Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.

Part 13

Chapter 133,944 wordsPublic domain

Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.

Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro, João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha, retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade, andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus, Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor? Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida!

É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.

Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço. A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem: alli se orava, se celebrava, se tratavam as questões civis, se julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei, se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições. Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo, observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra, exercitarem-se em luctas.

A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos, ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam tocados de impureza.

Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse) que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.

Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma, de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal.

Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho, entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros.

Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus, respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga, querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola, contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando, vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se, n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução sobre a testa, com a mão toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres, os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste: caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios de appetites, como um homem sanguineo!

Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade: são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as bellas mulheres da Idumea.

Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por quem os meus olhos ainda se humedecem.

Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros tinham-se vindo encruzar nas suas esteiras junto das columnatas, com as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia, cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores, havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.

Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras, arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.

--Ide!--disse-lhes elle então--vós fazeis da casa da oração uma caverna de ladrões!

E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas. Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas que gritavam. Eu olhava, admirado.

--Quem é este?--perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle, e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan.

--Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea!

II

Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos prophetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vae até Joppé. Não direi o que penso da intenção prophetica e da crença messianica. Só direi que os prophetas que, no meu tempo, vieram e eram lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz collectiva, a esperança, a consolação e o allivio.

O povo era profundamente infeliz: os saducceus afogados nos seus repousos, os phariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além de tudo estavam longe do povo, n'uma separação desdenhosa e emphatica. Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto. Já na vida estreita e toda commum de Jerusalem, já nas conversações dos atrios do templo, já nas minhas demoras em Bethel, em Ephraim, em Galilea, eu via, comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado, eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo, refugiava-se, maltratado da terra, na esperança d'um libertador, d'um Messias. O judeu é dado a preoccupações divinas e a sua verdadeira patria é em Deus.

Uma serie d'homens fortes e piedosos eram os interpretes d'este desejo ideal, eram a voz d'aquella melancholia, e eram os amigos do pobre, os asperos juizes do rico, os consoladores austeros.

O povo, suffocado pela sua paixão interior, sentia-se alliviado, consolado, quando um propheta fallava. Os prophetas confirmavam a vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: d'ahi a exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em desejo e vontade. De sorte que todos os annos appareciam videntes e inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria. Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja original, amigo do pobre, annunciador da boa nova: Schammaï, Hillel, Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça, viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da esperança religiosa, não tinham a paixão messianica. Eram espiritos sabios e justos, e não videntes possuidos de fé.

Ora, n'esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por elle a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda d'elle; tinham desalentos, esperavam avidamente os signaes mysticos, e as almas fallavam baixo, porque vinha o Senhor!

Eu mesmo tinha visto muitos prophetas, muitos mestres innovadores; não conhecia João Baptista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia que elle tambem prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a olympica Herodiade, se definhava n'uma prisão de Antipas.

No emtanto nunca nenhum d'esses homens me dera uma sensação feliz como esse Jesus de Nazareth. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me n'uma vaga e imprevista perturbação, como quando se olha para o ceu, que se suppõe escuro, e de repente se vê uma estrella immortalmente luminosa.

N'essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se conhecia Jesus de Nazareth, que prégava na Galilea. Simeon disse-me, com um riso:

--Que sabes tu que possa vir de bom de Nazareth?

Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos conversando n'esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco orthodoxos: que o sangue estava n'elles muito misturado; que tinham muito do samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos a fallar, insufficientes a pensar; e que _idiotismo galileo_ era um proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a gente de Galilea me parecia simples e dedicada; que quem vive n'uma natureza tão humana, tão cheia de aguas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sobrios; e que Isaias tinha dito:--«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali, caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu uma grande luz!»

--Ora, Simeon--dizia eu--estas palavras de Isaias indicam que na Galilea póde nascer um propheta!

Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de Salomão: a natural belleza, as arvores, as vinhas, a perspectiva suave e recolhida dos valles de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatorios de Salomão, fazem d'aquelle logar um retiro bom para espiritos sabios, para aquelles que teem no coração uma ideia, ou que são habitados por uma esperança: alli se reunem assim muitos de Jerusalem! N'aquelle dia andava alli, absorvido, grave e vagaroso, o sabio Gamaliel. Gamaliel era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza, a tradição--elle era a sciencia; se os outros eram a lei--elle era a justiça. Eu, preoccupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se conhecia aquelle homem severo:

--Pelo que sei d'elle--disse Gamaliel--penso que é um justo.

Guardei com amor esta palavra: ella correspondia á attracção suave e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a Jerusalem, pensava n'elle: via-o irritado e augusto: imaginei-o cheio da colera do justo e da rebellião do opprimido: o que elle prégava decerto era a condemnação do rico e a humilhação do phariseu. Era o que tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um propheta amado e seguido, que fôsse a alma d'uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o povo, anniquilasse os sacerdocios corrompidos, expulsasse o romano, que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha Judea, que fôsse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos. Produzira a Galilea esta alma terrivel? Ou será Elias ressuscitado d'entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada para casa de Hannan.

Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do templo o fôsse seu genro Caiphaz; mas elle era o espirito, a direcção, o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era velho, sabedor das tradições, astuto; possuia enormes riquezas, conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo.

N'um dos largos pateos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume reunirem-se em volta d'um grande fogo, quando o frio entristecia Jerusalem, os officiaes do templo: ás vezes vinham escribas, doutores, sacerdotes affaveis. Aquelle grupo, sempre egual, era como uma consciencia um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava algum austero doutor phariseu, pedia-se a um soldado expedicionario que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das collinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam nas suas barbas brancas. N'essa noite, quando eu atravessava o atrio d'Hannan, cruzei-me com aquelle galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus de Nazareth, na galeria de Salomão. Elle costumava vir alli vêr uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea. Chameio-o, tomei-lhe as mãos, fallei-lhe affavelmente em Jesus de Nazareth: eu, emfim, comprehendia bem aquelle que por um imprevisto interesse, pela elevação da sua palavra, pela belleza do seu aspecto, habitava já no meu peito, como um amigo d'antiga mocidade.

III

João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples, mas penetradas de fé e de desejo.

Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o, pela intuição, em Nazareth, educado por aquella doce paizagem da Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras patriarchaes.

Eu tinha alli viajado, e muitas vezes me tinha sentado n'um rochedo, nas alturas de Nazareth. Se algum logar ha no mundo em que o homem sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o contingente e fugitivo das affeições e dos desejos, é alli, n'aquelle vasto e socegado horizonte, em que parece que o ceu exerce mais profundamente a sua attracção infinita sobre a alma captiva.

Que pomares, que prados, que humanas aguas, que aldeias delicadamente adormecidas entre as figueiras e as vinhas!

E eu via Jesus, imaginando, esperando, n'aquelle humido paraizo da Galilea e nas suas montanhas queridas, de bellas fórmas amorosas!

Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus, entrando a fallar nas synagogas, correndo as aldeias, ajudando as pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrellas tão bellas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes.

Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e apenas teem visto da natureza as suas collinas calvas e os seus valles cheios de mortos, riem quando se lhes falla na natureza do norte, na fecundidade da Samaria e da Galilea e na excellencia d'aquella gente.

Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações, será por alguem vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta Jerusalem aspera, secca, toda de pedra e de indifferença, só fará espiritos estreitos, phariseus argumentadores, escribas e lapidadores d'homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach, de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da seiva das arvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe d'aquellas sombras e do rumor d'aquellas aguas. Jerusalem será a lei, a auctoridade, a sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o sacrificio.

Alli não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias syrias que eu amo, onde as mulheres teem o seio pacifico, os homens a força serena, e até os pequenos burros teem um olhar doce, em que parece habitar uma resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia aspera, qualidades de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, tumulos gregos dos Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas estradas da Galilea: vêem-se os casaes escurecidos pelas sombras das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras estrelladas de vermelho: vae-se n'uma fresca espessura povoada d'aves gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente deante d'uma porta, á sombra d'um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as fórmas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se encontram phariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos!

Era alli que Jesus vivia, fallando pelos campos, pelos casaes e nas synagogas: alli devia ser escutado: não tinha sabios da lei para o contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer a verdade aos simples!

O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me d'uma affeição ineffavel pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas suas aldeias e pelos caminhos das suas villas! Ai! Magdala, Chorazin, Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, secco, pallido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de agua, onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo, cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do lago, cheia de tamarindos, onde a agua, tão azul como os olhos das mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do meu peito, as pudesse sepultar fóra de mim, escolheria a tua relva, ó terra de Nephtali!

Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores; aquelle clima é tão doce, tão affavel, que o homem pouco pensa no seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as estrellas, ao rumor da agua. Jesus pescava, ou fallava n'uma barca, no socegado embalar da agua, aos seus companheiros de rede: assentava-se ás vezes sobre as collinas, que são d'uma viva liberdade d'ar e de luz, e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se a si, ensinava o seu coração, fallava das esperanças do reino de Deus. Elle amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os lyrios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: elle pedia apenas que o amassem, e não tinha razões inflammadas de propheta. Elle era o centro de todo o amor na verde Galilea: dava a esperança ás almas: dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre.

--O ceu é dos simples--dizia elle.--Os que choram serão consolados; os miseraveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a mim: sereis saciados. Sêde pacificos, sêde puros. Se vos perseguirem no reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do ceu. Segui-me, segui-me!...

E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casaes: as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz immortal dos seus olhos. Todos queriam errar com elle pelo paiz de Genezareth, comendo os fructos casuaes dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos.

Elle explicava Deus de um modo novo: ninguem o conhecia melhor: elle era a consciencia viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitario, tenebroso, irritavel: o seu Deus era o pae, o consolador, o purificador, o eternamente sereno, o eternamente justo.

O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade, a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrificio.

--Se vos ferirem, offerecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos perseguirem, orae! Que merito ha em amar os que nos amam?

Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia, era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos phariseus: com effeito, para que são tantas purificações, tantos cilicios, tantos usos de piedade? Para que hão de os phariseus trazer nas suas tunicas as tiras de papyrus, que são o signal da devoção, e para que dão a esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda?

--Quando tu deres a esmola--dizia o Mestre de Nazareth--que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.

E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que elle não era como os mais prophetas, não se retirava para o deserto, não se emmagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que ahi estava mais na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.

João fallava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joanna, mulher de Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, ahi e em Tiberiade, tinha tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicavel era a essencia d'aquelle ser; tinha espasmos, contracções, enthusiasmos perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notaveis d'então, penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de phariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação das moreias em reservatorios, a composição de aromaticos, o estudo das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi para Magdala. Ahi viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do Mestre, e amava a sua figura delicada e bella. Tinha, porém, fortes impaciencias, erguia discordias com os discipulos, retirava-se para o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.

Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica franjas de Tyro.

Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os publicanos, todos os peccadores.