Portugal e Brazil: emigração e colonisação
Chapter 17
«Do relatorio do ministerio da fazenda do imperio do Brazil, apresentado este anno (1877) á assembléa geral legislativa, extraimos a seguinte nota do numero dos contribuintes sujeitos ao imposto industrial no Rio, regulado alli por lei de 15 de julho de 1874, excluidos os estabelecimentos taxados com relação aos meios de producção e os de sociedades anonymas--isto no exercicio de 1875-1876.
«Os contribuintes são:
Portuguezes 7:394 Brazileiros 1:791 Francezes 466 Inglezes 127 Allemães 127 Italianos 214 Hespanhoes 58 Belgas 13 Hollandezes 1 Suissos 23 Americanos 17 Orientaes 1 Chins 1 Africanos 16 Gregos 4 Dinamarquezes 7 Cubanos 1 Suecos 3 ------ 10:264
«O valor locativo em moeda do Brazil, do local que servia para o exercicio da industria era de réis 6.052:661$198, e o valor total do imposto foi de réis 1.010:090$359, tudo moeda fraca.
«As sociedades anonymas sujeitas ao imposto de industria e profissões, no dito exercicio de 1875-1876, foram 36, sendo 15 brazileiras, 15 portuguezas, 5 inglezas e 1 americana, cujos dividendos subiram a réis 8.553:000$000, pagando de imposto 1,5 por cento, ou 128:000$000 réis.
«O numero de estabelecimentos industriaes (note-se bem--_industriaes_) sujeito ao referido imposto, no mesmo anno, foi de 182, sendo:
Brazileiros 45 Portuguezes 109 Francezes 11 Inglezes 3 Allemães 5 Hespanhoes 5 Suissos 3 Italianos 1
«Estes estabelecimentos empregavam 976 operarios, e d'elles 100 eram laborados á força humana, 7 por meio de força irracional, 66 pela do vapor e 9 pela da agua. O imposto que pagaram foi de 18:637$436 réis.
Vê-se por estes dados qual é a parte importante que a nacionalidade portugueza tem na industria e commercio do Rio de Janeiro.
«Note-se, no entanto, que em todo o Brazil o imposto das industrias e profissões é avaliado em 2:600:000$000 para o exercicio corrente de 1877-1878.»[52]
Elles, os hydrophobos, ignoram isto, coitados! Nós fazemos-lhes esta justiça.
É por causa d'essa ignorancia que os desgraçados afinam por este diapasão.
«_Deus já nos vae ajudando._--A bordo do vapor inglez _Jerome_ sahido d'este porto no dia 26 do corrente mez, escafederam-se para a _terrinha_ trinta e tres gallegos, qual d'elles o mais estupido e vilhaco.
«Por emquanto está o Pará livre d'estes trinta e tres canalhas que nos favorecem com a sua ausencia!
«Oxalá que arribassem todos os _ladrões_ e aventureiros, que chegando aqui sem vintem, sem officio nem beneficio, compram logo fiado uma taberna, assignam muitas vezes letras, sem saberem o que assignam e depois para pagarem, andam roubando aqui acolá, commettendo quanta infamia e praticando toda a sorte de escandalo e desacatos; e quando vêem os gallegos infames que não podem com a carga, atiçam fogo na bodega e raspam-se para a _terrinha_ roubando e desgraçando a muita gente!
«É d'esta _escoria_, d'este _povoléo_ ordinario que veem de Portugal! Gente boa não vem de lá.
«Desengane-se quem quizer, cada um bicudo que chega ao Brazil ou é um refinado vadio troca tintas, ou um calceta fugido do Limoeiro, ou das enxovias do Carmo. A canalha bicudal tem mais medo das solitarias do Carmo do que do diabo.
«Nós queremos estrangeiros civilisados, laboriosos e honestos, emigrados amigos do trabalho; o que não podemos supportar são _portugallegos_ que veem aos centos, todos _ladrões, infames, desatinados, salteadores, assassinos e moedeiros falsos, etc. etc._
«Contra estes _ladrões_ todo o rigor das nossas leis e a maldição do povo brazileiro caia sobre elles.
«Longe, bem longe de nós e de tudo quanto é honesto e civilisado está _esta tróça estupida de gallegos_. Deixem-nos, vão para o inferno, para a costa d'Africa, para as zonas torridas e humidas de Pedro Botelho, comtudo que favoreçam-nos com a sua ausencia.
«O que querem estes malvados e faccinoras _gallegos_ n'uma terra, onde ninguem os póde vêr?!...»[53]
O que deixamos trascripto, como se pode deprehender, refere-se a portuguezes que sahiam do Brazil, contra quem, ainda que sem motivo, podiam allegar represalias; mas o que vamos transcrever é uma amostra das recepções que n'aquelle paiz hospitaleiro costumam fazer aos colonos que pela primeira vez pisam o solo brazileiro, contra quem parece que não devia haver razão de queixa:
«_Pilha de ladrões e velhacos._--A bordo da barca portugueza _Camponeza_, vinda da _terrinha_ e aqui ancorada no dia 8 do corrente, chegaram 26 badamecos gallegos e velhacos, sujos e réos de policia. _Elles_ que de lá vem é porque fizeram alguma... Ou fugindo do serviço das armas, deixando o pae e a mãe compromettidos, ou arrombando as prisões do Limoeiro e as enxovias do Carmo, onde é a vivenda continua da matúla indigna e safada.
«Pelo ról dos passageiros não consta que viesse um só, entre tantos ladrões, um habil pintor, um perito dentista, um intelligente agricultor, um laborioso agronomo, um engenheiro, emfim, um homem de educação e de bons instinctos. Veiu sim, uma matúla estupida de ladrões, assassinos, vagabundos, jogadores, não bastando ainda os muitos que por aqui estão!
«E não se envergonha a estupida colonia portugueza de apresentar em uma terra estranha patricios seus, filhos do _decantado_ Portugal, como os que vieram agora na barca _Camponeza_ e outros muitos que constantemente vêem baldeados nos porões dos navios!
«E ainda dizem que os portuguezes são nossos _civilisadores_...
«Barbaridade! affronta!...
«Desengane-se a negra gallegada que aqui como em toda a parte ella não passará de uma _gentinha_ miseravel, estupida, dedicada ao roubo, ao assassinato e á introdução da moeda falsa.»
Finalmente, não chegava navio algum da Europa que transportasse colonos portuguezes, que ficassem isentos d'uma recepção tão delicada e... hospitaleira!
Transcrever taes artigos seria, alem de fastidioso, impossivel, ainda mesmo em meia duzia de grossos volumes.
A represalia contra as _Farpas_, não podia ser mais inconsequente.
[50] Traducção do _Diario da Manhã_.
[51] A _Tribuna_, do Pará.
[52]_Jornal do Commercio_, de Lisboa, de 19 de julho de 1877.
[53]_A Tribuna_ do Pará.
III
Para salvarem da responsabilidade, que tão justamente cabia á sociedade paraense, diziam os optimistas, e entre estes o auctor do _Brazil_, que a _Tribuna_ não era bem acolhida por aquelle povo; mas o pasquim assim respondia aos calumniadores:
«Conhecedores como somos, d'este estado morbido da nossa sociedade, exultamos de prazer quando recebemos o nome de algumas senhoras paraenses que mandaram inscrever-se entre os assignantes da _Tribuna_.
«Este passo certifica-nos que o patriotismo existe mesmo no coração d'aquellas que se acham unidas por laços indissoluveis aos subditos da terra, cuja pressão combatemos.
«Essas corajosas senhoras, que lêem e applaudem a _Tribuna_, tão mal vista pelos--_namorados dos Portuguezes_ (os paes brazileiros que desejam casar as filhas com compatriotas nossos), abriram um exemplo que, é de suppôr, despertará o patriotismo do seu sexo, que faz os nossos encantos, e a quem deveras desejamos maiores venturas que as gosadas hoje.
«A _Tribuna_ não póde deixar de agradecer-lhes essa honra, de que sempre nos ensoberbeceremos, servindo-nos de estimulo para proseguirmos no caminho que tomamos sobre nossos hombros.
«Agora, que rendemos o preito devido ás nossas formosas e patrioticas assignantes, o leitor nos permitta tratemos de alguns factos.»
Na data em que isto se publicava--20 de maio de 1872--, a _Tribuna_ fazia uma tiragem de 1:000 exemplares, e para mostrar que o apello fôra attendido pelos _patriotas_, aquelle numero subiu a 3:000, passado apenas um anno!
Tambem diziam:--o jornalismo do imperio não faz caso do pasquim; e a _Tribuna_ fulminava assim os insultadores da sua _dignidade_:
«Estranha o bandido d'além mar, em um aranzel publicado no _Diario da Bahia_, que o _Jornal do Pão de Assucar_ tenha tido a honra de permutar com o nosso periodico.
«Estes labregos não se conhecem!
«O _Jornal do Pão de Assucar_, por ser redigido por um homem de bem, _foi que pediu a permuta á Tribuna_, e ella acceitou. _Nós permuttamos com quasi todos os jornaes do imperio_, dos logares os mais longiquos, e de todos estes jornaes só ao _Globo_ foi que da nossa parte pedimos permuta; quanto aos mais nós não fazemos mais que acceital-o se o jornal é digno d'essa consideração (_sic_), se não é damos-lhe um pontapé como fizemos ao _Imparcial_ de Guimarães, porque aqui não jogamos perolas a porcos, nem damos esmolas aos cães.»
Se não fôra demasiado extenso publicariamos n'este logar a lista dos jornaes do imperio que trocavam com o pasquim incendiario do Pará.
IV
Alguns de nossos leitores terão reparado já na insistencia de só querermos apresentar á vindicta publica a _Tribuna_, deixando incolumes os pasquins _Regeneração_ e _Constituição_, que tambem se publicam na cidade do Pará; aquelle, orgão official do clero, e este do partido conservador. Não é esse o nosso intento, assim como o não é de isentarmos os pasquins que se publicam nas outras capitaes das provincias, ao sul da do Pará.
Assim, pois, vamos apresentar ao leitor _O Argus_, _O Estandarte_, _O Progresso_, _A Malagueta_, _A Voz do Bacange_[54] e o _Publicador Maranhense_ do Maranhão.[55]
Do Ceará a _Tribuna Popular_. De Pernambuco, o _Commercio a retalho_ e a _Luz_; e antes de mencionarmos os das outras provincias, transcreveremos alguns especimens hospitaleiros d'estes pasquins... com os quaes se não ri a população.
Falla o _Commercio a retalho_:
«Vive o povo brazileiro sobre a pressão do mais horroroso pauperismo!
«Certamente causa espanto, que o povo brazileiro viva na miseria, sendo, entretanto, o Brazil tão rico!
«O que contribue directamente para que o povo, habitando n'um paiz tão fertil, viva opprimido pela miseria, são duas causas--a estupida, anti-patriota gestão dos negocios publicos, e o commercio a retalho ser exclusivo dos portuguezes!
«Se desde que organisou-se o governo brazileiro, este tivesse tratado de preparar o paiz, por meio de reformas liberrimas e economicas, por certo que hoje não teriamos de lamentar tantas vexações e desgraças: não teriamos de ver só portuguezes no commercio.
«Se desde que chegamos ao numero de poder tratar dos negocios da patria, nossos antigos não fossem cedendo o campo commercial aos portuguezes, incontestavelmente não veriamos hoje uma mocidade activa, intelligente, sem occupação em demanda de empregos publicos, não achando um logar no commercio, prestando-se a imposições do governo.
«Em condições tão excepcionaes, resta aos brazileiros conquistar a todo o transe o commercio a retalho.
«Continuar a testemunhar o espectaculo pungente de uma mocidade entregue á triste condição de andar pelas secretarias, subir incessantemente escadas de influentes do governo, para adquirir empregos, é impossivel.
«Quando um povo chega ao deploravel estado de ver o primeiro ramo da riqueza do seu paiz entregue a estrangeiros, que escarnecem d'elle, como os portuguezes dos brazileiros, não póde conter-se.
«E, para conquistarmos o commercio, não é preciso desatinos, conquistemos sublime e francamente por meio da união, da associação, concorrendo para as casas dos nacionaes e esquecendo as espeluncas dos passadores de cedulas falsas» etc. etc.
E conclue:
«Escolha o povo: ou nacionalisar o commercio a retalho para salvar-se d'esta miseria, ou succumbir sendo victima d'ella, tendo sobre a campa o vergonhoso epitaphio--covardes! Povo de escravos!»
Nós cá não somos tão máus como o _patriota_ João Cancio e Romualdo--redactores da asneira; nós cá bradaremos aos pasquineiros e a quem lhe dá trella:--ó mandriões! agarrai na enchada e desbravai a terra! e quando ella vos der ouro, vinde então estabelecer o commercio a retalho brazileiro ao lado do commercio a retalho portuguez!...
Mas não ha gastar cera com tão ruins defuntos. Vamos ao que importa.
Na Bahia publica-se o _Alabama_ e o _Labaro Academico_.
A sua irmã _Tribuna_ expressa-se n'estes termos a respeito do _orgão_ dos estudantes da academia em S. Salvador:
«_Labaro Academico_».--Pelo paquete do sul entrado no dia 15 do corrente em nosso porto, recebemos o n.º 8 d'esse illustre periodico, redigido por abalisadas pennas.
«A illustre redacção do _Labaro Academico_ sobremodo nos penhorou, que não podemos deixar passar desapercebidas as phrases lisongeiras, que com profusão nos dirige, com as quaes illustramos as columnas do nosso periodico.
«Diz elle que _dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam_.
«Pois bem! Unamo-nos em um amplexo fraterno, e trabalhemos para o nosso _desideratum_, isto é, regeneremos o nosso paiz--a nossa liberdade.
«O _Labaro_ que trate de expellir o _primeiro_ de nossas ridentes plagas, emquanto nós nos esforçamos para exterminar completamente o _segundo_ da nossa sociedade, isto é, a colonia portugueza, esse cancro que corroe as nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que temos de mais caro--a familia.
«Seja o nosso grito o mesmo que o do bardo de Albion:--_Away, away!_
«Assim se expressa o _Labaro_ acerca da nossa _Tribuna_:
«A _Tribuna_ periodico popular que se publica em Belem, capital da provincia do Pará, assim se exprime a nosso respeito:
.........................................................................
«Agradecendo as palavras lisongeiras que nos dirigem os illustrados redactores da _Tribuna_, cumpre-nos dizer que como vós, nós tambem temos um _desideratum_ a realisar; é a regeneração do nosso paiz--a nossa liberdade.
«Dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam.
«Nós tratamos de expellir o primeiro das nossas ridentes plagas, procuramos quebrar as cadeias que jungem este colosso Americano ao poste da servidão e degradação a que nos tem arrastado a realeza.
«Vós procuraes arrancar da nossa sociedade um cancro que corroe as nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que temos do mais caro--a familia.
«Trabalhai, que o povo brazileiro vos abençôa e applaude, porque sois os defensores de seus direitos, e a posteridade registrará na historia os vossos nomes.
«Nós tambem trabalharemos sempre e sempre, e se pararmos extenuados pelo cansaço, outros tomarão o nosso logar. Away, away.»
No Rio de Janeiro, finalmente, o jornal a _Republica_, que fôra redigido por uma pleiada de escriptores celebres no Brazil, comprehendia os principios democraticos ataçalhando a colonia portugueza e oppondo-lhe a barreira de preconceitos mal entendidos, quando a sublime idéa manda derrubar as barreiras que ante si construiram os despotas das nacionalidades!
Não temos presente nenhum exemplar d'este periodico, mas a _Tribuna_ paraense, accusando a recepção, da _Republica_ assim se exprime a seu respeito, em 6 de janeiro de 1874:
«Já não estamos sós:--Pernambuco tem o _Commercio a Retalho_, e no Rio, a _Republica_ trata de despertar a attenção publica sobre o elemento portuguez tão numeroso e hostil á nacionalidade brazileira.»
A _Nação_, do Rio de Janeiro, jornal semi-official do _governo_ presidido pelo visconde do Rio Branco, álem de outros artiguinhos capciosos, publicou o seguinte, que o pasquim paraense transcreveu:
«_Guita! Guita!_... Segundo os diccionarios portuguezes significa esta palavra--_barbante cordelinho de linha_.--Os _gaiatos_ de Lisboa, porém, conhecem pelo nome de _guitas_--os soldados de policia. É esse o termo que se pretende hoje popularisar entre nós!
«E são esses estrangeiros (os portuguezes) os que procuram animar desordens, aconselhar o desrespeito á auctoridade, justificar quanto excesso e escandalo se pratica!
«O grande _Jornal do Commercio_ tambem toma parte n'essas brilhantes manifestações, embora com a manha que lhe é habitual. Deixa de fallar nos attentados dos seus queridos compatriotas, e vem dizer que os agentes de policia estão praticando excessos condemnaveis e promovendo desordens, quando toda esta cidade sabe que a prudencia da policia tem ido até á fraqueza.
«O que é certo é que os brazileiros que servem na guarda urbana têm sido aggredidos, insultados e espancados por estrangeiros turbulentos e sem educação; e o que é certo tambem é que esse estado de cousas não póde continuar.
«Estamos muito atrazados ainda, mas regeitamos a civilisação dos carroceiros do lixo.[56]
«Ah! se a centessima parte d'esses factos se desse em qualquer das provincias do norte, no Pará, por exemplo!...»
Agora vejamos quem são os taes _guitas_ do Rio, que a _Nação_ parecia defender.
Falla um correspondente da _Tribuna_, estabelecido na côrte do imperio:
«Amigos--não sei o que escrever, ou para melhor dizer, não ha novidades a não ser chuva, e muita chuva, que tem sido causa de graves e lamentaveis desgraças, mas sempre a _maldita e vil gentalha gallega_ aproveitando-se das desgraças alheias para o seu nefando fim--o roubo!
«Como verão das noticias que abaixo seguem extrahidas do _Jornal do Commercio_ e do _Diario do Rio_, um soldado de policia (seja dito de passagem que _dois terços dos soldados do corpo de policia d'esta triste e desgraçada côrte é gallegada_!!!) aproveitando-se da occasião em que fazia guarda á casa do conselheiro Menezes _guardou_ um relogio com corrente de ouro e um paliteiro de prata! Foi preso, encontrando-se-lhe o roubo!!»
Conclusão:
Se a policia era insultada pelos _estrangeiros carroceiros do lixo_, a _Nação_ tirava a desforra, defendendo os _seus_ compatriotas; mas se a policia roubava os relogios e os paliteiros de prata, o correspondente da _Tribuna_ dizia _de passagem_, que dois terços de soldados do corpo de policia era _gallegada_!
Isto não se commenta.
Assim, pois, ahi fica demonstrada a differença que existe entre os hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá.
[54] «Em remotas épocas foram aqui atrozmente insultados os portuguezes, por alguns jornaes, taes como (segue os nomes citados).» _Relatorio do consul do Maranhão_, de 7 de dezembro de 1874.
[55] Dos jornaes mencionados só existe hoje o _Publicador Maranhense_, jornal official do governo da provincia!
[56] Portuguezes ou _gallegos_, é claro!
CAPITULO VII
Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará. Uma boa recepção! As proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia Americana. Os officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do governo brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos excessos. Uma carta de além tumulo.
I
Para que seja fiel a historia dos tumultos no Pará, em 1874, e para que não haja quem venha negar factos consummados, é preciso dar noticia de alguns documentos que para ahi existem dispersos, e que desappareceriam se não fôra o nosso cuidado de esclarecer a verdade; dando logar o desapparecimento a que futuros historiadores, a titulo d'um patriotismo inconcebivel, desvirtuassem, com seus falsos raciocinios, os lamentaveis acontecimentos occorridos no ultimo semestre d'aquelle anno, n'uma das provincias mais ricas do imperio americano.
Quantos haverá ahi que nos censurarão o vasculharmos esses documentos, que, no entender dos optimistas deveriam ficar esquecidos, para salvaguardar conveniencias mercantís!
E deverá o homem digno esquecer a verdade, para attender a essas conveniencias?
Não, responderão aquelles que, como nós, só vêem no futuro o juiz imparcial de seus actos.
«Sabel-o-ia a historia, se os aios e confessores de principes e de reis, em vez de serem bonzos, fakires e derviches de um credo intolerante e sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das idéas, e das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do desenvolvimento da humanidade».[57]
É assim que o illustre escriptor que vimos de citar condemna os melindres dos optimistas systematicos; e nós somos da mesma opinião. Embora se diga que já não existem esses bonzos, fakires, e derviches, o que é certo, é que no referir da historia, ainda ha condescendencias improprias de historiadores imparciaes, e por consequencia d'esta época de liberdade, condescendencias que hão de concorrer poderosamente para que á historia do presente, que devera ser um edificio mais solido do que a historia do passado, faltem os alicerces que a tornariam indestructivel.
Se os receios de que se acercam os que se dizem auxiliares da historia do presente, que ha de ser coordenada no futuro, tivessem por base o temor dos principes e dos reis, escudados na força clerical, que n'outras épocas exercia o seu poderoso influxo, á força dos martyrios da polé, a que não poderam resistir os Galileos da sciencia; era até certo ponto razoavel a condescendencia filha do medo; mas que os receios tenham a sua origem nas contemplações inconfessaveis, isso é que é imperdoavel a quem faz a apologia da liberdade, que veio em auxilio da razão, sem a qual não póde ser escripta a verdadeira historia.
Concordando plenamente com o illustre litterato, que viemos de referir, é preciso provar tambem que não somos bonzos nem derviches do mercantilismo, que, como os reis e principes de antigas épocas, pertende, na actualidade, avassalar a razão.
Eis o que temos feito e continuaremos a fazer. Pena é que nem todos nos sigam o exemplo.
[57]_Os salões_ do sr. visconde de Ouguella.
II
Ás noticias atterradoras do Pará em outubro de 1874 que fizemos transmittir pelo telegrapho, responde o governo portuguez, mandando para as aguas do Tocantins, o aviso de guerra _Sagres_.
O governo brazileiro, tambem reforçava, com a canhoneira _Mearim_ e a corveta _Trajano_, a sua esquadrilha do norte.
A Allemanha mandava a corveta _Victoria_.
Vejamos como a _Tribuna_ recebe a _Sagres_, em seu numero de 17 de novembro, e quaes as calumnias que proclama sobre a sua guarnição.
Transcrevemos na integra a recepção por que ella déra causa ao conflicto entre um dignissimo official da nossa armada e a redacção do pasquim, conflicto que não deve ficar no escuro para bem da historia.
Falla o papel incendiario:
«Amanheceu ancorada em nosso porto no dia 11 do corrente, esta immunda esterqueira da marinha de guerra portugallega.
«No dia seguinte, ao da chegada os jornaes da nossa imprensa, que seguem o triste e desgraçado fadario de especular com a colonia portugallega, bajulando-a por todos os lados, davam essa noticia da forma seguinte:
«_O Liberal do Pará._
«_Corveta Sagres._--Amanheceu hontem ancorado em nosso porto este elegante vaso de guerra da marinha portugueza.
«_Diario do Gram-Pará._
«_Corveta Portugueza_:--Está desde ante-hontem á noite ancorada em nosso porto a corveta _Sagres_, da armada real portugueza. O gentil navio trouxe 19 dias de viagem de Lisboa, tocando em Cabo-Verde. Commmanda-o o sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva considerado pelos seus honrissimos precedentes como um ornamento de sua classe. A _Sagres_ arquêa 813 tonelladas, tem machina de vapor da força de 300 cavallos dynamicos, é armada com 4 canhões e tripulada por 138 praças.
Seja bemvinda ás aguas do Amazonas a gentil corveta.»
«_Diario de Belem_:
«_A corveta Sagres._--Esta corveta da marinha de guerra portugueza, amanheceu hontem fundeada em nosso porto. Trouxe de Lisboa por S. Vicente 13 dias de viagem.
«É do porte de 813 toneladas, da força de 300 cavallos, monta 6 peças e traz 138 praças de guarnição.
«É commandada pelo sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva, um dos ornamentos da marinha portugueza, e vem estacionar em nosso porto com o fim de proteger os seus compatriotas, aqui expostos ao furor de uma horda de canibaes.»
«Ora, será a colonia portugallega tão bruta, não haverá no meio d'ella, ao menos um portugallego, que tenha um pouco de senso, para vêr n'aquellas palavras a mais negra irrisão?