Portugal e Brazil: emigração e colonisação
Chapter 16
Mas antes de o profundarmos cumpre-nos declarar que se não publicámos, como prometteramos, o segundo livro annunciado no final das _Questões do Pará_, foi por que tendo nós pedido documentos que julgamos indispensaveis para fazer a historia d'aquella horrorosa tragedia, a um amigo nosso residente no Pará, e tendo elle accedido do melhor grado ao convite, o portador a quem os confiára, chegado que foi a Lisboa, entendeu dever exonerar-se do compromisso que voluntariamente se impozéra, ou, o que é mais extranhavel, subtrahio-os!
Ó heróico poeta, como tú conhecias o mundo quando assim pensavas:
Dizei-lhe que tambem dos portuguezes Alguns traidores houve algumas vezes.
Mas... prescindamos dos documentos e examinemos as considerações que aos referidos tumultos fez o auctor do livro o _Brazil_; e para que com conhecimento de causa sejam julgadas as nossas palavras, citaremos d'esse livro os trechos sobre que entendemos dever fazer alguns reparos.
Um jornal do Porto escrevera opportunamente a respeito das desordens do Pará:
«A colonia portugueza do Pará, é continuamente insultada por alguns jornaes d'aquella terra, insultos quasi sempre acompanhados de improperios soezes e estultos á nossa bandeira nacional, sem se lembrarem sequer, esses desgraçados! que foi á sombra d'ella que os seus avoengos viveram por tres seculos!»
O sr. Carvalho responde o seguinte no seu livro:
«Ao escriptor portuense confessamos que assistem razões muito ponderosas para se pronunciar por este modo. Peza-nos sómente, devéras o dizemos, que ao traçar tão bem cabidos reparos, _não carregasse um pouco mais a mão_...
E continúa logo:
«...... Ainda assim pedimos-lhe que nos conceda estendel-os tambem a uns certos hydrophobos de cá, que, ha tempos a esta parte, se deixam tomar da mania de vomitar doestos e calumnias contra o Brazil.»
O que é logico é que se o escriptor portuense seguisse o conselho do snr. Carvalho, de _carregar um pouco mais a mão_, como tantos jornalistas fizeram, quando appreciaram á luz d'este seculo os actos de selvageria praticados no Pará, não poderia deixar de ser cognomisado de hydrophobo!
O auctor do _Brazil_ assim desculpa os nossos insultadores:
«Este imperdoavel abuso da liberdade de imprensa no Brazil, explica até certo ponto a razão de ser dos seguintes pasquins--_O Alabama_, da Bahia--_O Commercio a retalho_ (digno sucessor do _Tribuno_), de Pernambuco--e _A Tribuna_, do Pará.
«Em Portugal, vá-se dizendo tambem para desconto de peccados, surgem a espaços no seio do jornalismo uns dignissimos émulos d'aquelles leprosos d'além-mar. Exemplos:--_O Raio_--_O trinta mil diabos_--_O chicote dos ladrões_, etc., etc.
«Lá e cá o publico sustenta-os e folga com elles. Esta a verdade, tal qual é.»
Não é isto exacto.
Resumamos os acontecimentos horrorosos de que tem sido alvo a colonia portugueza no imperio de Santa Cruz, e que tem dado justa causa a declarar-se a _hydrophobia_ na imprensa de Portugal.
Entre os hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá, ha, com effeito, muita differença.
Alguns brazileiros, não satisfeitos com os insultos que nos dirigem, lançam mão do punhal e do trabuco homicida, para satisfazer o odio de raça que os devora; os portuguezes, só depois dos insultos é que usam do direito de represalia, pedindo á imprensa o que lhes nega o governo brazileiro.
No que os brazileiros enchergam calumnias, não ha mais do que factos verdadeiros, que, por serem ás vezes tão extraordinarios, não parecem o que effectivamente são.
É preciso illucidar um pouco mais isto.
Houve exaltação da parte da imprensa portugueza, exaltação justificadissima, em face do espesinhamento do nosso pavilhão, por subditos brazileiros, n'uma das praças publicas da cidade do Pará, em principios de 1873. Essa exaltação recrudesceu quando as auctoridades brazileiras deixaram impune o acto vandalico dos desordeiros. Esta impunidade armava contra nós os paraenses. O seu jornal, a _Tribuna_, já não se contentava só com insultos, publicava proclamações incendiarias, chamando o povo ás armas contra os portuguezes residentes na provincia. Da cidade do Pará eram destacados para o sertão alguns agentes d'aquelle infame papel, para lerem aos _tapuyas_ o grito de guerra; outros dirigiam-se ás praias do Guajará, junto da cidade de Belem, aonde ha sempre grande movimento de _canoas_ vindas do interior, e alli, no meio dos tripulantes e dos passageiros, todos indigenas, eram lidos infamantes libellos contra os _marinheiros_ ou _gallegos_, epithetos com que em todo o imperio distinguem os filhos de Portugal! Estas doutrinas subversivas da ordem publica, apregoadas por espaço de dois annos consecutivos, á luz do dia e na presença das indifferentes auctoridades do Pará, produziram a explosão de setembro de 1874, que podia ter produzido resultados mais funestos, se não fôra a _Agencia Americana Telegraphica_, de que eramos representante na referida cidade. Com tudo, muitos portuguezes foram assassinados, e outros gravemente feridos, ignorando-se hoje ainda qual o verdadeiro numero das victimas. E note-se que tudo isto era devido á propaganda da _Tribuna_: eis em que davam os risos!
Em Pernambuco e no Ceará davam-se casos quasi identicos.[46]
Não podia a imprensa de Portugal deixar de occupar-se de um assumpto tão grave, invectivando as auctoridades brazileiras de conniventes nos attentados praticados contra os filhos d'uma nação que conservava com o Brazil as relações mais intimas; e dizemos conniventes porque á propaganda nada se oppoz.
Não satisfeitos os desordeiros com o sangue das victimas, que já tingira as terras brazileiras, não contentes porque ainda achavam que era pouco, começaram por insultar a guarnição da corveta _Sagres_, que n'este tempo largava ferro na bahia do Pará.
O nosso homem do mar, acostumado a ser bem recebido em todos os paizes do mundo, e illudido a respeito da colonia residente no Brazil, de quem se dizia «que o portuguez era insultado porque insultava»; pesaroso pelos proprios insultos, _que não podiam ser levados á conta de represalia_, procurou os insultadores, a quem infligiu o merecido castigo.
Novas proclamações incendiarias pozeram em sobresalto os habitantes do Pará.
Mais tres portuguezes caem feridos de morte, ás mãos dos _soldados_ assassinos do imperio de Santa Cruz.
Espalha-se o terror, em vista d'este facto assombroso, de serem os agentes da auctoridade publica os assassinos mais convictos, porque apoz o crime, iam declarar aos seus superiores, _que acabavam de prestar um serviço á patria assassinando gallegos_.[47]
E a _Tribuna_ continuava impunemente a incitar os animos á chacina!
Os destroços que ella faz são incalculaveis; do interior da provincia chegam á cidade noticias atterradoras.
O presidente da provincia, que por excepção á regra se condoeu da sorte dos colonos, não confiando na força publica, que elle bem sabia estar do lado dos desordeiros, pede providencias ao governo central, que nada attende!
O promotor publico, a quem o presidente recommenda a querella da _Tribuna_, nunca acha motivo para a processar; e os adeptos do pasquim, enthusiasmados pelo procedimento do seu patrono; vão em massa, na frente das musicas e deitando foguetes, agradecer-lhe _tão relevante_ serviço. Esta auctoridade que representa os sentimentos do governo central, porque jámais lhe retirára a sua confiança, ufana-se com a manifestação e vem á janella expressar os seus agradecimentos aos perturbadores da ordem publica!
Na mesma cidade e ao mesmo tempo que alguns de seus habitantes chegavam ao apogeu do delirio, ao grito de--_mata gallegos_--a colonia portugueza prepara-se para a catastrophe. Os mais fortes aguardam resolutos os desordeiros e os mais fracos refugiam-se nos barcos fundeados na bahia do Pará.
Um negociante recebe refugiados em casa, e intrincheira-se; outro, fecha o seu estabelecimento, sóbe com sua mulher e filhos para o pavimento superior da propria habitação, prepara o rastilho que havia de conduzir a uma barrica de polvora o incendio e logo a destruição de tudo que era seu--vidas e cabedal--, destruição que elle prefere á que a si e aos seus preparavam os communistas d'esta parte da America.
E o jornal infame continuava as suas proclamações.
Este terror é levado pelo telegrapho e pela imprensa a todos os cantos do mundo civilisado, e Portugal, a quem mais doía tanta desgraça, condemnou em phrases sentidas que nunca poderiam abonar a civilisação do Brazil, a repetição das scenas barbaras, que desde a noite de 6 de setembro até fins de novembro de 1874, faziam lembrar o sangrento dia de S. Bartholomeu, em França, ou os repetidos massacres antropophagos dos _botocudos_, contra as primitivas colonias do imperio americano.
Depois reunem os tribunaes brazileiros, para julgarem os crimes commettidos contra os portuguezes, residentes no Brazil. Esses tribunaes condemnam a penas irrisorias, que importam uma absolvição, os assassinos de nossos irmãos: mais uma razão para a imprensa portugueza se sentir da indifferença do governo brazileiro.
O tribunal que devia julgar os assassinos de Jurupary, em cuja causa se achava compromettida a honra do Brazil, não se constitue, porque os cidadãos independentes, note-se que não é a plébe, preferem pagar a multa de relaxado, a ser juizes n'uma causa em que infallivelmente deviam condemnar os seus compatriotas assassinos de estrangeiros inermes![48]
A imprensa portugueza vê isto, e não póde soffrer o impulso de firmar bem, ainda mais uma vez, a sua opinião, a respeito de tanta selvageria. Mas note-se que a tal _hidrophobia_ propagou-se a toda a imprensa de Portugal, sem excepção do _Trinta mil diabos_ e outros, o que não podia deixar de ser.
O governo do imperio não póde ser culpado de tantos desmandos, porque estava longe do theatro dos acontecimentos. Dizem-nos isto com toda a irrisão, e ainda mais:--Uma prova da sua innocencia, e de que reprova os actos vandalicos de alguns dos seus administrados, está no seu procedimento, expresso no seguinte telegramma do Rio de Janeiro, reproduzido no livro do sr. Augusto de Carvalho:
«O governo imperial accedeu, auctorisando-o, ao pedido de indemnisações pecuniarias, para as familias dos subditos portuguezes assassinados no Pará.
«O presidente da provincia procede com todo o rigor contra a _Tribuna_.»
Mas a imprensa de Portuga! continuou a fazer justissimas accusações ao governo do Brazil, porque as promettidas indemnisações pecuniarias não foram dadas, e porque a _Tribuna_, não obstante o _rigor_ com que segundo se dizia, tinha sido tratada, continuou por muito tempo o seu fadario infame.
Os hydrophobos de cá, na phrase do escriptor brazileiro, vomitam doestos e calumnias contra o Brazil, quando não pódem soffrer silenciosos tanta barbaridade.
Esses hydrophobos, especializados pelo sr. Carvalho, _O Raio_, o _Trinta mil Diabos_, o _Chicote dos Ladrões_, jornaes satyricos, de que ninguem faz caso, foram creados _unicamente_ para ridicularisar, e ás vezes infamar, as cousas portuguezas.
Mas o _Alabama_, da Bahia; O _Commercio a retalho_, de Pernambuco; e a _Tribuna_ do Pará, e tantos outros só foram creados para insultar a colonia portugueza residente no Brazil e chamar ás armas contra ella.
Não póde haver termo de comparação entre uns e outros pasquins.
Com os de cá, folga a nossa ralé; a gente séria condemna-os, e por isso a sua apparição é passageira e sem importancia.
Com os de lá, não acontece o mesmo; a ralé e até as pessoas mais gradas, crêem nas doutrinas subversivas que esses apostolos do mal apregôam.
A prova da importancia d'esses pasquins, está na duração d'elles, e ás vezes na proficiencia com que são elaborados os seus artigos principaes. Que o diga o presidente da provincia do Pará na sua proclamação.[49]
O _Alabama_, póde dizer-se que é o orgão da mocidade estudiosa que se demora na academia da Bahia!
A _Tribuna_ e o _Alabama_, calumniavam-nos ao mesmo tempo que diziam aos seus compatriotas, ser uma virtude civica matar um _marinheiro_!
A differença é muito grande.
Tambem se póde deprehender das palavras do sr. Carvalho, que os _hydrophobos_ de cá, são outros, que não os pasquineiros especialisados acima.
Se a invectiva se refere a nós declaramos terminantemente que a nossa _hydrophobia_ se declarou no meio do alarido das victimas que nós vimos cahir á acção do punhal e do trabuco dos assassinos revolucionados n'essa terra da promissão, e dos quaes nos livrámos, por mercê de Deus, sem desamparar nunca o nosso posto da honra.
Se a invectiva se refere a outros, por exemplo, ao auctor das _Farpas_, a unica publicação poupada pelo auctor do livro que analysamos, e a unica que mais tem rediculisado o imperio e as suas cousas, para que é que foi pedir ao auctor do folheto uma carta de recommendação para o seu livro?
[46] Veja-se a nota n.º 7 no fim do volume.
[47] Historico.
[48] Historico. Veja-se _Questões do Pará_.
[49] Veja-se _Questões do Pará_.
II
A stulticia de quererem defender os excessos dos pasquins brazilheiros e cumparal-os com os de cá não é só do auctor do livro o _Brazil_. Já a _Tribuna_ do Pará e outros jornaes brazileiros, desculpavam os seus injustos desforços d'uma fórma um pouco comica. O sr. Augusto de Carvalho não fez mais do que seguir-lhes as pisadas. Assim falla a _Tribuna_ do Pará:
«Não sabendo, não tendo mesmo com que dessimular o seu embaraço, despeito e confusão, enxergou na expressão--VIL PEDRO PRIMEIRO--(a _Tribuna_ chamava-lhe assim por ser portuguez!) com a qual acoudindo a uma justa represalia, fulminámos a _Tribuna_ de Lisboa,--_um attentado contra a familia imperial_, entretanto que não tem visto os insultos affrontosos, que todos os dias recebe o povo brazileiro na pessoa de D. Pedro II.
«O que disestes a Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, sobre as _Farpas_, etc.?»
É preciso que a verdade seja dita sem rebuço: as _Farpas_, é a publicação portugueza, que mais feriu os brios da nacionalidade brazileira, _na pessoa do seu imperador_; verdade seja que os que mais se queixavam, escreviam _vil Pedro primeiro_ ao pae do segundo imperador, e o que é sobre tudo mais irrisorio, os _imperialistas_ do _segundo_ e os calumninadores do _primeiro_ intitulavam-se _republicanos_!...
Mas republicanos ou imperialistas condemnaram a critica mordaz do auctor das _Farpas_: nós os ouvimos; rindo-nos do desgosto ridiculo de tal combáda que não se lembrava de certos papeis comicos representados em Coimbra, perante a universidade, e no Porto, em face dos esplendorosos festejos promovidos por seus hospitaleiros habitantes, a sua magestade o imperador.
E são por ventura isoladas as ironias innosentissimas dos criticos europeus, na passagem de sua magestade imperial pelos differentes estados da Europa?
Não. Nem os desgostos manifestados pelos brazileiros, nem as conveniencias puramente mercantis, tem actualmente podido influir no animo d'aquelles que veem em todos os movimentos do illustre imperador uns motivos para rir. E não somos só nós que assim pensamos; e para o que vejamos:
O jornal humoristico illustrado, de Milão, _Lo Spirito Folletto_, do dia 15 de março, de 1877, um dos mais importantes, no seu genero, em toda a Europa, traz a caricatura do imperador vestido de gibão, com uma penna atravessada na cinta que o singe, e á cabeça uma porção de alfarrabios. Atraz do illustre viajante vae um negro, empurrando um carrinho de mão, carregado de todos os emblemas das sciencias e das artes. Por baixo da caricatura está a seguinte inscripção:
«_Una volta un imperatore, per fare une ingresso in una cittá, «si faceva precedere» de una buona batteria di cannoni. Don Pedro invece «se fa seguire» dagli arnesi della scienza. Evviva dunque... il progresso._»
E mais adiante no _Spiritelli_!
«--Sapete perchè viaggia tanto all'estero l'imperatore del Brasile, abbandonando per mesi e mesi il suo trono?
«--Per fare propaganda repubblicana!
«--Oh bella!... Ma come, in che modo?
«--Provando come due e due fanno quattro, che dal momento che il Brasile sta in piedi durante le sue lunghe assenze, starebbe in piedi anche se d'imperatore non ce ne fosse. É vero, o no?»
Em outro numero apresenta o imperial viajante a dormir, n'um camarote do theatro da Scalla, ironia pungente ao facto de sua magestade se deixar adormecer como qualquer mortal, numa funcção de gala para que tinha sido convidado.
Tem d'estes espinhos a realeza. Ella não sabe que é preciso aturar tudo e todos, os festejos e aquelles que os fazem?
E não se diga que são insignificantes taes actos. Estas manifestações, dadas por um povo ao representante do outro povo, reflectem-se em um e outro; mas se esse representante é indifferente a essas manifestações de respeito, e os que as promovem se escandalisam do indifferentismo, louvae estes, porque tal desgoto representa ainda concideração ao povo representado pelo indifferente.
Na Italia usaram da satyra para fulminar a indifferença. Hade por isto revolucionar-se o povo brazileiro contra os colonos italianos residentes no imperio?
Não. A força da logica manda que no Brazil se _revolucionem_ contra sua magestade o imperador.
Não era, nem nunca foi intento nosso discutir o viajante imperial; mas desde que no Brazil se fazem revoluções contra portuguezes por motivo de sua magestade ser recebido em Portugal nas _palminhas das mãos_, não devemos deixar passar em claro a dupla offensa que o povo amigo e irmão nos faz.
Mas não fica ainda aqui a satyra. Da Italia passou á Inglaterra... com sua magestade imperial.
O _Punch_, de Londres, que não desejava ver abalados os seus creditos de ironico, descreveu assim uma digressão do senhor D. Pedro d'Alcantara:
«_Extractos de um diario imperial._--4. h. da manhã.--Muito zangado por ver que dormi de mais. Levantei-me, vesti-me á pressa, banhei-me na Serpentine, e fui dar um passeio ao Parque.--5 h.--Fui a Alexandra-Palace, e apanhei os empregados de sorpreza, apezar de lhe ter mandado dizer que havia de lá ir hoje. Zangado por ver que não tinham uma opera prompta.--6 h.--Tomei uma chavena de café, e fui ao Jardim Zoologico. Acordei os leões, montei a cavallo nos elephantes e assisti ao banho matinal dos hippopotamos. N. B. Ufanei-me de me ter anticipado a elles.--7 h.--Fui procurar o principe, e estive de cavaco ao lado da cama de sua alteza real. Depois fui á Polytechnica, e, como os empregados ainda não estavam a pé desci eu sózinho dentro do sino de mergulhador.--8 h.--Fui a Kew, e almocei com o dr. Hooker. Durante a nossa refeição um celebrado botanico teve a bondade de fazer uma leitura.--9 h.--Fui ao hospital de S. Thomaz, puz em polvorosa todos os enfermeiros, visitei o Museu etc. Não tive tempo de esperar uma allocução dos directores.--10h.--Fui á City, e vesitei a casa da camara, o Stock-Exchange, Billingsgate, e a Torre. Tive uma longa conversação com mr. Punch, _Fleet Street_, 85.--11 h.--Fui a Albert Hall e toquei orgão. Depois fui ao Museu de South-Kensington e assisti a leituras sobre desenho, cosinha, e trabalhos de agulha. Meio dia--Fui ao Palacio de Crystal, e vi os peixes. Em attenção aos meus variados compromissos, os directores mostraram-me os fogos de vista de dia.--1h.--da tarde. Fui a Orleans-Club, e subi o rio. 2h. Fui á moeda e vi o machinismo do correio--3 h.--Fui á camara dos pares e assisti a uma partida de _cricket_.--4 h.--Corri ao Aquario de Westminster. Um pouco fatigado, mas restaurei-me com um _lunch_ em Grosvenor Gallery.--5 h.--Depois de visitar a Real Academia assisti a um «chá das 5 horas» em Belgravia-South-Kensington.--6h.--Visitei a abbadia de Westminster, a cathedral de S. Paulo, e o oratorio de Brompton.--7 h.--Jantei no hotel, e tomei café em Battersea-Park--8 h.--Fui a Egyptian-Hall ver Zoè, e estive alguns minutos na camara dos communs.--9 h.--Vi o que pude de Convent-Garden, Lyceu, e Her-Magesty, e regalei-me com o artistico representar de m. Jefferson em Haymarket.--10 h.--Telegraphei inscripções aos meus ministros no Brazil, dancei uma quadrilha em Willis-Rooms, e recusou-se-me respeitosamente entrada no Beefsteack-Club, onde soube com muito pezar que não entravam estrangeiros.--11 h.--Ciei em Albion e depois fui a um baile em Carlton Gardens.--Meia noite--Procurei os srs. Gladstone, Tennyson e Thomaz Carlyle, e depois de gozar tres deleitosos cavacos, voltei para o hotel--1 h. da manhã--Escrevi umas poucas de cartas, li o _Times_, arranjei o meu despertador para as tres, e fui-me deitar.»[50]
A fina ironia das _Farpas_ não é superior á que deixámos transcripta.
Ponham os criticos de parte os preconceitos de nacionalidade, e hão de concordar comnosco.
Pois bem, em paga da hilaridade singella, que não importa desconsideração aos brazileiros, dizem os _hydrophobos de lá_, em resposta ás ironias dos inglezes, dos italianos e dos portuguezes.
«Vinde colonisar as nossas terras, ó inglezes civilisados e italianos, que vós sois mais uteis do que os portuguezes assassinos e ladrões!»
Ás finas ironias das _Farpas_, onde especialmente se distingue a mala inseparavel de D. Pedro de Alcantara respondem:--_O vosso rei é um bebado e um devasso!_ E querendo responsabilisar os colonos pelos escriptos de Ramalho Ortigão, escrevem:
«A emigração é um direito baseado na phylosophia, sustentado pelo progresso da humanidade.
«Sim, senhor, não vamos ao contrario d'esse principio eterno do desenvolvimento da arte e da sciencia, da civilisação por tanto.
«Mas não ha direito que não tenha por espelho o dever em seu fiel cumprimento.
«O emigrado suppõe a idéa de utilidades. É um axioma.
«O emigrado é um individuo, e como tal, para fazer valer seus direitos, corre-lhe a obrigação de não faltar aos seus deveres.
«Ora, desde que esquece estes perde aquelles.
«O direito suppõe a justiça, o dever suppõe a moral.
«Desprezada a moral pelo individuo temos um ente perdido e perigoso, que despreza da mesma forma a justiça por meio de um crime.
«Um criminoso não póde ser util a sociedade alguma.
«Assim, pois, o emigrado immoral e affeito ao crime é um individuo inutil.
«Isto posto, indaguemos qual a utilidade, que nos póde sobrevir da colonia portugueza.
«Estudemos pela theoria dos factos apoiados nos grandes mestres, a historia e o tempo.
«Em que consiste o merecimento do braço portuguez?
«Somos forçados a retirar os olhos cobrindo o rosto; pois o quadro que nos offerecem a lavoura, a arte e a industria de nossa terra, é o mais digno de lastima, por mercê da _actividade_ portugueza.
«Como causa, quaes os effeitos da intelligencia d'essa colonia?
«Entre nós, provavelmente, ás sciencias, á litteratura, ás bellas artes nada tem aproveitado; antes as letras, os verdadeiros talentos de nossa patria teem soffrido atroz violencia (_sic_), indigna opposição da parte d'ella.
«E quaes teem sido as provas da grandeza d'alma portugueza?
«As provas do sentimento, da moral, da virtude, da honestidade do cidadão portuguez temol-as de sobejo ainda que esqueçamos o quanto sabe ser elle ingrato; porque iremos encontral-o em toda a parte--como um ente dissoluto; em todas as situações--como um hypocrita; na mais infima á mais elevada posição--como um cynico perante a lei, diante de Deus um atheu e dos homens uma vibora.
«Não se presta o colono portuguez ás luctas da agricultura nem sua cabeça percebe o hymno que se entoa nas officinas, nos templos do trabalho honesto, porque fecha os olhos, cerra os ouvidos á voz da consciencia, aos gritos da virtude e aos arrojos da concepção humana.
«São portanto colonos estupidos, immoraes, por conseguinte inimigos do dever, que aberrando de um direito perdido aggridem a justiça e exaltam o--crime.
«Incontestavelmente é uma raça inutil.
«Por ventura nos póde convir uma colonia, que, em vez de alimentar, serve de tropeço ao desenvolvimento material de nosso vasto paiz».[51]
Nós não queremos discutir este amontoado de disparates, mas respondemos com o seguinte documento official aos taes _hydrophobos_ de lá que em nada se parecem com os de cá: