Portugal e Brazil: emigração e colonisação
Chapter 18
«Ora digam-nos agora, portugallegos, não será uma grande caçoada, uma negra irrisão, chamarem a vossa corveta _Sagres_:--_gentil_, _elegante_, _protectora etc._, _etc._?
«Safa! que ser-se cego assim já é demais, e fazer-se tanto assim dos outros tolos é abusar-se muito!
«Pobres portugallegos!
«Ficae certos, que nós somos vossos inimigos, havemos contra vós queimar até o ultimo cartucho, e derramar até a ultima pinga de sangue, porque nos fazeis todo o mal possivel; mas não vos illudimos, de vizeira alçada fallamos a linguagem da franqueza e do positivismo, não nos encobrimos com o manto infame da hypocrisia e falsidade sómente para vos sugar os cobres, como esses miseraveis especuladores do _Diario de Belem_, _Gram-Pará_ e _Liberal do Pará_.
«Ficae certos, que quando chegar a hora tremenda da revolução, estes vossos _amigos_ de hoje serão os vossos mais cruentos inimigos, para que elles não sejam victimas da indignação de seus proprios patricios. Elles, os vossos _amigos_ hão de querer rehabilitar-se perante o povo brazileiro, e para isso mais depressa que nós vos mandarão _cear com Belzebuth_!
«Esperem, esperem e verão como os factos e os tempos se encarregarão de corroborar estas nossas opiniões.
«Crêde-nos que, quando cahir entre nós o raio flammejante da revolução é para fazer uma unica e nobre divisão: de um lado--brazileiros, do outro lado--portugallegos.»
No mesmo numero, a proposito de um baile no _Cassino_:
«_Sympathicas leitoras._--Na carencia de divertimentos, festas e prazeres bateu-vos á porta a festa do glorioso prelado de Sebaste, S. Braz, o milagroso advogado das molestias da garganta.
«Bailes não houve... Alto lá, musa: olha que já me fizeste pregar uma mentira ás benignas leitoras!
«É verdade que eu bem podia vender este _peixinho_ ás minhas delicadas leitoras, porque eu não vi nenhuma nos salões do _Cassino_, mas em descargo de minha consciencia e respeito ás minhas caras leitoras, não quero, não posso, não devo mentir.
«Portanto, houve no sabbado baile no _Cassino_; baile, que os seus maiores _dilectantis_ esperavam ser de... _grande gala_, pois para isso foi convidada toda a officialidade da _Sagres_.
«Mas oh! bellas leitoras, grandissimo _fiasco_! Só vi alli meia duzia de moças e outro tanto de moços brazileiros que retiraram-se logo, onde entre elles veiu-se escorregando o vosso chronista, porque a _coisa_ não cheirava lá muito bem.
«Gostei, leitoras, gostei de não vos ver alli n'aquelles agallegados salões do _Cassino_.
«Pois não! Quem mais dignos de dançar comvosco se não os vossos patricios, creaturas de corpos leves e ageitados, limpos e aceiados?
«Haveis trocal-os pelos corpos dos portuguezes immundos, insupportaveis e pezados como um cêpo?
«Ora essa é o que faltava!
«Arranjem-se p'ra lá... como poderem, comtanto que as nossas amaveis leitoras não estão resolvidas a dançar um _fado_ em lugar d'uma polka, e aguentarem com esses alarves desenfreados.
«E depois de termos os brilhantes salões do _Club Militar_, o que irão fazer as queridas e patrioticas leitoras nos agallegados salões do _Cassino_?
«Quem é que troca ouro por couro?
«Gostei, leitoras, crêde-me que vós me enchestes as medidas, gostei de ver a prova de patriotismo que déstes não comparecendo no lusitano baile do _Cassino_. Os portuguezes quando vos pódem metter as botas não vos guardam deferencia--é bastante sêrdes brazileiras para elles vos calumniarem. Compenetrae-vos d'isto e procedei sempre como agora, que o vosso chronista agradecido e _cahido_ vos beijará respeitosamente as setinosas mãos.»
Este artigo é demasiadamente comico, para dever merecer os nossos reparos; comtudo acceitamos a prova de patriotismo das leitoras de _setinosas mãos_!
III
Agora venha a calumnia. Tem a palavra ainda a _Tribuna_:
«Hontem fôra apprehendida pelo patrão do escaller da alfandega, dous saccos com carne secca que segundo ouvimos dizer iam com destino á taberna do Pechincha (portuguez) ao largo das Mercês.
«Não teriam desembarcado da _Sagres_?»
Ainda mais:
«Como mudam os tempos! Outr'ora os ventos do largo nos traziam os aromas exquisitos, os perfumes inebriantes das flôres silvestres, d'essas ilhas virgens que nos demoram ao N.
«Hoje, trazem-nos o halito impestado d'essa gente portugallega, as emanações putridas e abafadas d'esse fóco de peste que se chama _Sagres_, os miasmas d'esse trapo bicolor impregnado de sangue africano e coberto de maldições horrendas!»
Mais:
«_Visita presidencial._--Sabbado pela uma hora da tarde, o ex.mo sr. presidente da provincia, acompanhado do chefe do mar, inspector do arsenal de marinha, chefe de policia, guarda-mór da alfandega e o consul portuguez, foi fazer uma visita ao chaveco _Xagres_, ora ancorado em nosso porto, estupidamente appellidado de _crubêta_ pelos estupidos portuguezes. Não sabemos porque não lhe chamam _náo_.
«Ao atracar o escaller em que ia o presidente, o commandante da alambasada maruja deu signal a esta que subisse ás _biergas_, e logo, á guisa de preguiça quando se arrasta por algum cipó, eil-os se agarrando pelas enxarcias, meia duzia de gallegos sabujos, que são os de que se compõem _a crubêta belha e remendada_.
«Logo que chegaram ás _gabias_, começaram a dar _bibas_ ao _pabilhão auri-berde_, ao _imperadore_ do _Vrasile_ e não sabemos que mais...
«D'est'arte fizeram uma parodia burlesca e mais ridicula do que as outras nações, em caso identico, costumam fazer.
«Ao retirar-se o presidente, como é estyllo em taes circumstancias, salvaram o castello e a canhoneira _Mearim_, ficando (oh! vergonha das vergonhas!) recolhida ao profundo silencio a _crubêta Xagres_, por achar-se impossibilitada...[58]
«Que fiasco, portuguezes!
«Comquanto tivessemos Portugal como a nação mais miseravel da Europa, não lhe dispensando a minima importancia, todavia não tinhamos ainda formado uma idéa tão exacta da sua impotencia e nullidade na ordem das cousas.»
[58] Não salvou porque o regulamento não manda salvar quando hajam só quatro boccas de fogo.--A _Mearim_ não salvou pela mesma razão.
IV
O artigo que vamos transcrever deu causa ao conflicto do dia 21 de novembro de 1874:
«Apesar do desapontamento da colonia portugueza, que esperava um navio de guerra de primeira classe para metter-nos medo, em vez da falua _Sagres_, que só tem servido para ridiculos, consta-nos que o commercio já nomeou uma commissão, afim de promoverem uma subscripção para os bailes que pretendem dar no salão do _Albino_, ao largo da Trindade, e no _Hotel Central_, á estrada de Nazareth.
«Tiveram a honra da nomeação para a commissão os honrados negociantes José Solambada, Joaquim Gallinheiro, Bento de La-Rocque, Alivio Ladrão, José Coelho, (o balão) e Manuel dos Tomates, com os quaes nos congratulamos á vista de tão acertada escolha.
«Medeiros Branco, Frias e o _compadre_ Antonio Muchila foram encarregados para fazerem as poesias analogas ao acto, nas quaes cantarão as _Glorias de Alcacer Quibir_ e as do _Rei chegou_, depois do que o _Club Philarmonico_ tocará a _caninha bierde_.
«Ai! que folia! que pagode!
«_Sagres_, é o gentil buque-luso com quatro canhões, dois por banda, montados em rodisios de cana da India, fundeada em nosso porto, hasteando galhardamente _el pavilhon_ das _gloriosas quinas portuguezas_, tendo attrahido á flôr d'agua até os _bacus_, _tralhôtos_ e _candirus_ para a admirarem! Caramba!
«Os canhões são tão grandes como aquelles que os argentinos mandaram fundir, os quaes não cabendo nos seus arsenaes, tiveram de metter os arsenaes dentro dos canhões! Pumpum!
«Veiu a bordo da _Sagres gentil_, um grosso tonel de azeitonas arvorado em _mestre_, assemelhando-se muito pela figura grutesca a um d'esses patrões de falua do Tejo.
«Quem sabe se não mandaram esse _loup de mer_ para cá com o unico fim de amedrontar-nos com sua figura obesa e ratona?
«Portugal tem garbo em presentear-nos com _salchichões_ d'esses!
«Pedimos ao sr. Furman que não se esqueça de phothographar essa raridade, pois todas as vezes que vem á terra faz a população morrer de riso.
«Os janotas de pince-nez la _del buque_ com effeito nada arranjarão aqui, porque já são mortos Villarés e Chicos Ruivos... restando apenas o Caleijão.[59]
«Consta-nos mais que a guarnição tem-se agradado tanto da terra, que toda ella quer desertar para aqui reforçar o trafico das carroças e pipas d'agua» etc.
Isto e muito mais foi publicado no n.º 259 da _Tribuna_, já referido; mas esta ultima parte dos insultos á guarnição da corveta, e especialmente aos _janotas de pince-nez_, os segundos tenentes da armada real, Carlos Krusse e Marques Costa, deu aso aos novos tumultos do dia 21 que ainda a moderação mais evangelica não poderia evitar.
Carlos Krusse, explica assim as novas occorrencias, em uma carta enviada do Pará á _Democracia_ de Lisboa com a data de 28 de novembro de 1874:
«_Sr. redactor._--Depois de commigo se haver dado um caso, que os jornaes da localidade occultam, e que o papel _Tribuna_ procura deturpar, não ficarei silencioso á partida de noticias para ahi. Devo aos portuguezes a narração verdadeira do facto commigo dado. Para os da nossa colonia do Pará é trabalho inutil expôr o que todos elles sabem. Para Portugal são precisas algumas palavras.
«Li um artigo que, com a epigraphe _Projectos de baile em honra del buque Sagres_, vem publicado no jornal a _Tribuna_ de 17 de novembro do corrente, e vendo o periodo--Os janotas de pince-nez--procurei no escriptorio da redacção um tal homem, ou cousa que o valha, que se responsabilisa pela folha.
«Mandou-me entrar esta repugnante creatura, e depois de lhe pedir com a maior prudencia o ultimo numero do jornal que publicou (o que me queria offerecer, e que, não acceitando, paguei por 800 réis) mostrei-lhe o artigo que ambiguamente me podia dizer respeito.
«Leu, e ao terminar, pedi-lhe me declarasse se era de mim que tratava, para lhe exigir prompta satisfação. Declarou-me terminantemente por duas vezes, (tantas por mim exigidas) defronte dos seus empregados, que nada comigo tinha relação, e que mesmo a palavra _mestre_, no artigo empregada, se não referia a official algum da corveta, mas sim a alguem da prôa.
«Agora este ente repugnante, vergonha da classe militar (ex-capitão paraguayo) e dos homens de bem, quer, em seus covardes escriptos, mascarar de prudencia o que n'elle foi falta de coragem, para sustentar o que havia escripto e desafrontar-se, quando pouco depois de eu ter entrado na redacção, justifiquei a minha tardança em ali ir, na falta de leitura d'um papel, que lhe disse ter «por unico programma a calumnia e a infamia, contra um povo, contra uma nação de que supponho não conhece a posição geographica».
«A colera reprimida d'essa abjecta creatura obrigou-a a mentir perante o presidente da provincia, queixando-se de que eu lhe havia assaltado a casa!
«Um unico homem, não manejando arma alguma, usando de todo o cavalheirismo, assalta a espelunca de um negro, dentro da qual estão mais cinco ou seis?
«Isto faria rir, se não provocasse dó.
«Na occasião em que procurei esta cousa de fórma humana, este menino da _Tribuna_, confesso-lhe sr. redactor, que imaginei que ao encontrar um testa de ferro acharia tambem n'elle os brios de homem.
«Reconheço hoje que tratei com um garoto de praça publica, que nos faz caretas ao voltarmos-lhe as costas, e a quem devolvo os epithetos, calumnias e infamias, que me dirigiu e que ahi leram.
«Que precisaria um homem que declara agora uma coisa, e que logo publica um pasquim negando os factos passados na sua officina, presenceado pelos «seus dignos empregados e ouvidos pelos muitos grupos que fóra escutavam e que na minha saída vi?»
«Poder-se-ha usar com homem de tal caracter os meios empregados entre cavalheiros, entre homens de bem?
«Não.--Disse-m'o uma grande parte da colonia portugueza aqui, aconselharam-me todos os meus camaradas.
«Que resta? O desprezo, a entrega de tal procedimento á apreciação do publico e o desforço que se toma para com um garoto quando o acaso depare occasião.
«Não responderei mais, como fazem todos os officiaes da _Sagres_, ao que diga de futuro a tal _Tribuna_, e só peço com fervor a chegada de uma occasião propria para o ultimo e unico desforço.
«Convença-se Portugal, de uma vez para sempre, que o seu apreciado Revalescière _Prudencia!_ não serve, quando os acontecimentos chegaram a tomar o corpo que attingiram os do Pará.
«Uma satisfação das affrontas dirigidas ao soberano e á nação, exigida, se preciso fôr, com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de Janeiro, affigura-se-me ser a ultima, mas necessaria solução!
«Desculpe, sr. redactor, o apressado d'estas linhas, que teem tanto de mal escriptas quanto de verdadeiras, e creia no respeito que merece a quem é--De v. etc. _C. Krusse_.»
Marcelino Nery que se humilhára perante o bravo official, levantou a caricata grimpa pela seguinte forma, n'um avulso--_Boletim da Tribuna_, quando o portuguez digno lhe dera as costas como a vil sicario:
AOS BRAZILEIROS
«Acabamos de soffrer a mais revoltante affronta, que não foi, como devera ser, punida para não darmos logar a que ignobeis detractores da honra nacional cuspissem infamias cruelissimas á face d'este povo nobre e heroe na paciencia com que tolera os ultrages da colonia portugueza.
«Povo paraense! Ao meio dia de hoje foi a nossa officina invadida por um individuo, cujo nome, occupação e qualidade não indagamos, nem desejamos saber e que cheio da mais sôez prosapia e pela forma porque achava-se ajaezado, disse e acreditamos ser official da carveta _Sagres_.
«Armado sem duvida e no firme proposito de pôr em pratica um crime hediondo, e na louca persuasão de pratical-o e ficar impune, esse individuo, depois de invadir a nossa officina e encontrar da parte de seu proprietario um cavalheirismo a toda a prova, recuou de sua tentativa e tomou o expediente de proromper, n'uma grita crapulosa, em insultos e injurias contra a honra nacional, contra os brios paraenses, a ver, se arrastando ao extremo da indignação ao capitão Nery, o provocava a um desforço legal que desse-lhe brecha a converter-se de bebado em audacioso malfeitor.
«Foi preciso que o capitão Nery se revestisse da maior prudencia e em termos habeis repellir de dentro de sua propriedade um insolentissimo e arrojado lacaio com fumaças de nobre... que procurava ser castigado a vergalho, se por ventura em outro paiz se desse semelhante affronta.
«Saibam os portuguezes e o mundo inteiro--que se não fossemos generosos, se não tivessemos nobresa de alma, se fossemos selvagens, o infame deixaria os miolos ao estampido do revolwer sobre o chão que pisamos: só a tiro se poderia castigar a selvageria de um javardo agaloado, que teve a suprema audacia de invadir a nossa officina.
«Ninguem dirá que, dentro d'ella um bandido ou bebado pagou com a existencia atrevimentos escarrados em nosssa honra e patria.
«O facto, que expomos, foi levado ao conhecimento do ex.mo sr. presidente da provincia, que prometteu immediatas e energicas providencias com que contamos.
«_Percheiro_ que transmitta esta noticia invertendo a acção e os actores.»
A consciencia dizia-lhe que no _boletim_ deturpára a verdade dos factos; por isso nos impunha aquella especie de ameaça, para que os não illucidacemos em nossas partes telegraphicas, o que já mais elle ou qualquer _tribuno_ façanhudo conseguiriam.
[59] Sodomitas.
V
Por isso e por obrigação do nosso cargo fizemos passar para o sul as seguintes partes telegraphicas:
«(21-11-74) _Tribuna_ violentissima contra guarnição corveta; official mais offendido pedio satisfação á redacção. Opinião publica reclama termo estado cousas póde ter graves resultados.»
Antes de proseguirmos vamos dar uma explicação:
O official da Sagres só pedio satisfação quatro dias depois, por que só então lhe constára o insulto. E se não demos parte, no dia 7, da linguagem indecente da _Tribuna_, era por que nunca faziamos caso d'ella, mas se n'este momento a destinguimos foi pela necessidade que tinhamos de noticiar os acontecimentos gravissimos que se annunciavam.
Aquelle telegramma passou pelo cabo ás 2 h. da tarde, pouco mais ou menos. Marcelino Nery, fôra-se queixar ao presidente, da supposta affronta do official portuguez; e como aquella auctoridade o recebera indifferentemente, o capitão paraguayo, para amedrontar o presidente e a população fez publicar o tal boletim que reproduzimos, ao anoitecer d'esse mesmo dia.
Eis o telegramma em que davamos parte d'esta publicação:
«(21-11-74) _Tribuna_ publica boletim aos brazileiros contra official fôra pedir satisfação. Reina panico.»
«(22-11-74) Mercado falta dinheiro. Espere serviço.»
No dia 22 de tarde, á hora a que expediamos esta parte, dizia-se que os _tribunos_ fariam reunião na praça de D. Pedro II. Foi este boato que deu aso áquella prevenção, para sul, de--_espere serviço_; e a prova eil-a:
«(23-11-74) Constava _tribunos_ fariam _meeting_. Chuva continuada evitaria? Policia estava a postos.»
A chuva foi torrencial durante toda a noite; não obstante, nós e a policia estavamos a postos.
VI
Foi no dia 21 de novembro que o presidente Azevedo expedira para o seu governo o importantissimo telegramma que mencionámos a paginas 7 das _Questões do Pará_, dia em que egualmente fôra expedida para Londres a não menos importante parte, que egualmente transcrevemos no referido livro a pag. 10.
Mas não ficou aqui a questão. Ainda fizemos expedir mais telegrammas, que, julgamos indespensavel transcrever aqui.
E se os não publicámos ha mais tempo, foi porque esperavamos fazer sahir á luz um outro livro, que não publicámos, por que como já dissemos, nos subtrairam a collecção de todos os jornaes que se publicaram no Pará, no ultimo semestre de 1874, em cujos artigos, de origem brazileira, escudariamos as nossas proposições; collecção que pode ser examinada a todo o tempo por escriptores brazileiros, que mais tarde pretendam escrever a historia dos tumultos do Pará n'aquelle anno.
Mas vamos á historia dos telegrammas.
Os espiritos conservavam-se agitados, especialmente, desde o dia 21 de novembro.
Esperavam-se, a toda a hora, providencias do governo central, com respeito ao telegramma do presidente. Até que afinal, o governo deu um ar da sua graça, declarando ao seu representante no Pará, que _procedesse dentro dos limites da lei_!
Os _tribunos_ que até alli tinham zombado de tudo e de todos, continuaram a zombar, não só da lei, como da decisão do governo, cuja noticia correra logo de bocca em bocca, não obstante a tal decisão ser _secreta_ como _secreto_ tinha sido o telegramma do dia 21 de novembro, que nós devassamos!
Quem padecia mais com as indicisões do governo central era o commercio; por isso expedimos, no dia 25, a seguinte parte telegraphica, resultado das repetidas conferencias que tivemos com seus representantes:
«Bancos restringiram operações. _Tribuna_ sahida hoje mesma linguagem.»
A _Tribuna_ não podia deixar de se mostrar fanfarona, á vista dos medos do governo.
O presidente, não podendo fazer cousa alguma _dentro dos limites da lei_, foi para o jornal official proclamar ao povo contra os excessos da _Tribuna_ e seus apaniguados.
Compare-se esse documento publicado nas _Questões do Pará_, com o extracto que d'elle fizemos em nosso despacho telegraphico expedido para o sul em 26 de novembro, e ver-se-ha que a consciencia e não o _espirito de nacionalidade_, presidira sempre aos nossos actos de agente fiel da companhia Americana.
É este o despacho:
«_Jornal Official_ diz chegou occasião lamentar estado provincia que retrograda gigantescamente. Japão civilisa-se, Pará passa terra selvagens. Ideias tríbunicias defendidas por influencias. Edificações paralisadas, decrescimento rendas, commercio desanimado, telegrammas para Europa suspendendo pedidos. _Tribuna_ cessaria publicação, mas agenciaram subscripções; emissarios foram intimar publicação. Conclue--governo disposto manter tranquilidade. Não tolera empregados devem ser ordem, estejam collocados á testa movimentos tribunicios. Fez sensação artigo. Reuniões influentes casa _Tribuna_.»
Por aqui póde vêr o sr. Augusto de Carvalho e os seus dignos correligionarios optimistas, que com a propaganda da _Tribuna_ do Pará, não riam nem folgavam os leitores, como riem e folgam com a leitura dos nossos jornaes burlescos.
Em 27 de novembro ainda não tinham socegado os espiritos. A prova d'isso está nos telegrammas do presidente do Pará, publicados na folha official do Rio de Janeiro, e que já transcrevemos em outro logar.[60]
[60] Veja-se o opusculo _Coisas Brazileiras_.
VII
Já viram os leitores, que, comnosco estavam interessados na questão: o presidente, os jornaes de todos os partidos, exceptuando a _Constituição_ e a _Tribuna_, o corpo commercial e por ultimo, os officiaes da _Sagres_, que expediram pela agencia americana para o _Diario Popular_, o seguinte telegramma que não chegou ao seu destino, e para cuja publicação estamos auctorisado:
«(27-11-74.) _Diario Popular._--Lisboa. _Tribuna_ insolentissima. Officiaes _Sagres_ prohibidos ir terra. Humilhantissima posição. Providencias immediatas.--_Maia._»
O seguinte despacho fôra expedido por nós em 28 de novembro:
«_Constituição_ responde ao _Jornal Official_, refutando. Opina publicação _Tribuna_, mudando linguagem. _Gran-Pará_ acompanha _Jornal Official_.»
E, effectivamcnte, a _Tribuna_ acceitou os conselhos da _Constituição_!...
Eis como o deputado, Wilkens de Mattos, esclarece a questão, no _Diario de Belem_ de 2 d'agosto de 1874.
E preferimos esta á nossa opinião, porque em summa...somos portuguez!
Falle o sr. Mattos:
«O estylo é o homem, e os artigos da _Constituição_ photographam fielmente a indole de seus redactores.
«Provocado por ella de um modo improprio de cavalheiros, insultado em uma linguagem que só se depara nos vocabularios dos homens da mais infeliz camada da sociedade, corri á imprensa para lançar de sobre mim a responsabilidade que a _Constituição_ me emprestava, e para externar minha opinião a respeito da questão, que tanto tem agitado e prejudicado a sociedade paraense, e levantado grande celeuma contra nós no extrangeiro. Era um dever imprescindivel, a quem, como eu, presa sua terra natal, respeita a opinião publica e quer manter um caracter illibado; mas a _Constituição_ por motivos que me são estranhos, surprehendeu-me mais uma vez com a sua linguagem, que me furto ao desprazer de qualificar. Ninguem, que não esteja dominado de um odio brutal e de prevenções irracionaes, deixará de lastimar a linguaguem de que, a meu respeito, fez uso o jornal, que se diz orgão do partido conservador d'esta provincia, jornal que foi creado tambem para regenerar a imprensa paraense, cuja linguagem, classificada de polluta, elle tanto censurou e condemnou no começo de sua estrêa.
«A _Constituição_ pensou que me abateria e me faria recolher ao silencio, ou provocaria de minha parte represalias na mesma phraseologia com que me aggredio. Enganou-se. Os seus insultos servirão para provar contra ella, que não occulta o seu rancor, o seu espirito abocanhador sempre que tem de derigir-se a quem _ousa_ decahir de suas graças.
«A _Constituição_ mente assim ao seu programma, compromette o seu presente e cava a ruina de seu futuro.
«Devia ella manter-se em terreno decente, usar de linguagem intelligente e circumspecta, propria de cavalheiros, ainda mesmo combatendo seus adversarios politicos, ou aquelles que, sendo conservadores, não concordam com a sua politica. Se a _Constituição_ não respeita as opiniões de seus adversarios ou divergentes, se ella não a procura vencer por meio da intelligencia, empregando a linguagem comedida e decente, como quer ser tratada e considerada?
«Não pense que o insulto lhe dará nunca ganho de causa. Esse meio é reprovado nas sociedades cultas, e só lhe pode attrahir o despreso.