados da alegria, do escandalo, de curiosidades inflammadas!

--Lentullus casa com uma virgem patricia, neta de consules: nove mezes depois prepara, segundo o costume, para o filho que vae nascer, o berço de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no ás boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da via Appia rompe em risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Eurialo, e tinha, como elle, trez verrugas no queixo.

A risada fazia o ar sonoro. Publius de pé, manchado, com a tunica rôta, descomposto, gritava:

--Ouvi, ouvi!

Escutavam com um riso inquieto.

E Publius, emphatico:

--Os actores--dizia--os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta, os truões, são os paes de todas as creanças que nascem na nobreza romana!

Um velho phariseu, elevando sacerdotalmente uma amphora, gritou com uma voz terrivel:

--Vivam os truões!

A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão. Era bestial e immundo.

Bar'Abbas, espancado, cambaleava, blasphemando, jovial.

O vinho começava a domal-os: alguns escorregavam, caiam, agitavam-se como agonisantes, e perdiam os espiritos n'um somno petrificado. Outros penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da herva e da agua. Uns fallavam como n'um delirio grotesco. Dois escribas argumentavam, freneticos, hostis. Um forte e vasto phariseu, de bruços sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, roía monotonamente uma flôr.

Simeon resonava no seu estrado. Publius no chão humido. Os escravos deitavam pelles sobre os dormentes. Os lampadarios extinguiam-se. Vinha um frio humido. Cantavam os gallos.

Eu atravessei o pomar, subi a um terraço.

Uma claridade assustada, abatida, apparecia. Eu via ainda reluzirem lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito d'um chacal. Via Bethania; alli Jesus dormia sereno, puro, impeccavel.

Voltei aos porticos da casa, pela rua areada do pomar. Alli havia um rumor; os escravos, agitados, fallavam. Alguns da milicia do templo tinham encontrado, no portico de David, nas lages, uma mulher nos braços d'um homem. Era uma adultera; a milicia trazia-a a casa de Simeon, que n'aquella semana fazia a condemnação dos desacatos ao templo, em nome do sanhedrin. A milicia tinha sido diligente, apressada, minuciosa, porque a miseravel, era mulher de Bar'Abbas, e todos queriam vêr as contorsões joviaes, o desgosto grotesco do truão! Mas Bar'Abbas estava prostrado, immovel, enroscado no chão.

Fui ao logar do velario: os doutores, os phariseus acordavam: era já manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis; aconchegavam-se nos mantos, lividos, tomados do frio: procuravam os cintos das tunicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as laminas da lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam agua clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam, mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas. Simeon, absorto, somnolento, bocejava:

--Vinde--dizia-lhe eu--tendes serviço; vieram uns da policia, com uma miseravel mulher.

Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava, arrastando os coturnos, para o seu pateo civil. Phariseus, doutores, membros do sanhedrim, seguiam-n'o. O pateo era largo, em columnas. Uma lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.

Os da milicia fallavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em cantharos. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil, soluçava. A tunica aberta, deixava vêr a forma impeccavel do seio.

Simeon interrogava.

--Vem presa--dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no silencio;--acharam-n'a á porta do templo, no portico de David. Vêde-a. Estava em acto d'adulterio.

--Oh!--disseram todos indignados.

E phariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando:

--Lapidada, lapidada!--disseram irritados.

Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados, erguendo os mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher adultera.

Essen afastou-se, e fallou junto ao ouvido de Simeon.

--Sim, sim--disse Simeon, e voltando-se para os da milicia:--Esta mulher que seja aqui guardada até á hora sexta.

Eu saí. Os soldados romanos, abriam com estrondo metallico as portas de Jerusalem. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes dos hortos de Betphagé, da Bethania: os camponezes de Bethel traziam os saccos de trigo: passavam solemnemente as fileiras de camelos. Um beduino de Idumeia conduzia rebanhos: as rezes balavam. Do alto da torre Antonia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores sentados em seus burros: um vidente clamava!

VIII

Eu ia triste: o amanhecer, a apparição espiritual da aurora, enche de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne. Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu artificio, tão altivos despresos.

Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me, obscuro e inconsolado, para os meus monotonos officios do templo. Alguns dos phariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrificios.

O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia: pensava nos prados da Galilea, nas aguas do lago, nas espessas folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga, pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planicies de Saron!

A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido d'um mercado: a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia material, dura, mesquinha, suffocante! Ia-me encostar á balaustrada da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuarios, de roçar pelos phariseus, escribas, por aquellas hierarchias sacerdotaes que me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos mortos.

Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre. Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação: os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos!

Invejava quasi o romano, o grego, o mercador de Tyro, que não são de Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o Aera e o Moriah, captivos e gementes!

Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?--perguntava a mim mesmo.

--Temos uma patria? Não!--E olhava a torre Antonia, onde os expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra.

--Temos uma religião, uma fé? Não!--E via os sacrificadores vestindo os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados, bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!

--Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!--E olhava aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra, e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para agradar ao Senhor!

Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não habitava Jerusalem!

Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte, Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me--ou resultados da noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia, ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade.

--Ah! Jesus de Nazareth--pensava eu--é o unico homem que nos poderia salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples, que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção?

Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal, terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma melancholica e transcendente?

O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz, porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este movimento popular?

Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede soccorro.

--Porque não?!--dizia eu--Surprehendi já nos seus olhos uma vontade dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo?

E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me, como inesperadas consolações.

O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir dos bois: tinha a sensação de natureza verde, de tempos repousados, contentes.

O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza, cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura, nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado, dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos, tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a indifferença.

O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado, suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin. N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves, idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica, toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.

Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade, de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas, a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce futuro, terno, purificado, coberto de luz!

E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro, hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem? Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus, como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias, escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com amargura para as edificações de Herodes, o grande!

Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de tantas forças civis!

Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava, infinitamente triste, com um desdem abatido.

Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias: mas um grande rumor encheu o templo.

Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o baixo recinto do templo.

Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de vozes, de gritos penetrantes.

Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus, couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações. Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros desmanchados, os pés riscados de sangue, a tunica despedaçada, o rosto levemente aquilino tomado de afflicção.

A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario: vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.

Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus: havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os pateos.

O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada, abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes cabellos, com uma semelhança pagã.

Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:

--Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que foi achada em adulterio nos porticos do templo.

--Lapidada! lapidada!--prorompeu a multidão.

Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se os gritos agudos, arrastados, das mulheres.

Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os soldados riam.

O escriba fallava, com gestos abundantes:

--Rabbi--dizia--a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas tu, Rabbi?

Jesus olhou o escriba serenamente.

--O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados--gritou alguem entre a multidão.

Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava:

--Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos!

E um phariseu bradou:

--É o Salomão das mulheres perdidas.

Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio onde anda escripta a lei, e exclamava:

--Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.

O povo cruel dizia n'um clamor:

--Lapidada, que seja lapidada!

Alguns phariseus gritavam:

--E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth!

Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia templaria. A multidão era espessa: os mendigos apregoavam _posca_; os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas d'escarlate: os doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas cabeças de legionarios espreitavam.

Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:

--Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.

Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:

--Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que despreza a lei.